Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 85 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 37

 

Ignoro o tempo que permaneci inconsciente. Quando acordei, pouco a pouco, não entendi onde estava, nem me lembrava de minha peregrinação, nem dos episódios que a antecederam. Deitado de costas numa cama, minha cabeça pesava como se estivesse cheia de chumbo e meus olhos mal conseguiam enxergar: só percebia a fosforescência, a mesma que havia no quarto da Cega antes de minha fuga. Meus músculos não conseguiam se mexer. Paulatinamente minha memória foi se organizando, como uma central de comunicações após um terremoto, e começaram a reaparecer fragmentos de minha vida anterior: Celestino Iglesias, a entrada no apartamento de Belgrano, os corredores subterrâneos, o aparecimento da Cega, a clausura no quarto, a fuga e, finalmente, a caminhada até a Divindade. Só então entendi que a fosforescência que dominava o quarto era idêntica à da gruta ou ventre da grande estátua; à medida que meus olhos iam entrevendo o teto e as paredes, desconfiei de que estivesse no mesmo quarto de onde pensava ter escapado. Embora não me atrevesse a virar os olhos para a porta, tive a sensação de que a Cega estava ali. Assim, toda a minha peregrinação pelos subterrâneos e esgotos de Buenos Aires, minha caminhada pela planície planetária e minha subida final para o ventre da Divindade tinham sido uma fantasmagoria desencadeada pelas artes mágicas da Cega, por ordem da Seita. E no entanto, eu resistia a admiti-lo, pois tudo tinha a força e a exatidão carnal de algo que eu realmente vivera. No momento, não tinha lucidez suficiente nem calma para analisar, mas agora estou convencido de que realmente vivi a viagem até a Divindade, e que, ainda que meu corpo não tivesse saído do quarto da Cega, minha alma percorrera de fato aquela assombrosa região.

Senti que a mulher se aproximava de minha cama. Mais que seus passos, que eu não conseguia ouvir, como se ela estivesse descalça, eram meus sentidos exacerbados e meu instinto que o anunciavam. Imóvel, quase petrificado, olhando para o teto, tinha a certeza de sua aproximação. Fechei os olhos como se quisesse evitar, assim, o que ia acontecer, até senti-la aos pés de minha cama, observando-me.

Fato curioso: imaginei que ela chegara a mim por um chamamento de meu ser, incompreensível mas tenaz. Ainda agora, com os plenos poderes de minha mente, não sei como explicar: era verdade que eu estava prisioneiro da Seita e que a mulher, com quem teria o mais tenebroso acasalamento, era parte do castigo que a Seita me destinara, mas também o ponto final de uma perseguição que eu, de espontânea vontade, organizara ao longo de anos e anos.

Uma sensação complexa me paralisava e incitava ao mesmo tempo, um misto de medo e ansiedade, náusea e perversa sensualidade. E quando afinal consegui abrir os olhos, vi que ela estava nua, na minha frente: de seu corpo irradiava um fluido que chegava às minhas entranhas e despertava minha luxúria. Com uma esperança que deveria qualificar de negra — essa que deve existir no inferno —, compreendi que a serpente se jogaria sobre mim. No escuro das noites tropicais eu vira soltar-se dos mastros a chama espectral dos fogos-de-santelmo; assim eu via, agora, a fluorescência que banhava o quarto soltar-se da ponta de seus dedos, de seus cabelos eletrizados, de suas pestanas, de seus mamilos vibrantes como bússolas de carne diante da proximidade do poderoso ímã que a atraíra para territórios delirantes. Num lampejo, tive a revelação: era Ela! O Universo de Cegos fora apenas um instrumento para satisfazer nossa paixão e, finalmente, para executar sua vingança.

Imóvel, quieto como um pássaro diante do olhar paralisante de uma cobra, vi que ela se aproximava, lenta e lasciva. E quando seus dedos tocaram minha pele, foi como a descarga da Grande Raia Negra que, dizem, mora nas fossas abissais.

Depois perdi o sentido do cotidiano, a lembrança de minha vida real e a consciência que estabelece as grandes e decisivas divisões que regem a vida do homem: o céu e o inferno, o bem e o mal, a carne e o espírito. E também o tempo e a eternidade, pois ignoro, e jamais saberei, quanto tempo durou a cópula, já que no antro não havia dia nem noite, tudo foi uma só, mas infinita, jornada. Assisti a catástrofes e torturas, vi meu passado e meu futuro (minha morte), tive idades geológicas, creio me lembrar de uma turbulenta paisagem com samambaias arcaicas percorrida por pterodátilos. Uma lua turva iluminava pântanos fétidos entre areais escaldantes.

Como um bicho no cio, corri para uma mulher de pele negra e olhos violeta, que me esperava gritando. Em seu corpo suado ainda vejo seu sexo aberto, e entrei com fúria no vulcão de carne que me devorou. Ao sair, suas fauces sangrentas já ansiavam por novo ataque. Corri para ela como um unicórnio lúbrico, atravessando pântanos onde, à minha passagem, levantavam-se corvos uivando, e entrei de novo na gruta. Sucessivamente, fui cobra, peixe-espada, polvo com tentáculos que entravam um após outro e vampiro vingativo para ser sempre devorado. Em plena tempestade, entre relâmpagos, ela foi prostituta, caverna e poço, pitonisa. O ar eletrizado encheu-se de gritos e tive de satisfazer sua voracidade como um rato fálico, como mastros de carne. A tempestade ia ficando cada vez mais terrível e confusa: bichos coabitavam com a mulher, até mesmo ratos escavaram seu sexo.

Sacudido pelos raios, o território arcaico tremia. Finalmente, a lua explodiu em pedaços, que incendiaram os bosques imensos, desencadeando a destruição total. A terra se abriu e se afundou nos charcos. Seres mutilados corriam entre as ruínas, cabeças sem olhos andavam tateando, intestinos se emaranhavam como cipós imundos, fetos eram pisoteados no meio da imundície.

O Universo inteiro desabou sobre nós.