Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 16 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 16

 

O vento fresco despertou Martín. D’Arcángelo continuava resmungando e custou a sossegar. Então perguntou onde ele trabalhava. Envergonhado, Martín respondeu que estava sem trabalho. D’Arcángelo o olhou.

— Faz muito?

— Faz um tempo.

— Tu tem família?

— Não.

— Onde tu mora?

Martín demorou a responder: ficara vermelho, mas felizmente (pensou) era de noite. D’Arcángelo olhou-o de novo, atento.

— Na verdade...— murmurou.

— Quê?

— Bem... tive de largar um quarto...

— E onde tu dorme, agora?

Martín, envergonhado, balbuciou que dormia em qualquer lugar. E para atenuar o fato acrescentou:

— Na verdade, ainda não está fazendo frio.

Tito parou e o examinou sob a luz de um poste.

— Mas pelo menos tu tem o que comer?

Martín continuou calado. Então D’Arcángelo estourou:

— Já entendi por que tu não abriu o bico! Eu falando dos craque e tu aí comendo brisa! Tem que estar enjoado!

Levou-o a uma lanchonete e, enquanto comiam, ele o observava, pensativo.

Quando terminaram e saíram, ajeitando a gravata, disse-lhe:

— Sossegue, garoto. Agora vamo lá em casa. Depois a gente vê.

Entraram num antigo depósito de veículos que em outros tempos deve ter sido uma casa senhorial.

— Meu velho, sabe, foi cocheiro até uns dez ano atrás. Agora, com o reumatismo, não pode nem se mexer. E além do mais quem é que vai pegar um coche hoje em dia? Meu velho está aí no meio desse mundaréu de vítima que tem no altar do progresso da cidade. Bem, já basta a saúde.

Era uma mistura de cortiço e cavalariças: ouviam-se gritos, conversas e várias rádios simultâneas, em meio a um forte cheiro de esterco. Nas antigas cocheiras havia alguns carros de praça e uma caminhonete.

Ouvia-se a pateada dos cascos de cavalos.

Andaram até os fundos.

— Aqui, quando eu era meninote, tinha três vitória que dava gosto: a 39, a 42 e a 90. A 39 quem dirigia era o velho. Era uma belezinha. Não é porque era do velho não, mas te juro que era uma garota mimada: ele pintava, lustrava, dava brilho no farol. E agora dá só uma olhada.

Apontou-lhe nos fundos, guardado num canto, o cadáver de um coche de praça: sem faróis, sem borrachas, rachado, a capota podre e rasgada.

— Inda até um mês atrás ela saía, a coitada. Quem cuidava dela era o Nicola, um amigo do velho, que morreu. Melhor assim, pra te ser sincero, porque pra trabalhar do jeito que o infeliz trabalhava, melhor estar na cova. Fazia uns biscatinhos em Constitución, carregava mala.

Acariciou a roda da velha vitória.

— Filha-da-puta! — disse com voz abatida. — Quando chegava o carnaval tinha que ver essa aí no corso de Barraca. E o velho de cartolinha, na boléia. Te juro que fazia um furor, garoto.

Martín lhe perguntou se vivia ali com toda a família.

— De que família tu tá me falando, garoto. Tem o velho e eu. Minha velha morreu faz três ano. Meu irmão Américo mora em Mendoza, trabalha de pintor, que nem eu. Outro, o Bachicha, está casado em Matadero. Meu irmão Argentino, que a gente chamava Tino, era anarquista e mataram ele em Avellaneda, em 1930. Um irmão que se chamava Chiquín, bem, que a gente chamava, morreu tuberculoso.

Riu.

— Da gente, teve uma porção que saiu meio fraquinho do pulmão, sabe. Eu acho que é por causa do chumbo na tinta. Minha irmã Mafalda também casou e vive em Azul. Outro irmão, mais moço que eu, o André, é meio maluco e a gente nem sabe onde ele anda, acho que em Bahía Blanca. E depois tem essa Norma, que é melhor nem falar dela. É dessas que passava a vida olhando a revista de rádio e de cinema e que queria ser artista. Portanto só ficamo o velho e eu, mais ninguém. A vida é assim, garoto: você dá duro, tem filho e no final sempre fica sozinho que nem o velho. Inda bem que eu sou meio doido e que pra completar nenhuma mulher me dá bola, que senão quem te disse que eu também não ia embora e largava o velho pra ele morrer sozinho que nem cachorro.

Entraram no quarto. Havia duas camas: uma era do tal irmão vagabundo que andava por Bahía Blanca. Portanto, por ora Martín podia dormir ali. Mas antes mostrou-lhe seus tesouros: uma fotografia de Américo Tesorieri, pregada com percevejos na parede, com um emblema argentino embaixo e a dedicatória: “Ao amigo Humberto J. D’Arcángelo”. Tito ficou olhando-a, extasiado. E depois comentou:

— O grande Américo.

Outras fotos e recortes de El Gráfico também estavam pendurados nas paredes, e no alto de tudo uma grande bandeira do Boca, esticada na horizontal.

Sobre um caixote havia um velho gramofone de pavilhão, a corda.

— Funciona? — Martín perguntou.

D’Arcángelo encarou-o, com expressão de surpresa e quase de reprimenda.

— Quem dera que um desses toca-disco de agora funcionasse igual a esse!

Aproximou-se e tirou com o lenço uma sujeirinha que havia no pavilhão.

— Nem com muita grana eu trocava ele por um desses. Sabe o que é, é que esses aparelho são tudo muito complicado. Estes daqui eram mais naturais, e a voz era igualzinha.

Pôs Alma en pena e deu corda: do pavilhão saiu a voz de Gardel, mal emergindo de um emaranhado de ruídos. Tito, com a cabeça grudada no pavilhão, meneando-a emocionado, murmurava: Que beleza, garoto, que beleza. Calaram-se. Quando terminou, Martín viu que havia lágrimas nos olhos de D’Arcángelo.

— Filho-da-puta! — disse, num falso riso. — Todos os outro que vieram depois é tudo porcaria.

Pôs o disco num envelope velhíssimo, remendado, colocou-o cuidadosamente em cima de uma pilha, enquanto perguntava:

— Tu gosta de tango, né, garoto?

— Gosto, claro — Martín respondeu com cautela.

— Que bom. Porque agora, vou ser sincero com você, a nova geração não sabe mais nada de tango. Bota foxtrote e toda essa salada de bolero, de rumba, toda essa palhaçada. Tango é coisa séria, é coisa profunda. Fala com a tua alma. Te faz pensar.

Sentou-se na cama e ficou matutando.

— Mas — disse — tudo isso acabou. Às vezes eu fico pensando, garoto, que neste país tudo já acabou, tudo que era bom foi embora pra não voltar, como diz o tango. O tango é que nem o futebol, que nem o carnaval, que nem o corso, que nem sei lá mais o quê. E quando um bobalhão desses aí inventa de fazer tango novo, melhor nem falar. Tango tem que ser tango ou nada. E isso acabou, garoto, assunto encerrado. É um troço que te parte o coração, mas é uma verdade do tamanho de um bonde.

Depois acrescentou, porque sempre tentava ser justo:

— Bem, quer dizer, pode ser até que seja música importante, sei lá. Vai ver que o Piazzola e essa garotada de agora fazem coisa importante, música séria, que nem as valsa de Estrau. Não me meto. Mas tango, o que se chama tango mesmo, isso, garoto, te garanto que não é.

Depois contou-lhe que o pai andava muito ruim do reumatismo, mas que o que de fato acabara de matá-lo fora o desgosto com Bachicha.

— Sabe — explicou com amargura —, um dia ele lhe disse que estava vendendo a quarenta e que com os peso que tinha juntado ia comprar um táxi, de meio a meio. Imagine só a bronca do velho. Se irritou, xingou, implorou, mas não adiantou nada, porque Bachicha é teimoso que nem uma mula. Te juro que se nessa hora eu tivesse um tijolo jogava na cabeça dele. Não adiantou nada. Comprou o táxi e trouxe pra cá, pra completar. O velho ficou de cama coisa de um mês. Quando se levantou já não era o mesmo de antes.

E acrescentou:

— Não só fez o que lhe deu na telha, mas o pior é que dizia pra ele que coche já era, velho, dizia, que a gente tem é que se conformar com a realidade, dizia, como é que você quer que alguém consiga viver com esses calhambeques, dizia, te manca, velho, que a gente tem que estar afinado com o progresso, dizia, você não está entendendo que o mundo anda pra frente e que você insiste em manter essa velharia, só porque sim, só porque cismou, não percebe que o pessoal quer velocidade e eficiência, dizia, que o mundo tem que andar cada vez mais depressa, dizia. E cada uma dessas palavra era que nem uma faca.

Deitaram-se.