Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 52 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 51

 

2 DE MAIO

Santa Ardie, era como Tony a chamava. Não era um elogio.

Ardie chegou ao complexo residencial onde Rosalita morava e desligou o

carro. Mergulhou na escuridão e, no mesmo momento, ficou em alerta máximo.

Enfiou a ponta de uma chave entre dois dedos, uma tática de autodefesa sobre a

qual tinha lido em um e-mail repassado numa corrente para dezenas de e-mails

que ela não reconhecia. Era o tipo de conselho sem fundamento que ela seguia

porque parecia ligeiramente útil e desproporcionalmente empoderado. Avaliou

pelo para-brisa a distância entre o carro e o apartamento de Rosalita.

Era impossível precisar quando aquele temor instintivo e imediato por nossa

segurança tinha se instalado, a necessidade de olhar para trás ao atravessar um

estacionamento vazio, de verificar embaixo do carro, de se inquietar quando um

homem estranho se aproximava pelas nossas costas, de nos assustar quando ele

nos parava para perguntar as horas. A percepção de que esse medo era particular

a nós veio depois, a percepção de que, diferentemente dos meninos com quem

brincávamos em ruas sem saída quando éramos pequenas, jamais superaríamos

as historinhas da infância que serviam de lição. Sempre haveria estranhos nos

oferecendo doces.

Ardie olhou para os lados ao sair do carro e subir as escadas de metal pela

qual Rosalita e Salomon passavam todos os dias.

Ela bateu na porta, e Rosalita atendeu com uma pilha de papéis e uma folha de

instruções, além de uma expressão preocupada que lhe dava um aspecto mais

envelhecido. Ardie tinha apenas uma vaga noção da idade de Rosalita.

Um sofá surrado ocupava a maior parte da sala de estar com piso frio. O sofá

ficava muito próximo de um televisor de que Ardie e Tony teriam se livrado dez

anos antes porque parecia “ultrapassado”. Salomon acenou do sofá. Era tarde,

mas ele ainda não tinha vestido o pijama e ainda usava seu boné favorito — um

boné azul do Mavericks com a aba verde e o desenho de um chapéu de caubói

enganchado no “M” do logotipo. Era grande demais para a cabeça do menino, que precisava erguer o queixo de leve para ver TV.

Ele levantou a mão e os dois trocaram um high-five.

— Errei três questões de matemática — disse ele, mas estava sorrindo. — Mas

não as frações.

— É só isso que eu vou ganhar? Não vejo você desde a grande notícia. Tem

certeza de que não tem outra coisa para me dizer?

Ele enfiou os dedos nas bochechas e olhou para ela.

— Eu consegui.

— Claro que conseguiu.

Ardie sentiu uma ternura dolorida ao constatar que Salomon não precisaria

mais de sua ajuda para estudar. Ele era um garoto doce e tranquilo, com um

rosto redondo e um amor praticamente insaciável por livros ilustrados como

Diário de um banana e Robô selvagem. Ela havia pedido a ele que fizesse uma

lista dos seus favoritos, para que pudesse compartilhar com Michael quando ele

ficasse mais velho, e Salomon levou a tarefa tão a sério que lhe entregou duas

páginas de recomendações, organizadas em colunas. Ela as guardava em sua

mesa de cabeceira.

Rosalita estava fazendo ruídos de impaciência, e Ardie tirou a mão do boné do

menino.

— Está vendo? — Rosalita levou Ardie para a cozinha, onde havia uma

luminária de ferro barata pendurada acima da mesa, as tulipas de cerâmica

difundindo a luz das lâmpadas. Papéis e envelopes rasgados cobriam o tampo da

mesa. — Não entendo. — Rosalita folheou os papéis. — Não entendo o que eles

querem de mim. Não tenho como pagar. O que mais eles precisam saber? O

Salomon tem que ir para a escola. Não tenho como pagar.

A frustração engolia Rosalita enquanto Ardie avaliava a tarefa diante delas.

Ela imaginava que a irritação de Rosalita fosse mais ou menos igual à que sentia

quando tentava montar os móveis da IKEA.

— Certo. — Ardie examinou a folha de instruções, que descrevia o que

precisava ser incluído nos espaços numerados. — Vamos resolver isso. Sem

problema. Vamos resolver. — Ela virou o formulário, roendo a unha do polegar

para se concentrar. — Vamos precisar da sua declaração de imposto de renda, do

seu informe de rendimentos, alguns outros formulários da Receita Federal e os

contracheques mais recentes. Você tem esses documentos?

As mãos de Rosalita tremiam enquanto ela vasculhava os papéis espalhados

em cima da mesa.

Ardie colocou as mãos abertas sobre o tampo, inclinando-se.

— Não se preocupe. Eu vou encontrar.

Salomon tinha começado a jogar uma bola para o alto e pegá-la, jogar e pegar,

e Ardie percebeu que isso também estava irritando Rosalita.

— Que tal se você preparar uma xícara de chá para nós? Ou café? — sugeriu

Ardie.

Rosalita alisou o cabelo que tinha grudado em suas têmporas.

— Vou fazer os dois.

Livre para vasculhar os papéis, Ardie começou a procurar os formulários

corretos. Ela empilhou na mesa os documentos realmente necessários.

Queria dizer a Rosalita que não importava quantos anos de educação formal a

pessoa tivesse, todos se sentiam como idiotas quando se tratava de preencher

formulários emitidos pelo governo. Mas não havia como dizer isso sem soar

condescendente, então Ardie se acomodou em uma cadeira de madeira nada

confortável e começou a preencher as informações necessárias nos minúsculos

quadrados fornecidos.

— Qual é o nome do pai do Salomon? — perguntou ela por cima do ombro.

— Ele não tem pai.

Ardie se virou na cadeira.

— É importante que as informações sejam precisas — disse o mais

gentilmente possível, dada a impossibilidade biológica daquilo.

Rosalita olhou para o filho, que estava jogando a bola com menos frequência e

fazendo uma tentativa óbvia de escutar a conversa delas.

— Vá lá ver seu filme, Salomon — ordenou Rosalita, com as mãos nos

quadris.

Ardie não se deixava intimidar facilmente, mas se fosse criança, também teria

ouvido. Salomon obedeceu à mãe com uma prontidão que Michael, seu reizinho

distraído, ainda tinha que aprender, e foi se sentar no sofá. A TV vociferava.

Rosalita colocou uma chaleira no fogão elétrico.

— O pai do Salomon morreu — disse ela, baixinho.

— Ah, sinto muito. Não fazia ideia.

Rosalita revirou os olhos.

— Salomon não chegou a conhecer o pai. Mas pensei… Pensei que talvez ele

pudesse pagar a escola. Às vezes ele ajudava quando eu pedia. Aqui e ali. Não

muito. Mas…

Ela deu de ombros.

Ardie voltou a examinar os formulários.

— Há um espaço para os casos em que o pai já faleceu, mas parece que ainda assim é preciso colocar um nome. — Ardie tinha tirado os sapatos de salto

debaixo da mesa.

Rosalita franziu a testa e pegou um pano de prato.

— O nome dele não está na certidão de nascimento. Ele não deixou nem um

centavo para o Salomon. Por que tenho que colocar o nome dele no formulário?

Ardie ergueu a mão, sentindo o obstáculo à frente.

— Está bem, está bem. Não tem problema. Vamos deixar em branco e torcer

para dar tudo certo.

Ela vasculhava a papelada referente à vida de outra pessoa e tentava colocar

tudo em ordem. Pegou os contracheques e arrumou os três últimos em ordem

cronológica. Leu os valores listados no pequeno retângulo branco à direita. Então

releu.

— Rosalita. — Ela acenou sem se virar. — Seu contracheque mais recente é de

menos da metade do valor que você recebia antes. Olhe aqui.

Ardie colocou o dedo abaixo do número.

— Não, é isso mesmo.

Ardie virou o contracheque para trás e para a frente.

— Por que seu salário diminuiu tanto? — Ela inclinou a cabeça, intrigada. —

Eles reduziram suas horas? Isso é o que você vai ganhar daqui em diante ou o

que estava ganhando antes?

— O que vou ganhar no futuro, acho. Está tudo bem — disse Rosalita de

novo, rapidamente, depois se voltou para a chaleira, que começava a assobiar.

— Não. — Ardie mordeu a tampa da caneta e se levantou. — Isso deve ser um

erro. É uma discrepância muito grande. Vou falar com o pessoal da

contabilidade, ou com o RH. Isso é ridículo.

— Não. Está tudo bem. — Rosalita pendurou o pano de prato no ombro e

pegou uma caneca branca na parte de cima do armário. — Esse é o valor correto.

— Rosalita, isso é sério. Você não pode viver com…

Rosalita colocou a caneca vazia de volta na bancada.

— Você é rica. Não sabe com quanto eu posso viver. Você não tem ideia.

Salomon, para com essa bola dentro de casa! — berrou ela.

— Eu não quis… — Ardie tirou as mãos da mesa em sinal de rendição, depois

se virou na cadeira para encarar Rosalita. — Não foi minha intenção. — Ela

afundou de volta. — Teremos mais em comum do que você imagina depois de

amanhã. Rica? Nem pensar.

Ela deu um sorriso fraco.

Rosalita riu, um pouco antipática, pensou Ardie, mas tudo bem, ela entendia o porquê. Ardie tinha um diploma de direito e bens.

Ela pegou os biscoitos, agora quebrados em sua bolsa, e os colocou em cima

da mesa para compartilhar com Rosalita, que a princípio não pegou nenhum.

— Você sabia que entramos em litígio, hum, que abrimos um processo

judicial contra a Truviv? — perguntou Ardie.

Os lábios de Rosalita se retesaram.

— Fiquei sabendo de alguma coisa, sim. Eu… vejo coisas. Por quê?

— E contra o Ames Garrett também. Aquele homem que morreu. Que se

jogou do prédio. Por assédio sexual. Ele não estava tratando bem as mulheres do

escritório. Não era certo, e decidimos que tínhamos que fazer alguma coisa a

respeito. — Ela abaixou a voz e torceu o braço em uma paródia delas mesmas.

Faça alguma coisa a respeito! Ah, tinham mesmo feito alguma coisa. — Como

você provavelmente deve imaginar, não foi uma boa ideia.

Ela realmente acreditava nisso? Em retrospecto, parecia uma péssima ideia.

Mas na época, com as mesmas informações, achava que elas estavam tentando

fazer a coisa certa. Sem a lista de homens CILADA e sem a morte de Ames, sem

aquelas duas coisas, talvez tivesse sido diferente.

Rosalita foi até a mesa, puxou uma cadeira e pegou um biscoito. Uma migalha

caiu no colo dela.

— Eu vi o Ames na sala dele com aquela… aquela mulher de cabelo curto. —

Rosalita gesticulou. — Katherine.

Ardie soltou um suspiro e balançou a cabeça. Encontrar uma testemunha

agora. Será que isso faria com que as coisas ficassem mais malucas? Ou menos?

— A Katherine mudou de lado. — Ardie arqueou as sobrancelhas e deu uma

mordida no biscoito. — Disse que nunca aconteceu nada entre ela e o Ames.

Vamos perder. A empresa vai tirar tudo da gente. Depois de amanhã, não terei

mais nem meu emprego na Truviv. — Ela sorriu, se dando conta plenamente

daquilo naquele exato momento. — Mas você tem o meu número de celular. Vai

poder entrar em contato comigo.

— Não. — A testa de Rosalita se franziu. Ela balançou a cabeça. — Não, isso

não está certo. Como… como eles podem fazer uma coisa dessas… com você? —

Ela fazia gestos amplos, indignada. — Salomon! — berrou Rosalita.

As duas mulheres olharam para Salomon, que jogava a bola na direção do teto

rugoso. O menino jogou a bola para o alto, e ela escapou de suas mãos,

resvalando em seus dedos. Ele pulou para pegá-la e o boné, grande demais, caiu

de sua cabeça.