Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 6 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 6

 

É verdade, desde os onze anos não entrava em mais nenhuma dependência da casa e muito menos naquela salinha que era meio assim como o santuário de sua mãe: o lugar onde, ao sair do banheiro, ficava horas ouvindo rádio e completava os preparativos para suas saídas. Mas e seu pai? Há alguns anos, ignorava seus costumes e sabia que vivia trancado no ateliê; para ir ao banheiro não era indispensável passar pela salinha, mas tampouco era impossível. Será que ela pensava na possibilidade de o marido vê-la ali? Fazia parte de seu ódio encarniçado a idéia de humilhá-lo a esse ponto?

Tudo era possível.

Aliás, ao não ouvir o rádio ligado, imaginou que ela não estivesse, pois era absolutamente inconcebível que permanecesse calada na salinha.

Na penumbra, em cima do sofá, o monstro duplo se agitava com ansiedade e fúria.

Ele saiu andando pelo bairro, como um sonâmbulo, por pouco mais de uma hora. Depois voltou para o quarto e jogou-se na cama. Ficou olhando o teto e logo seus olhos percorreram as paredes até pararem na ilustração do Billiken pregada com tachinhas desde a sua infância: Belgrano fazendo seus soldados jurarem a bandeira azul e branca, na travessia do rio Salado.

A bandeira imaculada, pensou.

E também voltaram à sua mente palavras fundamentais de sua existência: frio, limpeza, neve, solidão, Patagônia.

Pensou em navios, em trens, mas de onde tiraria o dinheiro? Então lembrou-se daquele caminhão grande que parava na garagem perto da estação Sola e, magicamente, o fascinara um dia com sua inscrição: transporte patagônico. E se precisassem de um peão, um ajudante, qualquer coisa?

— Claro que sim, garoto — disse Bucich, com o charuto apagado na boca.

— Tenho oitenta e três pesos — disse Martín.

— Deixa de contar lorota — disse Bucich, tirando o macacão sujo de graxa.

Parecia um gigante de circo, mas meio curvado, de cabelo grisalho. Um gigante com expressão ingênua de criança. Martín olhava o caminhão; na lateral, em letras grandes, lia-se transporte patagônico, e atrás, em letras douradas: se você me visse, mãe!

— Vamo — disse Bucich, sempre com a guimba apagada.

Sobre o chão molhado e escorregadio brilhava por instantes um vermelho leitoso e deliqüescente. Depois vinha o relâmpago violáceo, sendo de novo substituído pelo vermelho leitoso: cinzano-americano gancia. cinzano-americano gancia.

— O frio tá aí — Bucich comentou.

Chuviscava? Era mais uma neblina, de gotinhas finíssimas impalpáveis e flutuantes. O caminhoneiro andava a passos largos, ao seu lado. Era ingênuo e forte: talvez o símbolo do que Martín procurasse naquele êxodo para o sul. Sentiu-se protegido e abandonou-se a seus pensamentos. É aqui, disse Bucich: chichín Pizzas, Fainás, Bebidas. Oi, disse Bucich. Oi, disse Chichín, colocando na mesa a garrafa de gim llave. Dois copinhos: este moleque é um amigo. Muito prazer, o prazer é todo meu, disse Chichín, que usava boné e suspensórios vermelhos em cima de camisa furta-cor. E tua velha?, perguntou Bucich. Mais ou menos, disse Chichín. Fizeram o exame nela? Fizeram. E daí? Chichín encolheu os ombros. Essas coisas, sabe como é. Ir para longe, para o sul frio e límpido, pensava Martín olhando o retrato de Gardel de fraque, sorrindo com o sorriso meio de banda de garoto malandro mas capaz de gauchadas, e o escudo azul e branco em cima da Masseratti de Fangio, moças nuas cercadas por Leguisamo e Américo Tesorieri, de boné, encostado na trave, “ao amigo Chichín com apreço”, e muitas fotos do Boca com a palavra campeões!, e também o Torito de Mataderos com calção de treino em sua clássica defesa. Pulava corda, que nem os boxeadores, tudo menos curetagem, até dava socos na barriga, por isso você saiu meio retardado, te juro, e ria com rancor e desprezo, fiz de tudo, não ia deformar meu corpo por sua causa, disse-lhe, e ele teria onze anos. E o Tito?, perguntou Bucich. Está chegando, disse Chichín, e resolveu ir viver no sótão. E o domingo?, perguntou Bucich. E eu sei lá, respondeu Chichín com raiva, te juro que eu não perco mais as estribeira, não enquanto ela continuava ouvindo boleros, depilando-se, comendo balas, largando papéis pegajosos por todo canto, não perco mais as estribeira, dizia Chichín, por nada neste mundo, nadica de nada um mundo sujo e pegajoso enquanto enxugava com raiva calada um copo qualquer e repetia, essa não fugir para um mundo limpo, frio, cristalino até que, largando o copo e encarando Bucich, exclamou: perder por causa desse perna-de-pau aí, enquanto o caminhoneiro piscava os olhos, considerando o problema com a devida atenção e retrucando puxa vida, quem diria enquanto Martín continuava ouvindo aqueles boleros, sentindo aquele clima pesado de banheiro e cremes desodorantes, ar quente e embaçado, banho quente, corpo quente, cama quente, mãe quente, mãe-cama, cestocama, pernas leitosas para cima como num circo horroroso quase na mesma posição em que ele tinha saído da cloaca e para a cloaca ou quase enquanto entrava o homem magrinho e nervoso que dizia Oi, e Chichín dizia: Humberto J. D’Arcángelo, e se cumprimentaram, oi Puchito, o garoto é um amigo, muito prazer o prazer é meu, disse Tito, escrutando-o com esses olhinhos de pássaro, com aquela expressão de ansiedade que Martín sempre veria nele, como se tivesse perdido algo muito valioso e procurasse por todo lado, observando tudo com vivacidade e inquietação.

— Esse filho-da-puta do Diablo Rojo!

— Fala você, fala. Conta pra esse aí.

— Vou te dizer uma coisa: você, com o caminhão, escapa de cada uma!

— Mas eu — Chichín repetia —, eu não perco mais as estribeira. Por nadica de nada. Te juro por minha mãe mortinha. Com esse aleijado. Essa não. Mas fala pra esse aí, fala.

Humberto J. D’Arcángelo, conhecido vulgarmente como Tito, sentenciou:

— Uma bela porcaria.

E então sentou-se numa mesa perto da janela, pegou a Crítica, que sempre trazia dobrada na página de esportes, colocou-a indignado sobre a mesinha e, escarafunchando, com o palito que estava sempre em sua boca, os dentes careados, dirigiu um olhar sombrio para a rua Pinzón. Miúdo e de ombros estreitos, com a roupa surrada, parecia meditar no destino geral do mundo.

Logo em seguida, virou os olhos para o balcão e disse:

— Domingo foi uma tragédia. Perdemo que nem uns cretinos, o San Lorenzo ganhou, os ricaço do Racing ganharam, e até o Tigre ganhou. Vocês querem me dizer onde é que nós vamo parar?

Sustentou o olhar em seus amigos como convocando-os para testemunhas, depois virou de novo os olhos para a rua e, palitando os dentes, disse:

— Este país não tem mais jeito não.