Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 80 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 32

 

Não sei se conseqüência do cansaço, da tensão da espera durante tantas horas ou do ar impuro, a verdade é que começou a me dominar uma modorra crescente e acabei caindo, ou agora tenho a impressão de ter caído, num meio-sono perturbado e agitado: pesadelos que nunca terminam, misturados ou alimentados por recordações parecidas com a história do elevador, ou a de Louise.

Lembro-me de que a certa altura achei que estava me asfixiando, e, desesperado, me levantei, corri para as portas e comecei a esmurrá-las furiosamente. Depois tirei o paletó e mais tarde a camisa, porque tudo me pesava e sufocava.

Até aí me lembro de tudo nitidamente.

Em compensação, não sei se foi por causa de minhas batidas e de meus gritos que abriram a porta e a Cega apareceu.

Ainda a vejo, recortada no vão da porta, no meio de uma luminosidade que achei um tanto fosforescente: hierática. Nela havia majestade, e de sua atitude, e sobretudo de seu rosto, emanava um fascínio invencível. Como se no vão da porta houvesse, erguida e silenciosa, uma serpente de olhos cravados em mim.

Fiz um esforço para quebrar o feitiço que me paralisava: tinha a intenção (seguramente desatinada, mas quase lógica quando se tem em conta minha falta de esperança em qualquer coisa) de lançar-me para cima dela, derrubá-la se necessário e correr procurando uma saída para a rua. Mas a verdade é que mal podia me manter de pé: uma sonolência, um grande cansaço foi tomando conta de meus músculos, um cansaço doentio como se sente nos grandes acessos de febre. E, de fato, minhas têmporas latejavam cada vez mais intensamente, até que em dado momento achei que minha cabeça ia explodir como um gasômetro.

Um resto de consciência me dizia, porém, que, se não aproveitasse a oportunidade para me salvar, nunca mais poderia fazê-lo.

Juntei todas as forças de que dispunha e me precipitei sobre a Cega. Afastei-a com violência e me lancei para o outro quarto.