Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 10 de 93

Páginas do PDF

Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 10

 

Essa menina sardenta é ela: tem onze anos e seu cabelo é avermelhado. É uma menina magra e pensativa, violenta e duramente pensativa: como se seus pensamentos não fossem abstratos, e sim serpentes enlouquecidas e quentes. Numa obscura região de seu eu a menina ficou intacta e agora ela, a Alejandra de dezoito anos, calada e atenta, tentando não afugentar a aparição, afasta-se um pouco e a observa com cautela e curiosidade. É um jogo a que se dedica com freqüência quando reflete sobre seu destino. Mas é um jogo árduo, permeado de dificuldades, tão delicado e propenso à frustração como, dizem os espíritas, são as materializações: é preciso saber esperar, ter paciência e saber concentrar-se com força, longe dos pensamentos secundários ou frívolos. A sombra vai emergindo pouco a pouco e é preciso facilitar sua aparição mantendo um silêncio total e uma grande delicadeza: qualquer coisinha e ela bate em retirada, desaparecendo na região de onde começava a sair. Agora está ali: já saiu e pode-se vê-la com suas tranças ruivas e suas sardas, observando tudo ao redor com aqueles olhos desconfiados e concentrados, pronta para a luta e o insulto. Alejandra olha-a com esse misto de ternura e rancor que se tem pelos irmãos mais moços, em quem descarregamos a raiva acumulada por causa de nossos próprios defeitos, gritando: “Não roa as unhas, seu besta!”.

 

— Na rua Isabel, la Católica, há uma casa em ruínas. Ou melhor, havia, pois faz pouco a demoliram para construir uma fábrica de geladeiras. Fazia anos e anos que estava desocupada, por uma questão judicial ou uma herança. Acho que era dos Miguens, uma quinta que antigamente deve ter sido muito bonita, igual a esta. Lembro que tinha umas paredes verde-claras, verde-mar, todas descascadas, como se tivessem lepra. Eu estava muito excitada, e a idéia de fugir e me esconder numa casa abandonada me dava uma sensação de poder, talvez como a que devem ter os soldados ao se lançarem no ataque, apesar do medo ou por uma espécie de manifestação oposta ao medo. Li algo sobre isso em algum lugar, você não? Digo-lhe isso porque de noite eu sofria grandes terrores, portanto você pode imaginar o que me esperava numa casa abandonada. Eu enlouquecia, via bandidos entrando no meu quarto com lanternas, ou gente da Mazorca com cabeças sangrentas na mão (Justina sempre nos contava histórias da Mazorca). Caía em poços de sangue. Nem sei se via tudo aquilo dormindo ou acordada; acho que eram alucinações, que eu via acordada, pois me lembro delas como se agora mesmo as estivesse vivendo. Então dava gritos, até que a vó Elena corria e me acalmava aos poucos, pois durante bastante tempo eu continuava sacudindo a cama com meus tremores; eram ataques, verdadeiros ataques.

Portanto, planejar o que eu planejava, esconder-me de noite numa casa deserta e em ruínas era um ato de loucura. E agora acho que planejei isso para que minha vingança fosse mais atroz. Sentia que era uma bela vingança e que seria mais bonita e mais violenta ainda quanto mais terríveis fossem os perigos a enfrentar, entende? Como se eu pensasse, e talvez tenha pensado, “vejam o que estou sofrendo por culpa de meu pai!”. É curioso, mas desde aquela noite meu pavor noturno se transformou, de uma só vez, numa valentia alucinante. Não acha curioso? Como se explicará esse fenômeno? Era uma espécie de arrogância louca, como lhe disse, diante de qualquer perigo, real ou imaginário. É verdade que eu sempre tinha sido ousada e nas férias que passava na casa de campo das Carrasco, umas solteironas amigas da vó Elena, me acostumara a experiências muito duras: corria por terrenos agrestes e galopava em cima de uma egüinha que tinham me dado e que eu mesma havia batizado com um nome que me agradava: Desprezo. E não sentia medo das lebres, embora várias vezes tenha caído por causa das tocas. Tinha uma espingarda calibre 22, para caçar, e um pequeno revólver de uma só bala. Sabia nadar muito bem e, apesar de todas as recomendações e das promessas, saía para nadar mar afora e mais de uma vez tive de lutar contra a correnteza (ia esquecendo de dizer que a casa das velhotas Carrasco dava para a praia, perto de Miramar). Mas, apesar de tudo, de noite eu tremia de medo dos monstros imaginários. Bem, como eu ia dizendo, resolvi fugir e esconder-me na casa da rua Isabel, la Católica. Esperei anoitecer para poder trepar na grade sem ser notada (a porta estava fechada com cadeado). Mas provavelmente alguém me viu, e embora de início não tenha dado importância, pois, como você pode imaginar, mais de um garoto curioso teria feito antes o que eu estava fazendo naquele momento, depois, quando o boato correu pelo bairro e a polícia foi chamada, o homem deve ter se lembrado e dado a informação. Mas, se as coisas se passaram assim, deve ter sido muitas horas depois de minha escapada, pois a polícia apareceu no casarão às onze. Portanto, tive tempo à vontade para enfrentar o terror. Mal pulei a grade, fui até os fundos contornando a casa, pela antiga entrada de automóveis, no meio do mato e das latas velhas, do lixo e de gatos ou cachorros mortos e hediondos. Estava esquecendo de contar que também tinha levado minha lanterna, minha faquinha de acampamento e o revolverzinho que o vô Pancho me deu de presente quando fiz dez anos. Como lhe dizia, contornei a casa pela entrada dos carros e assim cheguei aos fundos. Tinha uma galeria parecida com a daqui. As janelas que davam para essa varanda ou corredor estavam com as persianas fechadas, mas eram persianas podres, algumas quase arrancadas ou arrebentadas. Muito provavelmente a casa tinha sido usada por mendigos ou vagabundos para passar a noite e até uma boa temporada. E quem me garantia que nessa mesma noite alguns deles não fossem dormir lá? Com minha lanterna fui percorrendo as janelas e portas que davam para a parte de trás, até que vi uma porta cuja persiana estava sem uma folha. Empurrei e a porta abriu, embora com dificuldade, rangendo, como se fizesse muito tempo que não fosse aberta. Apavorada, pensei na mesma hora que nem os vagabundos teriam se atrevido a se refugiar naquela casa mal-afamada. Hesitei um instante e achei melhor não entrar na casa e passar a noite no corredor. Mas fazia muito frio. Tinha de entrar e inclusive fazer um fogo, como havia observado em tantas fitas de cinema. Achei que a cozinha seria o lugar mais adequado, pois ali, em cima do piso de cerâmica, poderia fazer uma boa fogueira. Também tinha a esperança de que o fogo afugentasse os ratos, bichos que sempre me deram nojo. Como todo o resto da casa, a cozinha estava caindo aos pedaços. Não tive coragem de me deitar no chão, nem amontoando palha, pois imaginei que ali era mais fácil algum rato se aproximar. Achei melhor deitar em cima do fogão. Era uma cozinha de tipo antigo, parecida com a que nós temos e com essas que a gente ainda encontra em certas chácaras, com fogões de carvão e de lenha. Quanto ao resto da casa, eu exploraria no dia seguinte: naquele momento, de noite, não tinha coragem de percorrê-la, e, pensando bem, isso não fazia o menor sentido. Minha primeira tarefa foi juntar lenha no jardim, quer dizer: pedaços de caixotes, madeiras soltas, palha, papéis, galhos caídos e ramos de uma árvore seca que encontrei. Com tudo isso armei uma fogueira perto da porta da cozinha, para não encher de fumaça o interior. Depois de algumas tentativas, deu tudo certo, e, mal vi as chamas, no meio da escuridão, tive uma sensação de calor físico e espiritual. Em seguida tirei da minha sacola as coisas para comer. Sentei em cima de um caixote, perto da fogueira, e comi com gosto um salaminho e pão com manteiga, e depois doce de batata. Meu relógio acabava de marcar oito horas! Não queria pensar no que me esperava nas longas horas da noite.

A polícia chegou às onze. Não sei se, como lhe disse, alguém teria visto um garoto trepando na grade. Também pode ser que um vizinho tenha visto o fogo ou a fumaça da fogueira, ou meus movimentos ali dentro com a lanterna. O fato é que a polícia chegou, e devo confessar que foi com alegria que a vi chegar. Se eu tivesse de passar lá a noite inteira, quando todos os ruídos de fora vão desaparecendo e você tem de verdade a sensação de que a cidade dorme, acho que talvez tivesse enlouquecido com a corrida dos ratos e gatos, com o assobio do vento e os barulhos que minha imaginação também podia atribuir a fantasmas. Portanto, quando a polícia chegou eu estava acordada, acuada em cima do fogão e tremendo de medo.

Você pode imaginar a cena na minha casa, quando me levaram. O vô

Pancho, coitado, estava com os olhos cheios de lágrimas e não parava de me perguntar por que eu tinha feito uma loucura dessas. A vó Elena me repreendia e ao mesmo tempo me acariciava, histérica. Quanto a tia Teresa, na verdade tia-avó, que passava o tempo nos velórios e na sacristia, gritava que deviam me pôr o quanto antes no internato, na escola da avenida Montes de Oca. Os conciliábulos devem ter continuado boa parte da noite, pois eu os ouvia discutirem lá na sala. No dia seguinte eu soube que a vó Elena acabara aceitando o ponto de vista de tia Teresa, em primeiro lugar, agora acredito, por achar que eu poderia repetir a barbaridade a qualquer momento e também por saber que eu gostava muito da irmã Teodolina. Diante disso, é claro, neguei-me a dizer qualquer coisa e fiquei o tempo todo trancada no quarto. Mas, no fundo, não me desagradou a idéia de ir embora desta casa: imaginava que assim meu pai sentiria mais minha vingança.

Não sei se foi minha entrada para o colégio, minha amizade com a irmã Teodolina ou a crise, ou tudo junto. Mas me lancei na religião com a mesma paixão com que nadava ou corria a cavalo: como se jogasse com minha vida. Desde esse momento até completar quinze anos. Foi uma espécie de loucura, a mesma fúria com que nadava de noite no mar, em noites de tempestade, como se nadasse furiosamente numa grande noite religiosa, no meio de trevas, fascinada pela grande tempestade interior.

Ali está o padre Antonio: fala da Paixão e descreve com fervor os sofrimentos, a humilhação e o sangrento sacrifício da Cruz. O padre Antonio é alto e, estranho, parece com o pai dela. Alejandra chora, primeiro em silêncio, e depois seu pranto torna-se violento e finalmente convulso. Foge. As freiras correm assustadas. Vê diante de si a irmã Teodolina, consolando-a, e depois se aproxima o padre Antonio, que também tenta consolá-la. O chão começa a se mexer, como se ela estivesse num bote. O chão ondula como um mar, o aposento cresce cada vez mais, e em seguida tudo começa a rodar: primeiro com lentidão e depois vertiginosamente. Transpira. O padre Antonio se aproxima, sua mão agora é gigantesca, sua mão se aproxima de sua face como um morcego quente e asqueroso. Então cai fulminada por uma grande descarga elétrica.

— O que houve, Alejandra? — gritou Martín, atirando-se sobre ela.

Tinha desabado e continuava rígida, no chão, sem respirar, o rosto ficando roxo, e de repente teve convulsões.

— Alejandra! Alejandra!

Mas ela não o ouvia, nem sentia seus braços: gemia e mordia os lábios.

Até que, como uma tempestade no mar que pouco a pouco se acalma, seus gemidos foram espaçando e ficando mais suaves, queixosos, seu corpo foi serenando e finalmente amoleceu, como que morto. Então Martín pegou-a no colo e levou-a para o quarto, pondo-a na cama. Depois de uma hora ou mais Alejandra abriu os olhos, mirou ao redor, meio embriagada. Depois sentou-se, passou as mãos no rosto, como se quisesse se refazer, e ficou bastante tempo calada. Parecia estar imensamente cansada.

Em seguida se levantou, pegou uns comprimidos e tomou.

Martín a observava, assustado.

— Não fique com essa cara. Se você vai ser meu amigo terá de se acostumar com tudo isso. Não é nada grave.

Apanhou um cigarro na mesinha e começou a fumar. Por longo tempo descansou em silêncio. Afinal perguntou:

— De que eu estava falando?

Martín recordou.

— Eu perco a memória, sabe.

Ficou pensativa, fumando, e prosseguiu:

— Vamos lá para fora, quero tomar ar.

Acotovelaram-se no parapeito da varanda.

— Quer dizer que eu estava falando daquela fuga.

Fumou em silêncio.

— Comigo, eles não tinham refresco, dizia a irmã Teodolina. Eu me torturava dias inteiros analisando meus sentimentos, minhas reações. Desde o que me aconteceu com o padre Antonio iniciei uma série de mortificações: ajoelhava-me horas a fio em cima de vidros quebrados, deixava cair a cera ardente dos círios em minhas mãos, até cortei meu braço com uma lâmina de barbear. E quando a irmã Teodolina, chorando, resolveu me obrigar a lhe dizer por que eu tinha me cortado, não abri a boca, e na verdade eu mesma não sabia, e acho que ainda não sei. Mas a irmã Teodolina me dizia que não devia fazer essas coisas, que Deus não gostava desses excessos e que nessas atitudes também havia um enorme orgulho satânico. Bela novidade! Mas aquilo era mais forte, mais invencível que qualquer argumentação. Você vai ver como terminou toda essa loucura.

Ficou pensativa.

— Que curioso — disse um instante depois —, tento lembrar como se passou aquele ano e só consigo recordar cenas soltas, uma ao lado da outra. Acontece o mesmo com você? Agora eu sinto o passar do tempo, como se ele corresse por minhas veias, junto com o sangue e a pulsação. Mas quando tento lembrar o passado não sinto o mesmo: vejo cenas esparsas, paradas como em fotografias.

 

Sua memória é feita de fragmentos de existência, estáticos e eternos: de fato, o tempo não passa entre eles, e coisas que ocorreram em épocas muito distantes entre si estão umas junto das outras, ligadas ou reunidas por estranhas antipatias e simpatias. Ou talvez venham à tona da consciência unidas por laços absurdos mas poderosos, como uma canção, uma brincadeira ou um ódio comum. Assim como agora, para ela, o fio que as une e vai fazendo-as sair uma após outra é certa fúria na busca de algo absoluto, certa perplexidade, que une palavras como pai, Deus, praia, pecado, pureza, mar, morte.

 

— Vejo-me num dia de verão e ouço a vó Elena dizendo: “Alejandra tem de ir para o campo, precisa sair daqui, tomar ar”. Curioso: lembro que nesse momento a vó tinha um dedal de prata na mão.

Riu.

— Por que está rindo? — perguntou Martín, intrigado.

— Nada, nada importante. Então me mandaram para a casa das velhotas Carrasco, parentes distantes da vó Elena. Não sei se lhe disse que ela não era da família Olmos, mas se chamava Lafitte. Era uma mulher boníssima e se casou com meu avô Patricio, filho de don Pancho. Um dia vou lhe contar uma coisa do avô Patricio, que morreu. Bem, como eu dizia, as Carrasco eram primas em segundo grau da vó Elena. Eram solteironas, eternas, até seus nomes pareciam absurdos: Ermelinda e Rosalinda. Eram umas santas e na verdade, para mim, tão indiferentes como uma lousa de mármore ou uma caixa de costura; nem as ouvia quando falavam. Eram tão puras que, se conseguissem enxergar um só segundo dentro da minha cabeça, teriam morrido de susto. Então, eu gostava de ir para a casa delas no campo: tinha toda a liberdade que queria e podia correr com minha egüinha até a praia, pois a casa das velhas dava para o oceano, um pouco ao sul de Miramar. Além disso, morria de vontade de ficar sozinha, nadar, correr com a tordilha, sentir-me só diante da imensidão da natureza, bem longe da praia onde se amontoavam todas as pessoas imundas que eu odiava. Fazia um ano que não via Marcos Molina, e essa perspectiva também me interessava. Tinha sido um ano tão importante! Queria contar a ele minhas novas idéias, comunicar-lhe um projeto grandioso, injetar-lhe minha fé ardorosa. Todo o meu corpo estourava de vigor, e, se sempre fui meio selvagem, naquele verão o vigor parecia ter se multiplicado, embora em outra direção. Naquele verão Marcos sofreu um bocado. Tinha quinze anos, um mais que eu. Era simpático, muito atlético. Na verdade, pensando nisso agora, ele será um excelente pai de família e com toda a certeza dirigirá uma seção da Ação Católica. Não pense que era tímido, mas do tipo bom moço, católico bobalhão: de boa-fé e bastante simples e sossegado. Então, imagine o seguinte: mal cheguei ao campo, agarrei-o e comecei a tentar convencê-lo de irmos para a China ou o Amazonas assim que tivéssemos dezoito anos. Como missionários, entende? Saíamos a cavalo, bem longe, pela praia, para o sul. Às vezes íamos de bicicleta ou andávamos durante horas. E com longos discursos, cheios de entusiasmo, eu tentava convencê-lo da grandeza de uma atitude assim. Falava do padre Damien e de seu trabalho com os leprosos na Polinésia, contava-lhe histórias de missionários na China e na África, e a história das freiras que os índios sacrificaram no Mato Grosso. Para mim, o maior prazer seria morrer dessa forma, martirizada. Eu imaginava como os selvagens nos pegavam, me despiam e me amarravam com cordas numa árvore, e depois, entre gritos e danças, se aproximavam com uma faca de pedra, afiada, me abriam o peito e arrancavam meu coração sangrando.

Alejandra calou-se, reacendeu o cigarro apagado e prosseguiu:

— Marcos era católico, mas me escutava mudo. Até que um dia terminou me confessando que esses sacrifícios de missionários que morriam e sofriam o martírio pela fé eram admiráveis, mas que ele não se sentia capaz de passar por isso. E que, de toda maneira, achava ser possível servir a Deus de outro jeito mais modesto, sendo uma boa pessoa e não fazendo mal a ninguém. Essas palavras me irritaram. “Você é um covarde!”, gritei-lhe com raiva. Essas cenas, com ligeiras variantes, se repetiram duas ou três vezes. Ele ficava mortificado, humilhado. Eu, nessa hora, saía de perto dele e, dando um puxão na minha tordilha, retornava num galope desembestado, furiosa e cheia de desprezo por aquele pobre-diabo. Mas no dia seguinte voltava à carga, mais ou menos sobre o mesmo assunto. Até hoje não entendo a razão de minha obstinação, já que Marcos não me despertava nenhum tipo de admiração. Mas a verdade é que eu estava obcecada e não lhe dava trégua.

— Alejandra — me dizia com gentileza, pondo sua mão grande no meu ombro —, agora pare de pregar e vamos cair no mar.

— Não! Um momento! — eu exclamava, como se ele estivesse querendo fugir de um compromisso prévio. E de novo a mesma história.

Às vezes lhe falava de casamento.

— Nunca me casarei — eu lhe explicava. — Quer dizer, nunca terei filhos, se me casar.

Na primeira vez em que eu disse isso, ele me olhou estranhando.

— Você sabe como é que a gente tem filhos? — perguntei.

— Mais ou menos — respondeu, enrubescendo.

— Bem, se sabe, entenderá que é uma safadeza.

Disse essas palavras firmemente, quase com raiva, e como se fossem mais um argumento a favor da minha teoria sobre as missões e o sacrifício.

— Vou-me embora, mas preciso ir embora com alguém, entende? Tenho de me casar com alguém, pois do contrário irão me buscar com a polícia e não poderei sair do país. Por isso pensei que poderia me casar com você. Olhe: agora estou com catorze anos e você com quinze. Quando eu tiver dezoito termino o colégio e nos casamos, com autorização do juiz de menores. Ninguém pode nos proibir esse casamento. E em último caso nós fugimos e aí terão de aceitar. Então vamos para a China ou para o Amazonas. Que tal? Mas só nos casamos para poder ir embora tranqüilos, entende? Viveremos sempre juntos, percorreremos países selvagens mas nem nos tocaremos. Não é lindo?

Olhou-me assombrado.

— Não devemos fugir do perigo — prossegui. — Devemos enfrentá-lo e vencê-lo. Não vá pensar o contrário, tenho tentações, mas sou forte e capaz de dominá-las. Imagine que lindo vivermos juntos anos a fio, deitados na mesma cama, até quem sabe nos vendo nus, e vencer a tentação de nos tocarmos e beijarmos?

Marcos me olhava assustado.

— Acho uma loucura tudo o que você está dizendo — comentou. — Além do mais, Deus não manda ter filhos no casamento?

— Estou lhe dizendo que nunca terei filhos! — gritei. — E fique sabendo que nunca você me tocará e que ninguém, ninguém me tocará!

Tive uma explosão de ódio e comecei a me despir.

— Agora você vai ver! — gritei, como que desafiando-o.

Eu tinha lido que os chineses impedem o crescimento dos pés de suas mulheres metendo-os em fôrmas de ferro e que os sírios, acho, deformam a cabeça de seus filhos, enfaixando-as. Quando meus seios começaram a crescer, passei a usar uma tira larga que cortei de um lençol, de uns três metros de comprimento: dava várias voltas, apertando-me tremendamente. Mas o peito cresceu assim mesmo, como essas plantas que nascem nas frestas das pedras e terminam rachando-as. Portanto, depois de tirar a blusa, a saia e a calcinha, comecei a tirar a faixa. Marcos, horrorizado, não conseguia deixar de olhar meu corpo. Parecia um pássaro fascinado por uma serpente.

Quando fiquei nua, deitei na areia e o desafiei:

— Ande, dispa-se você agora! Prove que é um homem!

— Alejandra! — Marcos balbuciou. — Tudo o que você está fazendo é uma loucura e um pecado!

Repetiu como um gago que era um pecado, várias vezes, sem parar de me olhar, e eu, de meu lado, continuava chamando-o de maricas, aos gritos, com desprezo cada vez maior. Até que, apertando os maxilares e com raiva, começou a se despir. Mas, quando ficou nu, parecia ter perdido toda a sua energia, pois ficou paralisado, olhando-me com medo.

— Deite-se aqui — mandei.

— Alejandra, é uma loucura e um pecado.

— Ande, deite-se aqui! — mandei mais uma vez.

Terminou me obedecendo.

Ficamos os dois olhando o céu, deitados de costas na areia quente, um ao lado do outro. Fez-se um silêncio angustiante, podíamos ouvir o marulho das ondas batendo nas estacas. Senti a respiração de Marcos, que parecia ter corrido um longo percurso.

— Viu como é simples? — comentei. — Poderemos ficar sempre assim.

— Nunca, nunca! — Marcos gritou, enquanto se levantava com violência, como se fugisse de um grande perigo.

Vestiu-se depressa, repetindo “nunca, nunca! Você está maluca, está completamente maluca!”.

Eu não disse nada, mas sorria satisfeita. Sentia-me poderosíssima.

E como quem não quer nada, limitei-me a dizer:

— Se você encostasse em mim, eu o mataria com a minha faca.

Marcos ficou paralisado de horror. Depois, de repente, saiu correndo para o lado de Miramar.

Deitada de lado, vi-o se afastando. Depois me levantei e corri para a água. Nadei por muito tempo, sentindo a água salgada envolver meu corpo nu. Cada partícula de minha carne parecia vibrar com o espírito do mundo.

Por vários dias Marcos desapareceu de Piedras Negras. Pensei que estava assustado, ou talvez tivesse adoecido. Mas uma semana depois reapareceu, timidamente. Fingi que nada tinha acontecido e saímos para andar, como outras vezes. Até que de repente lhe disse:

— E aí, Marcos? Pensou no casamento?

Marcos parou, olhou-me seriamente e me disse, com firmeza:

— Casarei com você, Alejandra. Mas não do jeito que você diz.

— Hein? — exclamei. — O que disse?

— Que casarei para ter filhos, como todo mundo faz.

Senti que meus olhos ficavam vermelhos, ou então vi tudo vermelho. Sem me dar conta, lancei-me para cima de Marcos. Caímos no chão, brigando. Ainda que Marcos fosse forte e tivesse um ano mais que eu, no início lutamos de igual para igual, acho que porque minha fúria multiplicava minha força. Lembro que de repente até consegui botá-lo embaixo de mim e dei-lhe umas joelhadas na barriga. Meu nariz sangrava, grunhíamos como dois inimigos mortais. Marcos finalmente fez um grande esforço e se soltou. De repente estava em cima de mim. Senti que suas mãos me apertavam e que ele torcia meus braços como tenazes. Foi me dominando e senti seu rosto cada vez mais perto do meu. Até que me beijou.

Mordi seus lábios e ele se afastou gritando de dor. Soltou-me e saiu correndo.

Levantei-me, mas, estranho, não o persegui: fiquei petrificada, vendo-o se afastar. Passei a mão na boca e esfreguei os lábios, como querendo limpá-los da sujeira. E aos poucos senti que a fúria voltava a subir em mim como água fervendo na chaleira. Então tirei a roupa e corri para a água. Nadei muito tempo, horas talvez, afastando-me da praia, mar adentro.

Sentia uma estranha volúpia quando as ondas me levantavam. Sentia-me ao mesmo tempo poderosa e solitária, desgraçada e possuída pelos demônios. Nadei. Nadei até sentir que as forças se esgotavam. Então comecei a dar braçadas para a praia.

Fiquei muito tempo descansando, de costas, na areia quente, observando as gaivotas que planavam. Lá no alto, nuvens tranqüilas e imóveis davam ao anoitecer uma sensação de calma absoluta, enquanto meu espírito era um torvelinho, e ventos furiosos o agitavam e dilaceravam: olhando para dentro de mim, parecia ver minha consciência como um barquinho sacudido por uma tempestade.

Voltei para casa quando já era noite, com uma raiva indefinida, contra tudo e contra mim mesma. Senti-me cheia de idéias criminosas. Odiava uma coisa: ter tido prazer naquela luta e naquele beijo. Já na cama, de costas, olhando para o teto, continuava dominada por uma sensação indefinida que arrepiava minha pele como se eu tivesse febre. O engraçado é que quase não me lembrava de Marcos como Marcos (na verdade, já lhe disse que o achava bastante sem graça e nunca o admirei): era mais uma confusa sensação na pele e no sangue, a lembrança de braços me apertando, a lembrança de um peso sobre meus seios e minhas coxas. Não sei como explicar, mas era como se lutassem dentro de mim duas forças opostas, e essa luta, que eu não conseguia entender, me angustiava e enchia de ódio. E o ódio parecia alimentado pela mesma febre que arrepiava minha pele e se concentrava no bico de meus seios.

Não conseguia dormir. Olhei o relógio: perto de meia-noite. Quase sem pensar, me vesti e pulei, como outras vezes, pela janela do quarto, para o jardinzinho. Não sei se lhe disse que as Carrasco também tinham uma casinha em Miramar mesmo, onde às vezes passavam semanas ou fins de semana. Nessa época, estávamos ali.

Quase correndo fui até a casa de Marcos (embora tivesse jurado nunca mais vê-lo).

O quarto dele dava para a rua, no andar de cima. Assobiei, como outras vezes, e esperei.

Não respondia. Catei uma pedrinha na rua e joguei-a na janela, que estava aberta, e tornei a assobiar. Finalmente ele apareceu e me perguntou, assustado, o que havia.

— Desça — disse. — Quero falar com você.

Acho que até esse momento eu não havia entendido que queria matá-lo, se bem que, por precaução, tivesse levado minha faca de mato.

— Não posso, Alejandra — respondeu. — Meu pai está muito zangado e se ouvir barulho vai ser pior.

— Se não descer — respondi com rancorosa calma — vai ser muito pior, porque eu é que vou subir.

Hesitou um instante, mediu talvez as conseqüências que lhe podia trazer minha intenção de subir e então me disse para esperar.

Dali a pouco saiu pela porta dos fundos.

Comecei a caminhar na frente dele.

— Aonde você vai? — perguntou alarmado. — O que pretende?

Não respondi e prossegui até chegar a um terreno baldio a meia quadra da casa dele. Marcos continuava andando atrás, como arrastado.

Então me virei bruscamente e disse:

— Por que você me beijou hoje?

Minha voz, minha atitude, sei lá mais o quê, deve tê-lo impressionado, pois quase não conseguia falar.

— Responda — disse-lhe com energia.

— Desculpe — balbuciou —, fiz sem querer...

Talvez tenha conseguido vislumbrar o brilho da lâmina, talvez tenha sido apenas o instinto de sobrevivência, mas quase no mesmo instante lançou-se em cima de mim e, com as duas mãos, agarrou meu braço direito, forçando-me a largar a faquinha. Finalmente conseguiu arrancá-la e jogou-a longe, no meio do mato. Corri e, chorando de raiva, comecei a procurá-la, mas era absurdo tentar encontrá-la naquele matagal, e de noite. Então saí correndo para o mar: tive vontade de sair mar afora e me deixar afogar. Marcos correu atrás, talvez desconfiando de minha intenção, e de repente senti que me dava uma pancada atrás da orelha. Desmaiei. Segundo soube depois, ele me pegou no colo e me levou para a casa das Carrasco, deixando-me na porta e tocando a campainha, até que viu que acendiam as luzes e iam abrir, e nesse momento fugiu. À primeira vista, pode se pensar que isso fosse uma monstruosidade, pelo escândalo que provocaria. Mas o que Marcos podia fazer? Se tivesse ficado, comigo desmaiada a seu lado, à meia-noite, quando as velhas acreditavam que eu estava na cama dormindo, já imaginou a cena armada? Ao fim e ao cabo, ele fez o mais certo. Seja como for, você pode imaginar o escândalo. Quando voltei a mim, estavam as duas Carrasco, a criada e a cozinheira, todas em cima, com água-de-colônia, leques, sei lá mais o quê. Choravam e se lamentavam como se estivessem diante de uma tragédia abominável. Interrogavam-me, davam gritinhos, faziam o sinal-da-cruz, diziam meu Deus, davam ordens etc.

Foi uma catástrofe.

Como você pode imaginar, neguei-me a dar explicações.

Veio a vó Elena, consternada, e, em vão, tentou arrancar de mim o que havia por trás de tudo. Tive uma febre que durou quase todo o verão.

Em fins de fevereiro comecei a me levantar.

Mas eu andava quase muda e não falava com ninguém. Neguei-me a ir à igreja, pois só a idéia de confessar meus pensamentos recentes me horrorizava.

Quando voltamos para Buenos Aires, tia Teresa (não sei se já lhe falei dessa velha histérica, que passava a vida entre velórios e missas, sempre falando de doenças e tratamentos), tia Teresa disse, quando me viu na sua frente:

— Você é o retrato de seu pai. Vai ser uma perdida. Alegro-me que não seja minha filha.

Saí feito uma fúria contra a velha louca. Mas, estranho, minha fúria maior não era contra ela, e sim contra meu pai, como se a frase de minha tia-avó tivesse ferido a mim, como se um bumerangue tivesse atingido meu pai e, finalmente, caído novamente em cima de mim.

Disse a vó Elena que queria ir para o colégio, que não dormiria nem um dia naquela casa. Prometeu falar com a irmã Teodolina para conseguir que me recebessem antes do início do ano letivo. Não sei o que as duas terão conversado, mas o fato é que encontraram uma fórmula. Na mesma noite me ajoelhei diante da cama e pedi a Deus que fizesse a tia Teresa morrer. Pedi com uma devoção feroz e repeti o pedido por vários meses, toda noite, ao me deitar e também em minhas longas horas de oração na capela. Enquanto isso, e apesar de toda a insistência da irmã Teodolina, neguei-me a me confessar: minha idéia, bastante astuciosa, era primeiro conseguir a morte da tia, e depois me confessar; pois (pensava) se me confessasse antes teria de dizer o que planejava e seria obrigada a desistir.

Mas tia Teresa não morreu. Ao contrário, quando voltei para casa nas férias a velha parecia mais saudável que nunca. Porque vou lhe avisando que, embora vivesse se queixando e tomando comprimidos de todas as cores, tinha uma saúde de ferro. Vivia falando de doentes e mortos. Entrava na sala de jantar ou no salão dizendo entusiasmada:

— Adivinhem quem morreu.

Ou comentando com um misto de arrogância e ironia:

— Inflamação no fígado...! Quando eu lhes dizia que isso era câncer! Um tumor de três quilos, nada menos!

E corria ao telefone a fim de dar a notícia com esse fervor todo seu para anunciar catástrofes. Discava o número e sem perder tempo, para dar a notícia ao maior número de pessoas no menor tempo possível (pois se outro passasse na sua frente!), dizia telegraficamente “Josefina? Pipo câncer”, e assim com Maria Rosa, Beba, Naní, Maria Magdalena, Maria Santísima. Bem, como lhe disse, ao vê-la com tanta saúde, todo o ódio se virou contra Deus. Era como se Ele tivesse me tapeado, e ao senti-Lo, de certo modo, do lado de tia Teresa, dessa velha histérica e de mau coração, achava que os dois se pareciam. De repente, toda a paixão religiosa se inverteu, com força idêntica. Tia Teresa dissera que eu ia ser uma perdida, portanto Deus também pensava isso, e não só pensava mas, com toda certeza, desejava. Comecei a planejar a vingança, e, como se Marcos Molina fosse o representante de Deus na Terra, imaginei o que faria com ele assim que chegasse a Miramar. Enquanto isso, concluí umas tarefas menores: quebrei o crucifixo que havia em cima da minha cama, joguei as gravuras religiosas no vaso sanitário e me limpei com o vestido de primeira comunhão como se fosse papel higiênico, jogando-o no lixo depois.

Soube que os Molina já tinham ido para Miramar e então convenci a vó

Elena a telefonar para as velhotas Carrasco. Saí no dia seguinte, cheguei a Miramar quase na hora do almoço e tive de seguir até a fazenda no automóvel que me esperava, sem poder ver Marcos nesse dia.

De noite não consegui dormir.

 

O calor é insuportável e pesado. A lua, quase cheia, está rodeada por um halo amarelento como pus. O ar está carregado de eletricidade e nem uma folha se mexe: tudo anuncia a tempestade. Alejandra dá voltas e voltas na cama, nua e sufocada, tensa com o calor, a eletricidade e o ódio. A luz do luar é tão intensa que no quarto tudo é visível. Alejandra se aproxima da janela e olha seu reloginho: duas e meia. Então olha para fora: o campo está iluminado como num cenário noturno de teatro; o morro, imóvel e silencioso, parece encerrar grandes segredos; o ar está entranhado de um perfume quase insuportável de jasmins e magnólias. Os cachorros estão nervosos, latem intermitentemente e suas respostas se afastam e se reaproximam, em fluxos e refluxos. Há algo de malsão na luz amarelenta e pesada, algo radiativo e perverso. Alejandra respira com dificuldade e sente que seu quarto a esmaga. Então, num impulso irresistível, pula pela janela. Caminha pela relva do parque, e o Milord sente sua presença e abana o rabo. Sente na planta dos pés o contato úmido e áspero-suave da relva. Afasta-se para os lados do morro, e quando está longe de casa joga-se na grama, abrindo o mais possível braços e pernas. A lua bate em cheio em seu corpo nu e ela sente a pele estremecida pela relva. Assim permanece longo tempo: está como que embriagada e não tem nenhuma idéia precisa na cabeça. Sente o corpo arder e passa as mãos pelos flancos, coxas, ventre. Só ao roçar os seios com as pontas dos dedos sente que toda a sua pele se arrepia e estremece como a pele dos gatos.

 

No dia seguinte, cedo, encilhei a petiça e corri até Miramar. Não sei se já lhe disse que meus encontros com Marcos eram sempre clandestinos, pois nem sua família podia me ver, nem eu os engolia. Suas irmãs, sobretudo, eram duas debilóides cuja aspiração máxima consistia em se casar com jogadores de pólo e aparecer o mais possível em Atlántida ou El hogar. Tanto Mónica como Patricia me detestavam, e os mexericos corriam soltos quando me viam com o irmãozinho. Portanto, meu sistema de comunicação com ele era assobiar debaixo da janela, quando imaginava que podia estar no quarto, ou deixar um recado com Lomónaco, o salva-vidas. Nesse dia, quando cheguei à casa dele, tinha saído, pois não respondeu a meus assobios. Então, fui até a praia e perguntei a Lomónaco se o tinha visto: me disse que tinha ido ao Dormy House e só voltaria de tarde. Pensei por instantes em ir buscá-lo, mas desisti porque ele me comunicou que as irmãs e outras amigas também tinham ido. O jeito era esperá-lo. Então lhe disse que o aguardaria em Piedras Negras às seis da tarde.

Bastante mal-humorada, voltei para a fazenda.

Depois da sesta fui com a petiça para Piedras Negras. E lá o esperei.

A tempestade que se anunciava desde a véspera foi se carregando durante o dia: o ar ia se transformando num fluido pesado e pegajoso, nuvens enormes surgiram de manhã a oeste e, durante a sesta, como saídas de um gigantesco e silencioso fervedouro, foram cobrindo todo o céu. Deitada à sombra de pinheiros, suada e irritada, Alejandra sente que o ar está se carregando minuto a minuto com a eletricidade que precede as grandes tempestades.

 

Meu descontentamento e minha irritação aumentavam à medida que a tarde ia passando, impaciente com a demora de Marcos. Até que afinal ele apareceu, quando a noite já estava chegando, precipitada pelas nuvens imensas que avançavam do oeste.

Chegou quase correndo e pensei: está com medo da tempestade. Ainda hoje me pergunto por que descarregava todo meu ódio a Deus em cima daquele pobre infeliz, que mais parecia digno de menosprezo. Não sei se porque era um tipo de católico que sempre achei muito representativo, ou porque era tão bom e portanto a injustiça de maltratá-lo tinha mais sabor. Também é possível que houvesse nele algo puramente animal, que me atraía, algo estritamente físico, é verdade, mas que aquecia o sangue.

— Alejandra — disse —, se vier a tempestade acho melhor voltarmos para Miramar.

Virei de lado e o olhei com desprezo.

— Mal chega — disse —, mal me vê, nem tenta saber por que o procurei e já está pensando em voltar para a casinha.

Sentei-me, para tirar minha roupa.

— Tenho muito o que falar com você, mas antes vamos nadar.

— Passei o dia todo na água, Alejandra. E além disso — acrescentou, apontando para o céu —, olhe o que está vindo aí.

— Não faz mal. Vamos nadar assim mesmo.

— Não trouxe o calção.

— Calção? — perguntei com ironia. — Eu também não tenho maiô.

Comecei a tirar o jeans.

Marcos, com uma firmeza que me chamou a atenção, disse:

— Não, Alejandra, vou embora. Não tenho calção e não nadarei nu com você.

Eu havia tirado o jeans. Parei em frente dele com aparente inocência e, como se não entendesse suas razões, disse:

— Por quê? Está com medo? Que tipo de católico é você que precisa estar vestido para não pecar? Quer dizer que nu você é outra pessoa?

Começava a tirar a calcinha, e acrescentei:

— Sempre achei que você fosse covarde, o típico católico covarde.

Sabia que isso ia ser decisivo. Marcos, que afastara os olhos de mim desde o instante em que resolvi tirar a calcinha, olhou-me, roxo de vergonha e raiva, e, apertando os maxilares, começou a se despir.

Crescera muito naquele ano, seu corpo de esportista se avolumara, agora sua voz era de homem e perdera os ridículos restos de criança que ainda tinha no ano anterior: estava com dezesseis anos, mas era muito forte e desenvolvido para a idade. Quanto a mim, eu abandonara a faixa absurda e meus seios tinham crescido livremente; também tinha alargado os quadris e sentia em todo o meu corpo uma força poderosa que me impelia a realizar atos extraordinários.

Desejando mortificá-lo, olhei-o minuciosamente quando ficou nu.

— Você já não é o pirralho do ano passado, hein?

Marcos, envergonhado, virara o corpo e estava quase de costas para mim.

— Até já faz barba.

— Não vejo nada de mais em fazer barba — comentou com raiva.

— Ninguém lhe disse que é feio. Observo simplesmente que você já faz barba.

Sem me responder, e talvez para não se ver obrigado a me olhar nua e a mostrar sua própria nudez, correu para a água, na hora em que um relâmpago iluminou todo o céu, como uma explosão. Então, como se esse estouro tivesse sido o sinal, raios e trovões começaram a se suceder. O cinza-chumbo do oceano foi escurecendo, ao mesmo tempo que a água se encapelava. O céu, coberto pelas sombrias nuvens imensas, era iluminado a todo instante como por flashes de uma imensa máquina fotográfica.

Sobre meu corpo tenso e vibrante começaram a cair os primeiros pingos de água: corri para o mar. As ondas batiam furiosas na costa.

Nadamos mar afora. As ondas me levantavam como uma pluma num vendaval e eu tinha uma prodigiosa sensação de força e ao mesmo tempo de fragilidade. Marcos não se afastava de mim e fiquei na dúvida se era de temor por si mesmo ou por mim.

Então gritou para mim:

— Vamos voltar, Alejandra! Já, já não saberemos nem onde está a praia!

— Sempre cauteloso! — gritei.

— Então volto sozinho!

Nada respondi e, aliás, já era impossível nos ouvirmos. Comecei a nadar para a costa. Agora as nuvens estavam pretas e, rasgadas pelos raios e trovões contínuos, pareciam vir rolando de longe para estourar sobre nossas cabeças.

Chegamos à praia. E corríamos para o lugar onde estava nossa roupa quando a tempestade se desencadeou enfim, em toda a sua fúria: um vento pampeiro selvagem e gelado varria a praia enquanto a chuva começava a cair em torrentes quase horizontais.

Era imponente: sozinhos, no meio de uma praia deserta, nus, sentindo sobre nossos corpos a água varrida pelo vendaval enlouquecido, na paisagem rugiente e iluminada por explosões.

Marcos, assustado, tentava se vestir. Caí em cima dele e arranquei sua calça.

E apertando-me contra ele, de pé, sentindo seu corpo musculoso e latejante contra meus seios e ventre, comecei a beijá-lo, a morder seus lábios, suas orelhas, a enfiar as unhas em suas costas.

Resistiu e lutamos mortalmente. Toda vez que conseguia afastar a boca da minha, resmungava palavras ininteligíveis, mas com certeza desesperadas. Até que consegui ouvi-lo gritar:

— Largue-me, Alejandra, largue-me pelo amor de Deus! Iremos os dois para o inferno!

— Imbecil! — respondi. — O inferno não existe! É uma história dos padres para enganar os trouxas iguais a você! Deus não existe!

Lutou com desesperada energia e afinal conseguiu arrancar-me de seu corpo.

À luz de um relâmpago vi em seu rosto a expressão de um horror sagrado. Com os olhos muito abertos, como se estivesse vivendo um pesadelo, gritou:

— Você está louca, Alejandra! Está completamente louca, está possuída pelo demônio!

— Eu rio do inferno, imbecil! Rio do castigo eterno!

Invadia-me uma energia atroz e ao mesmo tempo eu sentia um misto de força cósmica, ódio e inefável tristeza. Rindo e chorando, abrindo os braços, com essa teatralidade que temos na adolescência, gritei repetidas vezes para cima, desafiando Deus a me aniquilar com seus raios, se existisse.

 

Alejandra olha seu corpo nu, fugindo a toda velocidade, iluminado fragmentariamente pelos relâmpagos; grotesco e comovedor, pensa que nunca mais tornará a vê-lo.

O rugido do mar e da tempestade parecem pronunciar sobre ela obscuras e temíveis ameaças da Divindade.