Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 12
Desceram e contornaram a casa pelo corredor lateral até chegar a uma porta nos fundos, escondida sob uma treliça. Alejandra tateou com a mão e acendeu a luz. Martín viu uma antiga cozinha, mas cheia de coisas amontoadas, como numa mudança. Depois, ao atravessar o corredor, essa sensação foi crescendo. Pensou que nas sucessivas amputações do casarão não quiseram nem souberam se separar de objetos e móveis: mesas e cadeiras capengas, poltronas douradas sem assentos, um grande espelho encostado na parede, um relógio de pé, parado e com um só ponteiro, consoles. Ao entrar no quarto do velho, lembrou-se de uma dessas casas de leilões da rua Maipú. Uma das velhas salas fora incorporada ao dormitório do velho, como se as peças tivessem se embaralhado. No meio dos trastes, sob a luz mortiça de um criado-mudo, entreviu um velho cochilando numa cadeira de rodas. A cadeira estava em frente de uma janela que dava para a rua, a fim de que o avô contemplasse o mundo.
— Está dormindo — murmurou Martín aliviado. — Melhor deixá-lo.
— Já lhe disse que nunca se sabe se está dormindo.
Colocou-se diante do velho e, inclinando-se sobre ele, sacudiu-o um pouco.
— Hein, hein? — o avô gaguejou, entreabrindo os olhinhos.
Eram uns olhinhos verdosos, cruzados por estrias vermelhas e pretas, como se estivessem rachados, imersos no fundo das órbitas, cercados pelas pregas apergaminhadas de um rosto mumificado e imortal.
— Estava dormindo, vô? — perguntou Alejandra em seu ouvido, quase aos berros.
— Hein, hein? Não, filha, e eu lá ia dormir! Estava descansando, só isso.
— Este é um amigo meu.
O velho balançou a cabeça, mas num movimento repetido e decrescente, como um joão-teimoso afastado de sua posição de equilíbrio. Estendeu-lhe a mão ossuda, cujas veias enormes pareciam querer sair de uma pele ressecada e transparente como o tímpano de um velho tambor.
— Vô — gritou-lhe —, conte para ele alguma coisa do tenente Patrick.
O joão-teimoso mexeu-se de novo.
— A-hã — murmurava. — Patrick, pois é, Patrick.
— Não se preocupe, dá no mesmo — disse Alejandra a Martín —, dá no mesmo. Qualquer coisa. Vai sempre terminar falando da Legião, até se esquecer e dormir.
— A-hã, o tenente Patrick, pois é.
Seus olhinhos lacrimejavam.
— Elmtrees, mocinho, Elmtrees. Tenente Patrick Elmtrees, do famoso 71o. Quem diria que ele morreria na Legião.
Martín olhou para Alejandra.
— Explique para ele, vô, explique — gritou.
O velho punha a mão sarmentosa e enorme perto da orelha, com a cabeça inclinada para Alejandra. Sob a máscara de pergaminho rachado e já avançada no caminho da morte, parecia viver a duras penas um resto de ser humano, pensativo e bondoso. O maxilar inferior estava meio caído, como se não tivesse força para se manter apertado, e eram visíveis as gengivas sem dentes.
— Pois é, Patrick.
— Explique para ele, vô.
Pensava, olhava para tempos longínquos.
— Olmos é a tradução de Elmtrees. Porque o avô estava farto de ser chamado Elemetri, Elemetrio, Lemetrio e até capitão Demetrio.
Pareceu dar um sorriso trêmulo, levando a mão à boca.
— Pois é, até mesmo capitão Demetrio. Estava farto. E porque tinha se adaptado tanto ao país que ficava zangado quando o chamavam “o inglês”. E pôs Olmos, só isso. Como os Island tinham virado Isla, e os Queenfaith, Reinafé. Ele ficava muito amolado — espécie de risinho. — Pois era muito resmungão. De modo que isso foi muito sensato, muito sensato. E, além do mais, esta era sua verdadeira pátria. Aqui se casou e aqui nasceram seus filhos. E ninguém, vendo-o no gateado, com seus arreios de prata, poderia desconfiar que ele fosse gringo. E mesmo quem quisesse desconfiar — risinho — não diria “a boca é minha e falo o que quiser”, porque aí então, simplesmente, don Patricio o apearia com uma chicotada — risinho. — ... O tenentinho Patrick Elmtrees, sim, senhor. Quem diria. Pois é, o destino é mais enrolado do que negócio de turco. Quem diria que o destino dele seria morrer sob as ordens do general.
Repentinamente pareceu cochilar, com um leve estertor.
— General? Que general? — Martín perguntou a Alejandra.
— Lavalle.
Não entendia nada: um tenente inglês sob as ordens de Lavalle? Quando?
— A guerra civil, tonto.
Cento e setenta e cinco homens, esfarrapados e desesperados, perseguidos pelas lanças de Oribe, fugindo para o norte pelo vale, sempre para o norte. O alferes Celedonio Olmos cavalgava pensando no irmão Panchito, morto em Quebracho Herrado. E também, barbudo e miserável, esfarrapado e desesperado, cavalgava para o norte o coronel Bonifacio Acevedo. E outros cento e setenta e dois homens indecifráveis. E uma mulher. Noite e dia fugindo para o norte, para a fronteira.
O maxilar inferior está caído e trêmulo: “Tio Panchito e o meu avô lanceados em Quebracho Herrado”, murmura, como assentindo.
— Não entendo nada — diz Martín.
— No dia 27 de junho de 1806 — disse-lhe Alejandra —, os ingleses avançavam pelas ruas de Buenos Aires. Quando eu era desse tamanhinho — pôs a mão perto do soalho — o vô me contou a história cento e setenta e cinco vezes. A nona companhia fechava a marcha do famoso 71o (por que famoso?). Não sei, mas assim diziam. Acho que nunca tinha sido vencido, em nenhum lugar do mundo, sabe? A nona companhia avançava pela rua da Universidade (da Universidade?). Claro, bobo, a rua Bolívar. Conto igual ao velho, sei de cor. Ao chegar à esquina da Nuestra Señora del Rosário, Venezuela para os retardados, a coisa aconteceu (que coisa?). Espere. Atiravam tudo. Quer dizer, dos terraços do último andar: óleo fervendo, pratos, garrafas, travessas, até móveis. Também baleavam. Todos atiravam: as mulheres, os negros, as crianças. E aí ele foi ferido (quem?). O tenente Patrick, ora, e nessa esquina ficava a casa de Bonifacio Acevedo, avô do velho, irmão do que depois foi o general Cosme Acevedo (o da rua?), é, o da rua: a única coisa que ainda nos resta, nomes de ruas. Esse Bonifacio Acevedo se casou com Trinidad Arias, de Salta — aproximou-se de uma parede e trouxe uma miniatura e, à luz do criado-mudo, enquanto o velho, maxilar caído e olhos fechados, parecia concordar com um episódio distante, Martín viu o rosto de uma mulher bonita cujos traços mongólicos pareciam o sussurro secreto dos traços de Alejandra, sussurro entre conversas de ingleses e espanhóis. — E essa moça teve um monte de filhos, entre eles María de los Dolores, e Bonifacio, que depois seria o coronel Bonifacio Acevedo, o homem da cabeça.
Mas Martín pensou (e assim disse) que cada vez entendia menos. Pois o que tinha a ver com toda essa confusão o tenente Patrick, e como ele morrera sob as ordens de Lavalle?
— Espere, bobo, agora é que vem a confusão. Não ouviu o velho dizer que a vida é mais enrolada do que negócio de turco? O destino dessa vez era um preto grandão e feroz, um escravo de meu tataratataravô, o negro Benito. Porque o Destino não se manifesta em abstrato: às vezes é a faca de um escravo e outras vezes é o sorriso de uma mulher solteira. O Destino escolhe seus instrumentos, depois encarna-se neles e aí é que vem o mais engraçado. Nesse caso, encarnou-se no negro Benito, que tascou uma facada no tenentinho, um golpe com suficiente falta de sorte (do ponto de vista do negro) para que Elmtrees pudesse se transformar em Olmos e eu pudesse existir. Como se diz, minha vida ficou dependendo de um fio de seda e de circunstâncias muito frágeis, pois se o negro não ouvisse os gritos de María de los Dolores lá no terraço, mandando que ele não o matasse, o negro o liquidaria definitiva e perfeitamente, como era seu desejo, mas não o do Destino, que, embora encarnado em Benito, não pensava exatamente igual a ele, tinha suas pequenas diferenças. Coisa que acontece com muita freqüência, pois é óbvio que o Destino não tem tempo de sair escolhendo a dedo as pessoas que vão lhe servir de instrumento. Da mesma maneira que, se você estiver apressado para chegar a um lugar, questão de vida ou morte, não vai ficar olhando muito se o carro tem estofamento verde ou se o cavalo tem um rabo que não lhe agrada. Agarra-se ao que tem mais à mão. Por isso o Destino é um tanto confuso e meio ambíguo: na verdade, sabe bem o que quer, mas as pessoas que o executam, nem tanto. Como esses subalternos meio idiotas que jamais executam com perfeição as ordens que recebem. Portanto, o Destino se sente obrigado a proceder como o presidente Sarmiento: fazer as coisas, embora mal, mas fazê-las. E muitas vezes tem de embriagar ou atordoar seus intermediários. Por isso se diz que o sujeito estava fora de si, não sabia o que fazia, perdeu o controle. É óbvio. Do contrário, em vez de matar Desdêmona ou César, vá saber que confusão poderia arrumar! Portanto, como eu ia dizendo, na hora em que Benito estava prestes a decretar minha inexistência, María de los Dolores gritou lá de cima com tanta força que o negro parou. María de los Dolores. Tinha catorze anos. Estava jogando óleo fervendo, mas gritou a tempo.
— Continuo sem entender; não se tratava de impedir que os ingleses ganhassem?
— Retardado mental, você nunca ouviu falar em coup de foudre? Foi o que se produziu, em pleno caos. Para você ver como o Destino funciona. O negro Benito obedeceu de má vontade à patroazinha, mas arrastou o oficialzinho para dentro, como lhe ordenava a avó de meu bisavô Pancho. Ali as mulheres lhe prestaram os primeiros socorros, enquanto o doutor Argerich não chegava. Tiraram-lhe a jaqueta. Mas é um menino!, dizia dona Trinidad, horrorizada. Mas não deve ter nem dezessete anos!, diziam. Mas que temeridade!, lamentavam-se. Enquanto isso, lavavam-no com água limpa e cachaça, e vendavam seus olhos com tiras de lençóis. Depois o deitaram. Durante a noite ele delirou e pronunciou palavras em inglês, enquanto María de los Dolores, rezando e chorando, mudava os panos empapados em vinagre. Pois, como o vô me contava, a moça se apaixonou pelo gringuinho e resolveu que se casaria com ele. E você deve saber, ele me dizia, que, quando uma mulher cisma com essa idéia, não há poder do céu ou da terra que a impeça. Por isso, enquanto o pobre tenente delirava e certamente sonhava com sua pátria, a garota já tinha decidido que aquela pátria deixara de existir e que os descendentes de Patrick nasceriam na Argentina. Depois, quando ele começou a recobrar os sentidos, descobriu-se que era ninguém menos do que o sobrinho do general Beresford em pessoa. Você pode imaginar o que foi a chegada de Beresford à casa e o momento em que beijou a mão de dona Trinidad.
— Cento e setenta e cinco homens — balbuciou o velho, assentindo.
— E isso?
— A Legião. Sempre pensa na mesma coisa: na infância, ou seja, na Legião. Continuo a contar. Beresford lhes agradeceu o que tinham feito com o rapaz e resolveram que ele continuaria em casa até se curar de vez. E assim, enquanto as forças inglesas ocupavam Buenos Aires, Patrick ficava amigo da família, o que não era muito fácil quando se leva em conta que todos, e minha família também, odiavam a ocupação. Mas o pior começou com a reconquista: grandes cenas de choro etc. Claro, Patrick se reincorporou ao seu exército e teve de lutar contra nós. E, quando os ingleses tiveram de se render, Patrick sentiu ao mesmo tempo uma grande alegria e uma grande tristeza. Muitos dos vencidos pediram para ficar aqui e foram confinados no interior. Patrick, é óbvio, quis ficar e foi confinado na fazenda La Horqueta, uma das propriedades de minha família, perto de Pergamino. Isso foi em 1807. Um ano depois se casaram, foram felizes para sempre. Don Bonifacio deu-lhe parte da propriedade, e Patricio começou sua tarefa de se transformar em Elemetri, Elemetrio, don Demetrio, tenente Demetrio e, de repente, Olmos. E quem o chamasse de inglês ou Demetrio, pau nele.
— Teria sido melhor que o matassem em Quebracho Herrado — o velho murmurou.
Martín olhou de novo para Alejandra.
— Ele se refere ao coronel Acevedo, entende? Se o tivessem matado em Quebracho Herrado não o teriam degolado aqui, no momento em que esperava rever a mulher e a filha.
“Melhor teria sido que me matassem em Quebracho Herrado”, pensa o coronel Bonifacio Acevedo enquanto foge para o norte, mas por outro motivo, por motivos que ele considera terríveis (essa marcha desesperada, essa desesperança, essa miséria, essa derrota final), mas que são infinitamente menos terríveis do que os de doze anos depois, na hora de sentir a faca na garganta, defronte de sua casa.
Viu que Alejandra se dirigia à vitrine e gritou, mas ela, dizendo “deixe de frescura”, pegou a caixa, tirou a tampa e mostrou-lhe a cabeça do coronel, enquanto Martín tapava os olhos e ela ria asperamente, guardando tudo de novo.
— Em Quebracho Herrado — o velho murmurava, balançando a cabeça.
— Portanto — Alejandra explicou —, mais uma vez foi um milagre eu ter nascido.
Pois se o seu tataravô, o alferes Celedonio Olmos, fosse morto em Quebracho Herrado, como o irmão e o pai, ou fosse degolado defronte de casa, como o coronel Acevedo, ela não teria nascido e nesse momento não estaria ali naquele quarto, rememorando o passado. E berrando no ouvido do avô “conte para ele a história da cabeça”, e dizendo a Martín que precisava ir embora e desaparecendo antes que ele pensasse em sair correndo atrás dela (talvez porque estivesse embasbacado), deixou-o ao lado do velho, que repetia “a cabeça, pois é, a cabeça”, balançando como um joão-teimoso em desequilíbrio. Depois, seu maxilar inferior se agitou, ficou um instante caído, trêmulo, seus lábios mussitaram algo ininteligível (talvez um resumo mental, como crianças que devem dizer a lição) e finalmente disse: “A Mazorca, pois é, jogaram a cabeça aí mesmo, pela janela da sala. Desceram dos cavalos às gargalhadas e, gritando de alegria, aproximaram-se da janela e berraram: melancias, patroa! Melancias fresquinhas! E, quando se abriu a janela, jogaram a cabeça ensangüentada do tio Bonifacio. Teria sido melhor que também o tivessem matado em Quebracho Herrado, como o tio Panchito e o avô Patricio. Eu acho”. Era o que também pensava o coronel Acevedo enquanto fugia para o norte pelo vale de Humahuaca, com cento e setenta e quatro companheiros (e uma mulher), perseguido e esfarrapado, derrotado e tristíssimo, mas ignorando que ainda viveria doze anos, em terras distantes, esperando a hora de rever a mulher e a filha.
— Gritavam melancias fresquinhas e era a cabeça, rapazinho. E a pobre Encarnación caiu como morta quando a viu, e na verdade morreu poucas horas depois, sem voltar a si. E a pobre Escolástica, que era uma garotinha de onze anos, perdeu a razão. Pois é.
E, cabeceando, começou a cochilar, enquanto Martín estava paralisado por um terror silencioso e estranho, no meio daquele quarto quase escuro, com o velho centenário, com a cabeça do coronel Acevedo na caixa, com o louco que podia estar rondando por ali. Pensava: é melhor sair. Mas o medo de encontrar o louco o paralisava. E então achou que era preferível esperar a volta de Alejandra, que não demoraria, que não podia demorar, pois sabia que ele não tinha mais nada a fazer com o velho. Sentia como se pouco a pouco estivesse entrando num suave pesadelo em que tudo era irreal e absurdo. Das paredes pareciam observá-lo aquele senhor pintado por Prilidiano Pueyrredón e aquela dama com um grande pente no cabelo. As almas de guerreiros, de conquistadores, de loucos, de conselheiros municipais e de sacerdotes pareciam encher o quarto, invisíveis, e murmurar caladas entre si: histórias de conquista, de batalhas, de lanceamentos e degolações.
— Cento e setenta e cinco homens.
Olhou para o velho: seu maxilar inferior balançava, pendurado, tiritando.
— Cento e setenta e cinco homens, sim senhor.
E uma mulher. Mas o velho não sabe, ou não quer dizer. É isso tudo o que resta da orgulhosa Legião, após oitocentas léguas de retirada e derrota, dois anos de desilusão e morte. Uma coluna de cento e setenta e cinco homens miseráveis e taciturnos (e uma mulher) que galopam para o norte, sempre para o norte. Não chegarão nunca? Existe a terra da Bolívia, mais além da interminável quebrada? O sol de outubro bate a pino e apodrece o corpo do general. O frio da noite congela o pus e detém o exército de vermes. E mais um dia, e os tiros de retaguarda, a ameaça dos lanceiros de Oribe.
O cheiro, o cheiro inacreditável do general apodrecido.
A voz que já canta no silêncio da noite:
Palomita blanca,
vidalitá
que cruzas el valle,
vé a decir a todos,
vidalitá,
que ha muerto Lavalle.
— Hornos os abandonou, caramba! Disse “vou me juntar ao exército de Paz”. E os deixou. E o comandante Ocampo também. Caramba! E Lavalle viu-os se afastando com seus homens, para o leste, no meio da poeira. E meu pai disse que o general parecia choramingar, enquanto olhava os dois esquadrões que se afastavam. Cento e setenta e cinco homens lhe restavam.
O velho assentiu e ficou pensativo, mexendo sem parar a cabeça.
— Os negros gostavam de Hornos, gostavam muito. E papai terminou recebendo Hornos. Ele vinha aqui, na quinta, e mateavam, rememoravam os episódios da campanha.
Voltou a murmurar algo incompreensível.
— Começaram a sumir, desde a presidência de Roca. Os gringos que foram chegando os deslocaram. Trabalhos humildes, pois é. Eu já não saio, mas até uns anos atrás, quando ainda costumava dar uma voltinha por aí, sobretudo durante a festa de Santa Lucía, apareciam uns negros que trabalhavam de ordenança no Congresso ou em outra repartição nacional. Alguns, velhos, como o pardo Elizalde, que só conseguia andar de gatinhas, coitado, mas aparecia ali, na festa da padroeira. Que fim terão levado tantos negros que havia por estas bandas quando eu era garotinho! Tomasito, Lucía, Benito, o tio Joaquín... Lucía era a cevadora de mate de minha mãe; Tomasito, o cocheiro; havia também a velha Encarnación, que foi ama-de-leite de meu pai e de meus tios, e a Toribia, famosa por suas empanadas e seus bolos de batata recheados, e eu me lembro dela entrevada ali no quintal dos fundos, bebendo mate e contando histórias.
Balançou a cabeça, seu maxilar caiu e ele murmurou alguma coisa sobre o comandante Hornos e o coronel Pedernera. Depois se calou. Dormia? Pensava? Talvez dentro dele circulasse essa vida latente e silenciosa que circula nos lagartos durante os longos meses de inverno, próxima da eternidade.
***
Pedernera pensa: vinte e cinco anos de campanhas, combates, vitórias e derrotas. Mas naquele tempo sabíamos pelo que lutávamos. Lutávamos pela liberdade do continente, pela Pátria Grande. E agora... Correu tanto sangue no solo da América, vimos tantos crepúsculos desesperados, ouvimos tantos clamores de luta entre irmãos... Aí mesmo está vindo Oribe, disposto a nos degolar, a nos lancear, a nos exterminar; não lutou comigo no Exército dos Andes? O bravo, o duro general Oribe. Onde está a verdade? Como eram bonitos aqueles tempos! Como ia Lavalle, arrogante, com seu uniforme de major de granadeiros, quando entramos em Lima! Tudo era mais claro então, tudo era lindo como o uniforme que usávamos...
— Pois é isso, mocinho: houve muitas brigas em nossa família por causa de Rosas, e vem desse tempo a separação dos dois ramos, sobretudo na família de Juan Bautista Acevedo. E entre esses Acevedo houve muitos federalistas autênticos, como Evaristo, que foi membro da Sala de Representantes, e outros como Marianito, Vicente e Rudecindo, que, se não foram federalistas, pelo menos estavam com Rosas durante o bloqueio e nunca nos perdoaram...
Tossiu, pelo visto ia dormir, mas de repente recomeçou a falar:
— Porque de Lavalle, meu filho, pode se dizer tudo, mas ninguém que seja bem-nascido poderá negar sua boa-fé, seu comportamento de homem honrado, seu cavalheirismo, seu desprendimento. Sim, senhor.
Lutei em cento e cinco combates pela liberdade deste continente. Lutei nos campos do Chile a mando do general San Martín, e no Peru sob as ordens do general Bolívar. Depois briguei contra as forças imperiais em território brasileiro. E em seguida, nesses dois anos de infortúnio, de ponta a ponta de nossa pobre pátria. Talvez tenha cometido grandes erros, e o maior de todos foi o fuzilamento de Dorrego. Mas quem é dono da verdade? Já não sei de nada, a não ser que esta terra cruel é minha terra e que aqui eu devia combater e morrer. Meu corpo está apodrecendo em cima de meu tordilho de batalha, é tudo o que sei.
— Sim, senhor — disse o velho, tossindo e pigarreando, pensativo, com os olhos lacrimosos, repetindo “sim, senhor” várias vezes, mexendo a cabeça como se concordasse com um interlocutor invisível.
Pensativo e lacrimoso. Olhando para a realidade, para a única realidade.
Realidade que se organizava segundo leis estranhíssimas.
— Foi por volta de 1832, segundo meu pai contava, é isso. Porque vou lhe avisando que esse negócio de melhora do gado teve seus prós e seus contras. Foi o inglês Miller que iniciou, com o famoso touro Tarquino, por volta de 1830. Pois é, o famoso Tarquino da fazenda La Caledonia. O gringo Miller, excelente sujeito. Trabalhador e econômico como todos os escoceses, isso, sim. Pão-duro, para ser mais claro (risinho e tosses repetidas). Não como nós, os descendentes dos antigos colonos, que somos mãos-abertas demais e por isso estamos onde estamos (tosses). Portanto, costumavam criticá-lo, sobretudo don Santiago Calzadilla, que era muito abelhudo e chegado a um mexerico. La Caledonia, é isso. No povoado de Cañuelas. Don Juan Miller tinha se casado com uma Balbastro, dona Dolores Balbastro. Soube ser senhora de muita energia, e várias vezes chefiou a defesa contra a indiada e até dava tiro de carabina, igual a um homem. Igual a minha avó, que também era mestra em armas de cano longo. Eram mulheres de lei, meu amiguinho, e, claro, ficavam assim um pouco por causa da vida dura. De que estava falando?
— Do inglês Miller.
— Do inglês Miller, é isso. Todo mundo fala dele e do famoso Tarquino, e quando vinha em casa don Santiago Calzadilla contava muitas piadas sobre aquele bicho, o Tarquino. Que para fazer caçoada nos foi dado um grande talento, meu filho. Portanto, durante muitos anos o inglês Miller teve de agüentar a zombaria geral. Mas ele sorria, dizia meu pai, e ia em frente. Porque esses escoceses têm a cabeça dura como tronco de nhandu e são muito broncos e teimosos. E o homem cismava em melhorar o gado e ninguém ia conseguir que ele arredasse pé.
Riu de novo e tossiu. Passou, desajeitado, um lenço nos olhos lacrimejantes.
— De que eu estava falando?
— Dos touros de raça, senhor.
— É isso, os touros.
Tossiu e cabeceou um instante. Disse em seguida:
— A família de Evaristo nunca nos perdoou. Nunca. Nem quando degolaram meu tio. A verdade é que nossa família ficou dividida por causa do tirano. Não vá pensar que meu pai não reconhecia os méritos dele. Mas dizia que, nos últimos anos de vida, aquilo era uma abominação, por mais que tivesse defendido o pavilhão nacional. Criticava sua crueldade fria e requintada: seu jeito de velhaco não o levou a assassinar Quiroga? Era um covarde, fugiu em Caseros. Era medroso, sem a menor dúvida. Eu poderia lhe contar mil episódios daquela época, sobretudo de 1840, quando degolaram um jovem Iranzuaga, noivo de uma Isabelita Ortiz, contraparente nossa. Ninguém dormia sossegado. E você pode imaginar as angústias na casa de meus pais, com minha mãe sozinha desde que papai havia se incorporado à Legião. E também tinham ido meu avô don Patricio — contei-lhe a história de don Patricio? — e meu tio-avô Bonifacio e tio Panchito. Portanto, na fazenda só restava tio Saturnino, que era o mais moço, um garotinho. E depois, todas as mulheres. Todas as mulheres.
Passou de novo o lenço nos olhos que lacrimejavam, tossiu, cabeceou e pareceu dormir. Mas disse de repente:
— Sessenta léguas. E com o pessoal de Oribe grudado nos calcanhares deles. E meu pai contava que o sol de outubro era muito forte. O general apodrecia depressa e ninguém suportava o cheiro após dois dias de galope. E ainda faltavam quarenta léguas até a fronteira! Cinco dias e outras quarenta léguas. Só para salvar os ossos e a cabeça de Lavalle. Só para isso, meu filho. Porque estavam perdidos e já não era possível fazer mais nada: nem guerra contra Rosas, nem nada. Cortariam a cabeça do cadáver e a mandariam para Rosas e a espetariam na ponta de uma lança, para desonrá-lo. Com uma tabuleta que dissesse: “Esta é a cabeça do selvagem, do imundo, do asqueroso cachorro unitário Lavalle”. Portanto, era preciso salvar o corpo do general a qualquer preço, chegando até a Bolívia, defendendo-se a tiros ao longo de sete dias de fuga. Sessenta léguas de uma retirada alucinante. Quase sem descanso.
Sou o comandante Alejandro Danel, filho do major Danel, do exército napoleônico. Ainda me lembro dele quando voltava com o Grande Exército, no jardim des Tuilleries ou nos Champs-Elysées, a cavalo. Ainda vejo Napoleão seguido por sua escolta de veteranos, com os legendários sabres curvos. E depois, quando, afinal, a França já não era a terra da Liberdade e eu sonhava em lutar pelos povos oprimidos, embarquei para estas terras, junto com Bruix, Viel, Bardel, Brandsen e Rauch, que tinham lutado ao lado de Napoleão. Meu Deus, quanto tempo passou, quantos combates, quantas vitórias e derrotas, quanta morte e quanto sangue! Na tarde de 1825 em que conheci Lavalle ele parecia uma águia imperial, diante do seu regimento de couraceiros. E então marchei com ele para a guerra do Brasil, e, quando caiu em Yerbal, apanhei-o com meus homens e levei-o por oitenta léguas de rios e montes, perseguido pelo inimigo, como agora... E nunca mais me separei dele... E hoje, após oitocentas léguas de tristeza, hoje marcho ao lado de seu corpo apodrecido, rumo ao nada...
Pareceu acordar e disse:
— Algumas coisas, eu mesmo vi, outras ouvi de papai, mas sobretudo de minha mãe, porque papai era calado e raramente falava. Assim, quando o general Hornos ou o coronel Ocampo vinham matear, enquanto rememoravam os velhos tempos e a Legião, papai se limitava a escutar e a dizer, de vez em quando: que coisa, não?, ou: pois é, compadre.
Voltou a cabecear e a dormir um instante, mas logo acordou e disse:
— Pois é, Elisita, pois é. Pobre menina que desceu até o rio, enlouquecida, quando recebeu a notícia da morte do noivo. Da quinta, sim, eu me lembro, porque o almirante não cheguei a conhecer. Acho que eles gostavam do meu avô Patricio e da vó Dolores, embora ele fosse federalista. Um dia vou lhe contar a história curiosa de meu avô, que não se chamava Olmos, mas Elmtrees, e que chegou aqui como tenente do exército inglês, durante as invasões. Curiosa história, eu acho (riu e tossiu).
Cabeceou e, de repente, começou a roncar.
Martín olhou de novo para a porta, mas não escutava nenhum barulho. Onde estava Alejandra? Que fazia em seu quarto? Também pensou que, se ele mesmo não tinha ido embora, tinha sido para não deixar sozinho o velho, que nem o escutava e talvez nem o visse: o velho prosseguia sua existência subterrânea e misteriosa, sem se preocupar com ele nem com ninguém que vivesse no nosso tempo, isolado pelos anos, pela surdez e pelo presbitismo, mas sobretudo pela memória do passado, que se interpunha como uma obscura muralha de sonhos, vivendo no fundo de um poço, recordando-se de negros, cavalgadas, degolações e episódios da Legião. Não ficara ali por consideração ao velho, mas porque o imobilizava uma espécie de temor ao atravessar aquelas regiões da realidade em que pareciam habitar o avô, o louco e até a própria Alejandra. Território misterioso e insano, absurdo e tênue como os sonhos, tão impressionante como os sonhos. No entanto, levantou-se da cadeira onde parecia estar atarrachado e, de mansinho, começou a se afastar do velho, entre os trastes de leilão, observando, vigiado pelos antepassados das paredes, olhando a caixa na vitrine. Assim chegou à porta e plantou-se diante dela, sem se atrever a abri-la. Aproximou-se e encostou a orelha na fresta: tinha a impressão de que o louco estava do outro lado, esperando sua saída, com o clarinete na mão. Até pensou ouvir sua respiração. Então, assustado, voltou devagar para a cadeira e sentou.
— Só trinta e cinco léguas — o velho murmurou de repente.
Sim, faltam trinta e cinco léguas. Três dias de marcha a galope batido pela quebrada, com o cadáver inchado e fedendo a muitas centenas de metros ao redor, destilando os horríveis líquidos da podridão. Sempre em frente, com atiradores na retaguarda. De Jujuy a Huacalera, vinte e quatro léguas. Só mais trinta e cinco, dizem para animar-se. Só quatro, talvez cinco dias mais de galope, se tiverem sorte.
Na noite silenciosa podem ouvir os cascos da cavalaria fantasma. Sempre para o norte.
— Pois na quebrada o sol é muito forte, meu filho, porque são terras muito altas e o ar é puríssimo. Portanto, com dois dias de marcha o corpo estava inchado e se sentia o cheiro a várias centenas de metros, dizia meu pai, e no terceiro dia foi preciso descarná-lo, pois é.
O coronel Pedernera ordena fazer alto e fala com os companheiros: o corpo está se desmanchando, o cheiro é pavoroso. Será descarnado e conservarão os ossos. E o coração também, diz alguém. Mas sobretudo a cabeça: nunca Oribe terá a cabeça, nunca poderá desonrar o general.
Quem quer fazê-lo? Quem pode fazê-lo?
O coronel Alejandro Danel fará.
Então descem o corpo fedorento do general. Colocam-no à beira do arroio Huacalera, enquanto o coronel Danel se ajoelha a seu lado e tira a faca de mato. Através de suas lágrimas contempla o corpo nu e disforme do chefe. Eles também o olham, duros e pensativos, também através de suas lágrimas, homens andrajosos formando um círculo.
Em seguida, lentamente, ele finca a faca na carne podre.
Cabeceou e disse:
— Durante o governo de don Bernardino o nomearam capitão de milícias na Guardia de la Horqueta, que assim se chama o fortim que agora é a aldeia de Capitán Olmos. De que estava lhe falando?
— De quando deixou o cargo de prefeito, senhor (quem?).
— É isso, o cargo de prefeito. Deixou-o quando subiram os federalistas, é isso. E para quem quisesse ouvir, talvez para que suas palavras chegassem até don Juan Manuel, dizia que com as vacas e os índios já tinha trabalho mais que suficiente e que não sobrava tempo para a política (risinho). Mas o Restaurador, que não era bobo, e como ia ser!, jamais acreditou nessas palavras (risinhos). E imagine se tivesse acreditado, pois o meu avô veio a saber que don Juan Manuel mandava cartas ao prefeito de La Horqueta dizendo-lhe que não tirasse o olho de cima do inglês Olmos (risinhos e tosses), porque lhe constava que andava conspirando com outros fazendeiros do Salto e do Pergamino. O malandro não se enganava nunca!, era uma raposa! Porque de fato o avô andava metido em conversas, e assim viu quando o general Lavalle desembarcou em San Pedro, em agosto de 1840. E lá se apresentou com seus cavalos e os dois filhos mais velhos: Celedonio, meu pai, que tinha então dezoito anos, e tio Panchito, que tinha um a mais. Maldita campanha, a de 1840! O avô agüentou em Quebracho Herrado até a última bala de canhão, cobrindo a retirada de Lavalle. Pôde fugir, mas não quis. E, quando estava tudo perdido, disparou a última bala que restava em seus canhões e rendeu-se às tropas de Oribe. Quando soube da morte de Panchito, o filho que mais amava, disse apenas: “Pelo menos o general se salvou”. E assim meu avô don Patricio Olmos terminou sua vida nesta terra.
O velho cabeceou, enquanto murmurava: “Armistrón, é isso, Armistrón”, e de súbito dormiu profundamente.