Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 26 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 6

 

Nessa noite, enquanto Martín perambulava pela ribeira, começou a chover, depois de longos, ambíguos e contraditórios preparativos. No meio de relâmpagos contínuos começaram a cair uns pingos, vacilantes, suficientes para dividir os portenhos — Bruno afirmava — nos dois grupos que sempre se formam nos dias abafadiços de verão: os que, com a expressão cética e amarga, que já é meio estereotipada por se repetir há cinqüenta anos, afirmam que nada acontecerá, que as nuvens imponentes acabarão se desfazendo e que o calor do dia seguinte será pior ainda e muito mais úmido; e os que, esperançosos e ingênuos, aqueles para quem basta um inverno e eles já esquecem o sufocamento desses dias atrozes, afirmam que “essas nuvens vão trazer chuva hoje à noite mesmo”, ou, na pior das hipóteses, “de amanhã não passa”. Grupos tão irredutíveis e tão apriorísticos como os que afirmam que “este país está liquidado”e os que dizem “iremos para a frente porque temos grandes reservas”. Em suma: as tempestades de Buenos Aires dividem seus habitantes tal como as tempestades de verão de qualquer outra cidade do mundo: em pessimistas e otimistas. Divisão que (como Bruno explicava a Martín) existe a priori, haja ou não tempestades de verão, haja ou não calamidades telúricas ou políticas, mas que se evidencia nessas condições, assim como a imagem latente de uma foto após a revelação. E (também lhe dizia), mesmo se isso vale para qualquer região do mundo onde haja seres humanos, é indubitável que na Argentina, e sobretudo em Buenos Aires, a proporção de pessimistas é muito maior, pela mesma razão que o tango é mais triste que a tarantela ou a polca ou qualquer outra dança de qualquer outro lugar do mundo. A verdade é que nessa noite choveu intensa e violentamente, batendo em retirada o grupo dos pessimistas, retirada passageira, é claro, pois esse grupo nunca se retira de vez e jamais admite uma derrota definitiva, já que sempre pode dizer (e diz) “veremos se vai realmente refrescar”. Mas, à medida que chovia, o vento sul foi ficando mais intenso, trazendo o frio cortante e seco da Patagônia, diante do qual os pessimistas, sempre invencíveis, pela própria natureza do pessimismo, lançam presságios fúnebres de gripes e resfriados, quando não de pneumonias, “porque nesta maldita cidade é impossível saber, quando se vai para o centro de manhã, se é para pôr sobretudo (apesar do calor) ou roupa leve (apesar do frio)”. De modo que, afirmam, os pobres-coitados que vivem nos subúrbios, a uma hora de trem e de metrô de seus escritórios, vivem ameaçados pelos perigos do frio repentino ou pelo desconforto de um calor úmido e insuportável. Idéia que Bruno resumia dizendo que em Buenos Aires não há clima, e sim dois ventos: norte e sul.

Do café da rua Almirante Brown com Pedro de Mendoza, Martín contemplava a chuva varrendo a coberta dos barcos, fragmentariamente iluminados pelos relâmpagos.

E quando conseguiu sair, depois de meia-noite, teve de ir correndo até seu quartinho, para não congelar.