Rede de Sussurros
Capítulo 42
20 DE ABRIL
Nunca entendemos essa tendência a sermos subestimadas, nós que tínhamos
sido batizadas e dávamos à luz em meio à dor, que sorríamos e suportávamos
angústias enquanto aplicávamos delineador com uma precisão cirúrgica.
Fazíamos as sobrancelhas, depilávamos o buço, ficávamos com a pele irritada
depois de raspar a virilha, passávamos lâminas nas cavidades arredondadas de
nossas axilas. Os sapatos faziam bolhas nos nossos calcanhares e deformavam a
planta dos nossos pés. Suportávamos o trabalho de parto, o parto em si e as
cesarianas, durante as quais os médicos literalmente colocam nosso intestino
numa mesa ao lado do nosso corpo enquanto estamos conscientes. Fazíamos
tratamentos faciais com ácidos. Aplicávamos botox na testa, preenchíamos os
lábios e colocávamos silicone nos seios. Furávamos as orelhas e usávamos calças
apertadas demais. Tomávamos muito sol. Castigávamos nosso corpo na aula de
spinning. Todos esses pequenos sacrifícios para parecer mais esbeltas e elegantes
— a fêmea da espécie. O sexo frágil. Secretamente, tudo isso endurecia nosso
couro, afiava nossas garras. Éramos mais fortes do que aparentávamos. A única
diferença era que agora finalmente estávamos deixando isso transparecer.
Ardie já esperava que a reunião fosse difícil. Cosette Sharpe estava sentada do
outro lado da mesa, os cotovelos pontiagudos projetados para os lados enquanto
cruzava as mãos.
Com oito pessoas na sala de reunião, Ardie achou que podia sentir o oxigênio
rareando.
— Um processo civil por morte indevida, Cosette. — Sloane bateu a mão na
pilha de documentos. Tinha a tendência de enunciar as palavras com uma
exatidão excessiva quando ficava irritada, como se a sala inteira de repente
falasse inglês apenas como segunda língua. — Você está nos processando por
morte indevida.
Só para constar — na verdade, ela teria gostado de algum crédito nesse ponto
—, Ardie nunca tinha gostado de Cosette Sharpe. Para os advogados de Nova York, em geral, todo mundo que não era um advogado de Nova York era um
idiota. Eles encerravam ligações com “Desculpe, mas tenho que ir”. Cosette
Sharpe era culpada de ambos os crimes, mas não era ela quem estava sendo
julgada ali.
— Fico feliz que todos nós tenhamos a oportunidade de nos reunir e
conversar. — Os olhos de Cosette eram próximos demais para que ela fosse
bonita. Ardie não tinha o hábito de criticar a aparência de outras mulheres,
especialmente quando não era relevante, mas se permitia fazer isso vez ou outra,
quando a ocasião e a pessoa justificavam.
— Por que nos processar? Qual é o objetivo? — perguntou Grace,
suavemente.
Abrir um processo contra elas não só significava que o pessoal da Truviv não
estava considerando um acordo com o pagamento de uma indenização por
assédio sexual, como também estava, na verdade, decidido a exigir dinheiro de
Grace, Ardie e Sloane em nome da empresa e da família Garrett pela morte de
Ames. O montante devido quando alguém era considerado responsável por uma
morte indevida era calculado com base no valor literal da vida perdida. E Ames
Garrett, para dizer o mínimo, era muito valioso.
Os danos poderiam incluir os custos com educação e formação, mais os
salários que ele teria ganhado ao longo da carreira (aumentos e promoções
incluídos), acrescidos das opções de compra de ações e bônus, danos morais e
qualquer outra coisa que a Truviv decidisse que tinha lhe custado a perda de seu
próximo presidente — em suma, eles iam pedir milhões de dólares.
— Embora nós da Truviv levemos as queixas de assédio sexual muito a sério,
não vamos nos curvar diante de mulheres que acham que fazer falsas alegações é
um bom caminho para conseguir dinheiro rápido. Isso abre um precedente ruim.
Ardie puxou as mangas da camisa.
— Não existe nenhum “nós”, Cosette. A Truviv é sua cliente. Nós somos parte
da Truviv: Sloane, Grace e eu. Nós estamos levando isso muito a sério. Neste
exato momento, parece que você está tentando transformar este caso em alguma
matéria sensacionalista. — Ardie detestava advogados externos que se
relacionavam com o cliente como se todos fizessem parte da mesma grande
família feliz, quando, na verdade, esses mesmos advogados cobravam até o
último centavo para cada seis minutos gastos digitando um e-mail. — O Ames se
jogou de uma sacada do décimo oitavo andar, deixando para trás a esposa e dois
filhos, e você está processando a gente por responsabilidade em morte indevida?
A mulher à esquerda de Cosette, de rosto redondo e parecendo prestes a morrer de exaustão, empurrou um bloco de anotações com algo rabiscado na
direção dela. Cosette leu por cima do nariz reto e assentiu.
— Supostamente. Mas, sim, essa é a teoria com a qual estamos trabalhando.
— Minha Nossa Senhora.
Sloane se recostou na cadeira. Não era um bom sinal que, tão no início do
jogo, ela já estivesse recorrendo às expressões de sexagenária.
— Só por curiosidade: como você pretende argumentar que três mulheres são
responsáveis pelo suicídio de um homem adulto?
Havia uma nota de exasperação na pergunta de Grace. Se alguém tinha ficado
magoada com a traição de Katherine, esse alguém era Grace. Ela andava fria
como aço desde que soubera que a colega testemunharia a favor da Truviv.
Por que ela faria isso? A gente conversou. Ela disse que contaria o que
aconteceu. Por quê? Grace. Atordoada. Descrente.
Então, por quê? Ardie poderia supor. A Truviv tinha prometido alguma coisa
a ela. Ela estava com medo. Ela só torcia para times que estavam ganhando, e
tinha escolhido quem achava que seria o time vencedor (ela torcia para o Red
Sox, afinal). Ou então havia outra coisa.
Ardie deveria ter falado com ela antes. Ou talvez nunca devessem ter deixado
Katherine se envolver. Mas não adiantava chorar pelo leite derramado.
— Na verdade — Cosette empunhou a palavra como uma adaga —, temos
que agradecer a Ardie e a Sloane por isso. — Os olhos de Sloane dispararam na
direção de Ardie, cujas costas se retesaram infinitesimalmente. — Tivemos
acesso à queixa que a Ardie escreveu a respeito do tratamento que a filha da
Sloane estava recebendo na escola, que, aliás, estava muito bem redigida.
Cosette empurrou três cópias de outro documento na direção delas, uma carta
em papel timbrado da Truviv, com a assinatura de Adriana Valdez, advogada, na
terceira página. Claro, Sloane tinha escrito aquilo, não Ardie, mas eles só podiam
saber a respeito por… Tinha que ter sido por Katherine. Seu coração disparou
quando ela começou a ligar os pontos.
— O caso Laney Presper, Jackson Worrall e a Lei Matt Renard — comentou
Cosette. — Tudo isso está relacionado a incidentes nos quais pessoas foram
responsabilizadas nas esferas criminal e civil pela morte de vítimas de suicídio
como resultado de assédio sistemático, que levou a vítima ao limite, por assim
dizer.
Sloane começou a rir.
— Por favor, Cosette. Não é uma comparação justa.
Tinha soado algo irrelevante demais para se desabafar com Katherine, e ela parecera fora o suficiente do círculo íntimo delas para se sentir segura. Ardie não
tivera a intenção de ser tão maldosa. E recordou naquele momento, corando,
quanto tinha sido.
— Os assediadores em sua queixa eram em sua maioria adolescentes. Não
tinham consciência da seriedade de suas ações; eles estavam apenas começando a
entender as consequências. Qual é sua desculpa?
Ardie sentiu a raiva ferver nas veias.
— Não estávamos assediando o Ames. — Sua voz era contida, não suave, mas
todos os que estavam à mesa tiveram que se inclinar em sua direção para ouvi-la.
Cosette ergueu as sobrancelhas.
— Na nossa opinião, a lista de homens CILADA, à qual a Sloane acrescentou
o nome do Ames Garrett, é uma forma de assédio virtual. Até o momento, ela já
foi compartilhada nas redes sociais mais de três mil vezes. Considerando que não
há provas de nada do que está na planilha, ela não serve a nenhum outro
propósito que não seja difamar publicamente aqueles incluídos em um fórum
on-line.
Cosette havia adotado um tom como se dissesse nas entrelinhas: “Trabalho no
escritório de advocacia mais prestigiado, então é claro que estou certa.” A Truviv
já havia investido dinheiro nisso. Cosette e sua equipe haviam sido pagos. Já
tinham passado da fase de sondagem e averiguação. Estavam formulando
argumentos. Ardie, Sloane e Grace estavam em maus lençóis.
— E os paralelos não param por aí — continuou Cosette, agora com a inflexão
de uma corretora de imóveis exibindo um apartamento incrível. — Por exemplo,
no caso Sedwick, o assédio moral começou quando a vítima iniciou um
relacionamento com o ex-namorado da assediadora.
— Não estamos no ensino médio, Cosette — disse Sloane, sem se alterar.
— Mas não foi mais ou menos isso que aconteceu, Sloane? Você não ficou
chateada quando pensou que o Ames, alguém com quem teve um
relacionamento, tinha se interessado por uma mulher mais jovem, Katherine?
Era como se Ardie tivesse entrado em um universo paralelo. Se houvera uma
oportunidade de Ardie lidar com aquilo de forma diferente, de se pronunciar, ela
a havia perdido. Nunca tivera a intenção de acabar naquela situação, mas lá
estava ela.
— A propósito, como está sua filha, Sloane? Acho que todos sentimos muito
por estar aqui nessas circunstâncias. — Ela dirigiu olhares solidários para sua
equipe, e Ardie viu Grace apertar a coxa de Sloane para acalmá-la. — Ainda
assim, temo que não possamos ignorar que o fato de ter pedido a Ardie que atuasse como sua representante legal é uma grave violação da política da
empresa. Pedi à Truviv que deixasse isso de lado por enquanto, até que os
assuntos em pauta sejam resolvidos, mas tenho certeza de que compreende a
seriedade da questão. Motivo para demissão por justa causa, na verdade. A
decisão da Truviv de não tomar medidas imediatas é extremamente generosa,
dadas as circunstâncias. — Sloane apertou os lábios e não disse nada enquanto
Cosette piscava, fazendo uma pausa, como se esperasse por um agradecimento.
— Certo. Muito bem. Vamos todos pegar nossos calendários e começar a marcar
os depoimentos — sugeriu ela, por fim.
A reunião terminou com a mesma cordialidade de uma negociação
envolvendo reféns. Grace, Ardie e Sloane entraram no elevador. As portas se
fecharam e ninguém se mexeu para apertar o botão.
— Então você contou para a Katherine sobre a Abigail? Sobre o memorando?
— perguntou Sloane, uma falsa leveza na voz.
— Contei — respondeu Ardie, olhando para a frente.
— Quando?
— Depois da festa do Michael, acho.
Sloane assentiu, projetando o maxilar inferior para a frente.
— Então você foi reclamar de mim com a Katherine? Sloane, sua chefe
irritante? Sloane, sua péssima amiga? — Ela abandonou qualquer resquício de
calma. — Não sei por que envolveu a Abigail nisso. Acordo de confidencialidade
entre cliente e advogada. Não foi o que disse a ela, Ardie? Não disse na cara da
minha filha que não contaria nada pra ninguém? Agora isso vai virar
conhecimento público, sabia? Aquele memorando vai ser incorporado ao
processo como prova. As pessoas vão achar que… As pessoas vão achar que a
Abigail estava realmente pensando em cometer suicídio. — Sloane respirou
fundo. — A escola inteira vai ficar sabendo como aquelas crianças foram cruéis
com ela, os xingamentos. Como se as coisas já não tivessem sido difíceis o
suficiente para ela este ano. Ela confiou em você, Ardie. Isso sem falar que agora
eu talvez nem tenha mais emprego.
Ardie sabia que não deveria ficar na defensiva, mas…
— Não escrevi aquele memorando, Sloane. Você escreveu. E nem ao menos
pediu minha permissão. Você sabe que não é assim que costumo fazer as coisas.
Se eles não tivessem o memorando, não estaríamos nesta situação.
— Essa não é a questão agora — retrucou Sloane, conseguindo controlar o
volume da voz. — Você não tinha o direito.
— Bem, você também não tinha o direito de sair com o Tony. E a Braylee.
— Eu não saí com o Tony e a Braylee para ficar reclamando de você, Ardie. Eu
não falei mal de você. Eu gosto de você de verdade.
Um borrão de rímel tinha se espalhado pelo topo da bochecha de Grace.
Alguns fios de cabelo bastante maltratados pendiam de trás das orelhas.
— E parece que eles sabem sobre o caso. — Grace ergueu timidamente o dedo
para intervir.
— Não olhe para mim com essa cara. Você não pode me culpar por isso —
disse Ardie.
Só agora ela estava registrando que os alto-falantes no elevador estavam
tocando uma animada versão para o rádio de “Cheerleader”.
O elevador começou a descer, os números decrescendo até desaparecerem e
serem substituídos por uma seta.
Sloane batia seu sapato de salto vermelho ridículo no chão.
— Eu nunca teria reclamado de você, Ardie. E, definitivamente, não teria
envolvido o Michael. E nunca teria colocado seu emprego em risco. Você
realmente completou a trinca dessa vez.
— E eu nunca teria traído meu marido.
— Rá! Que bom que finalmente colocou isso pra fora — disse Sloane, sem
malícia, razão pela qual, no fundo, apesar de todas as indicações do contrário, ela
realmente era a melhor pessoa entre as duas.
Sloane pegou seu molho de chaves barulhento — com pelo menos seis
chaveiros comprados para ela por Abigail e Derek em viagens de férias em
família para lugares como Atlantis, Jackson Hole e Big Sur.
— Acho que estamos quites agora, né?
Sloane saiu do elevador sem dar a Ardie a chance de responder.
O saguão era grande, arejado e desconcertante. Quando Grace deu uma
desculpa dizendo que precisava de uma salada — ou talvez um hambúrguer —,
Ardie não fez qualquer menção de ir com ela. Um aviso de mensagem havia
zumbido em seu bolso e, quando ela pegou o celular, o emoji de fogo brilhava na
tela. Sem cerimônia, Ardie passou o polegar pela tela para abri-la.
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