Rede de Sussurros
Capítulo 52
2 DE MAIO
Todo aquele tempo. Isso era tudo em que Ardie conseguiu pensar naqueles
primeiros minutos, o silêncio ressoando em seus ouvidos, um resquício do
barulho da porta de seu carro batendo no escuro.
Ardie mantinha o banco do carro aquecido porque isso aliviava as dores na
região lombar, mas, naquela noite, o aquecedor fez brotar uma camada fina de
suor em suas costas, o tecido da camiseta do Pink Floyd grudando enquanto ela
dirigia. Eram dez e meia e ela se perguntou se deveria ligar para Sloane, Grace ou
ambas.
Oito anos.
Tinha sido depois de Sloane. Os detalhes pouco importavam. Uma vez, duas
vezes, três vezes, mais do que qualquer um poderia contar? Elas eram todas
apenas peças em uma engrenagem.
Ardie abaixou o vidro da janela e passou o cartão no leitor para que a cancela
de metal se levantasse. Seu Lexus preto subiu a rampa da garagem da Truviv e
parou entre duas linhas amarelas no segundo andar. Ela apertou o botão da trava
e a buzina soou duas vezes, ecoando nos pilares de concreto. Quando entrou no
elevador da garagem, nenhuma trilha sonora tocou, e ela sentiu a estranheza de
ser arrastada ao longo das bordas de um poço de cimento dentro de uma caixa
metálica presa a uma polia. Acenou para o vigia noturno, atravessou o saguão e
entrou no elevador do prédio.
O ar-condicionado central zumbia pelos corredores vazios. Ao dobrar a
esquina, a cabeça de uma mulher jovem e branca com cabelo castanho
maltratado surgiu na lateral de um carrinho de limpeza e relaxou ao constatar
que o intruso era Ardie.
Como uma criança no deque em torno da piscina, Ardie teve que se segurar
para não correr. A expectativa a impulsionava para a frente. A chance de
vindicação — uma palavra forte, talvez, mas que estava quase ao seu alcance.
Quando estava na faculdade de direito, Ardie queria investigar crimes de colarinho-branco e fazer análise fiscal forense, porque era algo que soava
fascinante de uma maneira que poucos trabalhos realmente eram. Mas um mês
depois das entrevistas de seleção no campus da faculdade, ela recebeu uma
proposta de emprego em um escritório de advocacia que pagava quase duzentos
mil dólares por ano. Aos vinte e cinco anos, concluiu que poderia praticar o
direito criminal depois de pagar os empréstimos estudantis. E Ardie aprendeu
que era provavelmente assim que a maioria dos sonhos profissionais perecia.
Ardie usou seu crachá para acessar a sala onde ficavam os arquivos com o
registro dos funcionários. A ideia de que ela pudesse analisar o enorme volume
de informações contidas naquela sala e não encontrar nada fez com que sentisse
um vazio ao acender a luz e fechar a porta.
Gavetas de arquivo bege cobriam os dois lados da sala comprida e estreita. As
luzes fluorescentes deixavam o ar antisséptico. Ali dentro, ela nem conseguiria
saber se era dia ou noite. Até o celular ficava sem sinal.
Os arquivos eram organizados por departamento. Os arquivos da equipe de
limpeza ficavam no final, à direita. Em ordem alfabética. Cuidadosamente
organizados para uma consulta mais prática. Um bom trabalho de gestão
interna. Era uma empresa de capital aberto, afinal.
Era exatamente aquele tipo de análise meticulosa que fazia de Ardie uma
excelente advogada. (Espelho, espelho meu, alguém tem um superpoder mais chato
do que o meu?) Mas era um talento útil, e uma hora depois de começar sua
pesquisa as pontas de seus dedos estavam secas de tanto folhear contracheques e
informes de rendimentos. Suas costas deslizaram contra o arquivo de aço
enquanto ela afundava até o chão, na mão a confirmação digitada e assinada do
que ela já sabia. Ardie entendia agora por que não tinha ligado para Sloane ou
Grace. Aquela história não era dela e não lhe cabia contá-la.
Mas Ardie também tinha uma história, e a dela fora assim:
Um pianista tocava trilhas sonoras de filmes no canto do bar do hotel.
Alguns minutos antes, ela tinha colocado uma nota de cinco dólares no jarro
e pedira que ele tocasse o tema do Jurassic Park.
— Outra rodada? — perguntara Ames, deslizando o cartão de crédito da
empresa para o barman. Eles estavam bebendo champanhe caro. Tinham
fechado um negócio caro. No dia seguinte, ela teria uma dor de cabeça que
custaria mais do que sua bolsa.
— Já volto. Preciso ligar para o Dan — disse Ardie. — Peça uma para
mim também.
Ela foi até o saguão, onde um dossel de hera crescia acima de sua cabeça.
Ligou para o namorado.
— Você parece bêbada — disse ele.
— Deve ser porque estou mesmo. — Sua cabeça parecia agradavelmente
pesada, a ponta do nariz e as bochechas começando a ficar dormentes. —
Boas notícias: tenho minha vida de volta.
No momento em que o acordo foi assinado, ela sentiu seu corpo ficar
instantaneamente mais leve, como se tivesse acabado de sair de uma dieta
de líquidos em vez de ter passado dois meses comendo comida tailandesa em
embalagens de isopor na sala de reunião.
— Só acredito vendo.
Dan riu. Ele era um jovem analista sério na Deloitte, e Ardie começara a
se perguntar em que momento saberia se ele era o cara certo.
— É verdade — insistiu ela, com o tom petulante de alguém que já bebeu
demais para soar convincente. — Sou uma nova mulher.
— Parabéns. Divirta-se. Vejo você, ou quem quer que seja essa nova
mulher que estou namorando, amanhã.
Ela voltou para o bar e pegou a taça de champanhe, as bolhas ainda
flutuando até a superfície.
— Beba — disse Ames. — Depois eu a acompanho até o seu quarto.