Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 53 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 4

 

Mas voltemos às diferenças.

Existe uma disparidade essencial, sobretudo, entre os cegos de nascença e os que perderam a vista por doença ou acidente. Evidentemente, com o tempo os recém-chegados adquirem muitos dos atributos da raça, em parte pelo mesmo mecanismo mimético a que os judeus recorrem quando vivem no meio de uma raça que os odeia ou despreza. Porque, e este é um fato singular, o ódio que os cegos têm pelos recém-chegados supera o que têm pelos videntes.

A que se deve o fenômeno? No início pensei que poderia ser motivado por causas semelhantes às que provoca a raiva entre países vizinhos, ou entre os próprios conterrâneos: sabe-se que as guerras mais implacáveis são as civis, e bastaria lembrar as lutas civis na Argentina do século xix ou a Guerra Espanhola. Norma Gladys Pugliese, uma professorinha que utilizei por alguns meses para estudar certas reações de intelectuais de subúrbio, pensava, naturalmente, que o ódio e as guerras entre os homens se deviam ao desconhecimento mútuo e à ignorância geral; tive de lhe explicar que a única forma de manter a paz entre os seres humanos era manter a ignorância recíproca e o desconhecimento, já que só em tais condições esses bichos são relativamente bons e justos, pois todos somos bastante iguais diante das coisas que não nos interessam. Com alguns livros de história e as páginas policiais dos vespertinos na mão, eu era obrigado a explicar o abc da condição humana a essa pobre coitada que tinha sido formada por distintas educadoras e acreditava, mais ou menos, que a alfabetização resolveria o problema geral da humanidade: e aí eu lembrava a ela que o povo mais alfabetizado do mundo era o que tinha instaurado os campos de concentração para a tortura em massa e a cremação de judeus e católicos. Resultado: quase sempre ela pulava da cama, indignada comigo, em vez de se indignar com os alemães, já que os mitos são mais fortes que os fatos que tentam destruí-los, e o mito do ensino primário na Argentina, por mais absurdo e cômico que seja, resistiu e resistirá ao ataque de qualquer onda de sátiras e demonstrações.

Mas, voltando ao problema que nos interessa, mais tarde, quando conheci e estudei melhor a Seita, pensei que o decisivo nessa raiva contra os recém-chegados fosse o orgulho de casta, e, por conseguinte, o ressentimento contra os que tentam, e em certo sentido conseguem, ter acesso a ela. Evidentemente, isso não é exclusivo dos cegos, pois também acontece nas classes altas da sociedade, em que só a longo prazo e de muito má vontade se admitem aqueles que, por sua grande fortuna e pelo casamento de seus filhos, terminam entrando na casta superior: de início, há um sutil desprezo, e esse simples desprezo vai depois se misturando com o rancor crescente; talvez porque essas pessoas intuam que, diante dessa invasão lenta mas segura, já não estão seguras e encouraçadas como imaginavam, e porque, em suma, comecem a ter uma sensação paradoxal de inferioridade.

Por último, também influi o fato de serem flagrados em seus segredos por criaturas que, até a véspera, tinham sido suas vítimas ignorantes e objeto de seus atos mais impiedosos. Incômodas testemunhas que, mesmo sem a menor possibilidade de voltarem a seu mundo originário, de um jeito ou de outro descobrem, assustadas, as idéias e os sentimentos desses seres que, imaginaram, estariam no auge do desamparo.

Entretanto, tudo isso é uma análise e, o que é pior, análise com palavras e conceitos que valem para nós. A rigor, temos tanta possibilidade de entender o universo dos cegos como o dos gatos ou das cobras. Dizemos: os gatos são independentes, são aristocráticos e traiçoeiros, são inseguros, mas na verdade todos esses conceitos têm um valor relativo, pois estamos aplicando conceitos e avaliações humanas a entes sem nenhum termo de comparação conosco. Do mesmo modo, é impossível para os homens imaginar deuses que não tenham certas características humanas, a ponto de, grotescamente, também atribuirmos aos deuses gregos histórias de cornudos.