Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 34 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 14

 

Alejandra continuava invisível e Martín se refugiava em seu trabalho e na companhia de Bruno. Foram tempos de tristeza meditativa: ainda não tinham chegado os dias de tristeza caótica e tenebrosa. Parecia o estado de espírito ideal para o outono em Buenos Aires, outono não só de folhas secas e céus cinza e garoas, mas também de desconcerto, de neblinoso descontentamento. Todos tinham receio de todos, as pessoas falavam línguas diferentes, os corações não batiam ao mesmo tempo (como acontece em certas guerras nacionais, em certas glórias coletivas): havia duas nações no mesmo país, e essas nações eram inimigas mortais, observavam-se confusamente, estavam mutuamente ressentidas. E Martín, que se sentia só, interrogava-se a respeito de tudo: da vida e da morte, do amor e do absoluto, de seu país, do destino do homem em geral. Mas nenhuma reflexão era pura, pois se fazia inevitavelmente a partir de palavras e recordações de Alejandra, em torno de seus olhos cinza-esverdeados, no fundo de sua expressão raivosa e contraditória. E, de repente, ela parecia ser a pátria. Não a mulher bonita, mas convencional, das gravuras simbólicas. Pátria era infância e mãe, era lar e ternura; e isso Martín não tivera. E, como Alejandra era mulher, poderia ter-lhe sido, em certa medida, de certo modo, calor e mãe; mas ela era um território escuro e tumultuado, abalado por terremotos, varrido por furacões. Tudo se misturava em sua mente angustiada e como que nauseada, e tudo rodava vertiginosamente em torno da figura de Alejandra, até quando ele pensava em Perón e em Rosas, pois aquela moça descendente de unitários e no entanto partidária dos federalistas, aquela súmula contraditória e viva da história argentina, parecia sintetizar, a seu ver, tudo o que nela havia de caótico e divergente, de demoníaco e dilacerado, de ambíguo e opaco. E então ele revia o pobre Lavalle, adentrando no território silencioso e hostil da província, perplexo e rancoroso, talvez meditando no mistério do povo em longas e pensativas noites de frio, enrolado em seu poncho azul-claro, taciturno, olhando as labaredas furta-cor da fogueira, talvez ouvindo o eco apagado de quadrinhas hostis cantadas por camponeses anônimos:

Cielito y cielo nublado,

por la muerte de Dorrego,

enlútense las provincias,

lloren, cantando este cielo.

E Bruno, a quem se agarrava, a quem olhava com uma ânsia inquisitiva, também parecia carcomido pelas dúvidas, indagando eternamente o sentido da vida em geral e do ser e não ser naquela obscura região do mundo onde viviam e sofriam: ele, Martín, Alejandra, e os milhões de habitantes que pareciam perambular em Buenos Aires como num caos, sem que ninguém soubesse onde estava a verdade, sem que ninguém acreditasse firmemente em nada; os velhos como don Pancho (Bruno pensava) vivendo no sonho do passado, os aventureiros fazendo fortuna sem se importar com coisa alguma e com ninguém, os professores cínicos que se adaptavam à nova ordem ensinando o que antes haviam repudiado, os estudantes lutando contra Perón e aliando-se de fato a hipócritas e aproveitadores defensores da liberdade, e os velhos imigrantes sonhando (eles também) com outra realidade, uma realidade fantástica e distante, como o velho D’Arcángelo olhando para aquele território já inalcançável e murmurando

Addio patre e madre,

addio sorelli e fratelli.

Palavras que um imigrante-poeta teria dito ao velho, na hora em que o navio se afastava das costas de Reggio ou de Paola, e em que homens e mulheres, com a vista cravada nas montanhas do que outrora fora Magna Grécia, olhavam, mais que com os olhos do corpo (fracos, precários e finalmente incapacitados), com os olhos da alma, esses olhos que continuam a ver as montanhas e castanheiras através dos mares e dos anos: fixos e insensatos, indomáveis diante da miséria e das vicissitudes, da distância e da velhice. Olhos com que o velho D’Arcángelo (grotescamente ataviado com sua cartolinha puída e verde, símbolo caricaturesco e cômico do tempo e da Frustração, impávido, mansa mas loucamente) via a sua distante Calábria enquanto Tito o olhava com seus olhinhos sarcásticos, tomando mate, pensando “puta merda, se eu tivesse dinheiro”. Portanto (pensava Martín, olhando para Tito, que olhava para o pai), o que é a Argentina? Perguntas às quais muitas vezes Bruno lhe responderia, dizendo-lhe que a Argentina não era só Rosas e Lavalle, o gaúcho e o pampa, mas também — e de que maneira tão trágica! — o velho D’Arcángelo com sua cartolinha verde e seu olhar absorto, e seu filho Humberto J. D’Arcángelo, com sua mistura de ceticismo e ternura, rancor social e inesgotável generosidade, sentimentalismo fácil e inteligência analítica, desesperança crônica e ansiosa e permanente espera de algo. “Nós, argentinos, somos pessimistas (dizia Bruno) porque temos grandes reservas de esperanças e ilusões, pois para ser pessimista é necessário, previamente, ter esperado alguma coisa. Este não é um povo cínico, embora repleto de cínicos e oportunistas; é, antes, um povo de gente atormentada, que é o extremo oposto, já que o cínico se acomoda com qualquer coisa e nada lhe importa. Para o argentino, tudo importa, por qualquer bobagem ele perde as estribeiras, amargura-se, protesta, sente raiva. O argentino está descontente com tudo e consigo mesmo, é rancoroso, cheio de ressentimentos, é dramático e violento. Sim, a nostalgia do velho D’Arcángelo — Bruno comentava, para si mesmo. — ... Mas é que tudo aqui era nostálgico, pois devia haver poucos países no mundo em que esse sentimento fosse tão reiterado: nos primeiros espanhóis, que sentiam saudades de sua pátria distante; depois, nos índios, que sentiam saudades de sua liberdade perdida, de seu próprio sentido da existência; mais tarde, nos gaúchos deslocados pela civilização gringa, exilados em sua própria terra, rememorando a época de ouro de sua independência selvagem; nos velhos patriarcas crioulos, como don Pancho, que sentiam que aquele lindo tempo da generosidade e da cortesia tornara-se o tempo da mesquinharia e da mentira; e nos imigrantes, enfim, que sentiam saudades de sua velha terrinha, de seus costumes milenares, suas lendas, seus natais perto da lareira. E como não entender o velho D’Arcángelo? Pois, à medida que nos aproximamos da morte, também nos aproximamos da terra, e não da terra em geral, mas daquele pedaço, daquele ínfimo (mas tão querido, tão lembrado!) pedaço de terra em que passamos nossa infância, em que tivemos nossas brincadeiras e nossa magia, a irrecuperável magia da irrecuperável infância. E então nos lembramos de uma árvore, de um cachorro, do rosto de um amigo, de um caminho poeirento durante a sesta de verão, do canto das cigarras, de um riachinho. Coisas assim. Nada de coisas grandes, e sim pequenas e modestíssimas coisas, mas que nesse momento anterior à morte adquirem inacreditável magnitude, mais ainda quando, neste país de emigrantes, o homem que vai morrer só pode se defender com a recordação, tão angustiosamente incompleta, tão transparente e pouco carnal, da árvore ou do riachinho da infância, separados não apenas pelos abismos do tempo, mas também por vastos oceanos. E, assim, podemos ver muitos velhos como D’Arcángelo, que quase não falam e o tempo todo parecem olhar ao longe, quando na verdade olham para dentro, para o mais profundo de sua memória. Porque a memória é o que resiste ao tempo e a seus poderes de destruição, e é algo assim como a forma que a eternidade pode assumir nesse trânsito incessante. E mesmo se vamos mudando (nossa consciência, nossos sentimentos, nossa dura experiência) com os anos, e se também nossa pele e nossas rugas vão se tornando prova e testemunho desse trânsito, há algo dentro de nós, bem lá dentro, em regiões bem escuras, que se agarra com unhas e dentes à infância e ao passado, à raça e à terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a esse trágico processo: a memória, a misteriosa memória de nós mesmos, do que somos e do que fomos. Sem a qual (e então, como deve ser terrível!, Bruno pensava) esses homens que a perderam, como numa explosão formidável e destrutiva daquelas regiões profundas, são folhas tênues, inseguras e levíssimas arrastadas pelo vento do tempo, furioso e insensato.”