Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 56 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 7

 

Poderia se pensar na incrível quantidade de acasos que me levaram a entrar, enfim, no universo dos cegos: se eu não tivesse estado em contato com os anarquistas, se entre esses anarquistas não tivesse encontrado um homem como Iglesias, se Iglesias não fosse um falsário de dinheiro, se, mesmo sendo, não tivesse sofrido aquele acidente na vista etc. Para que continuar? Os acontecimentos são ou parecem casuais de acordo com o ângulo de onde se observe a realidade. De um ângulo oposto, por que não imaginar que tudo o que nos acontece obedece a causas finais? Os cegos me obcecaram desde criança e, até onde minha memória alcança, lembro-me de ter tido sempre a intenção imprecisa mas pertinaz de penetrar um dia no universo onde habitam. Se eu não tivesse tido Iglesias à mão, teria imaginado outro meio, pois toda a força de meu espírito se encaminhou para a realização desse objetivo. E quando alguém se propõe enérgica e sistematicamente um objetivo dentro das possibilidades de um mundo determinado, quando mobilizamos não só as forças conscientes de nossa personalidade, mas as mais poderosas de nosso subconsciente, termina se criando em torno de nós um campo de forças telepáticas que impõe a outros seres a nossa vontade, e inclusive se produzem episódios aparentemente casuais, mas que, a rigor, são determinados por essa força invisível de nosso espírito. Após meu fracasso com o cego do metrô, diversas vezes pensei como me seria útil uma espécie de indivíduo intermediário entre os dois reinos, alguém que, por ter perdido a vista num acidente, ainda participasse, mesmo se por certo tempo, do nosso universo de videntes e simultaneamente tivesse um pé no outro território. E é possível que essa idéia, cada dia mais obsessiva, estivesse se formando no meu subconsciente até se manifestar, enfim, como eu disse, na forma de campo magnético invisível mas poderoso, determinando nos seres sob sua influência o que eu mais desejava nesse momento de minha vida: o acidente da cegueira. Examinando as circunstâncias em que Iglesias manipulava aqueles ácidos, lembro-me de que a explosão foi precedida por minha entrada no laboratório e pela repentina, quase violenta, idéia de que, se Iglesias se aproximasse do bico de Bunsen, ocorreria uma explosão. Fato premonitório? Não sei. Quem sabe se o acidente não foi, de certo modo, forçado por meu desejo? Se o episódio, que depois pareceu um típico fenômeno do indiferente universo material, não foi, ao contrário, um típico fenômeno do universo em que nascem e crescem nossas mais turvas obsessões? Eu mesmo não enxergo com clareza o episódio, pois estava numa dessas fases em que viver me exigia um grande esforço, em que me sentia como o comandante de um navio em plena tempestade, com os furacões varrendo o convés, o tufão estalando o casco, e eu tentando conservar a lucidez para que tudo ficasse em seu lugar, com toda a minha vontade e minha tensão aplicadas em manter a rota entre os adernamentos e a escuridão. Depois desabava na cama, sem vontade e com grandes vácuos na memória, como se meu espírito tivesse sido devastado pelo temporal. Precisava de dias e dias para que tudo voltasse um pouco à normalidade e os seres e episódios de minha vida real aparecessem ou reaparecessem paulatinamente, desconsolados e tristes, desmantelados e cinzentos, à medida que as águas se acalmavam.

Após essas fases, eu voltava à vida normal com vagas reminiscências de minha existência anterior. E assim, gradativamente, Iglesias reapareceu em minha memória, e custei a reconstituir os episódios que culminaram com a explosão.