Rede de Sussurros
Nota da autora
Leitores,
A primeira vez que senti os benefícios de uma rede de sussurros (ou whisper
network) foi durante um verão em que trabalhei em uma firma de advocacia. Em
determinado evento de trabalho, um dos sócios, bem mais velho que eu, não
desgrudava de mim, me concedendo uma atenção realmente incômoda. Os
outros funcionários começaram a ir embora, mas esse sócio e os amigos
insistiram para que eu continuasse com eles no bar. “Quantos anos você tem?”,
perguntaram. (Vinte e quatro na época, enquanto eles tinham mais de cinquenta,
caso alguém queira fazer as contas.) “Você gosta de homens mais velhos?” A
situação era delicada — eu ocupava na empresa uma posição semelhante à de
estagiária, com um salário um pouco maior, e queria ser contratada, então fazer
contatos era essencial. Naquele momento, porém, eu me sentia mais como um
objeto, alguém que eles esperavam — presumiam, na verdade — que fosse levar
tudo “na esportiva”. Fiquei ali dando sorrisos sem graça e falsas risadas, como
todas fazemos nessas horas. Eu queria sair dali, mas também queria o emprego. E
desejava que aquele homem se sentisse, não sei, satisfeito, talvez. Ou, no mínimo,
que não se sentisse rejeitado.
A verdade é que não me lembro tanto desses caras quanto da mulher que me
tirou dessa situação — com muito mais graça e habilidade do que eu jamais seria
capaz de ter na época. Ela tinha um sotaque charmoso do Sul, um enorme e
radiante sorriso, e, ao se juntar ao grupo, colocou o braço ao redor dos meus
ombros e me falou baixinho: “Pode ir, deixa comigo.” Eu obedeci. No dia
seguinte, uma das advogadas, que ouviu uma versão do que havia acontecido no
dia anterior, perguntou se eu queria levar o assunto ao RH. Minha resposta: de
jeito nenhum! Claro, o comportamento dele tinha sido ruim, mas o tal sócio teria
envolvimento direto na decisão de me contratar ou não. Um tempo depois,
descobri que eu não havia sido a única que acabou em uma situação daquelas,
mas, graças à gentileza de algumas mulheres perspicazes, eu e minha carreira passamos por isso ilesas.
Sempre foi assim, pelo que me lembro. Muitos anos atrás, eu era a única
mulher na equipe de remo da minha faculdade. Eu era a timoneira (mais
conhecida como a pessoa que grita para os remadores e guia o barco). Como
única mulher do time, eu estava sempre tentando me adequar. Nada nunca me
incomodava ou ofendia. Não mesmo! Eu, não! Um dia, estávamos todos
sentados, passando o tempo. Verdade seja dita, eu tinha me desentendido com
um dos rapazes algumas semanas antes e ele estava irritado comigo por algum
motivo que eu nem imaginava. Quando fui pegar um pedaço de pizza, esse cara
— com mais de 1,90 metro — me deu um chute no maxilar, fazendo meus dentes
se chocarem com um estalo alto. Ele riu com malícia, e os outros garotos ficaram
ligeiramente chocados, mas continuaram quietos. Entre tudo o que poderia
sentir, o que me tomou naquele momento foi um grande sentimento de
vergonha. Enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas, a única coisa que eu
sabia é que não queria ter uma reação “feminina”, não queria parecer exagerada.
Agarrei-me desesperadamente à ideia de que eu era o tipo de garota que
aguentava o tranco. Então me levantei em silêncio, fui para outro cômodo e
nunca disse uma palavra sobre aquilo. Mal sabia eu que variantes dessa mesma
dinâmica estavam se reproduzindo em pequena e larga escala com diversas
mulheres, e que um reflexo disso se alastraria pela vida profissional de toda
mulher, inclusive a minha. Entre na brincadeira! Não faça drama!
Três anos atrás, eu tive uma filha. Ser mãe me levou a um novo patamar de
desafios em casa e no trabalho. Doze semanas depois do parto, voltei a trabalhar.
No meu primeiro dia de volta, um sócio novo me pediu que ficasse até tarde. Por
volta das sete da noite, insisti um pouco mais de que precisava amamentar a bebê
recém-nascida. Ele, que era pai de três crianças, me perguntou quantos meses
minha filha tinha, ao que respondi: “Só três meses.” E ele rebateu: “Bom, então
ela não é mais recém-nascida.” Expliquei que, de um jeito ou de outro, ela
precisava se alimentar. Magnânimo, ele me liberou por vinte minutos, sem fazer
a menor ideia de que, quando eu dizia que precisava “amamentar” minha filha,
significava que ela ainda mamava do peito. Naquela noite, meu marido precisou
dirigir meia hora para levar minha filha até o escritório, e eu a amamentei no
estacionamento.
É sobre esse tipo de coisa que converso com minhas amigas enquanto damos
uma volta na hora do almoço, estamos no clube do livro ou na academia.
Cheguei à conclusão de que o assunto era tão recorrente na minha vida que
comecei a escrever Rede de sussurros. Conforme a história foi tomando forma, percebi que o livro merecia um coro, uma voz coletiva de mulheres, que se
sobrepusesse a mim e às personagens desta obra. Liguei para a minha melhor
amiga da faculdade de direito, que me falou sobre uma linha direta que
redireciona reclamações de funcionários para a pessoa sobre a qual as mesmas
foram feitas. Falei com uma amiga que precisou lidar com mais de dois mil e-
mails quando voltou da licença-maternidade porque ninguém se dispôs a ajudar
durante a sua ausência. Falei com uma advogada que travava uma luta contra a
infertilidade e que chegou a ouvir de um colega, sem nenhum tipo de cerimônia,
que mulheres se tornam inúteis para a empresa depois que têm filhos. Todas
essas histórias formaram a voz narrativa no plural, um modo de debater a
experiência da mulher no ambiente de trabalho, da qual o assédio sexual
certamente é um dos elementos, mas não o único.
Enquanto escrevia este livro, me senti — e ainda me sinto — esperançosa
quanto às novas maneiras como lidamos com as acusações de assédio sexual.
Curiosamente, uma das minhas amigas mais próximas me ligou enquanto eu
terminava meu primeiro rascunho e perguntou se eu tinha alguma indicação de
advogado para ajudá-la a abrir uma queixa de assédio sexual. Contou que um
incidente havia acontecido em uma convenção e, embora não quisesse entrar em
detalhes, esperava que eu pudesse indicar alguém para auxiliá-la. Tenho
vergonha de admitir que minha primeira reação foi: Você quer mesmo fazer isso?
Eu me senti horrível. Sou advogada e escritora e passei inúmeras horas
discutindo a importância de falar sobre assédio, mas eu também me importava
com o bem-estar dela e sabia que trazer aquilo à tona podia custar caro. Ainda
mais se a mulher não tem um suporte ou algum outro recurso de proteção, ou se
pertence a algum grupo marginalizado. No entanto, as coisas estão mudando.
Devagar, e sem dúvida de forma desigual, mas acredito de verdade que estão
mudando, e grande parte disso se deve às diversas mulheres que pararam de
sussurrar.
Enquanto essas mulheres compartilhavam relatos comigo, escrever Rede de
sussurros se tornou uma espécie de rede de sussurros por si só. Estou ansiosa
para compartilhar este livro com as pessoas e espero que continuem a expandir
essa rede de novas formas.
Atenciosamente,
Chandler
Você terminou Rede de Sussurros
Chandler Baker
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