Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 7
Chuviscava, a noite estava fria. Um vento devastador arrastava em rajadas furiosas os papéis da rua e as folhas secas que iam deixando nus os galhos das árvores.
Diante do galpão cuidavam dos últimos preparativos. A lona, disse Bucich, com a guimba apagada, pode chover forte, sabe. Amarravam as correias, encostando uma perna no caminhão, fazendo força. Passavam operários, conversando, contando piadas, uns em silêncio e cabisbaixos. Puxe daí, garoto, dizia Bucich. Depois entraram no bar: homens de macacão azul e casacos de couro, de botas e borzeguins, conversavam ruidosamente, tomavam café e aguardente, comiam enormes sanduíches, trocavam recomendações, falavam de gente da estrada: o Magro, o Cara de Entrerríos, o Gonzalito. Davam-lhe enormes tapas no ombro, em cima da jaqueta de couro, chamavam-no de Puchito Velho de Guerra, e ele sorria, sem falar. E depois, ao terminar o salaminho e o café preto, disse a Martín agora pé na estrada, garoto, e, saindo, subiu na boléia e pôs o motor para funcionar, acendeu os faróis baixos e começou o trajeto para a ponte Avellaneda, iniciando a viagem interminável para o sul, primeiro atravessando na madrugada fria e chuvosa aqueles bairros que tantas recordações traziam a Martín; em seguida, cruzando o Riachuelo, e os bairros industriais, e depois, pouco a pouco, a estrada mais larga para o sudeste; até que, após o entroncamento de La Plata, direto para o sul, por aquela estrada número 3 que terminava na ponta do mundo, lá onde Martín imaginava tudo branco e gelado, naquela ponta que se inclinava para a Antártida, varrida pelos ventos patagônicos, inóspita mas limpa e pura. Enseada da Última Esperança, Baía Inútil, Porto-Fome, Ilha Desolação, nomes que ele olhara ao longo dos anos, desde a sua infância lá no sótão, em longas horas de tristeza e solidão; nomes que sugeriam distantes e solitárias regiões do mundo, mas limpas, duras e puríssimas, lugares que pareciam não ter sido ainda conspurcados pelos homens, e muito menos pelas mulheres.
Martín lhe perguntou se conhecia bem a Patagônia, Bucich disse bom, sorrindo com benévola ironia.
— Eu sou do ano 1, garoto. E pode-se dizer que desde que parei de engatinhar comecei a andar pela Patagônia. Sabe, meu velho era marinheiro e no barco alguém lhe falou do sul, das minas de ouro. E aí o velho embarcou em Buenos Aires num cargueiro que ia pra Puerto Madryn. Lá conheceu um inglês, o Esteve, que também andava querendo encontrar ouro. E aí continuaram a viagem pro sul. Do jeito que desse: a cavalo, de carreta, de canoa. Até que ficou em Lago Viedma, perto do Fritzroy. Foi lá que eu nasci.
— E sua mãe?
— Ele conheceu ela lá, uma chilena. Albina Rojas.
Martín o olhava, fascinado. Bucich sorria pensativo, consigo mesmo, sem tirar o olho da estrada, com a guimba apagada. Perguntou-lhe se fazia muito frio.
— Depende. No inverno chega a fazer até trinta abaixo de zero, sobretudo entre Lago Argentino e Río Gallegos, durante a travessia. Mas no verão fica lindo.
Um pouco depois falou de sua infância, das caçadas de pumas e guanacos, raposas, javalis. Das expedições com seu pai, de canoa.
— Meu velho — acrescentou, rindo — nunca desistiu da idéia do ouro. E mesmo trabalhando com umas ovelhas e mesmo sendo colono, assim que podia, pimba, tinha uma recaída. Em 1903 deu um jeito para ir junto com um dinamarquês, o Masen, e um alemão, o Oten, lá pra Terra do Fogo. Foram os primeiros brancos que atravessaram o Río Grande. Depois voltaram para o norte por Última Esperança até chegar nos lagos. Procurando ouro, o tempo todo.
— E encontraram?
— Que encontraram que nada! Tudo isso era conversa-fiada.
— E como viviam?
— Do que caçavam e do que pescavam, ora bolas! Depois, meu velho conseguiu ir trabalhar com o Masen na Comissão de Fronteiras. E, quando estava perto de Viedma, conheceu um dos primeiros colonos de lá, um inglês, o Yac Liveli, que disse pra ele don Bucich isso aqui tem muito futuro, vá por mim, por que o senhor não fica aqui em vez de ficar procurando ouro, aqui o ouro são as ovelhas, eu sei do que estou falando.
E depois se calou.
Na noite silenciosa e gelada podem-se ouvir os cascos da cavalaria em retirada. Sempre para o norte.
— Em 21 eu trabalhava de peão em Santa Cruz, quando teve a grande greve. Foi uma baita matança.
Voltou a ficar pensativo, mastigando o charuto apagado. Às vezes cumprimentava um caminhoneiro que vinha em sentido contrário.
— Pelo visto, o senhor é muito conhecido — Martín comentou.
Bucich sorriu com orgulhosa modéstia.
— Garoto, faz mais de dez anos que eu ando na estrada número 3. Conheço ela como a palma da minha mão. Três mil quilômetros de Buenos Aires até o estreito. É a vida, garoto.
Cataclismos colossais levantaram aquelas cordilheiras do noroeste e há duzentos e cinqüenta mil anos ventos vindos das regiões que ficam mais para lá dos cimos ocidentais, no lado da fronteira, escavaram e trabalharam formidáveis catedrais misteriosas.
E a Legião (os restos da Legião) segue seu galope para o norte, perseguida pelas forças de Oribe. Em cima de seu tordilho de batalha, enrolado em seu poncho, apodrecendo, vai o corpo inchado do general.
O tempo tinha mudado, parara de chuviscar, soprava um vento forte de dentro (dizia Bucich) e o frio era cortante. Mas agora o céu estava transparente. À medida que avançava para o sudoeste o pampa se abria cada vez mais, a paisagem ficava imponente e, para Martín, o ar parecia mais puro. Agora, também se sentia útil: tiveram de trocar um pneu, ele cevava mate, preparava o fogo. E assim chegou a primeira noite.
Faltam trinta e cinco léguas. Três dias de marcha a galope batido, com o cadáver que fede e destila os líquidos da podridão, com uns atiradores na retaguarda que cobrem a retirada, que talvez estejam sendo pouco a pouco dizimados e lanceados ou degolados. De Jujuy a Huacalera, vinte e quatro léguas. Só mais trinta e cinco léguas, dizem para si mesmos. Só mais quatro ou cinco dias de marcha, se Deus nos ajudar.
— Porque eu, garoto, não gosto nada de comer nos restaurantes — disse Bucich enquanto botava o caminhão num desvio de terra.
As estrelas refulgiam na noite dura e fria.
— É o meu jeito, garoto — explicou com orgulho, dando umas batidinhas com as mãozorras no caminhão Mack, como se fosse o cavalo predileto. — Quando chega a noite, eu paro. A não ser no verão, que aí é melhor dirigir com o fresco. Mas é sempre perigoso: você se cansa, pega no sono e paf! O que aconteceu com o gordo Villanueva, no verão passado, perto de Azul. E vou ser sincero, não é por causa da gente, não, é por causa dos outros. Imagine um caminhão que nem este. A cacetada que não vai ser.
Martín começou os preparativos para fazer a fogueira. Enquanto o caminhoneiro estendia a carne em cima da grelha, comentou:
— Umas costelinhas, daqui, ó!, você vai ver. Meu negócio é comprar a carne quando acabaram de abater. Nada de frigorífico, garoto, tenha sempre isso na cabeça: lá eles tiram o sangue. Se eu fosse do governo, juro por esta cruz que proibia a carne congelada. Vá por mim, por isso é que tem tanta doença hoje em dia.
Mas e sem os frigoríficos a carne não apodrecia, nas grandes cidades? Bucich tirou o charuto da boca, negou com o dedo e disse:
— Mentira, tudo isso é lorota. Se vendessem logo a carne não aconteceria nada, entende? Tem que comprar assim que for abatida. Como é que vai apodrecer? Quer me explicar?
Enquanto ajeitava a carne para que o vento não a queimasse, prosseguiu, como se continuasse a pensar naquilo:
— Vou te dizer uma coisa, garoto: antigamente as pessoas eram mais saudáveis. Sabe quantos anos tem meu velho?
Não, Martín não sabia. Na luz do fogo, olhava Bucich sorrindo, de cócoras, com o charuto apagado, orgulhoso de antemão.
— Oitenta e três. E eu mentiria se te dissesse que ele algum dia viu um médico. Dá pra acreditar?
Depois se sentaram em cima de uns caixotezinhos, perto do fogo, calados, esperando que a carne estivesse no ponto. O céu estava puríssimo, o frio intenso. Martín observava as chamas.
Pedernera ordena fazer alto e fala com os companheiros: o corpo está inchando, o cheiro é insuportável. Será preciso descarná-lo para conservar os ossos e a cabeça. Oribe nunca a terá.
Mas quem quer fazê-lo? E, sobretudo, quem poderá fazê-lo?
O coronel Alejandro Danel fará.
Então descem o corpo, colocam-no na beira do riacho, é preciso rasgar a faca a roupa do general, esticada por causa do inchaço. Depois Danel ajoelha-se a seu lado e desembainha a faca de mato. Por instantes contempla o cadáver disforme de seu chefe. Também o contemplam os homens que formam um círculo mudo. E então Danel finca a faca onde a podridão já começou seu trabalho. O riacho Huacalera arrasta os pedaços de carne, água abaixo, enquanto os ossos vão sendo amontoados sobre o poncho.
A alma de Lavalle percebe as lágrimas de Danel e reflete assim: “Você sofre por mim, mas deveria sofrer por si mesmo e pelos camaradas que continuam vivos. Eu já não me importo. O que em mim se estragava você está arrancando e as águas deste rio o levarão para longe, e depois isso ajudará uma planta a crescer, talvez com o tempo ela se transforme em flor, em perfume. Como vê, isso não deveria entristecê-lo. E, aliás, assim só restarão de mim os ossos, a única coisa que nos aproxima da pedra e da eternidade. E conforta-me que guardem meu coração. Tão lealmente me acompanhou na adversidade! E a cabeça também, sim. Esta cabeça que aqueles doutores diziam não valer nada. Talvez tenham dito porque me repugnava aliar-me com estrangeiros ou porque acharam absurda e sem razão de ser esta longa retirada, porque não me decidi a atacar Buenos Aires quando suas cúpulas estavam à vista: esses intelectuais não sabiam que, naqueles dias em que voltei a ver os campos onde fuzilei Manuel Dorrego, sua lembrança me atormentou, e agora me atormenta mais ainda, pois vi que o povo do campo estava com ele e não conosco, quando cantava
Cielo y cielo nublado
Por la muerte de Dorrego...
Sim, companheiros, esses cavalheiros que me fizeram cometer um crime, pois na época eu era muito jovem, e acreditei realmente que prestava um serviço à minha pátria, e embora me doesse terrivelmente, porque eu amava Manuel, porque sempre tive admiração por ele, assinei a sentença que tanto sangue trouxe nestes onze anos. E aquela morte foi um câncer que me devorou no exílio e depois nesta estúpida campanha. Você, Danel, que estava comigo naquele momento, sabe muito bem quanto me custou fazê-lo, quanto eu admirava a coragem e a inteligência de Manuel. E Acevedo também sabe, e muitos companheiros que, agora, olham aqui meus restos. E você também sabe que foram eles, os homens de cabeça, que me induziram a fazê-lo, com cartas insidiosas, cartas que aliás queriam que eu logo destruísse. Foram eles. Não você, Danel, nem você, Acevedo, nem Lamadrid nem nenhum dos nossos, que não temos mais do que um braço para empunhar o sabre e um coração para enfrentar a morte”.
(Os ossos já foram enrolados no poncho que um dia foi azul-claro mas hoje, como o espírito destes homens, é pouco mais do que um trapo sujo; um trapo que não se sabe muito bem o que representa; esses símbolos dos sentimentos e das paixões dos homens — azul-claro, vermelho — que terminam enfim voltando à cor imortal da terra, cor que é mais ou menos a cor da sujeira, porque é a cor de nossa velhice e do destino final de todos os homens, sejam quais forem suas idéias. O coração já foi posto num pequeno frasco com aguardente. E aqueles homens guardaram em algum bolso esfarrapado uma pequena recordação do corpo: um ossinho, uma mecha de cabelo.)
“E você, Aparicio Sosa, que nunca tentou entender nada, porque simplesmente se limitou a ser fiel, a crer sem razões no que eu dissesse ou fizesse, você, que cuidou de mim desde que fui um cadete malcriado e atrevido; você, o calado sargento Aparicio Sosa, o negro Sosa, o Sosa bexiguento, o que me salvou em Cancha Rayada, o que nada possui além do amor por este pobre general derrotado, além desta pátria desgraçada e cruel: gostaria que pensassem em você. Quero dizer...”
(Os fugitivos agora colocaram o pacote com os ossos na maleta de couro do general, e a maleta em cima do tordilho de batalha. Mas hesitam em relação ao frasquinho, até que Danel o entrega a Aparicio Sosa, o mais desamparado com a morte do chefe.)
“Sim, companheiros, o sargento Sosa. Pois é como falar desta terra, desta terra cruel, regada com o sangue de tantos argentinos. Deste vale por onde vinte e cinco anos atrás Belgrano subiu com seus soldadinhos improvisados, generalzinho improvisado, frágil como uma criança, unicamente com a força de sua coragem e de seu fervor, tendo de enfrentar as forças aguerridas da Espanha por uma pátria que ainda não sabíamos claramente o que era, que ainda hoje não sabemos o que é, até onde se estende, a quem pertence de verdade: se a Rosas, se a nós, se a todos juntos ou a ninguém. Sim, sargento Sosa: você é esta terra, este vale milenar, esta solidão americana, este desespero anônimo que nos atormenta no meio deste caos, nesta luta entre irmãos.”
(Pedernera dá ordem de montar. Já se ouvem, perigosamente próximos, os tiros na retaguarda, perdeu-se demasiado tempo. E diz a seus companheiros: “Se tivermos sorte, em quatro dias chegaremos à fronteira”. Isto é, trinta e cinco léguas que podem ser percorridas em quatro dias de desesperado galope. “Se Deus nos acompanhar”, acrescenta.
E os fugitivos desaparecem no meio da poeira, sob o sol intenso do vale, enquanto atrás outros companheiros morrem por eles.)
Comeram calados, sentados sobre os caixotinhos. Depois do jantar, Bucich preparou de novo o mate. E enquanto o tomavam ele olhava o céu estrelado, até que se animou em confessar o que, havia tempo, queria confessar:
— Vou te dizer uma coisa, garoto. Eu gostaria de ter sido astrônomo. O quê? Acha esquisito?
Pergunta que acrescentou por puro medo de se expor ao ridículo, pois nada no rosto de Martín poderia induzi-lo a pensar isso.
Martín disse que não. Por que acharia esquisito?, disse.
— Toda noite, quando eu viajo, olho as estrelas e digo: quem é que viverá nesses mundos? O alemão Mainsa diz que vivem milhões de pessoas, que cada uma delas, das estrelas, é que nem a Terra.
Acendeu o charuto, aspirou longamente a fumaça e ficou matutando.
Depois continuou:
— Mainsa. Ele me disse também que os russos têm umas invenções incríveis. De repente a gente está aqui, tranqüilo, comendo as costelinhas, e eles mandam uma espécie de raio e, ó, adeus! O raio da morte.
Martín passou-lhe o mate e perguntou quem era Mainsa.
— Meu cunhado. O marido da minha irmã Violeta.
E como sabia de todas essas coisas?
Bucich chupou o mate, com calma, e depois explicou com orgulho:
— Faz quinze anos que ele é telegrafista em Bahía Blanca. Por isso é que conhece a fundo todo esse negócio de aparelhos e raios. É alemão, não precisa dizer mais nada.
Depois se calaram, até que Bucich se levantou e disse: “bem, garoto, a gente tem que dormir”, foi buscar a moringa de aguardente, deu um gole, olhou o céu e prosseguiu:
— Ainda bem que não choveu por aqui. Amanhã vamos ter que fazer trinta quilômetros em estrada de terra. Que nada, mentira minha: sessenta! Trinta e trinta.
Martín o olhou: estrada de terra?
— É, a gente tem de se afastar um pouco, preciso ir ver um amigo perto da estação de La Garma. Um afilhado meu que está doente, lá. Estou levando um carrinho pra ele.
Foi à boléia, tirou uma caixa, abriu e mostrou-lhe o presente, sorrindo orgulhoso. Deu corda e tentou ver se o carrinho andava no chão.
— É claro, na terra não anda direito. Mas no chão de madeira ou de cimento anda que é uma maravilha.
Guardou-o cuidadosamente, enquanto Martín o observava, perplexo.
Galopam desembestados para a fronteira, porque o coronel Pedernera disse: “Esta noite mesmo devemos estar em terra boliviana”. Lá atrás ouvem-se os tiros da retaguarda. E aqueles homens pensam quantos camaradas e quais dos que cobrem a fuga de sete dias terão sido atingidos pela turma de Oribe.
Até que no meio da noite cruzam a fronteira e podem se jogar no chão e enfim descansar e dormir em paz. Uma paz, entretanto, tão desolada como a que reina num mundo morto, num território arrasado pela calamidade, percorrido por caranchos silenciosos, lúgubres e famintos.
E quando na manhã seguinte Pedernera dá ordem de montar e reiniciar a marcha para Potosí, os homens montam a cavalo mas permanecem um longo tempo olhando para o sul. Todos (o coronel Pedernera também), cento e setenta e cinco rostos, homens pensativos e calados e também uma mulher, olhando para o sul, para a terra que se conhece com o nome de Províncias Unidas (Unidas!) do Sul, para a região do mundo onde estes homens nasceram, e onde ficam seus filhos, seus irmãos, suas mulheres, suas mães. Para sempre?
Todos olham para o sul. O sargento Aparicio Sosa, com seu frasquinho, com aquele coração apertado contra o peito, também olha para lá.
E também o alferes Celedonio Olmos, que aos dezessete anos de idade se juntou à Legião, com o pai e o irmão, agora mortos em Quebracho Herrado, para lutar por idéias que se escrevem com maiúsculas; palavras que depois vão se apagando e cujas maiúsculas, torres antigas e reluzentes, foram desmoronando pela ação dos anos e dos homens.
Até que o coronel Pedernera percebe que já basta e dá a ordem de marcha, e todos puxam suas rédeas e fazem as cavalgaduras se virar para o norte.
Já estão se afastando no meio da poeira, na solidão mineral, na desolada região planetária. E logo será impossível distingui-los, poeira na poeira.
No vale, nada mais sobra da Legião, dos míseros restos da Legião: o eco de suas cavalgadas se apagou, a terra que levantaram com seu galope furioso voltou a assentar, lenta mas inexoravelmente; a carne de Lavalle foi arrastada para o sul pelas águas de um rio (para transformar-se em árvore, em planta, em perfume?). Só permanecerá a lembrança vaga e cada dia mais imprecisa daquela Legião fantasma. “Nas noites de lua — conta um velho índio — eu também os vejo. Primeiro a gente ouve as nazarenas e o relincho de um cavalo. Depois ele aparece, é um cavalo muito garboso, e quem o monta é o general, branco como a neve (assim o índio vê o cavalo do general). Ele porta um grande sabre de cavalaria e um morrião alto, de granadeiro.” (Pobre índio, pois se o general já era um camponês maltrapilho, com um chapelão de palha suja e um poncho que já esquecera a cor simbólica! Pois se aquele infeliz não tinha nem uniforme de granadeiro nem morrião, nem nada! Se era um miserável entre miseráveis!)
Mas é como um sonho: mais um instante e ele desaparece na sombra da noite, cruzando o rio rumo às montanhas do poente...
Bucich lhe mostrou o lugar de dormir, no reboque, estendeu os colchonetes, acertou o despertador, disse “tem de botar pras cinco”, e depois se afastou uns passos, para urinar. Martín achou que era seu dever fazer o mesmo, perto do amigo.
O céu estava transparente e duro como um diamante negro. Na luz das estrelas, a planície estendia-se pela imensidão desconhecida. O odor quente e acre da urina se misturava com os odores do campo. Bucich disse:
— Como o nosso país é grande, garoto...
E então Martín, contemplando a silhueta gigantesca do caminhoneiro contra o céu estrelado, enquanto urinavam juntos, sentiu uma paz puríssima entrando pela primeira vez em sua alma atormentada.
Observando o horizonte, enquanto se abotoava, Bucich concluiu:
— Bem, pra cama, garoto. Às cinco, pé na estrada. Amanhã a gente atravessa o Colorado.
Você terminou Sobre Heróis e Tumbas
Ernesto Sabato
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