Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 60 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 11

Acho que, por ressentimento, Norma apareceu um dia com um ser epiceno chamado Inés González Iturrat. Enorme e fortíssima, com um bigode visível, cabelo grisalho, vestia um tailleur e usava sapatos de homem. A não ser por seus seios volumosos, quem a visse de relance podia cometer o erro de chamá-la de “senhor”. Enérgica e eficaz, exercia um total domínio sobre Norma.

— Eu a conheço — disse eu.

— A mim? — ela comentou irritada e surpresa, como se essa possibilidade fosse uma ofensa; Norma, naturalmente, tinha lhe falado muito de mim.

No fundo, eu tinha a impressão de tê-la visto em algum lugar, mas só no final da conversa incômoda (eu precisava vigiar o número 57, escondido por seu corpanzil) esclareci o pequeno enigma.

Norma revelava desejos nervosos de que houvesse uma polêmica: suas repetidas derrotas comigo levavam-na a acalentar, com uma satisfação vingativa, a idéia de uma discussão catastrófica com o sábio atômico que estava na sua frente. Mas eu, que andava com a cabeça em outro lugar e não podia nem devia desviar a atenção do número 57, não mostrei o menor interesse em examinar aquela mercadoria. Infelizmente, como teria feito em outra ocasião, para mim era impossível me levantar.

O peito de Norma subia e descia como um fole.

— Inés foi minha professora de história, como eu já lhe disse.

— Sei, sei — comentei cortesmente.

— Somos um grupo de moças muito unidas e ela é a nossa mentora.

— Ótimo — disse no mesmo tom.

— Comentamos livros, vamos a exposições e conferências.

— Muito bem.

— Fazemos viagens de estudos.

— Magnífico.

Sua irritação ia aumentando. Já quase indignada, acrescentou:

— Agora estamos fazendo visitas comentadas às galerias de arte, com ela e o professor Romero Brest.

Olhou-me com olhos que cuspiam fogo, esperando meu comentário. Civilizadamente, disse:

— Que boa idéia!

Quase gritando, continuou:

— Você acha que as mulheres só devem lavar chão, esfregar pratos e cuidar do lar!

Um indivíduo carregando uma escada pareceu querer entrar no 57, mas ao verificar o número continuou até a porta seguinte. Com os nervos mais calmos, pedi-lhe que, por favor, repetisse a última observação, que eu não tinha ouvido bem. Ficou mais furiosa ainda.

— Claro! — exclamou. — Você nem me ouve! A que ponto minhas opiniões lhe interessam!

— Interessam muito.

— Farsante! Você me disse mil vezes que as mulheres são diferentes dos homens.

— Mais uma razão para que as opiniões delas me interessem. A gente sempre se interessa pelo que é diferente ou desconhecido.

— Ah, quer dizer que você admite que a mulher é completamente diferente do homem!

— Não precisa se exaltar por um fato tão evidente, Norma.

A professora de história, que acompanhara a cena com expressão duramente irônica, e avisada, como certamente estava, de que eu era um obscurantista, interveio:

— O senhor acha?

— Acho o quê? — perguntei com ingenuidade.

— Isso. Que seja evidente — sublinhou a palavra, mordaz — a diferença entre um homem e uma mulher.

— Todo mundo está de acordo de que entre um homem e uma mulher há certas diferenças apreciáveis — expliquei com calma.

— Não nos referimos a isso — retrucou a educadora, com fúria glacial. — E o senhor sabe muito bem.

— A isso? A isso, o quê?

— Ao sexo, ao que o senhor bem sabe — acrescentou, cortante.

Parecia uma faca afiadíssima e desinfetada.

— Acha pouco? — perguntei.

Eu estava ficando de bom humor, e, no fundo, elas atenuavam a minha espera. Só continuava a me incomodar essa vaga impressão de ter visto a professora em algum lugar e não conseguir me lembrar onde.

— Não é o mais importante! Estamos nos referindo a outra coisa, aos valores espirituais. E as diferenças que vocês estabelecem entre a atividade de um homem e de uma mulher são típicas de uma sociedade atrasada.

— Ah, já entendi — comentei com muita serenidade. — Para vocês a diferença entre o útero e o falo é um resquício dos Tempos Obscuros. Vai desaparecer, assim como a iluminação a gás e o analfabetismo.

A educadora ficou vermelha: essas frases não só a indignavam como a envergonhavam, não por ouvir “útero” e “falo” (tinha espírito científico, essas palavras não podiam perturbá-la mais do que “neutrino” ou “reação em cadeia”), mas por causa do mesmo mecanismo capaz de incomodar o professor Einstein se lhe perguntassem pelo funcionamento de seu intestino.

— Isso são frases feitas — declarou. — A verdade é que hoje a mulher compete com o homem em qualquer atividade. E isso é que faz os senhores perderem as estribeiras. Veja a delegação de mulheres norte-americanas que acaba de chegar: há três diretoras da indústria pesada.

Norma, tão feminina, olhou-me triunfante: do que o ressentimento é capaz! De certo modo, aqueles monstros a vingavam de seu servilismo na cama. O desenvolvimento da indústria metalúrgica dos Estados Unidos atenuava, em certo sentido, os gritos que dava nos momentos culminantes, o frenesi de sua entrega incondicional. A postura humilhante era contrabalançada pela petroquímica ianque.

Era verdade: agora, que me via obrigado a folhear os jornais, lembrava-me de ter visto a chegada daquela troupe.

— Também há mulheres que lutam boxe — comentei. — Agora, se essa monstruosidade anima vocês...

— O senhor chama de monstruosidade o fato de uma mulher chegar a ser membro da diretoria de uma grande indústria?

De novo fui obrigado a seguir, por cima dos ombros atléticos da senhorita González Iturrat, um transeunte suspeito. Essa atitude, perfeitamente explicável, aumentou a fúria da harpia.

— E também acha monstruoso — continuou, semicerrando insidiosamente os olhinhos — que na ciência se destaque um gênio como madame Curie?

Era inevitável.

— Um gênio — expliquei-lhe com calma didática — é alguém que descobre identidades entre fatos contraditórios, relações entre fatos aparentemente muito distantes. Alguém que revela a identidade na diversidade, a realidade sob a aparência. Alguém que descobre que a pedra que cai e a Lua que não cai são o mesmo fenômeno.

A educadora seguia meu raciocínio com olhinhos sarcásticos, como uma professora diante de um garoto mitômano.

— E é pouco o que madame Curie descobriu?

— Madame Curie, senhora, não descobriu a lei da evolução das espécies. Saiu com um rifle para caçar tigres e deparou com um dinossauro. Por esse critério também seria um gênio o primeiro marinheiro que avistou o cabo Horn.

— Diga o que quiser, mas a descoberta de madame Curie revolucionou a ciência.

— Se a senhora sair para caçar tigres e deparar com um centauro, também provocará uma revolução na zoologia. Mas não é esse o tipo de revolução provocada pelos gênios.

— A seu ver, a ciência é vedada à mulher.

— Não. Quando eu disse isso? Aliás, a química se aparenta com a cozinha.

— E a filosofia? Garanto que o senhor proibiria às moças entrarem na faculdade de filosofia e letras.

— Não, por quê? Não fazem mal a ninguém. E ali ainda encontram namorado e se casam.

— E a filosofia?

— Que estudem, se quiserem. Mal não vai lhes fazer. Bem tampouco, isso é verdade. Não lhes faz nada. Aliás, não há o menor perigo de se tornarem filósofas.

A senhorita González Iturrat gritou:

— O que acontece é que esta sociedade absurda não lhes dá as mesmas possibilidades que dá aos homens!

— Como? Se estamos dizendo que ninguém as impede de ir à faculdade de filosofia. Mais ainda: dizem-me que esse estabelecimento está cheio de mulheres. Ninguém as proíbe de fazer filosofia. Nunca ninguém as impediu de pensar, nem em casa nem fora de casa. Como se pode impedir que alguém pense? E a filosofia não exige mais do que cabeça e vontade de pensar. Agora, na época dos gregos e no século xxx. Eventualmente, uma sociedade poderia impedir que uma mulher publicasse um livro de filosofia: mediante a ironia, o boicote, em suma, algo assim. Mas impedir que pense? Como uma sociedade pode criar obstáculos à idéia do universo platônico na cabeça de uma mulher?

A senhorita González Iturrat explodiu:

— Com gente como o senhor o mundo nunca teria ido para a frente!

— E de onde deduz que foi para a frente?

Sorriu com desprezo.

— É evidente! Chegar a Nova York em vinte horas não é um progresso!

— Não vejo a vantagem de chegar logo a Nova York. Quanto mais demorar, melhor. Aliás, achei que a senhora se referia ao progresso espiritual.

— A tudo, meu senhor. O avião não é um acaso: é o símbolo do avanço geral. Inclusive dos valores éticos. Não venha me dizer que a moral da humanidade não é hoje superior à da sociedade escravista.

— Ah, a senhora prefere os escravos com salário.

— É fácil ser cínico. Mas qualquer um de boa-fé sabe que o mundo conhece hoje valores morais desconhecidos na Antiguidade.

— É, compreendo. Um assassino como Landru viajando de trem é superior a Diógenes viajando de trirreme.

— O senhor escolhe de propósito exemplos grotescos. Mas é evidente.

— Um comandante de Buchenwald é superior a um comandante das galés. É melhor matar os bichos humanos com bombas de napalm do que com arcos e flechas. A bomba de Hiroshima é mais benéfica do que a batalha de Poitiers. É mais progressista torturar com choque elétrico do que com ratos, à moda chinesa.

— Tudo isso são sofismas, porque são fatos isolados. A humanidade também vai superar essas barbaridades. E, no final, a ignorância terá de ceder, em toda a linha, à ciência e ao conhecimento.

— Atualmente, o espírito religioso é mais forte do que no século xix — notei com tranqüila maldade.

— No final, obscurantismos de todo tipo cederão. Mas a marcha do progresso não pode ocorrer sem pequenos retrocessos e ziguezagues. O senhor mencionou há pouco a teoria da evolução: um exemplo do que a ciência é capaz contra qualquer mito religioso.

— Não vejo os efeitos devastadores dessa teoria. Não acabamos de admitir que o espírito religioso se fortaleceu?

— Por outras razões. Mas liquidou definitivamente muitas bobagens, como a da criação em seis dias.

— Senhorita, se Deus é onipotente, que lhe custa criar o mundo em seis dias e distribuir uns esqueletos de megatérios por aí, a fim de pôr à prova a fé ou a estupidez dos homens?

— Ora! Não vá me dizer que está falando sério ao formular um sofisma desses. Aliás, há pouco estava elogiando o gênio que descobriu a teoria da evolução. E agora leva-a na brincadeira.

— Não levo na brincadeira. Digo, simplesmente, que não prova a existência de Deus nem refuta a criação do mundo em seis dias.

— Se fosse pelo senhor, não haveria nem escolas. Se não me engano, o senhor deve ser partidário do analfabetismo.

— A Alemanha em 1933 era um dos povos mais alfabetizados do mundo. Se as pessoas não soubessem ler, pelo menos não poderiam ser idiotizadas dia a dia pelos jornais e revistas. Infelizmente, mesmo que fossem analfabetas, ainda restariam outras maravilhas do progresso: o rádio, a televisão. Seria preciso extirpar os tímpanos das crianças e arrancar seus olhos. Mas isso já seria um programa mais trabalhoso.

— Apesar dos sofismas, a luz sempre prevalecerá contra a escuridão, e o bem contra o mal. O mal é a ignorância.

— Até agora, senhorita, o mal sempre prevaleceu contra o bem.

— Outro sofisma. De onde tira uma barbaridade dessas?

— Eu não tiro nada, senhorita: é a pacífica demonstração da história. Abra o livro de história de Oncken em qualquer página e encontrará apenas guerras, degolações, conspirações, torturas, golpes de Estado e inquisições. Além disso, se o bem prevalece sempre, por que é necessário pregá-lo? Se por sua natureza o homem não fosse inclinado a fazer o mal, por que o proscrevem, o estigmatizam etc.? Veja bem: as religiões mais elevadas pregam o bem. Mais ainda: ditam mandamentos, que exigem não fornicar, não matar, não roubar. É preciso mandar. E o poder do mal é tão grande e tortuoso que o utilizam até para recomendar o bem: se não fizermos isto e aquilo, nos ameaçam com o inferno.

— Então — gritou a senhorita González Iturrat —, segundo o senhor tem que se pregar o mal!

— Eu não disse isso, senhorita. O que acontece é que a senhorita se alterou muito e já não me ouve. Não é necessário pregar o mal: ele vem sozinho.

— Mas o que deseja provar?

— Não se exalte. Não esqueça que a senhorita afirma a superioridade do bem, e vejo que, com muito gosto, me cortaria em pedaços. Queria lhe dizer, simplesmente, que não existe esse progresso espiritual. E conviria até examinar o famoso progresso material.

Um muxoxo irônico deformou o bigode da educadora.

— Ah, agora vai me demonstrar que o homem de hoje vive pior que o romano.

— Depende. Não creio, por exemplo, que um pobre coitado que trabalhe oito horas por dia numa fundição, sob controle eletrônico, seja mais feliz do que um pastor grego. Nos Estados Unidos, paraíso da mecanização, dois terços da população são de neuróticos.

— Gostaria de saber se o senhor viajaria de diligência em vez de viajar de trem.

— Claro. Viajar de carruagem era mais bonito e tranqüilo. E melhor ainda quando se ia a cavalo: tomava-se ar e sol, contemplava-se a paisagem aprazível. Os apóstolos da máquina nos disseram que ela daria ao homem cada vez mais tempo para o ócio. A verdade é que o homem tem cada dia menos tempo, anda cada vez mais alucinado. Até mesmo a guerra era bonita, divertida e viril, era vistosa, com aqueles uniformes coloridos. Era até saudável. Veja, por exemplo, nossa guerra de independência e nossas lutas civis: quem não era morto por uma lança ou degolado podia viver depois cem anos, como meu tataravô Olmos. É natural, a vida ao ar livre, o exercício, as cavalgadas. Quando um menino era fraco, mandavam-no para a guerra, para ficar forte.

A senhorita González Iturrat levantou-se furiosa e disse à sua discípula:

— Eu vou embora, Normita. Você faça o que quiser.

E retirou-se.

Norma, com os olhos inflamados, também se levantou. E, enquanto se afastava, disse:

— Você é um grosso e um cínico!

Dobrei meu jornal e me preparei para continuar vigiando o número 57, agora sem o inconveniente do volumoso corpo da educadora.

Naquela noite, sentado na latrina, nesse estado que oscila entre a fisiologia patológica e a metafísica, fazendo esforço e ao mesmo tempo meditando sobre o sentido geral do mundo, como é freqüente nesse único lugar filosófico da casa, finalmente matei a charada da paramnésia que me incomodara no começo da conversa: não, eu não tinha visto antes a senhorita González Iturrat; mas ela era praticamente idêntica ao ser humano desagradável e violento que, em Oito condenados, joga de um balão panfletos sufragistas.