Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 24 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 4

 

À medida que se aproximavam da esquina da Corrientes com a San Martín, ouviam mais fortes os alto-falantes da Alianza: que a oligarquia do Barrio Norte se cuidasse, que os judeus pusessem as barbas de molho, que os maçons parassem de importunar, que os marxistas acabassem com suas provocações.

Entraram no La Helvética. Era um lugar escuro, com seu balcão alto de madeira e sua velha boiserie. Espelhos manchados aumentavam e reiteravam confusamente o mistério e a melancolia daquele recanto sobrevivente.

Levantou-se um homem muito louro, de olhos azuis e óculos de lentes incrivelmente grossas. Exibia um ar sensual e meditativo e parecia ter uns quarenta e cinco anos. Martín percebeu que o observava com benevolência, e, enrubescendo, pensou: Ela lhe falou de mim.

Conversaram uns instantes, mas Alejandra estava distraída, até que se levantou e se despediu. Martín ficou então sozinho diante de Bruno, inquieto como se tivesse de se submeter a um exame e triste com o brusco, e como sempre inexplicável, sumiço de Alejandra. E, de repente, percebeu que Bruno lhe estava fazendo uma pergunta cujo começo não escutara. Perturbado, ia lhe pedir a gentileza de repetir quando, felizmente, chegou um homem ruivo e sardento, de nariz afilado, olhos escrutadores atrás dos óculos. Tinha um sorriso rápido e nervoso. Toda a sua aparência era inquietante e, por momentos, ficava tão sarcástica que Martín, se estivesse sozinho com ele, não conseguiria abrir a boca, nem mesmo em caso de incêndio. Para completar, olhava direto nos olhos, evitando assim qualquer escapatória dos tímidos. Enquanto conversava com Bruno, inclinando-se para ele por cima da mesinha, lançava olhares fugazes de soslaio, como quem sofre, ou em outros tempos sofreu, perseguições políticas.

— Vejo que você tem um fraco por este antro mitrista — comentou Méndez, com seu risinho feroz, apontando um retrato de Mitre na parede. — Quem diria que um dia, a cinqüenta metros do santuário do jornal La Nación, iriam se reunir aqui os amigos do general e do suíço! Ninguém teve a idéia de fazer a psicanálise desse fenômeno! Há tantos cafés em Buenos Aires.

Pôs um livro sobre a mesinha.

— Acabo de ler um artigo de Pereira — Bruno comentou, sorridente, aludindo ao livro.

Méndez fez uma de suas melhores caras diabólicas. Seu cabelo vermelho parecia soltar faíscas, como essas experiências de sala de aula com um espanador ligado a uma máquina eletrostática. Seus olhos fulguravam com ironia.

— Puxa! Já começa atacando desde o título. Veja só: América Latina, um país.

— Justamente. Ele afirma que isso aqui era um conjunto de nacionalidades oprimidas pela Espanha.

— Puxa! A cabeça desse sujeito está repleta de questões russas! Conjunto de nacionalidades! O tempo todo pensando em quirguizes, em caucasianos, em bielo-russos o país (pensava Martín), o país, o lar, procurar a gruta nas trevas, o lar, o fogo quente, o suave e luminoso refúgio no meio da escuridão, e como Bruno levantasse os olhos, talvez duvidando esses olhos que tinham visto Alejandra desde menina, esses olhos melancólicos e docemente irônicos, enquanto via emergir a figura de Wanda junto com a frase “ganhar dinheiro com alguma coisa que se despreza”, ignorando naquele momento, porém, que alcance monstruoso teria um dia a frase de Alejandra, mas já com um alcance suficientemente sombrio para angustiá-lo para todos esses entreguistas daqui, Bruno, o Panamá também é uma nação, embora até as crianças de colo saibam que foi inventada pela Fruit Co., enquanto via Wanda tomando coquetéis de gim e vermute e falando de homens, rindo com uma sensualidade frívola, e aquele Jano, aquele homem inexplicável e Bruno o ouvia pensativo, mexendo a borra do café e então Martín observava suas longas mãos nervosas e se perguntava como devia ter sido o amor daquele homem pela mãe de Alejandra, desconhecendo porém que o amor tinha, de certa forma, se prolongado na própria filha, de modo que a própria Alejandra em quem Martín pensava nesse momento fora o objeto de pensamentos do homem que agora estava inocentemente diante de seus olhos, se bem que (como o próprio Bruno muitas vezes pensaria e até insinuaria) a Alejandra de suas meditações não fosse a mesma que agora atormentava Martín, pois nunca (afirmava) somos a mesma pessoa para interlocutores diferentes, amigos ou amantes; assim como essas caixas de ressonância complexas das aulas de física, que respondem com uma corda para cada som que as estimula, enquanto as outras ficam em silêncio e como que ensimesmadas, alheias, reservadas para chamados que talvez um dia exijam sua resposta; chamado que às vezes nunca chega, caso em que essas cordas apagadas terminam seus dias esquecidas pelo mundo, estranhas e solitárias; enquanto isso, quase entusiasmado, tamanha era a sua fúria irônica, Méndez exclamava: Ele, falando de internacionalismo abstrato! Muito bem, Pereira, muito bem! Dos balés de Iachaturian à zamba do nosso folclore! Agora descobriu a Argentina. Durante anos viveu à russa, tomou borsch em vez de sopa, chá em vez de mate, vodca em vez de aguardente. A Argentina era uma ilha exótica onde estávamos condenados a viver, mas nosso coração estava em Moscou, camarada! e voltava a ver Jano, com o olhar equívoco e ansioso (por quê?), com sua cortesia excessiva e pegajosa, beijando-lhe as mãos, dizendo-lhe “oui, ma chère” ou “comme tu veux, ma chère”, e por que agora aquele homem repugnante aparecia-lhe com tanta insistência, sempre procurando alguma coisa, como se mantivesse uma guarda permanente, uma guarda desejosa, determinada sem dúvida pela atitude de Wanda, mas então viu alguém cumprimentando Bruno e sentando-se ali, junto com os que falavam em voz baixa, enquanto Méndez, mordaz, observava o cumprimento e dizia: Aposto que estão em algum complô! Esses nacionalistas clericais, esses arqui-hispanófilos que agora descobriram os Estados Unidos! Claro, com o peronismo, a única defesa contra a barbárie soviética, começaram a ter medo e de novo perdeu a pista, pensando naquele Jano até que teve a impressão de que Bruno dizia alguma coisa sobre a corrupção e então Méndez disse: Isso é moralismo pequeno-burguês, enquanto Bruno negava calmamente com a cabeça e dizia: Não é isso que eu quero dizer e Martín se atormentava porque seu pensamento não conseguia acompanhar a discussão, pensando “sou um tremendo egoísta”, porqueseu pensamento voltava de novo àquela figura pegajosa e horrível e à sua atitude, à sua guarda permanente, algo sem dúvida determinado pela presença ou ausência de Wanda — mas o quê? — e ela aceitando com um misto de condescendência e ironia, como se ambos, como se entre ambos... mas então Bruno disse porque corrompe tudo o que toca, porque é um cínico que não acredita em nada, nem no povo nem sequer no peronismo, porque é um covarde e um homem sem grandeza, enquanto Méndez, irônico, balançava a cabeça, pensando, com certeza, um pequeno-burguês incurável e enquanto Martín pensava tudo é tão confuso, é tão difícil viver e compreender... como se aquele Jano equívoco fosse assim o símbolo da confusão que o dominava, como se o fundamental dos seres humanos fosse a ambigüidade, com sua cortesia bajuladora e falsa diante de sua mulher, e, no entanto (e ele o observara bem, como tudo o que dizia respeito a Alejandra), com o olhar desejoso e ansioso de quem teme ou espera alguma coisa, nesse caso alguma coisa de Wanda — por ciúme, talvez? —, no que Alejandra começara a rir comentando “como você ainda é criança!”, acrescentando as palavras que mais tarde, após a tragédia, ele recordaria com aterradora nitidez: “Jano é uma espécie de monstro pegajoso”; e, como nesse momento Bruno se levantou para telefonar, Martín ficou sozinho na frente de Méndez, que o examinou curioso, enquanto ele bebia água por pura timidez.

 

— Esse coroinha irritado! — disse em tom de deboche, apontando com os olhos para a outra mesa. — Identificam o sufrágio universal com a estupidez das massas, o quartel com o pundonor, o imperialismo com Lutero.

Deu seu risinho.

— Mas agora estão com os ianques. O que é o medo do povo!

Felizmente, Bruno voltou.

— Está fazendo um calor insuportável — disse. — Proponho sairmos daqui.

Os alto-falantes da Alianza prometiam incêndios e forcas.

— É um bar muito abafado, mas eu gosto. Não vai durar muito, pense nos milhões que vale essa esquina. É inevitável: vão jogá-lo abaixo e construir um arranha-céu, e no subsolo um desses bares interplanetários que os americanos inventaram, cheios de penduricalhos e ruídos.

Bruno afrouxou a gravata.

— É um sujeito fantástico. Só com as pessoas que o odeiam poderia se criar uma associação de ajuda mútua mais ou menos do tamanho do Centro Gallego. Quanto a minhas relações com ele... bem, ele deve me achar um intelectual vacilante, um pequeno-burguês putrefato...

E sorriu, enquanto pensava consigo mesmo: homem em perpétua contradição, Hamlet.

Bruno e Martín chegaram à ponte da rua Belgrano, e Bruno parou, encostando no parapeito, dizendo “agora pelo menos se respira”, enquanto Martín indagava se o hábito de passear pela ponte, Alejandra teria herdado de Bruno; mas depois pensou que deve ter sido o contrário, pois reparou que Bruno era meio inseguro, vacilante, andando no ritmo de suas próprias reflexões.

Observava sua pele fina, suas mãos delicadas e comparava-as com as mãos duras e ávidas de Alejandra, com seu rosto contraído e anguloso. Enquanto isso, Bruno pensava: essas paisagens, só o impressionismo conseguiria pintá-las, mas essa época terminou, portanto, ai do artista capaz de exprimir só isso, nada mais que isso! E, olhando o céu carregado de nuvens, o ar úmido e meio pesado, os reflexos dos navios na água quieta, pensava que Buenos Aires tinha um céu e uma atmosfera muito parecidos com Veneza, decerto pela umidade da água parada, enquanto prosseguia mentalmente uma conversa com Méndez:

— A literatura, por exemplo. Eles são brutalmente esquemáticos. Proust é um artista degenerado, pois pertence a uma classe em decadência.

Riu.

— Se essa teoria fosse correta não existiria o marxismo, e, portanto, Méndez também não. O marxismo deveria ter sido inventado por um operário, mais especificamente por um da indústria pesada.

Caminharam pela calçada e então Bruno o convidou a sentar-se no parapeito, olhando para o rio.

Martín espantou-se com esse vestígio de juventude, vestígio que, a seu ver, conferia a Bruno um jeito de afetuoso companheiro; e o tempo que lhe dedicava, sua intimidade amistosa pareciam uma garantia do afeto de Alejandra por ele, Martín. Pois um homem importante não teria esse comportamento se ele, o jovem desconhecido, não estivesse protegido pela consideração e talvez pelo amor de Alejandra. De modo que a conversa, o passeio, o fato de se sentarem lado a lado eram uma confirmação (embora indireta, embora frágil) de seu amor, um atestado (embora impreciso, embora ambíguo) de que ela não estava tão distante como ele imaginava.

E, enquanto Bruno aspirava a brisa pesada que chegava do rio, Martín lembrava-se de momentos parecidos, com Alejandra, naquele mesmo parapeito. Deitado sobre o paredão, com a cabeça em seu colo, era (tinha sido) verdadeiramente feliz. No silêncio do entardecer ouvia o murmúrio tranqüilo do rio lá embaixo, enquanto contemplava a transformação incessante das nuvens: cabeças de profetas, caravanas num deserto de neve, veleiros, baías nevadas. Naquele momento, tudo era (tinha sido) paz e sossego. E com serena volúpia, como nos instantes sonolentos e indecisos que se seguem ao despertar, reajeitava sua cabeça no colo de Alejandra, enquanto pensava como era suave, como era doce sentir sua carne debaixo da nuca; essa carne que, na opinião de Bruno, era algo mais que carne, algo mais complexo, mais sutil, mais obscuro do que a mera carne feita de células, tecidos e nervos; pois também era (tomemos o caso de Martín), já era recordação, devendo, portanto, ser defendida contra a morte e o apodrecimento, algo transparente, tênue mas com certa dose de eterno e imortal; era Louis Armstrong tocando seu trompete no Mirante, céus e nuvens de Buenos Aires, as modestas estátuas do parque Lezama ao entardecer, um desconhecido tocando uma cítara, uma noite no restaurante Zur Post, uma noite de chuva abrigados sob uma marquise (rindo), ruas do bairro sul, telhados de Buenos Aires vistos do bar do vigésimo andar do Comega. E tudo isso ele sentia através de sua carne, de sua carne macia e palpitante que, embora fadada a se desagregar entre vermes e grumos de terra úmida (típico pensamento de Bruno), agora lhe permitia entrever essa espécie de eternidade; pois, como também um dia Bruno lhe diria, somos constituídos de tal forma que só nos é dado vislumbrar a eternidade por meio da carne frágil e morredoura. E então ele havia suspirado e ela tinha perguntado “o que foi?”. E ele havia respondido “nada”, como respondemos quando estamos pensando “tudo”. E nesse instante Martín disse a Bruno, quase sem querer:

— Alejandra e eu estivemos aqui uma tarde.

E, como se não pudesse parar a bicicleta, como se tivesse perdido o controle, acrescentou:

— Como fui feliz naquela tarde!

Arrependendo-se e envergonhando-se após uma frase dessas, tão íntima e patética. Mas Bruno não riu, nem sorriu (Martín o olhava, quase aterrado); ficou pensativo e sério, olhando para o rio. E quando, bem depois, Martín imaginava que não faria nenhum comentário, disse:

— Assim se manifesta a felicidade.

O que queria dizer? Ficou escutando-o, ansioso, como sempre que se tratava de algo ligado a Alejandra.

— Em pedaços, por momentos. Quando a gente é criança, espera a grande felicidade, uma felicidade enorme e absoluta. E na espera desse fenômeno deixamos passar ou não apreciamos as pequenas felicidades, as únicas que existem. É como...

Calou-se, porém. Logo continuou:

— Imagine um mendigo que despreza esmolas pelo caminho, porque lhe deram a informação de que num certo lugar esconde-se um formidável tesouro. Um tesouro inexistente.

Voltou a mergulhar em seus pensamentos.

— Parecem ninharias: uma conversa agradável com um amigo. Ou, quem sabe, estas gaivotas que voam em círculos. Este céu. A cerveja que tomamos há pouco.

Mexeu-se.

— Estou com uma perna dormente. É como se tivessem me injetado soda.

Abaixou-se e depois continuou:

— Às vezes acho que essas pequenas felicidades existem justamente porque são pequenas. Como essas pessoas insignificantes que passam despercebidas.

Calou-se, e sem nenhuma razão aparente disse:

— É, Alejandra é uma criatura complicada. E tão diferente da mãe. Na verdade, é uma bobagem esperar que os filhos se pareçam com os pais. E os budistas talvez tenham razão: como saber quem vai encarnar no corpo de nossos filhos?

Como se recitasse um chiste, disse:

Talvez na nossa morte a alma emigre:

para uma formiga,

para uma árvore,

para um tigre de Bengala;

enquanto nosso corpo se desagrega

entre vermes

e se infiltra na terra sem memória,

para depois subir pelos caules e pelas folhas,

e transformar-se em heliotrópio ou joio,

e depois em alimento para o gado,

e assim em sangue anônimo e zoológico,

em esqueleto,

em excremento.

Talvez caiba a você um destino mais horrendo

no corpo de um menino

que um dia fará poemas ou romances,

e que em suas obscuras angústias

(sem saber)

purgará seus antigos pecados

de guerreiro ou criminoso,

ou reviverá pavores,

o temor de uma gazela,

a asquerosa feiúra da doninha,

sua turva condição de feto, ciclope ou lagarto,

sua fama de prostituta ou pitonisa,

suas longínquas solidões,

suas esquecidas covardias e traições.

Martín o ouviu perplexo: por um lado, parecia que Bruno recitava de brincadeira; por outro, sentia que, de certo modo, o poema expressava seriamente o que ele pensava sobre a existência: suas hesitações, suas dúvidas. E, já conhecendo seu extremo pudor, pensou: É dele.

Despediu-se, precisava ir encontrar D’Arcángelo.

Bruno o seguiu com olhos afetuosos, dizendo-se o que ainda terá de sofrer!. E depois, deitando-se no parapeito, pondo as mãos na nuca, deixou seu pensamento divagar.

As gaivotas iam e vinham.

Tudo era tão frágil, tão transitório. Escrever, ao menos, para isso, para eternizar algo passageiro. Um amor, talvez. Alejandra, pensou. E também: Georgina. Mas, de tudo aquilo, o quê? Como? Tudo era tão árduo, tão fragilmente desesperado.

Aliás, não era só isso, não se tratava unicamente de eternizar, mas de indagar, de vasculhar o coração humano, de examinar as dobras mais recônditas de nossa condição.

Nada e tudo, disse quase em voz alta, com o costume que tinha de falar inesperadamente em voz alta, enquanto se reacomodava no parapeito.Olhava para o céu de tempestade e ouvia as pancadas do rio ao lado, que não corre em nenhuma direção (como os outros rios do mundo), o rio que se estende quase imóvel por cem quilômetros de largura, como um lago aprazível e, nos dias de tempestade de vento sudeste, como um mar encapelado. Mas nesse momento, nesse calorento dia de verão, nesse entardecer úmido e pesado, com a bruma transparente de Buenos Aires velando o perfil dos arranha-céus contra as grandes nuvens tormentosas a oeste, sentindo o leve arrepio da brisa distraída, sua pele mal estremecia, como a lembrança apagada das grandes tempestades; essas grandes tempestades com que certamente sonham os mares quando cochilam, tempestades apenas fantasmagóricas e incorpóreas, sonhos de tempestades, que só conseguem estremecer a superfície das águas, tal como estremecem e grunhem quase imperceptivelmente os grandes mastins adormecidos que sonham com caçadas ou lutas.

Nada e tudo.

Inclinou-se para a cidade e voltou a contemplar o perfil dos arranha-céus.

Seis milhões de homens, pensou.

De repente tudo lhe parecia impossível. E inútil.

Nunca, disse. Nunca.

A verdade, dizia-se, sorrindo com ironia. a verdade. Bem, digamos: uma verdade; mas a verdade não era uma verdade? Não se atingia “a” verdade indo ao mais profundo de um só coração? Afinal, não eram idênticos todos os corações?

Um só coração, dizia.

Um rapaz estava beijando uma moça. Passou um vendedor de sorvetes Laponia, de bicicleta: assobiou para ele. E enquanto tomava o sorvete, sentado no paredão, voltava a olhar o monstro, milhões de homens, mulheres, crianças, operários, empregados, rentistas. Como falar de todos? Como representar a realidade incomensurável em cem páginas, em mil, em um milhão de páginas? Mas — pensava — a obra de arte é uma tentativa, talvez tresloucada, de expressar a infinita realidade entre os limites de um quadro ou de um livro. Uma escolha. Mas essa escolha revela-se infinitamente difícil e, em geral, catastrófica.

Seis milhões de argentinos, espanhóis, italianos, bascos, alemães, húngaros, russos, poloneses, iugoslavos, tchecos, sírios, libaneses, lituanos, gregos, ucranianos.

Ó, Babilônia.

A maior cidade espanhola do mundo. A maior cidade italiana do mundo. Etcétera. Mais pizzarias do que em Nápoles e Roma juntas. “O nacional.” Meu Deus! O que era o nacional?

Ó, Babilônia.

Contemplava com olhos de pequeno deus impotente o conglomerado confuso e gigantesco, carinhoso e brutal, detestável e querido, que, como um temível leviatã, recortava-se contra as nuvens carregadas a oeste.

Nada e tudo.

Mas também é verdade — refletiu — que uma só verdade basta. Ou talvez duas, ou três, ou quatro. No fundo de seus corações.

Peões ou ricos, peões ou banqueiros, bonitos ou corcundas.

O sol se punha, e a cada segundo mudava o colorido das nuvens no poente. Grandes nesgas cinza-arroxeadas destacavam-se contra um fundo de nuvens mais distantes: cinza, lilases, negruscas. Pena, esse rosado, pensou, como se estivesse numa exposição de pintura. Mas depois o rosado foi se espalhando mais e mais, estragando tudo. Até que começou a se apagar e, passando pelo azulado e o violáceo, chegou ao cinza e finalmente ao negro que anuncia a morte, que sempre é solene e sempre acaba conferindo dignidade.

E o sol desapareceu.

E mais um dia terminou em Buenos Aires: algo irrecuperável para sempre, algo que inexoravelmente o aproximava mais um passo da própria morte. E tão depressa, afinal, tão depressa! Antigamente os anos corriam mais lentos e tudo parecia possível, num tempo que se estendia diante dele como um caminho aberto ao horizonte. Mas agora os anos passavam com crescente rapidez, rumo ao ocaso, e a todo instante ele se flagrava dizendo: “faz vinte anos, quando o vi pela última vez”, ou outra frase tão trivial mas tão trágica quanto essa; e depois pensando, como diante de um abismo, quão pouco, quão miseravelmente pouco, resta nessa marcha rumo ao nada. E, então, para quê?

E, quando se chegava a esse ponto e já parecia que nada tinha sentido, tropeçava-se por acaso num desses cachorrinhos vira-latas, faminto e louco por carinho, com seu pequeno destino (tão pequeno como seu corpo e seu pequeno coração que valentemente resistirá até o fim, defendendo, como de dentro de uma fortaleza diminuta, aquela vida pequenininha e humilde), e então, apanhando-o, levando-o para uma cesta improvisada onde pelo menos não sentisse frio, dando-lhe comida, justificando assim o sentido de existência do pobre bicho, algo mais enigmático embora mais poderoso que a filosofia parecia dar novo sentido à sua própria existência. Como dois desamparados em plena solidão, que se deitam juntos para se aquecerem mutuamente.