Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 19
No dia seguinte o sol brilhava como naquela segunda-feira, mas o vento estava forte demais e havia muita poeira no ar. Portanto, tudo era parecido, mas nada era igual, como se a conjunção favorável dos astros daquele dia já tivesse se desfigurado — temia Martín.
O pacto estabelecido conferia uma paz melancólica ao novo encontro: falavam suavemente, como dois bons amigos. Mas, por isso mesmo, era muito triste para Martín. E, talvez inconscientemente (Bruno pensava), não via a hora de descer até o rio e sentar-se de novo no mesmo banco, assim como se deseja repetir um acontecimento repetindo as fórmulas mágicas que o provocaram pela primeira vez; mas ignorava, é óbvio, até que ponto aquela segunda-feira — que para ele fora perfeita — para Alejandra fora surdamente angustiante; por isso, ao se repetirem, os mesmos fatos constituíam para ele motivo de felicidade, para ela causa de desassossego, sem falar de que costuma ser levemente sinistro voltar aos lugares que testemunharam um instante de perfeição.
Mas desceram para o rio e sentaram-se no mesmo banco.
Por longo tempo não falaram, num clima de serenidade. Serenidade que para Martín, contudo, após sua ingênua esperança no restaurante, ia se colorindo cada vez mais de melancolia, já que essa paz existia justamente por causa da condição imposta por Alejandra. E quanto a ela (Bruno pensava), a serenidade era simplesmente uma espécie de parêntese, tão precário, tão insubstancial como o que um doente de câncer consegue com uma injeção de morfina.
Olhavam os barcos, as nuvens.
Também observavam as formigas, que trabalhavam com essa seriedade acelerada e esforçada que as caracteriza.
— Olhe como produzem — Alejandra comentou. — Segundo Plano Qüinqüenal.
E ficou observando uma, à procura de seu caminho, cambaleando debaixo de uma carga que, proporcionalmente, era como um automóvel para um homem.
Seguindo a marcha do bichinho, perguntou:
— Sabe o que Juancito Duarte disse a Zubiza, quando Zubiza chegou ao inferno?
Sim, essa ele sabia.
— E a do Perón no inferno?
Não, essa ele ainda não conhecia.
Também contaram as piadas do dia sobre Aloé.
Depois Alejandra voltou às formigas.
— Lembra-se do conto de Mark Twain sobre as formigas?
— Não.
— Umas formigas têm de transportar uma pata de gafanhoto até o formigueiro: prova de que são os bichos mais bobos da criação. É muito engraçado: uma espécie de alívio, depois de todos esses sentimentalismos de Maeterlinck e companhia. Você não acha que é o cúmulo da estupidez?
— Nunca pensei nisso.
— Mas as galinhas são piores. Uma tarde, na quinta de Juan Carlos, passei horas tentando criar um reflexo nelas, com um pedaço de pau e comida. Refiro-me a esses reflexos de Pavlov. Nada feito. Gostaria de ver Pavlov com as galinhas. São tão idiotas que no final você fica com raiva. Você não fica com raiva da idiotice?
— Não sei, depende. Se além de idiota a pessoa é pedante, talvez.
— Não, não — ela comentou com entusiasmo. — Estou falando da idiotice pura, sem quê nem porquê.
Martín a olhou, intrigado.
— Não creio. É como se uma pedra me desse raiva.
— Não é a mesma coisa! A galinha não é uma pedra: ela se mexe, come, tem pretensões.
— Não sei — Martín comentou, perplexo. — Não entendo bem por que ficaria com raiva.
Voltaram ao silêncio, mas cada um imaginando, talvez, coisas diferentes. Martín, com a impressão de que ela sempre teria sentimentos e idéias que ele jamais conseguiria entender; e ela (pensava Martín), com certo desdém. Ou, o que era pior, com um sentimento que ele nem sequer podia imaginar.
Alejandra pegou na bolsa uma caderneta de endereços. De dentro tirou uma fotografia.
— Gosta? — perguntou.
Era um instantâneo no terraço de Barracas, ela encostada no parapeito. Alejandra tinha esse rosto profundo e ansioso, essa espera de algo indefinido que tanto o havia seduzido quando a conheceu.
— Gosta? — perguntou de novo. — É daqueles dias.
De fato, Martín reconheceu a blusa e a saia. Tudo parecia tão distante! Por que lhe mostrava agora essa fotografia?
Mas ela insistiu:
— Gosta ou não?
— Claro, como não vou gostar! Quem tirou?
— Alguém que você não conhece.
Uma nuvem tenebrosa escureceu o céu melancólico mas sereno.
Depois, enquanto a mantinha nas mãos e a olhava com sentimentos opostos, Martín perguntou, tímido:
— Pode me dar?
— Trouxe para lhe dar. Contanto que você goste.
Martín se emocionou, ao mesmo tempo que sentia tristeza: parecia ter um significado de despedida. Disse-lhe algo sobre isso, mas ela nada respondeu; ficou observando as formigas enquanto Martín escrutava sua expressão.
Desanimado, baixou a cabeça, e seu olhar caiu na mão de Alejandra, que estava sobre o banco, ao lado do corpo de Martín, ainda com a caderneta aberta, na qual se via dobrado um envelope de carta aérea. Os endereços que ela anotava na caderneta, as cartas que recebia, tudo constituía para Martín um mundo dolorosamente alheio.
E, embora sempre se controlasse a tempo, de vez em quando lhe escapava uma pergunta infeliz. Dessa vez, também.
— É uma carta de Juan Carlos — disse Alejandra.
— O que diz esse debilóide? — Martín perguntou, amargo.
— As bobagens de sempre, como você pode imaginar.
— Que bobagens?
— Do que Juan Carlos pode falar numa carta, aérea ou não? Vejamos, aluno Del Castillo.
Olhava-o sorrindo, mas Martín, com uma seriedade que (apostava) para ela devia parecer cretina, respondeu:
— Flertes?
— Muito bem, garoto. Nota nove. E não lhe dou dez porque perguntou, em vez de afirmar logo de uma vez. Centenas, milhares de flertes com dinamarquesas altíssimas e insipidíssimas e suavemente louras. Em suma, essa gente que o seduz. Todas muito bronzeadas graças à prática sistemática de esportes ao ar livre. Graças às viagens de milhões de milhas em canoas, numa camaradagem fraterna com rapazes tão louros, bronzeados e altos quanto elas. E muito practical joke, como fascina Juan Carlos.
— Mostre o selo — Martín pediu.
Conservava a paixão infantil pelos selos de terras distantes. Ao pegar o envelope, achou que Alejandra fazia um pequeno gesto, talvez inconsciente, de retê-lo. Agitado por esse detalhe, Martín fingiu que examinava o selo.
Ao devolver-lhe o envelope, olhou-a com cuidado e teve a impressão de que ela se alterara.
— Não é de Juan Carlos — arriscou.
— Claro que é de Juan Carlos. Não está vendo a letra de bebê de primeiro ano primário?
Martín ficou calado, como sempre que provocava uma situação semelhante. Incapaz de ir além, de entranhar-se na região turva de sua alma.
Pegou um pauzinho e começou a remexer a terra.
— Não seja bobo, Martín. Não estrague este dia com besteiras.
— Você tentou prender a carta — Martín comentou, sem parar de remexer com o pauzinho.
Fez-se um silêncio.
— Viu? Eu não me enganava.
— É, tem razão, Martín — ela admitiu. — É que ele não fala bem de você.
— E daí? — ele comentou com aparente displicência. — Eu não ia lê-la mesmo.
— Não, claro que não... Mas achei uma indelicadeza que você ficasse com ela na mão, sem saber de nada... Quer dizer, agora que penso, me dou conta de que foi por isso.
Martín levantou os olhos para ela.
— E por que ele fala mal de mim?
— Ah, não vale a pena dizer. Você sofreria inutilmente.
— E o que ele conhece de mim, esse idiota? Se nunca me viu!
— Martín, você pode imaginar que algum dia eu falei de você.
— Para esse cretino, você falou de mim, de nós?
— Mas se é igual a falar com ninguém, Martín! Igual a falar com uma parede. Não disse nada para ninguém, entende? Falar com ele é igual a falar com uma parede.
— Não, não entendo, Alejandra. Por que ele? Gostaria de que me dissesse ou que lesse o que ele diz de mim.
— Mas, se é uma bobagem típica de Juan Carlos, para quê?
Entregou-lhe a carta.
— Avisei que você vai ficar triste — anunciou com raiva.
— Não faz mal — Martín respondeu pegando a carta com avidez, nervoso, enquanto ela se colocava a seu lado, na atitude de quem vai ler junto com o outro.
Martín imaginou que queria atenuar cada frase, e foi o que comentou com Bruno. E Bruno pensou que a atitude de Alejandra era tão insensata como a que nos leva a vigiar as manobras de alguém que dirige mal o carro onde estamos.
Martín ia tirar a carta do envelope quando, de repente, entendeu que essa atitude poderia destruir os poucos e frágeis restos que sobravam do amor de Alejandra. Sua mão caiu, desalentada, com o envelope e assim ficou um bom tempo, até devolvê-lo. Alejandra guardou-o.
— Fazer confidências a um cretino desses — comentou, mas com vaga consciência de que estava cometendo uma injustiça, pois, disso tinha certeza, a aquele indivíduo jamais Alejandra podia fazer “confidências”. Seria algo melhor ou pior, mas confidências, nunca.
Sentia uma necessidade de feri-la e sabia, ou intuía, que essa palavra devia magoá-la.
— Não diga asneiras! Acabo de lhe dizer que falar com ele é igual a essas conversas que a gente tem com o cavalo. Você não entende? Bem, seja como for, realmente não devia ter-lhe dito nada, quanto a isso você tem razão. Mas eu estava bêbada.
Bêbada com ele (Martín pensou, mais amargurado).
— É — ela acrescentou logo em seguida, e já menos dura —, é como se você mostrasse para um cavalo a fotografia de uma paisagem bonita.
Martín sentiu que uma grande felicidade tentava atravessar as pesadas nuvens, e a expressão “paisagem bonita”, de toda maneira, chegava à sua alma atormentada como uma mensagem luminosa. Mas ele precisava forçar a passagem entre aquelas nuvens pesadas e, mais ainda, entre aquele “estava bêbada”.
— Você está me ouvindo?
Martín fez um gesto afirmativo.
— Olhe, Martín — ouviu-a dizer, de repente. — Eu me separarei de você, mas nunca acredite em coisas equivocadas sobre nossa relação.
Martín a olhou consternado.
— Sim. Por muitos motivos isto não pode continuar, Martín. Será melhor para você, muito melhor.
Martín não conseguia dizer nada. Seus olhos se encheram de lágrimas e, para que ela não percebesse, ficou olhando para a frente, ao longe: como num quadro impressionista, olhava sem ver um barco de casco marrom, distante, e umas gaivotas brancas que o rodeavam.
— Agora você vai ficar achando que eu não gosto de você, que jamais gostei — disse Alejandra.
Martín seguia a trajetória do barco marrom, com uma espécie de fascínio.
— E no entanto — dizia Alejandra.
Martín inclinou a cabeça e voltou a observar as formigas: uma delas levava uma folha grande e triangular que parecia a vela de um minúsculo barquinho: com o vento, ela bamboleava, e esse pequeno vaivém acentuava a semelhança.
Sentiu que a mão de Alejandra pegava seu queixo.
— Ande — disse-lhe com energia. — Levante esse rosto.
Mas Martín, com força e teimosia, a evitou.
— Não, Alejandra, agora me deixe. Quero que você vá embora e me deixe só.
— Não seja bobo, Martín. Maldita hora em que você viu essa carta estúpida.
— E eu maldigo a hora em que a encontrei. Foi o momento mais infeliz da minha vida.
Ouviu a voz de Alejandra, que perguntava:
— Você acha mesmo?
— Acho.
Alejandra ficou calada. Um instante depois levantou-se do banco e disse:
— Vamos caminhar um pouco juntos, pelo menos.
Martín se levantou pesadamente e começou a andar atrás dela.
Alejandra o esperou, pegou-o pelo braço e falou:
— Martín, eu lhe disse mais de uma vez que gosto de você, que gosto muito de você. Não esqueça isso. Jamais digo uma coisa em que não acredito.
Com essas palavras, uma paz lenta e acinzentada foi descendo sobre a alma de Martín. No entanto, ao lado dela a tempestade dos piores momentos era melhor do que essa calma cinza sem esperanças!
Caminharam, cada um concentrado em suas próprias idéias.
Quando chegaram diante da confeitaria da praia, Alejandra disse que precisava telefonar.
No café, tudo tinha esse ar inconsolável que tinham para ele os lugares de lazer nos dias de trabalho; as mesas estavam empilhadas umas sobre as outras, as cadeiras também; um garçom, em mangas de camisa, calças arregaçadas, lavava o chão. Enquanto Alejandra telefonava, Martín, no balcão, pediu um café, mas lhe disseram que a máquina estava fria.
Quando Alejandra voltou do telefone e Martín lhe disse que não havia café, ela sugeriu que fossem ao Moscova tomar um drinque.
Mas estava fechado. Bateram e esperaram, em vão.
Perguntaram na banca da esquina.
— Como, não sabiam?
Tinham-no trancado no manicômio, em Vieytes.
Parecia um símbolo: aquele bar era o primeiro onde havia conhecido a felicidade. Nos momentos mais deprimentes de suas relações com Alejandra sempre vinha ao espírito de Martín a lembrança do crepúsculo, a paz ao lado da janela, contemplando a noite descer sobre os telhados de Buenos Aires. Nunca como naquele instante ele se sentira mais longe da cidade, do tumulto e do furor, da incompreensão e da crueldade; nunca se sentira tão isolado da sujeira de sua mãe, da obsessão por dinheiro, do clima de conchavos, cinismos e ressentimento de todos contra todos. Ali, no pequeno mas poderoso refúgio, sob o olhar daquele homem entregue à bebida e às drogas, tão fracassado quanto generoso, toda a dura realidade externa parecia abolida. Mais tarde, indagaria se era inevitável que criaturas tão delicadas como Vania tivessem de terminar entregando-se à bebida ou às drogas. E comoviam-lhe também os quadros ordinários das paredes, tão grosseiramente representativos da pátria distante. Como tudo aquilo era emocionante, justamente por ser tão ordinário e ingênuo! Não era uma pintura pretensiosa feita por um mau pintor que se imagina bom, mas, com toda a certeza, feita por um artista tão bêbado e fracassado como o próprio Vania, tão desgraçado e definitivamente exilado de sua própria terra como ele, condenado a viver aqui, num país para eles absurdo e remotíssimo: até a morte. E de certo modo aquelas imagens baratas serviam para lembrar a pátria distante, assim como as decorações de um cenário, ainda que feitas de papel, ainda que muitas vezes toscas e primárias, de certo modo contribuem para sentirmos de verdade o drama ou a tragédia. O homem da banca de jornais balançava a cabeça.
— Era um bom sujeito — disse.
E o verbo no passado dava às paredes do manicômio o significado sinistro que realmente têm.
Dirigiram-se para o passeio Colón.
— Finalmente — Alejandra comentou — aquela nojenta conseguiu o que queria.
Alejandra, que ficara muito deprimida, sugeriu irem até La Boca.
Quando chegaram ao cruzamento da Pedro de Mendoza com a Almirante Brown, entraram no bar da esquina.
De um cargueiro brasileiro chamado Recife desceu um negro gordo e suarento.
— Louis Armstrong — Alejandra comentou, apontando com seu sanduíche.
Depois saíram andando pelo cais. E bem longe, num lugar a céu aberto, sentaram na beira do quebra-mar, olhando os semáforos.
— Há dias astrologicamente ruins — Alejandra comentou.
Martín a olhou.
— Qual é o seu dia? — perguntou.
— Terça-feira.
— E a sua cor?
— Preto.
— A minha é violeta.
— Violeta? — Alejandra perguntou, com certa surpresa.
— Li na Maribel.
— Vejo que você escolhe bem o seu material de leitura.
— É uma das revistas preferidas de minha mãe — disse Martín —, uma das fontes de sua cultura. É sua Crítica da razão pura.
Alejandra negou com a cabeça.
— Para a astrologia, nada como Damas y damitas. É fantástico...
Acompanhavam a entrada e a saída dos navios. Um, de casco branquíssimo e linha alongada, como um grave pássaro marinho, deslizava pelo Riachuelo, rebocado para a foz. A ponte levadiça abriu-se lentamente e o navio passou, fazendo soar a sirene repetidas vezes. E era estranho o contraste entre a suavidade e elegância de suas formas, o silêncio de seu deslizar e a força dos rebocadores rugindo.
— Doña Anita Segunda — Alejandra percebeu, pelo rebocador dianteiro.
Adoravam esses nomes e faziam concursos e instituíam prêmios para quem descobrisse o mais bonito: Garibaldi Tercero, La Nueva Teresina... Doña Anita Segunda não era mau, mas Martín já não pensava em concursos, e sim em como tudo aquilo pertencia a um tempo sem retorno.
O rebocador rugia, lançando uma coluna de fumaça preta e torcida. Os cabos estavam esticados como cordas de um arco.
— Sempre tenho a sensação de que, numa dessas, vai pular uma hérnia no rebocador — Alejandra comentou.
Desconsolado, pensou que tudo isso, tudo, desapareceria de sua vida. Como aquele navio: silenciosa mas inexoravelmente. Rumo a portos distantes e desconhecidos.
— Em que está pensando, Martín?
— Numa coisa.
— Diga.
— Em coisas, coisas indefinidas.
— Não me amole. Diga.
— Quando fazíamos concursos. Quando fazíamos planos para ir embora desta cidade, para qualquer lugar.
— É — ela confirmou.
De repente, Martín lhe comunicou que tinha conseguido umas injeções que provocavam a morte por paralisia do coração.
— Não me diga — Alejandra comentou, sem muito interesse.
Ele as mostrou. Depois disse, sombrio:
— Lembra quando falamos uma vez de nos matarmos juntos?
— Lembro.
Martín a observou e guardou as ampolas.
Já era noite, e Alejandra disse que deviam ir.
— Você vai para o centro? — Martín perguntou, pensando dolorosamente que tudo já estava terminando.
— Não, para casa.
— Quer que a acompanhe?
Aparentou um tom indiferente, mas sua pergunta estava cheia de ansiedade.
— Bem, se quiser — respondeu, após hesitar um pouco.
Quando chegaram em frente da casa, Martín sentiu que não podia se despedir ali e pediu-lhe que o deixasse subir.
De novo ela concordou, hesitante.
E, já no Mirante, Martín desmoronou, como se toda a desgraça do mundo tivesse desabado em suas costas.
Deitou-se na cama e chorou.
Alejandra sentou-se a seu lado.
— É melhor, Martín, é melhor para você. Sei o que estou dizendo. Não devemos nos ver mais.
Entre soluços, o rapaz disse a ela que então se mataria com as injeções que tinha lhe mostrado.
Ela ficou pensativa e perplexa.
Pouco a pouco Martín foi se acalmando e depois aconteceu o que não devia acontecer, e, depois que tudo aconteceu, ouviu-a dizer:
— Nós nos encontramos porque você prometeu que não chegaríamos a isso. De certo modo, Martín, você fez uma espécie de...
Mas não terminou a frase.
— De quê? — Martín perguntou, temeroso.
— Não faz mal, agora já está feito.
Levantou-se e começou a se vestir.
Saíram, e ela disse que queria ir beber alguma coisa. O tom de sua voz era sombrio e áspero.
Caminhava distraída, concentrada em algum pensamento obsessivo e secreto.
Começou a beber num dos botequins do porto e, como toda vez que começava a dominá-la aquela aflição indefinida, aquela espécie de abstração que tanto angustiava Martín, não ficava muito tempo em cada bar, precisando sair de um e entrar em outro.
Estava inquieta, como quem tem de tomar um trem e olha o relógio a toda hora, tamborilando os dedos na mesa, sem ouvir o que lhe diziam ou respondendo hein? hein?, sem entender nada.
Finalmente entrou num bar em cujas vidraças havia fotos de mulheres seminuas e cantores. A luz era avermelhada. A dona falava alemão com um marinheiro que bebia alguma coisa num copo muito alto e vermelho. Nas mesinhas podiam-se entrever marinheiros e oficiais com mulheres do parque Retiro. No estrado apareceu então uma mulher de uns cinqüenta anos, pintada com espalhafato, cabelo platinado. Seus seios enormes pareciam estourar como dois balões de ar debaixo de um vestido de cetim. Nos pulsos, nos dedos e no pescoço estava carregada de bijuterias que brilhavam na luz avermelhada do palco. Sua voz era aguardentosa e canalhesca.
Alejandra observava fascinada.
— Que foi? — perguntou Martín, ansioso.
Mas ela não respondeu; seus olhos sempre cravados na gorda.
— Alejandra — insistiu, tocando em seu braço. — Alejandra.
Ela o olhou, afinal.
— Que foi? — disse de novo.
— Ela está tão acabada. Não serve para cantar e também já não deve servir muito na cama, a não ser para provocar fantasias: quem transaria com um monstro desses?
Virou de novo os olhos para a cantora e murmurou, como se falasse consigo mesma:
— Daria tudo para ser igual a ela!
Martín a olhou assustado.
Depois, ao susto seguiu-se a sensação já habitual de ansiosa tristeza diante do enigma de Alejandra, condenado que estava a permanecer excluído para sempre. E a experiência já lhe havia mostrado que quando ela chegava a esse ponto soltava a raiva inexplicável contra ele, o rancor em brasas e sarcástico que ele jamais conseguiu explicar e que na última fase de suas relações explodia brutalmente.
Assim, quando virou os olhos para ele, aqueles olhos vidrosos de álcool, já sabia que de seus lábios tensos e desdenhosos sairiam palavras duras e vingativas.
Do alto de seu pedestal infernal, olhou-o por uns instantes, que para Martín pareceram eternos: lembrava um desses deuses astecas antigos e sádicos que exigem o coração quente de suas vítimas. E então lhe disse num tom violento e baixo.
— Não quero ver você aqui! Vá embora já, e me deixe sozinha!
Martín tentou acalmá-la, mas ela se enfureceu mais ainda e, levantando-se, gritou-lhe que fosse embora.
Como um autômato, Martín se levantou e foi saindo, entre os olhares dos marinheiros e das prostitutas.
Lá fora, com o ar fresco, ele começou a recobrar a consciência. Andou até o Retiro e terminou sentando num dos bancos da praça Británica: o relógio da torre marcava onze e meia da noite.
Sua cabeça era um caos.
Por um instante tentou mantê-la levantada, mas de repente a resistência acabou.