Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 55 de 93

Páginas do PDF

Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 6

 

Este Relatório está destinado, após minha morte, que se aproxima, a um instituto que considerar útil prosseguir as investigações sobre esse mundo até hoje inexplorado. Assim, limita-se aos fatos que vivi. O mérito que tem, a meu ver, é o da absoluta objetividade: quero falar de minha experiência como um explorador pode falar de sua expedição ao Amazonas ou à África Central. E, como é natural, mesmo que a paixão e a raiva muitas vezes possam me confundir, pelo menos minha vontade é ser exato e não me deixar levar por esse tipo de sentimento. Tive experiências assustadoras, mas justamente por isso mesmo desejo me ater aos fatos, conquanto projetem uma luz desagradável em minha própria vida. Depois do que acabo de dizer, ninguém em sã consciência pode afirmar que o objetivo destes papéis é despertar simpatia por minha pessoa.

Por exemplo, aqui vou confessar, como prova de minha sinceridade, um fato desagradável: não tenho nem nunca tive amigos. Senti paixões, naturalmente, mas jamais senti afeto por alguém, nem creio que ninguém tenha sentido por mim.

Entretanto, mantive relações com muita gente. Tive “conhecidos”, como se costuma dizer com essa palavra tão ambígua.

E um desses conhecidos, de importância para o que se segue, foi um espanhol seco e taciturno chamado Celestino Iglesias.

Encontrei-o pela primeira vez em 1929, num centro anarquista de Avellaneda chamado “Amanhecer”, o mesmo onde conheci, na mesma época, Severino Di Giovanni, um ano antes de seu fuzilamento. Eu freqüentava os locais ácratas porque já tinha a vaga intenção de organizar, como de fato organizei mais tarde, um bando de assaltantes; e embora nem todos os anarquistas fossem bandidos, havia entre eles todo tipo de aventureiros e niilistas, em suma, esse tipo de inimigo da sociedade que sempre me atraiu. Um desses indivíduos chamava-se Osvaldo R. Podestá, participou do assalto ao banco de San Martín e durante a Guerra Espanhola foi metralhado pelos próprios comunistas, perto do porto de Tarragona, quando se preparava para fugir da Espanha numa lancha carregada de dinheiro e jóias.

Conheci Iglesias por intermédio de Podestá: como se um lobo me apresentasse a um cordeiro. Pois Iglesias era um desses anarquistas bondosos, incapaz de matar uma mosca: era pacifista, vegetariano (por sua repugnância em viver da morte de um ser vivo) e tinha esse tipo de fantástica esperança de que um dia o mundo seria uma afetuosa comunidade de colaboradores livres e fraternos. Esse Novo Mundo falaria uma só língua, e essa língua seria o esperanto. Razão pela qual aprendeu a duras penas essa espécie de aparelho ortopédico, que não só é horroroso (o que para uma língua universal não seria o pior), mas que não é falado praticamente por ninguém (o que para uma língua universal é catastrófico). E assim, em cartas que ia escrevendo com muita dificuldade, de língua de fora, comunicava-se com algum dos quinhentos sujeitos que no resto do mundo pensavam igual a ele.

Fato curioso, freqüente entre os anarquistas: um ser angelical como Iglesias podia, porém, se dedicar à falsificação de dinheiro. Encontrei-o pela segunda vez, justamente, num porão da rua Boedo, onde Osvaldo R. Podestá tinha tudo o que era necessário para esse tipo de operação e onde Iglesias se desincumbia de tarefas de confiança.

Naquele tempo, tinha uns trinta e cinco anos, era magro e muito moreno, baixinho, seco, como muitos espanhóis que parecem ter vivido numa terra calcinada, quase sem se alimentar, ressecados pelo sol implacável do verão e pelo frio inclemente do inverno. Era generosíssimo, jamais tinha um centavo no bolso (tudo o que ganhava e o dinheiro falso eram para o sindicato ou para as atividades suspeitas de Podestá), sempre acolhia em seu quartinho um desses parasitas que costumam circular nos meios anarquistas, e embora fosse incapaz de matar uma mosca, passara quase toda a vida nos cárceres da Espanha e da Argentina. Iglesias, um pouco como Norma Pugliese, imaginava que todos os males da humanidade iam se resolver com uma mistura de Ciência e Conhecimento Mútuo. Precisava-se lutar contra o Obscurantismo que se opunha, havia séculos, ao triunfo da Verdade. Mas o Progresso das Idéias era incessante e, cedo ou tarde, o Amanhecer era inevitável. Enquanto isso, precisava-se lutar contra as forças organizadas do Estado, denunciar a Impostura Clerical, solapar o Exército e promover a Educação Popular. Criavam-se bibliotecas onde não só se encontravam as obras de Bakunin ou Kropoktin, como os romances de Zola e os livros de Spencer e Darwin, já que até a teoria da evolução lhes parecia subversiva, e um estranho vínculo unia a história dos Peixes e Marsupiais ao Triunfo das Novas Idéias. Tampouco faltava a Energética, de Ostwald, essa espécie de bíblia termodinâmica em que Deus aparecia substituído por um ente laico, mas também inexplicável, chamado Energia, que, como seu predecessor, tudo explicava e tudo podia, com a vantagem de estar ligado ao Progresso e à Locomotiva. Homens e mulheres que se conheciam nessas bibliotecas juntavam-se depois em uniões livres e geravam filhos a quem davam os nomes de Luz, Libertad, Nueva Era ou Giordano Bruno. Filhos que, quase sempre, por esse mecanismo que joga os filhos contra os pais, ou mesmo pela Marcha do Tempo, complicada e geralmente dialética, tornavam-se simples burgueses, fura-greves e até perseguidores ferozes do Movimento, como no caso do famoso comissário Giordano Bruno Trenti.

Deixei de ver Iglesias quando começou a guerra da Espanha, pois, como muitos outros, foi lutar sob a bandeira da Federação Anarquista Ibérica. Em 1938 refugiou-se na França, onde certamente teve oportunidade de apreciar os sentimentos fraternos dos cidadãos desse país e as vantagens da Vizinhança e do Conhecimento sobre a Distância e a Ignorância Mútua. De lá, finalmente, conseguiu voltar à Argentina. E aqui tornei a encontrá-lo alguns anos depois do episódio do metrô que já relatei. Eu estava ligado a um grupo de falsários e, como precisávamos de um homem de confiança e experiente, pensei em Iglesias. Procurei-o entre minhas antigas relações, entre os grupos anarquistas de La Plata e Avellaneda, até que topei com ele: estava trabalhando como tipógrafo na gráfica Kraft.

Achei-o bastante mudado, sobretudo porque estava coxo: tinham amputado sua perna direita durante a guerra. Estava mais esquelético e reservado do que nunca.

Hesitou, mas acabou aceitando, quando lhe disse que o dinheiro seria usado para ajudar um grupo anarquista da Suíça. Não era difícil convencê-lo de alguma coisa que se referisse à causa, por mais utópica que fosse à primeira vista, e, sobretudo, se fosse utópica. Tinha uma ingenuidade a toda prova: não havia trabalhado para um vigarista como Podestá? Vacilei um instante quanto à nacionalidade dos anarquistas, mas no final me decidi pela Suíça por causa da imensa magnitude do absurdo, já que para uma pessoa normalmente constituída acreditar em anarquistas suíços é como aceitar a existência de ratos num cofre-forte. Na primeira vez que passei por esse país tive a sensação de que, toda manhã, ele era completamente varrido pelas donas-de-casa (que, é óbvio, jogavam o pó na Itália). E foi tão forte a impressão que repensei a mitologia nacional. As anedotas são essencialmente verdadeiras porque são inventadas, pedaço por pedaço, para se adequarem perfeitamente a um indivíduo. Algo semelhante acontece com os mitos nacionais, fabricados de propósito para descrever a alma de um país, e assim me veio a idéia, naquelas circunstâncias, de que a lenda de Guilherme Tell descrevia fielmente a alma suíça: quando o arqueiro disparou a flecha na maçã, com toda certeza bem no meio da maçã, os suíços perderam a única oportunidade histórica de terem uma grande tragédia nacional. O que se pode esperar de um país desses? Uma raça de relojoeiros, na melhor das hipóteses.