Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 23
Quando voltei a mim, um cansaço extremo dominava meu corpo, como se, em sonho, eu tivesse executado trabalhos colossais.
Eu jazia no chão e não conseguia entender onde estava. Com a cabeça pesada, olhava ao redor, tentando me lembrar: imaginei que, como em outra ocasião, teria chegado bêbado a meu quarto e caíra inconsciente. A tênue luminosidade do amanhecer entrava no local, por algum lugar. Tentei levantar a cabeça e então percorri, lento e pesado, o espaço que me cercava.
Quase dei um pulo, apesar do cansaço: a Cega!
Vertiginosamente tomei consciência dos episódios: Iglesias, o sujeito parecido com Pierre Fresnay, a pracinha de Belgrano, a passagem secreta. Meio recostado, fazendo esforços sobre-humanos para me levantar de vez, percorria numa velocidade fantástica minha situação e o jeito de sair dela. Conseguir ficar em pé.
A Cega permanecia na mesma pose hierática da primeira vez, quando levantei no escuro a luz da lanterna.Teria eu sofrido uma pura e instantânea ilusão? Meu pesadelo teria começado quando desabei desmaiado?
Na luz do amanhecer tentei fazer um rápido esboço do que me rodeava: era um aposento normal, com uma cama, uma mesa (de trabalho?), uma cadeira, um sofá, um aparelho de som. Reparei que não havia quadros nem fotografias, o que me confirmava a cegueira de seus habitantes. A porta por onde entrava a luz da madrugada dava certamente para um cômodo de frente para a rua, talvez aquele que, em minhas reflexões prévias, imaginei ser um ateliê de costura. Havia outra porta lateral, que talvez desse para um banheiro. Olhei para trás: sim, ali estava a portinha. Eu quase preferiria que ela não existisse, a tal ponto aquela entrada absurda e anã me apavorava.
Todo esse exame terá durado uns segundos.
A Cega permanecia calada, na minha frente.
Dois fatos contribuíram para acentuar minha aflição: que ela estivesse me esperando diante da portinha fechada por onde entrei, o que agora eu relembrava com aterradora lucidez, e essa sua imobilidade inconcebível, enigmática e ameaçadora.
Perguntei-me o que poderia fazer e que palavras deveria pronunciar, as menos absurdas, as mais verossímeis.
— Desculpe — balbuciei —, entrei para roubar, e desmaiei ao vê-la...
Enquanto falava, compreendia a que ponto as palavras eram absurdas. Talvez pudessem convencer o morador normal de uma casa normal, mas, com um disparate desses, como eu podia convencer a Cega? Uma cega que, evidentemente, estava me esperando?
Creio ter notado em seu rosto uma expressão de ironia.
Depois, foi embora, desaparecendo pela porta aberta. Fechou-a atrás de si e ouvi o barulho da chave.
Fiquei no escuro. Tateando, desesperado, corri até a porta e girei inutilmente a maçaneta. Em seguida, apalpando as paredes, cheguei à outra porta, à direita, também inutilmente, pois, como era fácil presumir, estava fechada à chave.
Fiquei encostado na parede, abatido e dominado pelo medo e a incerteza. Um caos de idéias agitava minha mente: eu caíra numa armadilha da qual não conseguiria escapar.
A Cega tinha ido buscar os Outros: logo decidiriam meu destino.
A Cega estava me esperando, portanto sabiam da minha chegada. Desde quando?
Sabiam desde a véspera: um controle eletrônico lhes permitia vigiar a distância o movimento da porta com cadeado.
Sabiam desde o momento em que Iglesias adquiriu os poderes sobrenaturais da Seita e, por conseguinte, desde o momento em que conseguiu penetrar em meus desígnios secretos.
Sabiam desde antes: eu acabava de notar uma enorme brecha em minhas construções anteriores, pois, por um inexplicável esquecimento (esquecimento?), não levei em conta que, quando teve alta no hospital, Iglesias foi levado para uma pensão indicada por um enfermeiro espanhol, na qual, disse, cuidariam muito bem dele.
Foi nesse momento de lucidez que tive a certeza, a um só tempo atroz e grotesca, de que, quanto mais fatuamente eu comemorava minha astúcia, mais de perto estava sendo vigiado pela Seita, e por ninguém menos do que a cômica senhora Etchepareborda! Como então achei burlesca a idéia de que os bibelôs baratos, as tabuletinhas provençais e as fotografias manipuladas do casal Etchepareborda nada mais eram do que uma fantástica encenação! Envergonhado, pensei que nem sequer tinham considerado necessário enganar-me com alguma coisa mais sutil; ou talvez, além de me enganarem, quisessem de passagem ferir meu orgulho, ludibriando-me com um esquema de que mais tarde eu mesmo zombaria.