Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 10 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 9

 

23 DE MARÇO

Nenhum dia produtivo começava com um compromisso matinal fora do

escritório. Sloane sabia disso. Já havia se conformado.

Ou pelo menos era o que achava, até começar a ver os e-mails não lidos se

acumulando na caixa de entrada, reproduzindo-se como moscas. O fato de que

seu dia estava arruinado era uma conclusão inevitável, e ainda nem eram onze da

manhã. Um recorde, provavelmente.

A secretaria da escola cheirava a queijo. As cadeiras eram pequenas demais e

quadradas, e era impossível não ter a sensação de que havia toneladas de

migalhas esquecidas no carpete. Um balcão de linóleo em formato de ferradura

ficava entre a área de espera e os funcionários da secretaria, que estavam muito

ocupados grampeando papéis e ignorando os telefones que não paravam de

tocar.

Sloane estava sentada, com a bolsa esmagada no colo, e já se sentia exausta.

— Lembre-se, Abigail — disse Sloane à filha, que estava mexendo no celular.

— Você não precisa dizer nada. Se quiser perguntar alguma coisa, sussurre para

mim ou para a sra. Ardie.

Aquela seria a primeira reunião com Abigail presente, e, enquanto uma coisa

era ocupar o tempo de Sloane, outra bem diferente era a escola esperar que sua

filha desperdiçasse o dela.

Abigail olhou além da mãe para falar com Ardie.

— Minha mãe disse que eu posso te contar qualquer coisa, e que você não

pode contar para ninguém, nem para ela, porque é minha advogada.

— Não foi exatamente isso que eu disse.

Abigail era uma garota de dez anos com aparência perfeitamente normal:

dentes tortos, lábios rosados e um punhado de sardas no nariz que Sloane

achava, por experiência própria, que iam desaparecer na época da faculdade. Ela

balançava as pernas com uma energia nervosa. Usava All Star novos,

indecentemente caros em se tratando de tênis para uma criança de dez anos, que poderiam muito bem ter sido incluídos na lista de material escolar obrigatório,

ao lado de “caderno de redação” e “garrafa térmica Lilly Pulitzer”. Quando estava

trabalhando demais, Sloane jurou a Derek que eles iam deixar a região de Park

Cities e fugir para o campo. Mas havia a questão da hipoteca — obtida, graças a

Sloane, a uma taxa competitiva —, seu emprego, três planos de celular, as

parcelas do carro, e, além disso, Derek e Sloane realmente amavam a truta-arco-

íris do Fearing’s… Parando para pensar, até que os tênis não eram tão caros

assim…

— É exatamente isso, Abigail. — Ardie ignorou Sloane. — Tenho certeza de

que podemos pensar em vários segredos para compartilhar.

— Tipo os meus pais, que têm segredos que não podem me contar! — Os pés

de Abigail balançaram com mais força. — Só que nós é que não vamos poder

contar.

Ardie sorriu e se recostou na cadeira.

— Vou precisar ficar a par desses segredos. Parecem interessantes.

— Só se quiser saber onde a mamãe e o papai escondem a vodca. — Sloane

pegou o batom na bolsa e o aplicou sem usar espelho. — Como estou?

Ela se virou para Ardie e fez biquinho. Recentemente, Sloane notara que

precisava reaplicar constantemente o batom, ou a cor penetrava nas minúsculas

rugas que começavam a se formar ao redor de seus lábios.

Ardie, que quase não usava maquiagem nem pintava o cabelo grisalho, fez sua

melhor cara de desagrado. Sua marca registrada.

— Você sabe que estamos na escola da sua filha, não sabe? Acho que a juíza

Judy tirou o dia de folga.

Sloane inclinou a cabeça.

— Eu normalmente não tolero esse tipo de atitude de um advogado externo,

sabia?

Ela estava brincando, mas não de forma convincente. A questão com Abigail

era um assunto sério, e Sloane estava levando a sério. Muito a sério.

Em sua primeira reunião com o diretor, eles descobriram que Abigail não era

a única destinatária daquele tipo de mensagens. Aparentemente, as meninas da

turma dela estavam experimentando novas palavras. Isso não serviu de consolo

para Sloane. Outras garotas talvez fossem capazes de lidar com aquele tipo de

crueldade infantil do século XXI, mas sua sensível Abigail? “Síndrome do crânio

de casca de ovo”, era como um de seus professores chamava isso na faculdade de

direito. A ideia de que, mesmo que você golpeie uma pessoa na cabeça e frature o

crânio dela, isso não terá importância se o mesmo golpe não fraturar o crânio da maioria das pessoas. A inesperada fragilidade da vítima não era uma defesa

válida para a gravidade de nenhum dano causado a ela. Abigail tinha crânio de

casca de ovo.

Aquela era a segunda reunião, e quando Derek descobriu que não poderia

estar presente — uma incompatibilidade de horário com os testes estaduais do

ensino fundamental —, ele sugeriu a solução perfeita: “Leve Ardie.” Ardie era

muito mais estável do que Sloane, a própria Sloane concordava. Por exemplo,

Ardie usava o perfume de uma mulher muito mais velha, rosas desidratadas e

especiarias, enquanto Sloane tinha uma vaga consciência de que às vezes

demonstrava um ar de frivolidade não intencional, e isso se estendia até seus

perfumes em frascos miniatura escolhidos sem nenhum cuidado, que ela

alternava durante os dias da semana.

A porta à esquerda delas se abriu.

— Sloane Glover? O diretor está pronto para recebê-las.

Sloane se levantou tão rápido que ficou tonta.

— Calma — murmurou Ardie, ao lado dela.

Sloane respirou fundo, e as três entraram em um pequeno escritório cinzento

com vista para o pátio.

Sloane foi a primeira a falar. Quase sempre era.

— Diretor Clark — disse. — Esta é nossa advogada, Ardie Valdez.

O diretor Clark se levantou, ajustou a gravata e estendeu a mão para Ardie.

Ele era negro e alto, de cabeça raspada, mas com fios brancos salpicando a barba

aparada. Sloane se viu inexplicavelmente verificando o dedo anelar dele: sem

aliança. Ele e Ardie formariam um casal muito simpático. Se Sloane não estivesse

furiosa a ponto de ameaçar processá-lo, é claro.

— Tenho certeza de que a presença dela não é necessária — disse Clark. —

Esta é apenas uma oportunidade de nos reunirmos para discutir o progresso de

Abigail.

Todos olharam para a menina, cujos tornozelos estavam cruzados sob a

cadeira. Ela parecia nervosa e desconfortável, como um gato debaixo d’água.

Ardie puxou uma cadeira.

— E o progresso da escola. Não podemos esquecer essa parte.

Sloane sorriu. Ponto para Ardie logo no início da partida. Não que Sloane

fosse competitiva.

— Correto. — O diretor pigarreou e olhou para a pilha de papéis em sua

mesa. A própria Sloane às vezes usava a mesma tática para ganhar tempo. Olhar

para baixo, remexer, remexer e, ah, aqui está, finalmente podemos começar. — É melhor começarmos então — disse ele. — A escola enviou recentemente

panfletos voltados para pais e alunos a fim de discutir os parâmetros de conduta

que se espera dos alunos nas redes sociais. Pedimos que os pais monitorem as

contas e guardem as senhas.

Um bloco de anotações surgiu no colo de Ardie.

— E quanto à punição?

Ele assentiu como se estivesse prestes a chegar lá.

— Para os alunos mais velhos, a má conduta nas mídias sociais resultará na

suspensão do privilégio de participar de atividades sociais, como bailes e jogos de

basquete.

— Mas a Abigail não é uma das alunas mais velhas — interrompeu Sloane. —

Ela está no quarto ano. Ela nem tem perfil em rede social.

— Tenho uma conta no YouTube — afirmou Abigail, fazendo um aceno de

cabeça decidido e adulto para o diretor Clark.

— Isso é diferente, querida — disse Sloane automaticamente. Em seguida se

viu pensando: Será mesmo? Ela precisava verificar a conta de Abigail. Olhar seu

histórico de vídeos. Desejou também ter levado consigo um bloco de anotações.

Aquilo tinha sido um descuido.

O diretor Clark ignorou Abigail.

— Tudo bem. Eu sei disso. Por este lado, já pensou em mudar o número de

celular de Abigail?

Sloane soltou uma gargalhada desdenhosa.

— Essa é sua solução? Por que o ônus deveria ser dela? Ou dos pais? O que vai

acontecer quando esses alunos conseguirem o novo número? Eles não deveriam

nem ter celular.

— Nesse ponto há uma questão de segurança. Hoje em dia os pais se sentem

mais seguros quando os filhos andam com celular.

Sloane achava que não se importaria se um daqueles fedelhos fosse

sequestrado uma ou duas vezes.

Atrás do diretor Clark, crianças corriam segurando lancheiras e garrafas de

água e escalavam os brinquedos.

— Aconteceu mais alguma coisa, Abigail? — perguntou ele.

Abigail enfiou as mãos debaixo das coxas, balançando-se para a frente e para

trás.

— Não sei. Talvez — disse ela, a voz baixa e sincera. — Uns garotos. Eles

pediram que eu fosse pegar os sapatos deles atrás do ginásio. Eu fui, mas não

tinha sapato nenhum lá. — Ela deu de ombros e arregalou os olhos azuis. — Eu voltei, e todo mundo ficou rindo de mim. Não entendi a piada. Gritei para eles

irem embora, como a mamãe me ensinou. Então eles me chamaram de louca.

Sloane fechou os olhos e engoliu em seco. Às vezes, quando ela e Abigail

estavam saindo da Target ou do cinema juntas e o estacionamento estava quase

vazio, ela fazia Abigail praticar seus gritos. Derek achava que aquele exercício só

servia para assustá-la. Mas o que ele sabia? Derek nunca tinha sido uma garota.

Sloane, sim, e se a filha um dia se visse em perigo, ela saberia exatamente o que

fazer: gritar bem alto.

Agora estavam naquela situação.

— Eu não entendo — disse Sloane. — Sapatos? Por que as crianças iam rir da

minha filha por causa de sapatos?

O diretor Clark parecia esconder — é sério? — um sorrisinho por trás dos

dedos entrelaçados, os cotovelos apoiados casualmente na mesa.

— Tem alguma coisa engraçada aqui, diretor Clark? O que não estamos

entendendo? — Ardie chegou para a frente, até a beirada da cadeira, com a

caneta em punho.

Ele afastou as mãos e deu de ombros.

— Crianças sendo crianças — disse. — É uma bobagem, na verdade. — Seus

olhos dispararam entre Ardie e Sloane. Elas esperaram.

— Sloane e eu adoramos bobagens.

Clark coçou a nuca.

— Não é que faça sentido. É só uma coisa que os garotos andam fazendo. É

como flertar. Isso quer dizer que eles acham uma menina bonita. É um ritual,

acho que podemos chamar assim. Eles pedem à garota que acham bonita para ir

até os fundos do ginásio e, então, bem, nada. São crianças.

Ele apertou os lábios e ergueu as sobrancelhas para Abigail.

— Acho que não entendi direito. — Sloane sentiu que estava fazendo aquele

negócio de ficar piscando sem parar que Derek tanto detestava, mas ela só fazia

aquilo quando estava certa. E quando a pessoa com quem ela falava estava

estupidamente errada. — Você está dizendo que minha filha foi submetida a uma

espécie de trote pré-adolescente?

O olhar de Ardie também tinha assumido um ar mais severo, de curiosidade

crítica. (Conhecíamos aquela lógica: sempre devíamos ficar gratas quando

alguém achava que éramos bonitas.)

As duas se entreolharam. Após compartilhar experiências de trabalho por

mais de uma década você adquiria um medidor de merda idêntico. Ardie foi

muito sutil. Um movimento quase imperceptível dos olhos, seguido por uma leve inclinação da cabeça. Pode ter certeza de que não vou impedi-la, dizia.

— Humilhação — continuou Sloane ao diretor Clark. — Era para ser um

elogio? Tudo em nome da brincadeira, suponho.

— Mãe. — Abigail se remexeu na cadeira.

— Eu entendo o que você deve estar pensando. Mas garanto que é inofensivo.

— Ah! Ah! Você me garante? — O rosto de Sloane ficou branco de raiva.

Ardie se manteve firme ao lado dela. Ela se inclinou para a frente.

— Acho que parte do que provocou essa reação na minha cliente é o fato de

que esses garotos constrangeram Abigail de forma proposital. Em seguida, a

chamaram de louca. O senhor sabe por que isso é problemático, diretor Clark? —

Ela não esperou a resposta. — É problemático porque, quando permitimos que

meninos chamem uma menina de “louca” de forma tão casual, bem, isso dá a

todas as outras pessoas permissão para que não acreditem nela. Algum desses

garotos foi chamado de louco por inventar essa história sobre sapatos, por acaso?

O vestígio de sorriso do diretor Clark desapareceu.

Ardie continuou:

— Imaginei que não. O que torna tudo mais problemático é que a

administração desta escola se mostrou conivente em relação a esse tipo de

comportamento, tanto por parte dos meninos quanto das meninas. Quando na

realidade parece estimular um comportamento perigoso. Não é engraçado,

diretor Clark. E minha cliente está legitimamente preocupada com a segurança e

o bem-estar da filha.

— Eu compreendo — disse o diretor Clark, agora sério.

Sloane conseguiu encontrar a voz e a bolsa no mesmo momento. Ela se

levantou.

— Concordei com a direção da escola em fazer essas reuniões na esperança de

que houvesse progresso real e não fosse necessária nenhuma medida legal. — Ela

estendeu a mão para Abigail, que se levantou da cadeira e a pegou. — Mas esta

reunião foi um completo desperdício de tempo. Espero que a direção leve a

próxima mais a sério.

Em seguida, Ardie, Abigail e Sloane saíram da sala do diretor sem olhar para

trás. Sloane sentia uma veia pulsar na têmpora.

— Mãe. — Abigail puxou o braço dela quando já estavam do lado de fora, sob

o céu nublado. — Você gritou com o diretor Clark.

— Eu não gritei. — Elas estavam na calçada de concreto colorida da escola

primária, que levava ao estacionamento dos visitantes. Gritinhos distantes

atravessavam o ar, que cheirava a umidade e suor infantil. — Eu falei alto. É diferente.

Era possível que Sloane tivesse chegado bem perto de gritar. A sensação de

estar coberta de razão pode ser uma droga poderosa. Ela ia dizer a Derek que

tinha se mantido calma e deixado Ardie fazer a maior parte do trabalho. Ardie

tinha sido incrível, isso era indiscutível.

— Então… — Sloane se virou para Abigail e Ardie. — Quer almoçar com a

gente?

— Na verdade… — Ardie semicerrou os olhos por causa da luz refletida na

calçada. — Vou pegar um Uber e voltar para o escritório. Tenho que terminar

aqueles relatórios, e hoje é meu dia de buscar o Michael na escola.

Ela já estava acessando o aplicativo no celular.

Os ombros de Sloane murcharam.

— Tudo bem — cedeu ela. — Mas apenas sob protesto. E que conste dos autos

que eu tentei recompensá-la com a melhor refeição que algo entre cinco e… —

ela contou as notas amassadas em sua carteira — …quinze dólares poderia

oferecer. — Sloane puxou Ardie para um abraço. — Mas se você não se importar,

eu gostaria que essa questão da Abigail ficasse apenas entre nós. É delicado —

disse ela, com uma leve pontada de nervosismo.

Mais uma vez depositava um segredo na conta de sua amizade com Ardie.

Mais uma vez misturava trabalho e vida pessoal. Ela observou enquanto a filha

estudava uma planta próxima e arrancava dois brotos entre as folhas. Amava

muito a filha, mas, no fundo, imaginava que ela teria mais amigos. Será que isso

era algo horrível de se pensar? Será que Sloane era uma péssima mãe?

— E, você sabe, com a política da empresa e tudo o mais… você, entre aspas,

nos representar… Bem, poderia ficar um pouco confuso.

Estritamente falando, os advogados da Truviv não podiam representar

ninguém além da Truviv. Isso seria, se elas fossem se ater às regras, uma violação

da política da empresa contra práticas indevidas e poderia, tecnicamente, dar

margem a uma série de questões. Embora, claro, isso não fosse acontecer. Era

uma pequena infração. Como atravessar fora da faixa.

— Você entende, não é?

Ardie apertou os ombros dela.

— Fica só entre nós.

Houve um breve momento em que Sloane achou que talvez fosse a hora de

fazer sua pequena, insignificante confissão, mas então o telefone de Ardie tocou,

o carro que ela havia chamado surgiu na esquina e, honestamente, tinha sido

uma traição mínima. Nem valia a pena mencionar. Afinal, não era exatamente uma questão de segurança nacional. O pequeno caso social que ela estava tendo.

Não, meu Deus, espere, não era um caso. Poderia ser considerado um caso se

fosse apenas platônico? Provavelmente não. E não era como se Ardie e Sloane

tivessem um relacionamento monogâmico sério. Elas tinham outros amigos.

Eram adultas. De qualquer forma, ela poderia contar mais tarde. Ou melhor

ainda: nunca.