Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 8
— Até voltar a vê-la muitas coisas se passaram... na minha casa... Não quis mais viver lá, pensei em ir para a Patagônia, falei com um caminhoneiro que se chama Bucich, nunca lhe falei de Bucich? Mas naquela madrugada... Bem, não fui para o sul. Mas não voltei mais para casa.
Calou-se, rememorando.
— Voltei a vê-la no mesmo lugar do parque, mas já em fevereiro de 1955. Nunca deixei de ir lá, toda vez que me foi possível. No entanto, se a reencontrei não creio que tenha sido por esperá-la no mesmo lugar.
— E sim?
Martín olhou para Bruno e disse:
— E sim porque ela quis me encontrar.
Bruno não parecia entender.
— Bem, se ela foi àquele lugar foi porque quis encontrá-lo.
— Não, não é isso que eu quero dizer. Teria me encontrado da mesma forma em qualquer outro lugar. Entende? Ela sabia onde e como me encontrar, se quisesse. É isso que eu quero dizer. Esperá-la ali, naquele banco, durante tantos meses, foi uma de minhas tantas ingenuidades.
Refletiu e depois acrescentou, olhando Bruno como se lhe pedisse uma explicação.
— Por isso, porque acho que ela me procurou, voluntariamente, deliberadamente, por isso mesmo para mim é mais inexplicável que depois... dessa maneira...
Sustentou o olhar em Bruno e este permaneceu com os olhos fixos no rosto consumido e sofrido.
— Entende?
— Os seres humanos não são lógicos — Bruno retrucou. — Além disso, é quase certo que a mesma razão que a levou a procurá-lo também a incitou a...
Ia dizer “abandoná-lo”, quando parou e corrigiu: “a afastar-se”.
Martín o olhou mais um momento e depois tornou a afundar em seus pensamentos, ficando calado por um bom tempo. Depois explicou como Alejandra havia reaparecido.
Já era quase noite, e a luz não era suficiente para revisar as provas, de modo que ficara olhando as árvores, recostado no banco. E de repente dormiu.
Sonhava que andava num barco abandonado, com o velame destruído, ao longo de um grande rio aparentemente tranqüilo, mas poderoso e repleto de mistério. Navegava no crepúsculo. A paisagem era solitária e silenciosa, mas na selva que se erguia como uma muralha às margens do grande rio adivinhava-se a presença de uma vida secreta e cheia de perigos. Foi quando uma voz parecendo vir da mata cerrada o fez estremecer. Não conseguia entender o que dizia, mas sabia que se dirigia a ele, Martín. Quis se levantar, mas algo o impedia. Lutou, porém, para se levantar porque ouvia cada vez mais intensamente a voz enigmática e distante que o chamava e (agora percebia) o chamava com ansiedade, como se corresse um terrível perigo e ele, só ele, fosse capaz de salvá-la. Acordou trêmulo de aflição e quase pulando do banco.
Era ela.
Ficara-o sacudindo e agora lhe dizia, com seu riso áspero:
— Levante-se, vadio.
Assustado, assustado e desconcertado pelo contraste entre a voz aterradora e ofegante do sonho e aquela Alejandra despreocupada que agora estava na frente dele, não conseguiu dizer uma palavra.
Viu-a apanhando umas provas que tinham caído do banco durante seu sono.
— Aposto que o dono dessa empresa não é Molinari — comentou rindo.
— Que empresa?
— A que lhe dá este trabalho, seu bobo.
— É a Gráfica López.
— Seja qual for, aposto que não é de Molinari.
Não entendeu nada. E, como muitas vezes tornaria a acontecer com ela, Alejandra não se deu ao trabalho de explicar. Sentia-se — comentou Martín — como um mau aluno diante de um professor irônico.
Arrumou as provas, e essa tarefa mecânica deu-lhe tempo para se refazer um pouco da emoção do reencontro tão ansiosamente esperado. E também, como em muitas outras ocasiões posteriores, seu silêncio e sua incapacidade para o diálogo eram compensados por Alejandra, que sempre, ou quase sempre, adivinhava seus pensamentos.
Ela passou uma das mãos no cabelo dele, como os adultos costumam fazer com as crianças.
— Expliquei que voltaria a vê-lo, lembra? Mas não lhe disse quando.
Martín a olhou.
— Por acaso eu lhe disse que voltaria a vê-lo breve?
— Não.
E assim (explicou Martín) começou a terrível história. Tudo fora inexplicável. Com ela nunca se sabia, encontravam-se em lugares tão absurdos como o saguão do Banco de la Provincia ou a ponte Avellaneda. E a qualquer hora: às duas da madrugada, às vezes. Tudo era inesperado, nada podia ser previsto ou explicado: nem seus momentos de brincadeira, nem suas fúrias, nem esses dias em que se encontrava com ele e não abria a boca, até que terminava indo embora. Nem seus longos sumiços. “E no entanto”, acrescentava, “foi o período mais maravilhoso de minha vida.” Mas ele sabia que não podia durar porque tudo era frenético e — já tinha lhe dito? — como uma sucessão de pequenas explosões de gasolina numa noite de tempestade. Se bem que às vezes, pouquíssimas vezes, ela parecia passar momentos de descanso a seu lado, como se estivesse doente e ele fosse um sanatório ou um lugar ensolarado nas serras para onde afinal ela se retirasse, em silêncio. E também parecia atormentada, e era como se ele pudesse oferecer-lhe água ou um remédio que lhe fosse imprescindível, para voltar mais uma vez ao território escuro e selvagem em que parecia viver.
— E no qual eu nunca pude entrar — concluiu, fitando Bruno nos olhos.