Rede de Sussurros
Capítulo 9
23 DE MARÇO
Nenhum dia produtivo começava com um compromisso matinal fora do
escritório. Sloane sabia disso. Já havia se conformado.
Ou pelo menos era o que achava, até começar a ver os e-mails não lidos se
acumulando na caixa de entrada, reproduzindo-se como moscas. O fato de que
seu dia estava arruinado era uma conclusão inevitável, e ainda nem eram onze da
manhã. Um recorde, provavelmente.
A secretaria da escola cheirava a queijo. As cadeiras eram pequenas demais e
quadradas, e era impossível não ter a sensação de que havia toneladas de
migalhas esquecidas no carpete. Um balcão de linóleo em formato de ferradura
ficava entre a área de espera e os funcionários da secretaria, que estavam muito
ocupados grampeando papéis e ignorando os telefones que não paravam de
tocar.
Sloane estava sentada, com a bolsa esmagada no colo, e já se sentia exausta.
— Lembre-se, Abigail — disse Sloane à filha, que estava mexendo no celular.
— Você não precisa dizer nada. Se quiser perguntar alguma coisa, sussurre para
mim ou para a sra. Ardie.
Aquela seria a primeira reunião com Abigail presente, e, enquanto uma coisa
era ocupar o tempo de Sloane, outra bem diferente era a escola esperar que sua
filha desperdiçasse o dela.
Abigail olhou além da mãe para falar com Ardie.
— Minha mãe disse que eu posso te contar qualquer coisa, e que você não
pode contar para ninguém, nem para ela, porque é minha advogada.
— Não foi exatamente isso que eu disse.
Abigail era uma garota de dez anos com aparência perfeitamente normal:
dentes tortos, lábios rosados e um punhado de sardas no nariz que Sloane
achava, por experiência própria, que iam desaparecer na época da faculdade. Ela
balançava as pernas com uma energia nervosa. Usava All Star novos,
indecentemente caros em se tratando de tênis para uma criança de dez anos, que poderiam muito bem ter sido incluídos na lista de material escolar obrigatório,
ao lado de “caderno de redação” e “garrafa térmica Lilly Pulitzer”. Quando estava
trabalhando demais, Sloane jurou a Derek que eles iam deixar a região de Park
Cities e fugir para o campo. Mas havia a questão da hipoteca — obtida, graças a
Sloane, a uma taxa competitiva —, seu emprego, três planos de celular, as
parcelas do carro, e, além disso, Derek e Sloane realmente amavam a truta-arco-
íris do Fearing’s… Parando para pensar, até que os tênis não eram tão caros
assim…
— É exatamente isso, Abigail. — Ardie ignorou Sloane. — Tenho certeza de
que podemos pensar em vários segredos para compartilhar.
— Tipo os meus pais, que têm segredos que não podem me contar! — Os pés
de Abigail balançaram com mais força. — Só que nós é que não vamos poder
contar.
Ardie sorriu e se recostou na cadeira.
— Vou precisar ficar a par desses segredos. Parecem interessantes.
— Só se quiser saber onde a mamãe e o papai escondem a vodca. — Sloane
pegou o batom na bolsa e o aplicou sem usar espelho. — Como estou?
Ela se virou para Ardie e fez biquinho. Recentemente, Sloane notara que
precisava reaplicar constantemente o batom, ou a cor penetrava nas minúsculas
rugas que começavam a se formar ao redor de seus lábios.
Ardie, que quase não usava maquiagem nem pintava o cabelo grisalho, fez sua
melhor cara de desagrado. Sua marca registrada.
— Você sabe que estamos na escola da sua filha, não sabe? Acho que a juíza
Judy tirou o dia de folga.
Sloane inclinou a cabeça.
— Eu normalmente não tolero esse tipo de atitude de um advogado externo,
sabia?
Ela estava brincando, mas não de forma convincente. A questão com Abigail
era um assunto sério, e Sloane estava levando a sério. Muito a sério.
Em sua primeira reunião com o diretor, eles descobriram que Abigail não era
a única destinatária daquele tipo de mensagens. Aparentemente, as meninas da
turma dela estavam experimentando novas palavras. Isso não serviu de consolo
para Sloane. Outras garotas talvez fossem capazes de lidar com aquele tipo de
crueldade infantil do século XXI, mas sua sensível Abigail? “Síndrome do crânio
de casca de ovo”, era como um de seus professores chamava isso na faculdade de
direito. A ideia de que, mesmo que você golpeie uma pessoa na cabeça e frature o
crânio dela, isso não terá importância se o mesmo golpe não fraturar o crânio da maioria das pessoas. A inesperada fragilidade da vítima não era uma defesa
válida para a gravidade de nenhum dano causado a ela. Abigail tinha crânio de
casca de ovo.
Aquela era a segunda reunião, e quando Derek descobriu que não poderia
estar presente — uma incompatibilidade de horário com os testes estaduais do
ensino fundamental —, ele sugeriu a solução perfeita: “Leve Ardie.” Ardie era
muito mais estável do que Sloane, a própria Sloane concordava. Por exemplo,
Ardie usava o perfume de uma mulher muito mais velha, rosas desidratadas e
especiarias, enquanto Sloane tinha uma vaga consciência de que às vezes
demonstrava um ar de frivolidade não intencional, e isso se estendia até seus
perfumes em frascos miniatura escolhidos sem nenhum cuidado, que ela
alternava durante os dias da semana.
A porta à esquerda delas se abriu.
— Sloane Glover? O diretor está pronto para recebê-las.
Sloane se levantou tão rápido que ficou tonta.
— Calma — murmurou Ardie, ao lado dela.
Sloane respirou fundo, e as três entraram em um pequeno escritório cinzento
com vista para o pátio.
Sloane foi a primeira a falar. Quase sempre era.
— Diretor Clark — disse. — Esta é nossa advogada, Ardie Valdez.
O diretor Clark se levantou, ajustou a gravata e estendeu a mão para Ardie.
Ele era negro e alto, de cabeça raspada, mas com fios brancos salpicando a barba
aparada. Sloane se viu inexplicavelmente verificando o dedo anelar dele: sem
aliança. Ele e Ardie formariam um casal muito simpático. Se Sloane não estivesse
furiosa a ponto de ameaçar processá-lo, é claro.
— Tenho certeza de que a presença dela não é necessária — disse Clark. —
Esta é apenas uma oportunidade de nos reunirmos para discutir o progresso de
Abigail.
Todos olharam para a menina, cujos tornozelos estavam cruzados sob a
cadeira. Ela parecia nervosa e desconfortável, como um gato debaixo d’água.
Ardie puxou uma cadeira.
— E o progresso da escola. Não podemos esquecer essa parte.
Sloane sorriu. Ponto para Ardie logo no início da partida. Não que Sloane
fosse competitiva.
— Correto. — O diretor pigarreou e olhou para a pilha de papéis em sua
mesa. A própria Sloane às vezes usava a mesma tática para ganhar tempo. Olhar
para baixo, remexer, remexer e, ah, aqui está, finalmente podemos começar. — É melhor começarmos então — disse ele. — A escola enviou recentemente
panfletos voltados para pais e alunos a fim de discutir os parâmetros de conduta
que se espera dos alunos nas redes sociais. Pedimos que os pais monitorem as
contas e guardem as senhas.
Um bloco de anotações surgiu no colo de Ardie.
— E quanto à punição?
Ele assentiu como se estivesse prestes a chegar lá.
— Para os alunos mais velhos, a má conduta nas mídias sociais resultará na
suspensão do privilégio de participar de atividades sociais, como bailes e jogos de
basquete.
— Mas a Abigail não é uma das alunas mais velhas — interrompeu Sloane. —
Ela está no quarto ano. Ela nem tem perfil em rede social.
— Tenho uma conta no YouTube — afirmou Abigail, fazendo um aceno de
cabeça decidido e adulto para o diretor Clark.
— Isso é diferente, querida — disse Sloane automaticamente. Em seguida se
viu pensando: Será mesmo? Ela precisava verificar a conta de Abigail. Olhar seu
histórico de vídeos. Desejou também ter levado consigo um bloco de anotações.
Aquilo tinha sido um descuido.
O diretor Clark ignorou Abigail.
— Tudo bem. Eu sei disso. Por este lado, já pensou em mudar o número de
celular de Abigail?
Sloane soltou uma gargalhada desdenhosa.
— Essa é sua solução? Por que o ônus deveria ser dela? Ou dos pais? O que vai
acontecer quando esses alunos conseguirem o novo número? Eles não deveriam
nem ter celular.
— Nesse ponto há uma questão de segurança. Hoje em dia os pais se sentem
mais seguros quando os filhos andam com celular.
Sloane achava que não se importaria se um daqueles fedelhos fosse
sequestrado uma ou duas vezes.
Atrás do diretor Clark, crianças corriam segurando lancheiras e garrafas de
água e escalavam os brinquedos.
— Aconteceu mais alguma coisa, Abigail? — perguntou ele.
Abigail enfiou as mãos debaixo das coxas, balançando-se para a frente e para
trás.
— Não sei. Talvez — disse ela, a voz baixa e sincera. — Uns garotos. Eles
pediram que eu fosse pegar os sapatos deles atrás do ginásio. Eu fui, mas não
tinha sapato nenhum lá. — Ela deu de ombros e arregalou os olhos azuis. — Eu voltei, e todo mundo ficou rindo de mim. Não entendi a piada. Gritei para eles
irem embora, como a mamãe me ensinou. Então eles me chamaram de louca.
Sloane fechou os olhos e engoliu em seco. Às vezes, quando ela e Abigail
estavam saindo da Target ou do cinema juntas e o estacionamento estava quase
vazio, ela fazia Abigail praticar seus gritos. Derek achava que aquele exercício só
servia para assustá-la. Mas o que ele sabia? Derek nunca tinha sido uma garota.
Sloane, sim, e se a filha um dia se visse em perigo, ela saberia exatamente o que
fazer: gritar bem alto.
Agora estavam naquela situação.
— Eu não entendo — disse Sloane. — Sapatos? Por que as crianças iam rir da
minha filha por causa de sapatos?
O diretor Clark parecia esconder — é sério? — um sorrisinho por trás dos
dedos entrelaçados, os cotovelos apoiados casualmente na mesa.
— Tem alguma coisa engraçada aqui, diretor Clark? O que não estamos
entendendo? — Ardie chegou para a frente, até a beirada da cadeira, com a
caneta em punho.
Ele afastou as mãos e deu de ombros.
— Crianças sendo crianças — disse. — É uma bobagem, na verdade. — Seus
olhos dispararam entre Ardie e Sloane. Elas esperaram.
— Sloane e eu adoramos bobagens.
Clark coçou a nuca.
— Não é que faça sentido. É só uma coisa que os garotos andam fazendo. É
como flertar. Isso quer dizer que eles acham uma menina bonita. É um ritual,
acho que podemos chamar assim. Eles pedem à garota que acham bonita para ir
até os fundos do ginásio e, então, bem, nada. São crianças.
Ele apertou os lábios e ergueu as sobrancelhas para Abigail.
— Acho que não entendi direito. — Sloane sentiu que estava fazendo aquele
negócio de ficar piscando sem parar que Derek tanto detestava, mas ela só fazia
aquilo quando estava certa. E quando a pessoa com quem ela falava estava
estupidamente errada. — Você está dizendo que minha filha foi submetida a uma
espécie de trote pré-adolescente?
O olhar de Ardie também tinha assumido um ar mais severo, de curiosidade
crítica. (Conhecíamos aquela lógica: sempre devíamos ficar gratas quando
alguém achava que éramos bonitas.)
As duas se entreolharam. Após compartilhar experiências de trabalho por
mais de uma década você adquiria um medidor de merda idêntico. Ardie foi
muito sutil. Um movimento quase imperceptível dos olhos, seguido por uma leve inclinação da cabeça. Pode ter certeza de que não vou impedi-la, dizia.
— Humilhação — continuou Sloane ao diretor Clark. — Era para ser um
elogio? Tudo em nome da brincadeira, suponho.
— Mãe. — Abigail se remexeu na cadeira.
— Eu entendo o que você deve estar pensando. Mas garanto que é inofensivo.
— Ah! Ah! Você me garante? — O rosto de Sloane ficou branco de raiva.
Ardie se manteve firme ao lado dela. Ela se inclinou para a frente.
— Acho que parte do que provocou essa reação na minha cliente é o fato de
que esses garotos constrangeram Abigail de forma proposital. Em seguida, a
chamaram de louca. O senhor sabe por que isso é problemático, diretor Clark? —
Ela não esperou a resposta. — É problemático porque, quando permitimos que
meninos chamem uma menina de “louca” de forma tão casual, bem, isso dá a
todas as outras pessoas permissão para que não acreditem nela. Algum desses
garotos foi chamado de louco por inventar essa história sobre sapatos, por acaso?
O vestígio de sorriso do diretor Clark desapareceu.
Ardie continuou:
— Imaginei que não. O que torna tudo mais problemático é que a
administração desta escola se mostrou conivente em relação a esse tipo de
comportamento, tanto por parte dos meninos quanto das meninas. Quando na
realidade parece estimular um comportamento perigoso. Não é engraçado,
diretor Clark. E minha cliente está legitimamente preocupada com a segurança e
o bem-estar da filha.
— Eu compreendo — disse o diretor Clark, agora sério.
Sloane conseguiu encontrar a voz e a bolsa no mesmo momento. Ela se
levantou.
— Concordei com a direção da escola em fazer essas reuniões na esperança de
que houvesse progresso real e não fosse necessária nenhuma medida legal. — Ela
estendeu a mão para Abigail, que se levantou da cadeira e a pegou. — Mas esta
reunião foi um completo desperdício de tempo. Espero que a direção leve a
próxima mais a sério.
Em seguida, Ardie, Abigail e Sloane saíram da sala do diretor sem olhar para
trás. Sloane sentia uma veia pulsar na têmpora.
— Mãe. — Abigail puxou o braço dela quando já estavam do lado de fora, sob
o céu nublado. — Você gritou com o diretor Clark.
— Eu não gritei. — Elas estavam na calçada de concreto colorida da escola
primária, que levava ao estacionamento dos visitantes. Gritinhos distantes
atravessavam o ar, que cheirava a umidade e suor infantil. — Eu falei alto. É diferente.
Era possível que Sloane tivesse chegado bem perto de gritar. A sensação de
estar coberta de razão pode ser uma droga poderosa. Ela ia dizer a Derek que
tinha se mantido calma e deixado Ardie fazer a maior parte do trabalho. Ardie
tinha sido incrível, isso era indiscutível.
— Então… — Sloane se virou para Abigail e Ardie. — Quer almoçar com a
gente?
— Na verdade… — Ardie semicerrou os olhos por causa da luz refletida na
calçada. — Vou pegar um Uber e voltar para o escritório. Tenho que terminar
aqueles relatórios, e hoje é meu dia de buscar o Michael na escola.
Ela já estava acessando o aplicativo no celular.
Os ombros de Sloane murcharam.
— Tudo bem — cedeu ela. — Mas apenas sob protesto. E que conste dos autos
que eu tentei recompensá-la com a melhor refeição que algo entre cinco e… —
ela contou as notas amassadas em sua carteira — …quinze dólares poderia
oferecer. — Sloane puxou Ardie para um abraço. — Mas se você não se importar,
eu gostaria que essa questão da Abigail ficasse apenas entre nós. É delicado —
disse ela, com uma leve pontada de nervosismo.
Mais uma vez depositava um segredo na conta de sua amizade com Ardie.
Mais uma vez misturava trabalho e vida pessoal. Ela observou enquanto a filha
estudava uma planta próxima e arrancava dois brotos entre as folhas. Amava
muito a filha, mas, no fundo, imaginava que ela teria mais amigos. Será que isso
era algo horrível de se pensar? Será que Sloane era uma péssima mãe?
— E, você sabe, com a política da empresa e tudo o mais… você, entre aspas,
nos representar… Bem, poderia ficar um pouco confuso.
Estritamente falando, os advogados da Truviv não podiam representar
ninguém além da Truviv. Isso seria, se elas fossem se ater às regras, uma violação
da política da empresa contra práticas indevidas e poderia, tecnicamente, dar
margem a uma série de questões. Embora, claro, isso não fosse acontecer. Era
uma pequena infração. Como atravessar fora da faixa.
— Você entende, não é?
Ardie apertou os ombros dela.
— Fica só entre nós.
Houve um breve momento em que Sloane achou que talvez fosse a hora de
fazer sua pequena, insignificante confissão, mas então o telefone de Ardie tocou,
o carro que ela havia chamado surgiu na esquina e, honestamente, tinha sido
uma traição mínima. Nem valia a pena mencionar. Afinal, não era exatamente uma questão de segurança nacional. O pequeno caso social que ela estava tendo.
Não, meu Deus, espere, não era um caso. Poderia ser considerado um caso se
fosse apenas platônico? Provavelmente não. E não era como se Ardie e Sloane
tivessem um relacionamento monogâmico sério. Elas tinham outros amigos.
Eram adultas. De qualquer forma, ela poderia contar mais tarde. Ou melhor
ainda: nunca.