Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 87 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

IV. Um Deus Desconhecido

1.

 

Na noite de 24 de junho de 1955, Martín não conseguia dormir. Voltava a ver Alejandra no parque, aproximando-se dele, como na primeira vez; depois, caoticamente, chegavam à sua memória momentos carinhosos ou terríveis, e afinal, mais uma vez, voltava a vê-la andando até ele no primeiro encontro, nova e fabulosa. Até que, aos poucos, uma pesada sonolência foi invadindo-o, e sua imaginação começou a se movimentar nessa região ambígua. Então pensou ouvir sinos distantes e melancólicos e um gemido impreciso, talvez um chamado indecifrável. Paulatinamente o gemido transformou-se numa voz desconsolada e apenas perceptível, repetindo o seu nome, enquanto os sinos tilintavam mais intensos, até que por fim bateram furiosamente. O céu, aquele céu do sonho, agora parecia iluminado pelo esplendor sangrento de um incêndio. E então viu Alejandra avançando para ele nas trevas avermelhadas, com o rosto desfigurado e os braços esticados para a frente, mexendo os lábios como se, angustiada e muda, repetisse aquele chamado. Alejandra!, Martín gritou, acordando. Ao acender a luz, tremendo, viu-se sozinho no quarto.

Eram três da madrugada.

Por algum tempo ficou sem saber o que pensar ou o que fazer. Afinal, começou a se vestir, e à medida que o fazia seu nervosismo aumentava, até que saiu desabalado para a rua e correu à casa dos Olmos.

E quando, de longe, entreviu contra o céu nublado o clarão de um incêndio, já não teve nenhuma dúvida. Correndo desesperado, conseguiu chegar a casa, desabando entre as pessoas amontoadas. Quando voltou a si, na casa de uns vizinhos, correu de novo até a casa dos Olmos, mas a polícia já tinha levado os cadáveres, enquanto os bombeiros faziam os últimos esforços para circunscrever o incêndio ao Mirante.

Daquela última noite Martín se lembrou de fatos isolados e desconexos: a idéia que um idiota pode ter de uma catástrofe. Mas os fatos parecem ter ocorrido assim:

Por volta das duas da madrugada, um homem que descia (segundo declarou depois) pela rua Patricios até a Riachuelo viu fumaça. Depois, como sempre, muitos disseram ter visto fumaça ou fogo ou terem desconfiado de alguma coisa. Uma velha que vive numa casa de cômodos ao lado declarou: “Eu durmo pouco, de modo que senti o cheiro da fumaça e avisei ao meu filho que trabalha na tamet e dorme no mesmo quarto e tem o sono pesado, mas ele me disse que eu o deixasse em paz”, acrescentando com esse orgulho — pensava Bruno — que a maioria dos seres humanos, sobretudo os velhos, demonstra no vaticínio de doenças graves ou calamidades mortais: “e vocês estão vendo que eu tinha razão”.

Enquanto tentava apagar o fogo no Mirante, após terem sido retirados os corpos de Alejandra e de seu pai, a polícia tirou da casa o velho don Pancho, enrolado numa manta, na própria cadeira de rodas. E o louco? E Justina?, perguntavam as pessoas. Mas então viram sendo trazido um homem de cabelo grisalho e cabeça alongada como um dirigível; segurava um clarinete na mão e parecia demonstrar certa alegria. Quanto à velha criada índia, mantinha seu rosto impassível habitual.

Pedia-se aos gritos que deixassem livre a rua. Alguns vizinhos colaboravam com os bombeiros e a polícia, resgatando móveis e roupas. Observava-se grande movimento e essa euforia com que as pessoas acompanham as catátrofes que, momentaneamente, as arrancam de uma existência cinza e vulgar.

Sobre o que aconteceu naquela noite, Bruno não conseguiu averiguar mais nada digno de nota.