Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 7
Não é possível, pensou, com a mão parada em cima da sacola de marinheiro, não é possível. Mas, sim, a tosse, a tosse e esses chiados.
E anos depois, também pensou, recordando aquele momento: como moradores solitários de duas ilhas próximas, mas separadas por insondáveis abismos. Sim, anos depois, quando seu pai estava apodrecendo no túmulo, quando compreendeu que o pobre-diabo sofrera no mínimo tanto quanto ele e que, talvez, daquela ilha próxima mas inalcançável onde morava (onde sobrevivia), tivesse lhe feito uma vez um gesto silencioso mas patético pedindo sua ajuda, ou pelo menos sua compreensão e seu carinho. Mas isso, entendeu após suas duras experiências, quando já era tarde, como quase sempre acontece. Assim, agora, neste presente prematuro (como se o tempo se divertisse em apresentar-se antes da hora, para que as pessoas façam encenações tão grotescas e primárias como as de certas trupes de amadores, que ainda não têm experiência: Otelos que ainda não amaram), neste presente que deveria ser futuro, seu pai entrava disfarçadamente, subia as escadas por onde tantos anos não havia transitado. E, de costas para a porta, Martín sentiu-o chegando como um intruso: ouvia seu arquejo de tuberculoso, sua vacilante espera. E, com deliberada crueldade, fingiu que não o estava notando. Claro, leu minha mensagem, quer me reter. Retê-lo para quê? Durante anos e anos mal trocaram uma palavra. Debatia-se entre o ressentimento e a compaixão. Seu ressentimento o incitava a não olhá-lo, a ignorar sua entrada no quarto, e, pior ainda, a fazê-lo entender que queria ignorá-lo. Mas virou a cabeça. Sim, virou, e o viu tal como o havia imaginado: com as duas mãos no corrimão, descansando do esforço, sua mecha de cabelo grisalho caída na testa, seus olhos febris e um pouco saltados, sorrindo suavemente com a expressão de culpa que tanto irritava Martín, dizendo-lhe: “há vinte anos, aqui era o meu ateliê”, dando depois uma olhada circular no sótão e talvez com a mesma sensação de um viajante, envelhecido e decepcionado, que volta à aldeia de sua juventude, após ter percorrido países e pessoas que no passado despertaram sua imaginação e seus desejos. E, aproximando-se, sentou-se na beira da cama, como se não se sentisse autorizado a ocupar muito espaço ou ficar excessivamente cômodo. E depois permaneceu bastante tempo calado, respirando com dificuldade, imóvel como uma estátua sem alma. Com voz apagada disse:
— Houve um tempo em que éramos amigos.
Seus olhos, pensativos, se iluminaram, olhando ao longe.
— Lembro uma vez, no parque Retiro... Você teria... deixe eu ver... quatro, talvez cinco anos... é isso... cinco anos... queria andar sozinho nos carrinhos elétricos, mas não deixei, tinha medo de que você se assustasse com as trombadas.
Riu suavemente, com nostalgia.
— Depois, quando voltávamos para casa, você subiu num carrossel que havia num terreno baldio da rua Garay. Não sei por quê, sempre me lembro de você de costas, na hora em que, a cada volta, acabava de passar na minha frente. O vento agitava a sua camisa, uma camisa de listinhas azuis. Já era tarde, quase não havia luz.
Ficou pensativo e depois confirmou, como se fosse um fato importante:
— Uma camisa de listinhas azuis, sim. Lembro muito bem.
Martín continuava calado.
— Naquele tempo eu pensava que com os anos chegaríamos a ser companheiros, chegaríamos a ter... uma espécie de amizade...
Tornou a sorrir com o sorrisinho culpado, como se a esperança tivesse sido ridícula, uma esperança à qual não teria nenhum direito. Como se tivesse cometido um pequeno roubo, aproveitando que Martín estava indefeso.
Seu filho o olhou: curvado, os cotovelos sobre os joelhos, o olhar fixo num ponto distante.
— É... agora tudo é diferente...
Pegou um lápis que estava em cima da cama e o examinou com expressão meditativa.
— Não pense que não o compreendo... Como poderíamos ser amigos? Você deve me perdoar, Martincito...
— Não tenho nada a perdoá-lo.
Mas o tom duro de suas palavras contradizia a afirmação.
— Está vendo? Você me odeia. E não pense que não o compreendo.
Martín gostaria de acrescentar: “não é verdade, não o odeio”, mas era monstruosamente certo que o odiava. Esse ódio o fazia sentir-se mais infeliz e aumentava sua solidão. Quando via sua mãe se maquiar tanto e ir para a rua cantarolando um bolero, a repugnância por ela se estendia ao pai e finalmente se concentrava nele, como se fosse o seu verdadeiro destinatário.
— Claro, Martín, compreendo que você não possa ter orgulho de um pintor fracassado.
Os olhos de Martín encheram-se de lágrimas.
Mas elas ficaram suspensas em seu grande rancor, como gotas de óleo no vinagre, sem se misturar. Gritou:
— Não diga isso, papai!
Seu pai o olhou comovido, estranhando sua reação.
Quase sem saber o que dizia, Martín gritou com raiva:
— Este país é asqueroso! Aqui os únicos que triunfam são os sem-vergonha!
Seu pai o olhou calado, fixo. Depois, negando com a cabeça, comentou:
— Não, Martín, não pense isso.
Contemplou o lápis que segurava nas mãos e um instante depois concluiu:
— Temos de ser justos. Sou um pobre-diabo e um fracassado total e com toda justiça: não tenho talento nem força. Essa é a verdade.
Martín começou a se retirar de novo para a sua ilha. Estava envergonhado do patético da cena, e a resignação de seu pai começava a endurecê-lo de novo.
O silêncio foi tão intenso e incômodo que seu pai se levantou para ir embora. Provavelmente compreendera que a decisão era irrevogável e, também, que o abismo entre eles era grande demais e definitivamente insuperável. Aproximou-se de Martín e, com a mão direita, apertou seu braço: gostaria de abraçá-lo, mas como fazê-lo?
— Pois é... — murmurou.
Martín teria dito algo carinhoso se soubesse que aquelas eram de fato as últimas palavras que ouviria de seu pai?
Alguém seria tão duro com os seres humanos — Bruno dizia — se soubesse de verdade que um dia vão morrer e que nada do que lhes disse já não poderá ser retificado?
Viu o pai se virando e se afastando para a escada. E também o viu, antes de desaparecer, com um olhar que, anos depois de sua morte, Martín recordaria desesperadamente.
E quando ouviu sua tosse, enquanto descia a escada, Martín se jogou na cama e chorou. Só horas depois teve força para terminar de arrumar a sacola. Quando saiu eram duas da madrugada e viu luz no ateliê do pai.
“Está aí”, pensou. “Apesar de tudo, vive, ainda vive.”
Caminhou até a garagem e pensou que deveria sentir uma grande libertação, mas não sentia; uma surda opressão o impedia. Caminhava cada vez mais devagar. Finalmente parou e hesitou. O que queria?