Rede de Sussurros

Chandler Baker · Capítulo 48 de 62

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Rede de Sussurros

Capítulo 47

 

1O DE MAIO

Dois furgões de emissoras de TV estavam parados na faixa seletiva com duas

repórteres diante de câmeras e empunhando microfones. Todas as repórteres de

telejornal que Sloane já vira, não importava a cidade, pareciam ser de Dallas, mas

as repórteres de telejornal de Dallas eram, de longe, as mais típicas mulheres de

Dallas de todas. Cabelo volumoso e coberto de spray fixador, lábios cor-de-rosa,

vestidos sob medida em um dos quatro tons de pedras preciosas, combinados

com saltos plataforma que faziam com que andassem como filhotes de cervos.

Certa vez Sloane vira uma reportagem no programa Today sobre um grupo no

Facebook no qual âncoras mulheres trocavam dicas de vestidos apropriados para

a TV e, sinceramente, nada nunca fez tanto sentido quanto aquilo.

Só se passaram dois meses desde a morte de Desmond? As palavras

“acionistas odeiam a expressão ‘nada a declarar’” ainda soavam frescas em sua

mente.

Sloane tirou discretamente um espelho compacto da bolsa e verificou se os

dentes estavam limpos. No momento em que começou a andar, a jornalista mais

próxima — uma mulher com cabelo preto volumoso — saiu em disparada para

interromper seu caminho.

— Sloane? Sloane Glover? — Ela estendeu o microfone em sua direção. — O

que tem a dizer sobre as alegações de que você e suas companheiras na ação de

assédio são responsáveis pela queda de Ames Garrett?

— Não empurrei ninguém de prédio nenhum — respondeu Sloane, uma

declaração que ela esperava que fosse ao mesmo tempo instigante (Bem, é claro

que não empurrou) e atrevida. Talvez as pessoas fossem na onda dos atrevidos.

— Eu estava falando de maneira figurada — disse a repórter,

desnecessariamente. Sloane viu Cliff Colgate apoiado na lateral do prédio,

fumando um cigarro eletrônico, que enfiou no bolso da mochila. — Sra. Glover?

A repórter se inclinou para entrar em seu campo de visão.

Sloane retomou o foco e olhou diretamente para a repórter, que usava uma quantidade excessiva de rímel, o que era dizer muito, vindo de Sloane.

— Não tenho nada a declarar — respondeu Sloane. — Essas alegações são

uma distração, cujo objetivo é impedir que nos concentremos na questão

original: a de uma empresa que permitiu que um homem como Ames Garrett se

comportasse de forma indecorosa durante anos, sem ser punido, porque não

existiam opções viáveis para as mulheres reclamarem fora do sistema legal sem

medo de retaliação.

— Então você acha que a Truviv está querendo se vingar?

Sloane considerou a pergunta.

— Acho que essa situação está fora de controle, e precisamos nos perguntar

por que isso está acontecendo.

Cliff estava erguendo o queixo, gesticulando para que ela fosse em sua

direção. Ele usava óculos de aros pretos e uma camisa social branca de botão. Ela

se perguntou se era possível que alguém da idade dele e em sua posição nunca

tivesse realmente usado uma gravata. Estávamos entrando em uma era na qual

todas as crianças cresciam com dispositivos eletrônicos inteligentes, e roupas de

trabalho informais não eram, de certa forma, parte integrante dessa mesma

tendência? Ela se desvencilhou da repórter.

Cliff se afastou do prédio e pegou o caderninho.

— O que foi agora?

Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça de sarja cinza.

— Estou apurando os desdobramentos da reportagem — disse ele. — Sua ex-

colega no escritório Jaxon Brockwell, Elizabeth Moretti, acabou de se apresentar

como a criadora da lista de homens CILADA.

— Ela o quê?

Cliff tirou o toco de lápis de trás da orelha e anotou alguma coisa.

— Não descreva minha expressão. — Ela agitou o dedo indicando o bloco de

anotações.

Ele sorriu e deu uma piscadela, e ela se perguntou se um dia veria alguém dar

uma piscadela sem se lembrar de Ames.

— Uma revista estava preparando uma matéria. Ela seria exposta como a

criadora da lista, então está se antecipando. E sugeriu que eu conversasse com

você.

Prédios de escritórios: estranhamente desprovidos de lugares para se sentar

do lado de fora, pelo que Sloane estava percebendo.

— Então, acho que é seguro dizer que você não sabia que ela era a autora da

lista, certo?

Ela olhou para ele sem dizer uma palavra.

Ele ergueu as palmas das mãos.

— Não vou descrever sua expressão.

Sloane não sentia aquela vertigem desde que Abigail tinha caído do trepa-

trepa no jardim de infância, e a escola lhe enviara um e-mail — um e-mail, pelo

amor de Deus — para informar que sua filha estava na Emergência, os detalhes

do braço quebrado fornecidos apenas depois que Sloane chegou ao hospital e

falou com um dos médicos muito competentes e pacientes da equipe.

Sua cabeça girava. Em suma, talvez não devesse ter ficado tão chocada,

considerando tudo o que tinha acontecido, todas as coisas no mundo que

importavam mais do que Elizabeth Moretti ter criado uma planilha.

Mas ela deveria ter lhe avisado.

— Gostaria de dar uma declaração? — A ponta do lápis dele, afiada como

uma arma, pairava, à espera.

O que quer que escolhesse dizer naquele momento, certamente não seria

sábio. Ela respirou fundo.

— Envio um comentário para você até o fim do dia. Tenho seu cartão.

Os cantos de sua boca se curvaram, mas ele girou o lápis, de modo a ficar com

a extremidade sem ponta virada para baixo.

— Tudo bem. — Sloane começou a se afastar, retirando-se do circo no qual

desempenhava o papel ou de apresentadora ou de palhaça. — Conversei com

minha fonte na polícia de Dallas, Sloane. — Ela ficou imóvel. — Eles acham que

têm novas informações sobre a morte do Ames.

— O suicídio do Ames — corrigiu ela.

Cliff olhou para a rua. O sol se refletiu nas lentes dos óculos.

— A morte do Ames. Alguém que sabia de alguma coisa, ou talvez tenha visto

alguma coisa. Alguém. Não sei quem.

— Quem?

Ele coçou a têmpora com o lápis.

— Isso é tudo o que eu sei.

Sloane ajeitou a bolsa no ombro — cheia de migalhas de biscoito, lenços

umedecidos, talões de cheque e dez cartões de crédito vencidos.

— Isso é ridículo. O Ames pulou da sacada. Todo mundo sabe disso.

Naturalmente, não era verdade. Nem mesmo ela sabia. Era apenas: Meu Deus,

haveria mais alguma coisa que poderia dar errado? E isso não era um desafio.

Sloane era uma boa pessoa, no fim das contas. Na maior parte do tempo. E

tinha amigas. Muitas. Não deveria estar no meio de uma… de uma investigação de assassinato.

Por que nenhuma de suas amigas tinha telefonado?

— A senhora protesta demais, parece-me.

— Hamlet — disse ela. — Você… tem razão no que diz respeito a ser uma

tragédia.

Sloane empurrou a porta de vidro giratória.

— Vou esperar um e-mail seu! — Ele colocou as mãos em torno da boca para

gritar. — Eu sou um dos caras legais, Sloane.

Ela projetou seu peso de forma que a porta deslizasse para trás e estava quase

dentro do cilindro de vidro quando gritou de volta:

— Tem certeza de que isso não é um paradoxo?

 

* * *

 

Sloane socou a almofada de boxe na mão de Oksana e sentiu a dor irradiar pelo

ombro. Jab, cruzado, gancho e jab. Ela seguia o padrão, um após o outro após o

outro, o ar irrompendo com força dos pulmões.

A cada soco, a imagem de Ames surgia. Sangue carmesim escorrendo de sua

cabeça, respingando no ar, espalhando-se pela calçada, um rio fluindo do osso

quebrado da perna.

Ela socava mais forte, mais rápido. Esquecia-se de respirar. O suor umedecia o

cabelo por baixo do rabo de cavalo. E se ela fosse responsável? E se tudo aquilo

tivesse sido culpa de Sloane? Outro soco. Uma ardência subiu até o cotovelo.

Seus músculos queimavam. Alguém sabia de alguma coisa ou tinha visto alguma

coisa. Ou alguém. Poderia ser Grace — por que Grace nunca tinha mencionado

que fumava com Ames naquela sacada? Poderia ser Ardie — será que Ardie tinha

mentido sobre o momento em que fora pegar a assinatura na folha de pagamento

e, em caso afirmativo, por quê? Ou Katherine — o que a teria levado a mudar sua

história de modo tão repentino?

O que seria essa nova informação? Será que poderia apontar… para ela?

Oksana encerrou o exercício, e Sloane desmoronou no chão. Ela deixou a

cabeça pender entre os joelhos. A professora colocou uma toalha limpa em volta

do pescoço de Sloane, que secou o suor do rosto.

— Nota máxima pelo esforço hoje — disse Oksana.

— Eu comi um sanduíche. Com o pão.

Oksana cutucou Sloane com a ponta do tênis da Truviv, empurrando-a para a

posição de prancha e juntando-se a ela porque era uma sadomasoquista. Ou pelo menos essa provavelmente era a razão.

— O nome do Ames estava marcado em vermelho na agenda. — Sloane mal

levantou a cabeça porque seu tronco corria grande risco de se partir ao meio. —

Nenhuma das treinadoras queria trabalhar com ele.

Quando uma gota caiu no tapete de ioga abaixo dela, Sloane não soube dizer

se era suor ou uma lágrima, apenas que parecia apropriado que ela tivesse

perdido a capacidade de distinguir. Ela havia perdido o controle de basicamente

tudo em sua vida — o casamento, a filha, as amigas, a carreira. Tinha 99% de

certeza de que estava tentando fazer a coisa certa quando entrou com o processo.

Mas havia aquele incômodo 1% que a fazia temer que, na verdade, estivesse

apenas se intrometendo no que não lhe dizia respeito. Que era uma mulher de

meia-idade entediada, disfarçada por trás de calças de lã feitas sob medida e um

cargo que soava pomposo, de modo que ninguém suspeitasse como ela era

completamente entediante e de meia-idade.

— Você vai ficar bem.

Mas Sloane não sabia quanto valor poderia dar às palavras de uma pessoa que

exalava um cheiro tão forte de loção bronzeadora de coco e banana às três da

tarde.

 

Cliff,

Eis a minha declaração: “Elizabeth Moretti acredita em um princípio

fundamental: informação é poder. Ela disponibilizou a informação.

Compartilhou seu poder. Tentamos proteger umas às outras das

maneiras que conhecemos, e essa foi a dela.”

Sloane

Transcrição do interrogatório de Grace Stanton

Parte II

 

28 DE ABRIL

 

PRESENTES:

Detetive Malika Martin

 

AUTOS

DET. MARTIN: Grace, esteve com Ames Garrett no dia em que ele morreu? SRA. STANTON: Estive, sim.

DET. MARTIN: Como ele estava?

SRA. STANTON: Ele parecia agitado, nervoso. Sentia-se incompreendido.

Como se não tivesse feito nada de errado e quisesse que eu acreditasse nisso.

DET. MARTIN: Você acreditava?

SRA. STANTON: Não sei.

DET. MARTIN: Como assim?

SRA. STANTON: Eu estava confusa. Nada disso é tão preto no branco quanto

as pessoas querem que seja. Eu… eu não sei. Na época, estava com raiva. Achava que o Ames tinha me enganado. Queria que ele soubesse que eu não sou o tipo de mulher que ignora maus comportamentos. Queria que ele sentisse remorso. Eu não sabia que ele estava com pensamentos tão sombrios.

DET. MARTIN: Aconteceu alguma coisa que você acha que o perturbou ainda

mais?

SRA. STANTON: Sim.