Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 37 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 17

 

Alejandra não foi. Mas Wanda apareceu, com um recado: não poderia vê-lo nesta semana.

— Muito trabalho — acrescentou, olhando seu isqueiro com música.

— Muito trabalho — Martín repetiu, enquanto, perversamente, surgia-lhe a imagem de Bordenave.

Wanda se limitou a acender e apagar o isqueiro várias vezes.

— Ela vai lhe telefonar.

— Tudo bem.

Um grande peso impediu-lhe de se levantar depois que Wanda foi embora, mas afinal se levantou e foi ligar para Bruno. Falava com timidez, não lhe dizia que desejava vê-lo, mas Bruno sempre acabava insistindo para que ele fosse.

Sentou-se num canto, e Bruno tentou distraí-lo comentando outras coisas.

— Conhece Molina Costa?

— Não.

— A propriedade dele fica ao lado da fazenda de um senhor chamado Pearson Spaak. O filho desse senhor, Willie, criticava-o por andar de calças breeches, enquanto ele próprio vestia sempre as bombachas crioulas e nunca montava um cavalo inglês. Molina lhe disse: “Meu amigo, você precisa de tudo isso porque se chama Pearson Spaak; mas eu, como me chamo Molina Costa, posso me dar ao luxo de andar de breeches”.

Bruno riu com gosto, um riso que Martín não notara antes. Pelo visto, achara muita graça na anedota. Quando se acalmou, disse:

— É indubitável que nosso empenho recente em rejeitar tudo o que é europeu traduz um forte sentimento de insegurança. Não? Aqui, os grupos nacionalistas estão cheios de indivíduos que se chamam Kelly ou Rabufetti.

Tirou os óculos e os limpou, com aquela mania de mantê-los impecáveis, ou talvez fosse um simples tique. Vistos sem as lentes grossas, seus olhos cresciam subitamente e conferiam a seu rosto uma curiosa impressão de nudez que deixava Martín quase envergonhado. Além disso, o olhar de Bruno ficava mais absorto e meio desamparado diante de um universo minucioso e rico.

Falou do livro que estava lendo, sobre o tempo, e explicou a diferença entre o tempo dos astrônomos e o do homem comum. Pensava, porém, que nada disso poderia ser útil para Martín, a não ser como mera distração. Qualquer consideração abstrata, mesmo se referindo a problemas humanos, não servia de consolo a homem nenhum, não mitigava nenhuma tristeza e nenhuma angústia que pode sofrer um ser concreto de carne e osso, um pobre ser de olhos que miram ansiosos (o quê? quem?), uma criatura que só sobrevive pela esperança. Pois felizmente (pensava) o homem não é feito apenas de desespero, mas de fé e esperança; não apenas de morte, mas também de desejo de vida; tampouco unicamente de solidão, mas de momentos de comunhão e amor. Se prevalecesse o desespero, nós todos nos deixaríamos morrer ou nos mataríamos, e não é isso o que acontece, nem de longe. O que demonstrava, a seu ver, a pouca importância da razão, já que não é razoável manter esperanças neste mundo em que vivemos. Nossa razão, nossa inteligência, estão constantemente nos provando que o mundo é atroz, daí a razão ser aniquiladora e levar ao ceticismo, ao cinismo e, por fim, à destruição. Mas, felizmente, quase nunca o homem é um ser razoável, e por isso a esperança renasce aqui e acolá, no meio de calamidades. E esse próprio renascer de algo tão tresloucado, tão sutil e visceralmente tresloucado, tão destituído de qualquer fundamento é a prova de que o homem não é um ser racional. E assim, mal os terremotos arrasam uma vasta região do Japão ou do Chile; mal uma gigantesca inundação liquida centenas de milhares de chineses na região do Yang-tsé; mal uma guerra cruel e, para a imensa maioria de suas vítimas, sem sentido, como a Guerra dos Trinta Anos, acaba de mutilar e torturar, assassinar e estuprar, incendiar e arrasar mulheres, crianças e aldeias, e já os sobreviventes, aqueles que no entanto assistiram, espantados e impotentes, a essas calamidades da natureza ou dos homens, esses mesmos seres que nos momentos de desespero pensaram que nunca mais teriam vontade de viver e que jamais reconstruiriam suas vidas nem poderiam reconstruí-las ainda se quisessem, esses mesmos homens e mulheres (sobretudo mulheres, porque a mulher é a própria vida e a terra-mãe, a que jamais perde um derradeiro resto de esperança), esses precários seres humanos já começam de novo, como formiguinhas idiotas mas heróicas, a levantar seu mundinho cotidiano: mundo pequeno, é verdade, mas por isso mesmo mais comovente. Portanto, não eram as idéias que salvavam o mundo, não era o intelecto nem a razão, mas justo o contrário: as insensatas esperanças dos homens, sua fúria persistente em sobreviver, seu desejo de respirar enquanto for possível, seu pequeno, teimoso e grotesco heroísmo cotidiano ante o infortúnio. E se a angústia é a experiência do Nada, algo assim como a prova ontológica do Nada, não seria a esperança a prova de um Sentido Oculto da Existência, pelo qual vale a pena lutar? E, sendo a esperança mais poderosa do que a angústia (já que sempre triunfa, pois do contrário todos se suicidariam), esse Sentido Oculto não é mais verdadeiro, por assim dizer, do que o famoso Nada?

Ao mesmo tempo, num plano mais superficial, ele dizia a Martín alguma coisa aparentemente sem relação com suas reflexões profundas, mas na verdade ligadas a elas por vínculos irregulares embora vitais.

— Sempre pensei que gostaria de ser bombeiro.

E, como Martín o olhasse surpreso, comentou, pensando que talvez esse tipo de reflexão pudesse ser útil à sua tristeza, mas com um sorriso que atenuava tal pretensão.

— Talvez um cabo do corpo de bombeiros. Porque então eu me sentiria dedicado a um ideal comunitário, em que realizamos um esforço para os outros, e, além disso, correndo perigo, beirando a morte. E como cabo eu me sentiria, imagino, responsável por meu pequeno grupo. Ser para eles a lei e a esperança. Um mundinho em que a alma de uma pessoa se transmita a uma alma coletiva. De tal modo que as tristezas sejam as tristezas de todos e as alegrias também, e o perigo seja o perigo de todos. Saber, além disso, que se pode e se deve confiar nos companheiros, que nesses momentos-limite da vida, nessas zonas incertas e vertiginosas em que a morte nos enfrenta repentina e furiosamente, eles, os companheiros, lutarão contra ela, nos defenderão e sofrerão e esperarão por nós. E depois, o destino, pequeno e modesto, de manter o equipamento limpo, os bronzes brilhando, limpar e afiar os machados, viver com simplicidade esses momentos que, no entanto, precedem o perigo e talvez a morte.

Tirou os óculos e limpou-os.

— Diversas vezes imaginei Saint-Exupéry lá no alto, em seu aviãozinho, lutando contra a tempestade, em pleno Atlântico, heróico e calado, com seu telegrafista atrás, unidos pelo silêncio e pela amizade, pelo perigo comum mas também pela esperança comum; escutando o ronco do motor, controlando ansiosos a reserva de combustível, olhando-se mutuamente. O companheirismo diante da morte.

Pôs os óculos e sorriu, olhando ao longe.

— Bem, talvez a gente admire mais o que não é capaz de fazer. Não sei se seria capaz de fazer a centésima parte do que fez Saint-Exupéry. Evidentemente, este é o maior. Mas queria dizer que mesmo em pequena escala... cabo de bombeiros... Eu, no fundo... o que eu sou? Uma espécie de contemplativo solitário, um inútil. Não sei nem mesmo se um dia conseguirei escrever um romance ou uma peça de teatro. E ainda que escrevesse... não sei se algo assim pode ser comparável a fazer parte de um pelotão e proteger, fuzil na mão, o sono e a vida dos companheiros... Pouco importa se a guerra é feita por sem-vergonhas, por ladrões das finanças ou do petróleo: aquele pelotão, aquele sono protegido, aquela fé em nossos companheiros, estes serão sempre valores absolutos.

Martín o olhava com os olhos embaçados, estático. E Bruno pensou consigo mesmo: “Bem, no final das contas, não estamos todos numa espécie de guerra? E não pertenço a um pequeno pelotão? E Martín, de certo modo, não é alguém cujo sono eu velo e cujas angústias eu tento amenizar e de cujas esperanças eu cuido como de um filhotinho de lhama no meio de uma violenta tempestade?”.

E logo se envergonhou.

Então contou uma piada.