Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 33
Tropeçando na penumbra, procurei uma saída qualquer. Abri uma porta e me vi no outro aposento, mais escuro que o anterior, por onde fui batendo, desesperado, em mesas e cadeiras. Tateando pelas paredes, procurei outra porta, abri, e nova escuridão, mais intensa porém que a anterior, me recebeu.
Lembro-me de que, em pleno caos, pensei: “estou perdido”. E, como se tivesse consumido o resto de minhas energias, deixei-me cair, sem esperanças: certamente estava preso numa construção em forma de labirinto, da qual jamais sairia. Assim terei permanecido uns minutos, ofegante e transpirando. “Não posso perder a lucidez”, pensei. Tentei aclarar minhas idéias e só então me lembrei de que tinha um isqueiro. Acendi-o e verifiquei que o quarto estava vazio e havia outra porta; fui até lá e abri: dava para um corredor cujo fim eu não conseguia avistar. Mas que podia fazer além de me lançar na única possibilidade que me restava? Aliás, bastou refletir um pouco para entender que minha idéia anterior, de estar perdido num labirinto, devia ser um equívoco, pois em nenhuma hipótese a Seita me condenaria a morte tão confortável.
Portanto, fui avançando pelo corredor. Ansioso, mas devagar, já que a luz do isqueiro era fraca e, aliás, eu só o utilizava de vez em quando, para não acabar prematuramente o fluido.
Ao fim de uns trinta passos, o corredor desembocava numa escada que descia, parecida com a que me levara do apartamento ao porão, ou seja, em espiral. Certamente passava pelos apartamentos ou pelas casas e ia para porões e subterrâneos de Buenos Aires. Depois de uns dez metros, a escada deixava de ser em caracol e atravessava grandes espaços abertos, totalmente escuros, que podiam ser porões ou depósitos, embora à luz fraca do isqueiro eu não conseguisse enxergar muito longe.