Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 28 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 8

 

Petrificado naquele banco alto, Martín esperava um sinal qualquer de Alejandra. Quando Quique se retirou, Alejandra acenou para que a seguisse até o outro quarto, onde desenhava.

— Está vendo? — explicou, como que esclarecendo suas ausências. — Estou sobrecarregada de trabalho.

Abrindo e fechando seu canivete branco, Martín seguiu os traços de Alejandra em cima do papel branco. Ela desenhava calada, e o tempo parecia passar como através de blocos de cimento.

— Bem — disse Martín, reunindo todas as suas forças —, vou embora...

Alejandra se aproximou e, apertando seu braço, disse-lhe que breve se veriam. Martín inclinou a cabeça.

— Estou lhe dizendo que breve nos veremos — ela insistiu, irritada.

Martín levantou a cabeça.

— Você bem sabe, Alejandra, que não quero interferir na sua vida, que a sua independência...

Não terminou a frase, mas logo acrescentou:

— Não, quero dizer que... pelo menos... gostaria de vê-la sem pressa...

— É, claro — ela admitiu, como se meditasse.

Martín se animou.

Alejandra o fitou com olhos que pareciam mostrar uma incrédula melancolia.

— Hein? Você não acha possível?

— Acho, Martín, acho — ela comentou, baixando os olhos e começando a fazer uns desenhos a lápis. — Sim, passaremos um lindo dia... você vai ver...

Animado, Martín acrescentou:

— Muitos de nossos últimos mal-entendidos foram por causa do seu trabalho, da sua pressa, dos seus encontros marcados...

O rosto de Alejandra começara a mudar.

— Estarei muito ocupada até o fim do mês, já lhe expliquei.

Martín fazia um grande esforço para não recriminar-lhe nada, porque sabia que qualquer recriminação seria contraproducente. Porém, as palavras surgiam do fundo do seu espírito, com força silenciosa mas indomável.

— Fico aflito ao vê-la sempre olhando o relógio.

Ela ergueu os olhos e fixou-os nele, de cenho franzido. Martín pensou, aterrorizado, nem mais uma palavra de recriminação, mas acrescentou:

— Como na terça-feira, quando achei que íamos passar a tarde juntos.

Alejandra endurecera a expressão, e Martín parou, como à beira de um precipício.

— Tem razão, Martín — admitiu, porém.

Martín então se atreveu a continuar:

— Por isso prefiro que você mesma me diga quando poderemos nos ver.

Alejandra fez uns cálculos e disse:

— Sexta-feira. Acho que na sexta-feira terei terminado o mais urgente.

Voltou a pensar.

— Mas na última hora a gente tem que refazer alguma coisa, ou falta alguma coisa, sei lá... Não gostaria de fazê-lo esperar... Não acha melhor deixarmos para segunda-feira?

Segunda-feira! Faltava quase uma semana, mas o que podia fazer senão aceitar resignado?

Tentou atordoar-se com o trabalho durante toda aquela semana interminável, lendo, caminhando, indo ao cinema. Procurava Bruno e, embora estivesse louco para falar dela, era incapaz até de pronunciar seu nome; e como Bruno pressentisse o que se passava em seu espírito, também fugia do tema e falava de outras coisas ou de generalidades. Então Martín se animava a dizer algo que também parecia ter um sentido genérico e pertencer a esse mundo abstrato e descarnado das idéias puras, mas que na verdade era a expressão, apenas despersonalizada, de suas angústias e esperanças. E assim, quando Bruno lhe falava do absoluto, Martín perguntava, por exemplo, se o verdadeiro amor não era justamente um desses absolutos; pergunta em que a palavra “amor” tinha, porém, tanto a ver com a empregada por Kant ou Hegel como a palavra “catástrofe” tinha a ver com um descarrilamento ou um terremoto, com seus mutilados e mortos, com seus gritos e seu sangue. Bruno respondia que, a seu ver, a qualidade do amor que existe entre duas pessoas que se amam muda de um instante a outro, tornando-se de repente sublime, descendo em seguida à trivialidade, transformando-se mais tarde em algo afetuoso, para subitamente tornar-se um ódio trágico ou destrutivo.

— Porque às vezes os amantes não se amam, ou um deles não ama o outro, ou o odeia, ou o despreza.

Enquanto isso, pensava na frase que uma vez Jeannette lhe dissera: “L’amour, c’est une personne qui souffre et une autre qui s’emmerde”. E lembrava-se, observador dos infelizes como era, de um casal, um dia na penumbra de um café, num canto solitário, o homem extenuado, barba por fazer, sofrendo, lendo, relendo pela centésima vez uma carta — seguramente dela —, recriminando, assumindo o absurdo papel de testemunha vá saber de quais compromissos ou promessas; e ela, enquanto ele se concentrava obstinado em uma frase da carta, ela olhava o relógio e bocejava.

E quando Martín lhe perguntou se entre duas pessoas que se amam não deve ser tudo nítido, tudo transparente e construído com base na verdade, Bruno respondeu que quase nunca se pode dizer a verdade quando se trata de seres humanos, visto que ela só serve para causar dor, tristeza e destruição. Explicando que sempre nutrira o projeto (“mas sou apenas isto: um homem de puros projetos”, acrescentou sorrindo com tímido sarcasmo), nutrira o projeto de escrever um romance ou uma peça de teatro sobre isto: a história de um rapaz que se propõe dizer sempre a verdade, sempre, custe o que custar. Imediatamente, ele semeia por onde passa a destruição, o horror e a morte, até terminar com sua própria destruição, com sua própria morte.

— Então, tem que se mentir — Martín concluiu, amargurado.

— Digo que nem sempre se pode dizer a verdade. A rigor, quase nunca.

— Mentiras por omissão?

— Mais ou menos isso — Bruno retrucou, observando-o de banda, temeroso de magoá-lo.

— Quer dizer que você não crê na verdade.

— Creio que a verdade é boa para a matemática, a química, a filosofia. Não para a vida. Na vida são mais importantes a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança. Além do mais, será que sabemos o que é a verdade? Se eu lhe digo que aquele pedaço de janela é azul, digo uma verdade. Mas uma verdade parcial, e portanto uma espécie de mentira. Pois esse pedaço de janela não está sozinho, está numa casa, numa cidade, numa paisagem. Está cercado do cinza deste muro de cimento, do azul-claro deste céu, daquelas nuvens alongadas, de infinitas coisas mais. E se não digo tudo, absolutamente tudo, estou mentindo. Mas dizer tudo é impossível, mesmo no caso da janela, de um simples pedaço da realidade física, da simples realidade física. A realidade é infinita e, além disso, infinitamente matizada, e se esqueço um só matiz já estou mentindo. Agora, imagine o que é a realidade dos seres humanos, com suas complicações e seus subterfúgios, contradições e, mais ainda, suas constantes mudanças. Porque mudam a cada instante que passa, e o que éramos ainda há pouco não somos mais. Será que somos sempre a mesma pessoa? Será que temos sempre os mesmos sentimentos? Pode-se gostar de alguém e de repente perder a estima por ele e até detestá-lo. E se quando perdemos a estima cometemos o erro de lhe dizer, isso é uma verdade, mas uma verdade momentânea, que não será mais verdade dali a uma hora ou no dia seguinte, ou em outras circunstâncias. E, aliás, o ser a quem dizemos isso acreditará que essa é a verdade, a verdade para sempre e desde sempre. E mergulhará no desespero.