Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 15
Não foi consciente, mas ali estava, diante da vidraça da rua Pinzón, imaginando que poderia desmaiar a qualquer momento. As palavras pizzas, fainás pareciam bater, não em sua cabeça, mas diretamente em seu estômago, como nos cachorros de Pavlov. Se ao menos Bucich estivesse lá. Mas não se atrevia. Aliás, devia estar no sul, vá saber quando voltaria. Chichín estava lá, com seu boné e seus suspensórios vermelhos, e Humberto J. D’Arcángelo, mais conhecido como Tito, com seus palitos de dentes à guisa de cigarro e a Crítica enrolada na mão direita, como quem anuncia “sinais particulares”, já que só um mistificador grosseiro poderia pretender ser Humberto J. D’Arcángelo sem o palito de dente e a Crítica enrolada na mão direita. Tinha algo de pássaro, com seu nariz ganchudo e afilado e seus olhinhos meio afastados nos dois lados de uma cara achatada e ossuda. Nervosíssimo e irrequieto como sempre: palitando os dentes, arrumando a gravata molambenta. Com o gogó proeminente subindo e descendo.
Martín o olhava fascinado, até que Tito o viu e, com sua memória infalível, o reconheceu. E fazendo-lhe sinais com a Crítica enrolada, como um guarda de trânsito, disse-lhe que entrasse, o fez sentar e pediu para ele um Cinzano com bitter; enquanto isso, desenrolava o jornal, que já estava aberto na página de esportes, batia em cima dele com a mão quase desprovida de carne e, aproximando-se de Martín por cima da mesinha de mármore, com o palito de dentes se mexendo, encostado no lábio inferior, disse-lhe, sabe quanto pagaram por esse homem aí?, pergunta diante da qual Martín fez uma cara de susto, como se não soubesse a lição, e embora seus lábios se mexessem, não conseguiu articular uma palavra, enquanto D’Arcángelo, com os olhinhos brilhando de indignação, o gogó parado no meio da garganta, esperava a resposta: com um sorriso irônico, com a amarga ironia apriorística diante do inevitável erro, já não do rapaz, mas de qualquer um que tivesse dois tostões de juízo. Mas felizmente, enquanto o gogó permanecia em suspenso, chegou Chichín com as garrafas, e então Tito, virando para ele seu rosto afilado, batendo com as costas da mão ossuda em cima da página de esportes, disse-lhe: ei, Chichín, diz aí, dá um palpite, quanto pagaram por esse perna-de-pau do Cincotta, e enquanto servia o Cinzano o outro respondeu e eu sei lá, quinhento, ao que Tito respondeu sorrindo de banda, com amargura e relativa felicidade (pois demonstrava até que ponto ele, Humberto J. D’Arcángelo, tinha razão), pois sim, e dobrando de novo a Crítica, como um professor que guarda na vitrine o aparelho após a demonstração, acrescentou: Oitocentas milha, e, depois de um silêncio proporcional ao enorme absurdo, continuou: e agora tu me diz se neste país a gente não está tudo maluco. Sustentou o olhar fixo em Chichín, espreitando o menor sinal de oposição, e por uns segundos tudo ficou como que paralisado: o gogó de D’Arcángelo, seus olhinhos irônicos, a expressão atenta de Martín e Chichín com seu boné e seus suspensórios vermelhos mantendo a garrafa de vermute no ar.
O estranho instantâneo durou talvez um ou dois segundos. Tito jogou soda no vermute, deu uns goles e mergulhou num silêncio sombrio, olhando, como era de praxe em tais momentos, para a rua Pinzón: olhar absorto e, de certo modo, totalmente simbólico, que em nenhuma hipótese transigiria com a visão real do que se passava lá fora. Depois voltou ao seu tema predileto: agora já não tem futebol. O que é que a gente pode esperar desses jogador que é tudo comprado e vendido? Fez um olhar sonhador e começou a rememorar, mais uma vez, a Grande Época, quando ele era um gurizinho assim. E enquanto Martín, por pura timidez, tomava o vermute que, sabia, após dois dias de jejum lhe faria muito mal, Humberto J. D’Arcángelo lhe dizia: Tem que fazer um pé-de-meia, garoto. Vai por mim. É a única lei da vida: juntar muita gaita, rifar o coração enquanto arrumava a gravata puída e puxava as mangas do paletó andrajoso, gravata e terno a confirmarem que ele, Humberto J. D’Arcángelo, era a rigorosa negação da filosofia que pregava. E enquanto, muito gentil, insistia com o rapaz para terminar o vermute, falava-lhe dos bons tempos, e de repente Martín achou que aquela conversa estava acontecendo em alto-mar. Estou te falando do ano de 1915, garoto, quando eu ia pro campo do Boca com o tio Vicente. A gente estava em plena guerra, e enquanto isso Martín, enjoado e triste, pensava em Alejandra e em seu sumiço na cancha da Seguel com a Ministro Brin até 23 quando nós mudamo pro campo da Bransen com a Del Crucero; ei, Chichín!, diz aí quem é que formava o time inicial, ao que Chichín, fitando o teto, de olhos fechados, suspendendo a operação de enxugar o copo, depois de mexer os lábios em silêncio (como quem repassa a lição), respondeu De lo Santo, Vergara, Cerezo, Priano, Peney, Grande, Farenga, Moltedo, José Ferenga e Bacigaluppi, voltando em seguida à operação com o copo enquanto Tito dizia acertou. E o Racing ganhou o campeonato, mas nós, os carcamano lá de Gênova, já estávamo mostrando a nossa garra, e ficamo em quarto. Em 18 pegamo o terceiro lugar e em 19 vencemo. Ei, Chichín!, diz aí como é que era o escrete que ganhou a copa, ao que o outro respondeu, depois de ficar um instante em suspense, de olhos fechados e cabeça levantada para o teto: Ortega, Busso, Tesorieri, López, Canaveri, Cortella, Elli, Bozzo, Calomino, Miranda e Martín voltando em seguida à sua ocupação, enquanto Tito comentava acertou. Que time, garoto! O grande Tesorieri. Nunca teve nem vai ter de novo um goleiro que nem o Américo Tesorieri, hein. Quem tá te dizendo é o Humberto J. D’Arcángelo, que viu futebol dos grandes, arrumando a gravata e olhando para a rua Pinzón com indignação, enquanto Martín, enjoado, via como numa fantasmagoria o velho don Pancho Olmos falando da Legião, e Alejandra acotovelada no parapeito da varanda e a cabeça do comandante Acevedo. E eu te digo a mesma coisa do Pedro Leo Journal, o famoso Calomino, o ponta mais veloz que pisou num gramado nacional, o inventor da famosa bicicleta, que depois tanta gente quis imitar. Que tempo, garoto, que tempo!, acrescentou, mudando de lugar o palito, do canto esquerdo para o canto direito da boca, e dirigindo o olhar para a rua Pinzón, enquanto Martín olhava Alejandra dormir, observando-a como à beira de um abismo. Mas, dizia D’Arcángelo, justiça seja feita, garoto, e tem ouro em tudo que é time e um fanático e era cego para tudo o que não fosse o Boca justiça seja feita, garoto, e tem ouro e tem também cabeça-de-bagre no Boca, pra que é que a gente vai se iludir. E não precisa ir mais longe, tu tem aí o preto Seoane, o famoso Chancha Seoane, que foi o meio-de-campo do Diablo Rojo durante um bocado de temporada. Vou te falar uma coisa, garoto: o preto Seoane encarnava a clássica catimba crioula posta a serviço do nobre esporte. Era um craque inteligente e corajoso, o pesadelo dos goleiro daquela época. Sabe qual foi o apelido que o Américo Tesorieri deu pra ele? O rei da área inimiga. E não precisa dizer mais nada. E o Domingo Tarasconi? O grande Tarasca foi um dos grande no futebol amador. Dono de um chute poderoso, o que já tinha mostrado na ponta-direita, e quando foi mandado pra linha começou uma fase gloriosa pra história do esporte argentino. Mas... e tem sempre um mas no futebol, já dizia o finado Zanetta, na mesma época do Tarasca o grande Seoane, como eu te dizia, brilhava na área. E agora preste muita atenção no que eu vou te explicar: o ataque tinha duas ala, de modalidade oposta. A ala direita era acadêmica e maneira, a esquerda se caracterizava por um jogo eficaz e um expediente que a gente pode chamar de pouco brilhante mas do maior efeito, que acabava rendendo muito gol. E no final das conta, garoto, digam o que quiserem, o que a gente quer mesmo no futebol é um bom placar. E vou te avisando que eu sou desses que acham que um jogo espetacular é um troço que enche o coração e que a torcida agradece, que diacho. Mas o mundo é assim mesmo e no final só gol é que conta. E pra te mostrar o que eram essas duas modalidade de jogo vou contar uma anedota ilustrativa. Uma tarde, no intervalo, o Chancha disse pro Lalín: faz o cruzamento pra mim, que aí eu entro e faço gol. Começa o segundo tempo, o Lalín de fato faz o cruzamento pra ele, e aí o preto agarra a bola, e aí entra e faz gol, que nem tinha dito. Aí o Seoane voltou com os braço aberto, correndo até o Lalín, berrando pra ele: viu, Lalín, viu, e o Lalín respondeu vi, mas eu é que não acho a menor graça. Pronto, se você quer saber, taí todo o problema do futebol argentino.
E ficou pensativo, mastigando o palito e olhando para a rua Pinzón.
— Ah, bons tempos! — murmurou consigo mesmo.
Ajeitou a gravata, esticou as mangas do paletó e virou-se para Martín com o rosto amargurado, como quem volta à dura realidade, e batendo em cima do jornal disse Oitocentas mil prata por um aleijado desses. O mundo é isso. Com os olhinhos brilhando de indignação, ajeitando a gravata esgarçada. E depois, com o indicador na vertical, apontando para a mesinha, acrescentou: Aqui neste país a gente tem que ser muito vivo. Ou tu é um vivaldino ou está ferrado pro resto dos teus dia, até o apito final. E olhando os rapazes que foram se juntando, mas dirigindo-se simbolicamente a Martín (enquanto Martín começava a ver, como num sonho confuso e poético, Alejandra dormindo na sua frente), brandindo o jornal novamente enrolado, acrescentou: Tu lê o jornal e fica sabendo de uma negociata. E bobeia que é capaz de continuar pensando na morte da bezerra ou lendo esse livro aí e como Poroto e El Rengo disseram mas o que é que você está falando D’Arcángelo irônico comentou e esse troço do Tucolesco isso aí também é patifaria e os outros responderam pô, o jornal também ao que Tito retrucou com o dedo indicador novamente na vertical, mexendo-o até a mesinha e repetindo seu conhecido aforismo: Aqui é tudo roubalheira. E vou te avisando que não estou falando do Perón não. Porque quando eu era pequenininho assim, ó, e pôs a mão aberta na altura da panturrilha, quem é que estava por dentro das bandalheira? Os conserveta: corrupção e roubalheira. Quando eu era assim, ó, e subiu a altura em que estava a mão os radical: corrupção e roubalheira. Depois veio esse Justo aí: corrupção e roubalheira. Lembram do escândalo da Corporación? Depois, esse cegueta do Ortiz: corrupção e roubalheira. Depois a revolução de 45. Esses milico vivem tudo dizendo que vem limpar, mas no final é corrupção e roubalheira. E então, ajeitando a gravata, fixou seus olhos coléricos na rua Pinzón e, virando-se após um breve instante de (raivosa) meditação filosófica, acrescentou: Você estuda, vira um Edison, inventa o telégrafo ou cura marmanjo, se arranca pra África que nem esse velho alemão de bigodão, se sacrifica pela humanidade, dá um duro danado e vai ver só como é que te crucificam e como é que os outro se enchem de gaita. Será que vocês não sabem que homem de bem termina sempre pobre e esquecido?Pra cima de mim, não, e, virando seu olhar furioso para a rua Pinzón, ajeitou a gravata puída e esticou as mangas esgarçadas do paletó enquanto os garotões riam de Tito ou diziam pô, você também, com essa lengalenga e Martín, em sua sonolência, voltava a ver Alejandra encolhida e dormindo diante de seus olhos, respirando aflita pela boca entreaberta, a grande boca desdenhosa e sensual. E via seu cabelo comprido e liso, preto, com reflexos avermelhados, esparramado sobre o travesseiro, realçando seu rosto anguloso, esses traços que tinham a mesma aspereza de seu espírito atormentado. E seu corpo, seu corpo esguio, abandonado, seus seios bem marcados sob a blusa branca, e aquelas pernas bonitas e compridas, encolhidas, encostando nele. Sim, estava ali, ao alcance de sua mão e de sua boca, de certo modo sem defesas, mas como estava longe! E inacessível!
“Nunca”, disse para si mesmo, amargurado e quase em voz alta, enquanto o Poroto gritava Perón é que está certo e toda essa oligarquia aí tinha é que enforcar tudo junto na praça de Mayo “nunca” e no entanto ela o escolhera, a ele, mas, para quê, meu Deus, para quê? Pois jamais conheceria, tinha absoluta certeza, seus segredos mais profundos, e de novo chegaram à sua mente as palavras cego e Fernando quando um dos rapazes botou uma moeda no toca-discos Wurlitzer e os The Platters começaram a cantar. Então D’Arcángelo explodiu e, agarrando Martín pelo braço, disse-lhe:
— Vamo, garoto. Nem mais aqui a gente pode ficar. Onde é que nós vamo parar com esses palhaço aí que te põem um foxtrote!