Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 40 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 20

 

Passaram-se vários dias, até que Martín, desesperado, discou o número da boutique: mas quando ouviu a voz de Wanda não teve coragem de responder e desligou. Esperou três dias e voltou a ligar. Era ela.

— Por que acha estranho? — Alejandra respondeu. — Tínhamos combinado, creio, de não nos vermos mais.

Houve uma conversa confusa, frases meio incompreensíveis de Martín, até que Alejandra prometeu ir no dia seguinte ao bar da esquina da Charcas com a Esmeralda. Mas não foi.

Depois de mais de uma hora de espera, Martín resolveu ir ao ateliê.

A porta da boutique estava entreaberta e, no escuro, sob a luz de uma lâmpada baixa, viu Quique sentado e solitário, de perfil. Não havia ninguém na sala, e Quique estava curvado, olhando o chão, concentrado numa meditação. Martín ficou sem saber que atitude tomar. Era evidente que nem Wanda nem Alejandra estavam na outra sala, porque se ouviriam as conversas, e o silêncio era total. Mas também era evidente que estavam na salinha de provas que Wanda instalara nos fundos do apartamento, no andar de cima, ao qual se chegava por uma escadinha; pois do contrário eram inexplicáveis a presença de Quique e a porta aberta.

Mas ele não se decidia a entrar: algo no jeito ensimesmado e solitário de Quique lhe impedia. Talvez por ele mesmo se sentir tão prostrado, teve a impressão de que o outro estava meio envelhecido, com uma expressão de gravidade que antes não notara. Sem saber direito por quê, de repente sentiu pena do indivíduo solitário. Durante muitos anos ia lembrar-se dele assim, e tentaria entender se sentira pena, essa ambígua impressão de pena, naquele exato momento ou anos depois. E lembrou-se de uma coisa que Bruno lhe dissera: é sempre terrível ver um homem que se considera absoluta e verdadeiramente só, pois ele tem algo trágico, talvez até de sagrado, e ao mesmo tempo de horrendo e vergonhoso. Sempre — dizia — usamos uma máscara, máscara que nunca é a mesma, mas que muda para cada um dos papéis que a vida nos atribui: a do professor, a do amante, a do intelectual, a do marido enganado, a do herói, a do irmão carinhoso. Mas que máscara colocamos ou que máscara nos resta quando vivemos na solidão, quando acreditamos que ninguém, ninguém nos observa, controla, escuta, ordena, implora, intima, ataca? Talvez o aspecto sagrado desse instante resulte de que o homem está então diante da Divindade, ou pelo menos diante de sua própria e implacável consciência. E talvez ninguém perdoe o fato de ser flagrado nessa última e essencial nudez de seu rosto, a mais terrível e a mais essencial nudez, pois mostra a alma sem defesa. E mais terrível e vergonhosa ainda num comediante como Quique; portanto (Martín pensava) era lógico que ele despertasse mais compaixão do que um inocente, ou um simplório. Por isso, quando finalmente resolveu entrar, Martín se escondeu e voltou a aparecer batendo o salto do sapato pelo corredor que levava à boutique. E aí, com a rapidez dos comediantes, Quique adotou diante de Martín a máscara da perversidade, da falsa inocência e da curiosidade (o que poderia haver entre aquele rapaz e Alejandra?), e seu sorriso cínico liquidou o projeto de piedade que se insinuara em Martín.

Martín, que se sentia encabulado diante de estranhos, em presença de Quique não sabia nem como se sentar, pois tinha absoluta certeza de que ele observava tudo e depois guardava em sua maldosa memória: vá saber onde e como ririam, mais tarde, de seu jeito e de seus sofrimentos! Os gestos teatrais de Quique, seus trejeitos, sua falsidade, suas frases brilhantes, tudo contribuía para que se sentisse como um bicho sob a lupa de um cientista ironicamente sádico.

— Sabe que você lembra uma dessas figuras de El Greco? — disse quando o viu.

Frase que, como era natural tratando-se de Quique, podia ser interpretada como um elogio ou como uma grotesca fotografia instantânea. Era famoso pelos pretensos elogios de suas crônicas, que a rigor eram críticas tortuosas e envenenadas: “jamais condescende a empregar metáforas profundas”, “em nenhum momento cai na tentação de ser notado”, “não teme enfrentar o tédio do espectador”.

Acuado, calado, Martín, como na visita anterior, sentara-se na banqueta alta da mesa de desenho e se encolhia instintivamente, como na guerra, para oferecer o menor flanco possível. Felizmente, Quique começou a falar de Alejandra.

— Está na salinha de provas, com Wanda e a condessa Téleki, née Iturrería, vulgo Marita.

E, olhando-o atenta e intensamente, disse:

— Faz muito tempo que conhece Alejandra?

— Uns meses — Martín respondeu, ficando vermelho.

— Vou lhe dizer que adoro os Olmos. Para começar, só o simples fato de viverem em Barracas já é motivo suficiente para que la haute morra de rir e para que minha prima Lala sofra do fígado e tenha ataques de histeria toda vez que alguém descobre que entre nós e os Olmos há um distante parentesco. Pois, como me dizia da última vez, furiosa: quer me dizer quem, mas quem, vive em Barracas? E eu, claro, a tranqüilizei respondendo que ninguém vive ali, fora uns quatrocentos mil proletinhas e outros tantos cachorros, gatos, canários e galinhas. E acrescentei que essa gente (os Olmos) nunca nos daria um desgosto muito grande, pois o velho don Pancho vive numa cadeira de rodas, não enxerga nem ouve nada que não seja a Legião de Lavalle, e é muito difícil imaginar que um belo dia saia para visitar a família no Barrio Norte ou dê declarações nos jornais sobre o Pocho, quer dizer, sobre Perón; a velha Escolástica, embora louca, já morreu; o tio Bebe, embora louco, vive recluso, como se diz, em seus aposentos e muito interessado em seus estudos de clarinete; a tia Teresa, embora louca, também e felizmente morreu, e pensando bem, pobre querida, sempre passou a vida na igreja e nos enterros, de modo que nunca teve tempo para aborrecer ninguém na parte respeitável da cidade, já que era devota de Santa Lucía e praticamente nunca ultrapassou a colour line, nem mesmo para visitar um pároco, para controlar a evolução da doença de um presbítero ou a verdadeira situação do câncer de um arcebispo. Restavam (como eu disse a Lala) Fernando e Alejandra. Outros dois loucos!, gritou minha prima. E Manucho, que estava presente, balançando a cabeça e erguendo os olhos para o céu, exclamou “como dizem em Phèdre: O, déplorable race!”. A verdade é que Lala, a não ser quando se trata dos Olmos, é bastante tranqüila. Para ela o mundo não passa de uma luta entre Gracinha e Cacete. Não confundir com o outro cacete, o da linguagem vulgar.

Exemplos:

“Que romance cacete!”

“Olhe, desculpe, mas o que tenho de lhe contar é tão cacete!”

“A pintura de Clorindo é cacete.”

“Que coisa cacete saber que agora essa gentinha circula até mesmo pela avenida Santa Fe.” (A propósito dos peronistas.)

Exemplos de Gracinha:

“Que gracinha o último conto de Monique em La Nación.”

“Que gracinha esse filme de Michèle Morgan.”

— O mundo se divide em Gracinha e Cacete. A Luta Eterna e nunca definida entre essas duas potências gera todas as alternativas da realidade. Quando Cacete predomina, é de matar: modas horrendas ou cafonas, romances complicados e teológicos, conferências de Capdevila ou Larreta no “Amigos del Libro” às quais Nós somos obrigados a comparecer porque senão Albertito se ofende, pessoas morrendo de fome e exigindo Estatutos (quando não cismam de governar), visitas que chegam em horas absurdas, parentes ricos que não morrem (“Que cacete, esse Marcelo, que é eterno, e com os hectares que tem!”). Quando Gracinha predomina, as coisas ficam divertidas (outra palavra do vocabulário básico de Lala) ou pelo menos suportáveis, che: um rapaz que deu para escrever, mas ao menos não parou de jogar pólo nem virou amigo de gente de nomes esquisitos como Ferro ou Cerretani, um romance de Graham Greene que trata de espiões ou roletas, um coronel que não se propõe a conquistar as massas, um presidente da República que é fino e vai ao hipódromo. Mas nem sempre as coisas são tão nítidas, pois, como lhe digo, há uma luta permanente entre as duas forças, e, assim, de vez em quando a realidade é mais rica, como quando Larreta, de repente, conta uma piada (sob a misteriosa pressão de Gracinha), ou, ao contrário, como Wanda, que é uma gracinha de modista, mas quando lhe dá na veneta seguir as palhaçadas americanas, che, é tão cacete! E que, em suma, antes o mundo era muito divertido, mas ultimamente, com os peronistas, tem de se reconhecer que ficou muito Cacete. Essa é a filosofia de minha prima Lala. Como vê, uma espécie de cruza de Anaximandro com Schiaparelli e Porfirio Rubirosa. Uma baixaria.

Nesse instante ouviram as vozes de Wanda e da cliente, que estavam vindo. Apareceram na sala e, atrás delas, meio afastada, também entrou Alejandra. Seu rosto pareceu demonstrar surpresa com a presença de Martín, mas essa própria impassibilidade revelava a Martín, que a conhecia tão bem, uma grande irritação contida. Naquele ambiente absurdo, respondendo a seu cumprimento com a mesma cordialidade superficial com que poderia cumprimentar um conhecido qualquer, sem se dar ao trabalho de se afastar um segundo para explicar-lhe sua ausência no encontro marcado, com o ar de frivolidade que assumia na frente de Wanda e Quique, Alejandra parecia pertencer a uma raça que não falava a mesma língua de Martín e nem mesmo seria capaz de compreender a outra Alejandra.

A cliente vinha falando sem parar com Wanda sobre a necessidade inadiável de matar Perón.

— Tem de matar toda a negrada — dizia. — Nós, que somos gente fina, já nem podemos andar nas ruas.

Uma série de sentimentos confusos e contraditórios entristeceu Martín mais ainda.

— Digo a vocês — a mulher prosseguiu, depois de trocar beijinhos na face com Quique — que o comunismo vem aí. Mas já pensei em tudo: se o comunismo vier, vou para a fazenda e ponto final.

E, enquanto ouvia distraidamente a apresentação de Martín, Quique, por cima de seu ombro, olhava com cara de júbilo para Alejandra, pois, como disse mais tarde, “como é que alguém consegue inventar uma frase dessas?”.

Martín observava Alejandra e lutava para fazer uma cara de indiferença, mas seu rosto, como que independente de sua vontade, ia adquirindo os inevitáveis e sempre desagradáveis sinais de reprimenda, sofrimento e interrogação.

— Sabe, Marita — Quique disse à cliente —, que se comprovou que o cara não se chama Perón, mas Perone?

— Não me diga! — a mulher comentou, com enorme interesse.

— Nada mais nada menos: o indivíduo se chama Perone.

Assim que Marita foi embora, Quique desenvolveu sua teoria:

— Se neste país você se chama Vignaux, mesmo se seu avô foi açougueiro em Bayonne ou Biarritz, você é gente fina. Mas se tem a desgraça de se chamar De Ruggiero, mesmo se seu pai foi professor de filosofia em Nápoles, você está frito, meu amigo: nunca deixará de ser uma espécie de verdureiro. Esse negócio de sobrenome tem que ser estudado com muito cuidado — prosseguiu, enquanto Wanda e Alejandra começavam a rir. — Pois com essa coisa dos cruzamentos e da emigração o país fica exposto a Grandes Perigos. Aí está o caso de Muzzio Echandía. Um dia María Luisa se viu obrigada a lhe dizer: “Cale a boca, você, que nem com dois sobrenomes consegue fazer um que preste!”.

— E tem razão, que diabos! Se pelo menos o segundo sobrenome fosse Ibarguren ou Álzaga. Em suma, um basco qualquer de boa cepa! Mas agora o mal está feito, e, como eu disse um dia a Juan Carlitos: “Você se enganou de basco, meu velho”.

— Aqui, queridas, a gente tem de andar pisando em ovos, pois de onde menos se espera a lebre pula. Vejam só o que aconteceu com Jeannette, que brigou com o Negro, e o Negro lhe mandou uma carta. E Jeannette, que já tinha bebido uns bons goles, veio para cima de mim na Biela Fundida e me disse: “Seu filho-da-puta! Porque você é que sabe (olhou para os lados) que me falta um quarto sobrenome”. “Sans blague”, comentei.

Então me mostrou o envelope, com a piada injusta do Negro, destinada, qual é a dúvida, aos empregados. A carta era endereçada, na verdade, a Jeannette Álzaga Basavilbaso Álzaga — e caia de costas! — Murature! Imagine só, Alejandra! Um gringo marinheiro que foi nomeado comandante da Frota de Buenos Aires na guerra contra a Confederação. Algo assim como marechal do Exército de San Marino. Está percebendo? L’Amiraglio, cara mia! Entende agora o drama de Jeannette? É verdade que ela tem um par de “Álzaga”. Mas se pelo menos fosse “Álzaga y”. Mas não: um Basavilbaso e um Murature. E se pelo menos um dos dois fosse uma avenida. Mas não: uma rua de trinta centímetros de comprimento. Uma baixaria! Minha teoria é que, se você tem um sobrenome proleta, tem de se defender como bicho acuado, che. Imagine se você tem a desgraça de se chamar Pedro Mastronicola. Bem, não, isso é demais, isso não tem defesa, nem na classe média. Digamos que se chame Pedro Marolda. O que pode fazer? Precisa lutar como um condenado, e mesmo assim — esta é outra ironia da história — com suma cautela. De la mesure avant toute chose! Pois não é porque você se chama Marolda que vai se atirar qual um faminto para cima de um Uriburu. Afinal, como é possível alguém se chamar Pedro Marolda Uriburu? Todo mundo acharia que você é um farsante, um vigarista internacional, um déguisé. Também não poderia substituir o Uriburu por dois sobrenomes menores, como Moyano e Navarro, por exemplo. Você há de compreender que Pedro Marolda Moyano Navarro é uma palhaçada, uma espécie de oriundo de Córdoba em pleno corso carnavalesco. Nesses casos é preferível escolher um só sobrenome, não muito espalhafatoso: Pedro Maroldo Moyano. Vocês me dirão que este não é tão importante. Concordo, mas pelo menos that works. Posso lhes garantir que, em caso de escassez, nada melhor do que recorrer às ruas. Antigamente, eu e o Grillo enlouquecíamos Sayús, que é um esnobe, dizendo que íamos lhe apresentar Martita Olleros, Beba Posadas, Titina Azcuénaga. Os metrôs, dou-lhes a informação, são um verdadeiro filão. Peguem, por exemplo, a linha para Palermo, que não é das melhores. Mesmo assim funciona praticamente desde a saída: Chuchi Pellegrini (meio suspeito, mas ainda assim impressiona um pouco, pois afinal o gringo foi presidente), Mecha Pueyrredón, Tota Agüero, Enriqueta Bulnes. Estão percebendo?