Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 68 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 19

 

Aí se iniciava a etapa mais árdua e arriscada de minha investigação.

Parei na praça para refletir sobre os próximos passos que poderia e deveria dar.

Era óbvio que não podia segui-los muito de perto, dadas as perigosas características da Seita. Restavam duas possibilidades: esperar que saíssem e depois, quando se afastassem, subir para investigar o que desse; ou subir algum tempo depois, sem esperar pela saída deles.

Embora mais arriscada, a segunda variante também oferecia mais perspectivas, com a vantagem de que, se eu não conseguisse nada de minha inspeção, sempre restava, de qualquer maneira, a segunda possibilidade de esperar pela saída, sentado num banco da praça. Esperei uns dez minutos e comecei a subir cautelosamente, mesmo sendo de imaginar que a apresentação, ou o que fosse, de Iglesias não demoraria minutos, mas horas; ou então eu tinha uma idéia totalmente errada do que era aquela organização. A escada estava suja e gasta, pois pertence a um desses velhos palacetes que no passado tiveram pretensões, mas que agora, abandonados e vazios, são em geral divididos em diversos apartamentos alugados, sendo casas grandes demais para uma só família pobre e excessivamente infectas para uma família de certo nível. E eu fazia essa reflexão porque, se era um casarão dividido em apartamentos alugados, o problema ficava tão complicado como um labirinto: quem iriam ver, e em que apartamento? Por outro lado, parecia pouco verossímil que o chefão, ou o informante do chefão, vivesse de forma tão humilde, e até miserável.

Enquanto subia a escada, esses pensamentos me enchiam de incerteza e amargura; era desanimador que, após tantos anos de espera, eu fosse desembocar na entrada de um labirinto.

Felizmente tenho tendência a imaginar sempre o pior. Digo “felizmente” porque assim meus preparativos são mais elaborados que os problemas apresentados pela realidade, e, embora preparado para o pior, essa realidade acaba sendo menos difícil que o previsto.

Foi assim, pelo menos, para o problema mais imediato daquela casa. Quanto aos outros, pela primeira vez na vida foram piores do que eu esperava.

Chegando ao patamar do primeiro andar, verifiquei que havia uma só porta e que a escada morria ali mesmo; portanto, não havia nenhum sótão nem entrada para os apartamentos: o problema era o mais simples possível.

Fiquei certo tempo diante da porta fechada, com os ouvidos atentos ao menor ruído de passos e as pernas prontas para descer. Arriscando tudo, encostei a orelha numa fresta e tentei captar algum indício, mas nada ouvi.

Tinha-se a impressão de que o apartamento estava desabitado.

Só restava esperar na praça.

Desci e, sentando num banco, resolvi aproveitar o tempo para estudar tudo sobre aquele lugar.

Já disse que a construção é estranha, pois se estende por cem metros e numa reta tangente à igreja circular. A parte central, colada ao corpo da igreja, com certeza pertence a ela, e imagino que abrigue a sacristia e certas dependências eclesiásticas. Mas o resto da construção, à esquerda e à direita, é habitado por famílias, como demonstram os vasos de flores nos balcões, e as roupas, canários etc. Mesmo assim, não podia passar despercebido ao meu exame o fato de que as janelas correspondentes ao apartamento dos cegos mostravam certas diferenças: não havia nenhum desses sinais que revelam a presença de moradores e, além disso, estavam fechadas. Poderia-se argumentar que os cegos não precisam de luz. Mas e de ar? Por outro lado, esses indícios confirmavam os que eu havia recolhido pela porta, lá em cima. Enquanto vigiava a saída, continuei matutando sobre o fato singular e, depois de dar muitas voltas, cheguei a uma conclusão que me pareceu surpreendente mas irrefutável: Ninguém vivia naquele apartamento.

E digo surpreendente porque, se ninguém morava ali, não havia razão para Iglesias entrar com o homenzinho parecido com Pierre Fresnay. A inferência também era irrefutável: o apartamento só servia de entrada para outra coisa. E pensei “coisa”, porque, embora pudesse ser outro apartamento, talvez o apartamento vizinho ao qual se teria acesso por uma porta interna, também era possível que fosse “alguma coisa” menos imaginável, tratando-se, como se tratava, de cegos. Uma passagem interna e secreta para os porões? Nada improvável.

Enfim, pensei que por ora era inútil continuar espremendo meu cérebro, pois assim que os dois homens saíssem eu teria oportunidade de fazer um exame mais aprofundado do problema.

Já tinha previsto que a apresentação de Iglesias ia ser complicada e demorada; mas deve ter sido mais complicada do que imaginei, pois só saíram às duas da madrugada. Perto de meia-noite, após oito horas de espera atenta, quando a escuridão tornava mais misterioso aquele estranho canto de Buenos Aires, meu coração foi se comprimindo como se começasse a desconfiar de uma abjeta iniciação em subterrâneos recônditos, em hipogeus úmidos, sob a direção de um mistagogo tenebroso e cego; era como se essas cerimônias tétricas me trouxessem a premonição dos dias que me aguardavam.

Duas horas da manhã!

Achei que o andar de Iglesias estava mais inseguro do que na entrada e tive a sensação de que algo colossal afligia seu espírito. Mas talvez tudo tenha sido mera impressão, provocada pelo lúgubre conjunto de circunstâncias: minhas idéias sobre a Seita, a fraca iluminação da praça, a imensa cúpula da igreja e, sobretudo, a luz ambígua que projetava na escada a lampadazinha suja pendurada no alto da entrada.

Esperei que fossem embora, observei-os se afastando para os lados de Cabildo e, quando tive certeza de que já não voltariam, corri para o casarão.

No silêncio da madrugada, o ruído de meus passos parecia um estrondo, e cada estalinho dos degraus soltos me fazia dar uma olhada para trás.

Quando cheguei ao patamar esperava-me a maior surpresa que tive até então: a porta estava com cadeado! Isso, sim, eu não havia previsto em nenhum momento.

Esmagado pelo desânimo, precisei sentar no primeiro degrau da maldita escada. Ali fiquei um bom tempo, prostrado. Mas logo minha cabeça começou a funcionar e minha imaginação foi oferecendo uma série de hipóteses.

Eles tinham acabado de sair e ninguém os seguira, portanto o homem parecido com Pierre Fresnay tirara o cadeado ao entrar e o colocara ao sair. Se naquela casa havia algum tipo de morador, ou se por ali se chegava, graças a uma passagem secreta, a “algo” habitado, esses seres não saíam nem entravam pela porta que eu tinha diante dos olhos. Esse “algo”, apartamento ou casa ou porão ou o que fosse, tinha, pois, outra saída, ou várias outras, talvez para outras áreas do bairro ou da cidade. A porta com cadeado estaria então reservada ao mensageiro ou intermediário baixinho? Sim: para ele ou outros indivíduos que desempenhassem tarefas semelhantes, cada um devendo ter, era de imaginar, uma chave idêntica.

Essa primeira série de raciocínios confirmou o que eu imaginara na pracinha, ao observar a construção: ninguém morava ali. Portanto, já podia dar por certa uma conclusão relevante para as próximas etapas: o apartamento era uma simples passagem para outro lugar.

O que podia ser esse “outro lugar”? Isso eu não conseguia imaginar, e só me restava a tentativa audaciosa de abrir o cadeado, entrar na casa misteriosa e ver, então, aonde ela podia me levar. Para isso eu precisava de uma gazua, ou de um alicate, ou de qualquer ferramenta do gênero.

Minha impaciência era tamanha que não podia esperar o dia seguinte. Descartei a idéia de quebrar o cadeado por causa do barulho da operação, e achei melhor pedir ajuda a um conhecido meu. Desci, fui até Cabildo e esperei que passasse um táxi, o que era fácil àquela hora da madrugada. A sorte parecia estar do meu lado: em poucos minutos consegui um e mandei que me levasse à rua Paso. Ali, entrei na caminhonete e me dirigi à casa da rua Floresta, onde vive F. Expliquei-lhe aos gritos (é famoso por ter um sono pesado) que precisava abrir um cadeado naquela mesma noite. Quando acordou e soube qual era o tipo de fechadura, quase se jogou de novo na cama, tão indignado estava; acordá-lo para abrir um cadeado era como consultar Stavisky sobre um desfalque de mil francos! Sacudi-o, ameacei-o e finalmente o arrastei para a caminhonete; correndo como se a organização fosse desmoronar naquela noite, cheguei em pouco mais de meia hora à pracinha de Belgrano. Parei o carro na rua Echeverría e, depois de verificar que não havia ninguém nos arredores, desci com F. e andamos até a casa.

A operação de abrir o cadeado levou coisa de meio minuto, e depois eu lhe disse que ele teria de voltar sozinho para Floresta, já que eu demoraria muito tempo na casa. Ficou mais furioso ainda, mas o convenci de que se tratava de algo muito importante para mim, e que, em todo caso, em Cabildo era fácil encontrar táxi. Rejeitou com dignidade o dinheiro que tentei lhe dar para o táxi e foi embora sem se despedir.

Devo dizer que enquanto ia de carro para a rua Paso assaltou-me uma dúvida: por que, quando subi pela primeira vez, não havia cadeado? Bem, era lógico que não houvesse, já que os dois homens tinham entrado e não podiam colocar um cadeado pelo lado de fora. Mas se aquela entrada era tão importante, como tudo levava a crer, como se explicava que a deixassem aberta para qualquer intruso? Pensei que tudo se explicaria se, ao entrar, o homenzinho passasse um ferrolho ou pusesse uma tranca por dentro.

Como era de esperar, dentro reinava a mais completa escuridão e um silêncio mortal. A porta abriu com uma série de ruídos que me pareciam um estrondo. Com a lanterna iluminei a porta por dentro e vi, satisfeito, que havia um trinco, e que esse trinco, de bronze, não estava oxidado, o que revelava seu uso.

Confirmava-se minha hipótese de que a porta era fechada por dentro e também a hipótese (temível) de que não podia ficar aberta em nenhum momento.

Muito tempo depois, refletindo sobre esses dados, conjeturei por que, se era tão importante, estava fechada com um cadeado que F. podia quebrar em pouco menos de um minuto. O fato, bastante surpreendente, só tinha uma explicação: fazê-la parecer uma casa qualquer, uma casa que por uma razão ou outra está desocupada.

Se bem que eu estivesse entrando convencido de que ali não havia nenhum morador, tomei cuidado e comecei a iluminar as paredes da primeira peça. Não sou covarde, mas qualquer um nessa situação teria sentido o mesmo receio ao percorrer, lenta e cuidadosamente, o apartamento deteriorado e vazio, mergulhado nas trevas. E, fato significativo, batendo nas paredes com minha bengala branca, como um cego de verdade! Até então eu não havia pensado nesse sinal inquietante, embora sempre tenha imaginado não ser possível lutar durante anos contra um poderoso inimigo sem terminar se parecendo com ele; se o inimigo inventa a metralhadora, mais cedo ou mais tarde, se não quisermos desaparecer, também temos de inventá-la e usá-la, e o que vale para um detalhe grosseiro e físico como uma arma de guerra vale, e por motivos mais profundos e sutis, para as armas psicológicas e espirituais: as caretas, os sorrisos, as maneiras de se mover e de trair, os tons das conversas e a forma de sentir e viver; razão pela qual é tão freqüente que marido e mulher terminem se parecendo.

Sim: pouco a pouco fui adquirindo muitos defeitos e virtudes da raça maldita. E, como quase sempre acontece, a exploração de seu universo foi, agora também começo a perceber, a exploração de meu próprio mundo tenebroso.

A luz de minha lanterna revelou que na primeira peça não havia nada: nem um móvel, nem um traste esquecido; tudo era poeira, soalho esburacado e paredes descascadas, com restos podres de velhos e luxuosos papéis de parede, caindo. Esse exame me tranqüilizou bastante, pois me levava a crer no que já previra na pracinha: a casa estava desabitada. Percorri então com mais firmeza e rapidez as outras dependências e fui aos poucos completando e confirmando a primeira impressão. E então entendi por que era desnecessário ser tão cauteloso com a porta de entrada: se por acaso um ladrão arrombasse o cadeado, iria logo embora, muito decepcionado.

Para mim era diferente, pois sabia que essa casa fantasmagórica não era um fim, mas um meio.

Do contrário, seria de supor que o homenzinho insignificante que fora buscar Iglesias fosse uma espécie de doido que levara o espanhol a um antro desses, para, numa escuridão total e sem ter nem onde sentar, falar-lhe durante dez horas a respeito de algo que, por mais terrível que fosse, poderia ter lhe contado no próprio quarto do tipógrafo.

Impunha-se procurar a saída em outro lugar. A primeira idéia, e a mais simples, era pensar numa porta, visível ou secreta, que desse para a casa ao lado; a segunda idéia, e a menos simples (mas nem por isso menos provável: por que há de ser simples o que se refere a seres tão monstruosos?), a segunda idéia era que essa porta visível e secreta desse para um corredor que levava a porões ou a lugares mais distantes e perigosos. Em todo caso, agora minha tarefa consistia em procurar a porta secreta.

Para começar, verifiquei todas as portas visíveis: eram, sem exceção, de comunicação entre os diversos cômodos e dependências. Seria de imaginar que a porta fosse invisível, ou, pelo menos, invisível à primeira vista.

Lembrei-me de situações que eu tinha visto em filmes ou lido em livros de aventuras: qualquer quadro ou moldura de retrato podia dissimular uma porta. Como não havia nenhum retrato na casa abandonada, eu não precisava perder tempo com isso.

Percorri, peça por peça, as paredes descascadas para ver se em algum canto ou sanca ou rodapé havia botões elétricos ou qualquer outro tipo de mecanismo semelhante.

Nada.

Examinei com mais atenção as duas dependências que, pela própria natureza, apresentam mais possibilidades: o banheiro e a cozinha. Estavam muito deterioradas, mas de fato podiam ser mais frutíferas do que os quartos. A latrina, sem tampa, não oferecia grandes perspectivas, mas ainda assim tentei girar as dobradiças dessa tampa inexistente; depois acionei a descarga, olhei dentro do reservatório, apertei ou tentei girar torneiras de todo tipo, tentei levantar a velha banheira etc. Fiz uma análise parecida na cozinha, sem resultado.

O exame foi tão minucioso e cuidadoso que, se eu não soubesse que os dois homens tinham estado ali na mesma tarde, teria desistido da tarefa.

Sentei, desanimado, em cima do velho forno a gás. Por experiências anteriores sabia que, chegando a um ponto, não vale a pena repetir os mesmos raciocínios, pois se forma uma espécie de trilha mental que impede qualquer raciocínio paralelo.

De repente me vi comendo chocolates, o que teria sido extremamente cômico para qualquer espectador escondido ali e invisível. E estava quase rindo comigo mesmo dessa cena imaginária quando uma nova idéia por pouco não me matou: na verdade, quem me garantia que alguém não estivesse me observando de um lugar invisível?

Havia tetos esburacados, havia paredes descascadas que podiam esconder orifícios por onde seria possível espreitar, do apartamento ao lado. Novamente o terror me invadiu e por uns minutos apaguei a lanterna, como se essa precaução tardia pudesse ter alguma utilidade. Em pleno breu, tentando adivinhar o significado do menor ruído, tive porém lucidez suficiente para entender que a precaução era não só idiota, por ser inútil, mas quase contraproducente, pois sem luz eu ficava mais indefeso do que com ela. Portanto, acendi minha previdente lanterna e, embora mais nervoso que antes, tentei pensar no segredo que devia desvendar.

Obcecado com a idéia dos buracos de vigilância, comecei a examinar com o feixe de luz os tetos da casa abandonada: eram esses tetos de gesso construídos sobre uma trama de madeira, e de fato havia grandes pedaços caídos, sancas quebradas. Evidentemente, por essas brechas era possível que uma ou várias pessoas vigiassem, mas, de qualquer modo, nos tetos também não se percebia nada que lembrasse uma entrada ou um acesso. Aliás, nesse caso seria necessária uma escada, e não havia nenhuma no apartamento. A não ser que a escada fosse puxada lá de cima, uma vez realizada sua missão: uma dessas escadinhas de corda.

E estava olhando os tetos e pensando nessa variante quando afinal me deu o estalo: os soalhos! Era o mais simples e, como costuma acontecer, a última coisa em que se pensa.