Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 45 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 25

 

Como se uma grande batida de timbale tivesse inaugurado as trevas, desde aquelas terríveis palavras de Alejandra, Martín sentiu-se num imenso sono negro, pesado como se dormisse no fundo de um oceano de chumbo líquido. Por muitos dias perambulou pelas ruas de Buenos Aires, à deriva, pensando que aquela criatura maravilhosa chegara do desconhecido e agora voltara ao desconhecido. O lar, dizia-se de repente, o lar. Palavras soltas e, pelo visto, sem sentido, mas talvez se referissem ao homem que no meio da tormenta, no meio das trevas, quando os relâmpagos e trovões aumentam, refugia-se em sua gruta calorosa, familiar, doce. Lar, lareira, luminoso e doce refúgio. Por isso (dizia Bruno) a solidão era maior no estrangeiro, porque a pátria também era como o lar, a lareira e a infância, como o refúgio materno; e viver no estrangeiro era tão triste como habitar num hotel anônimo e indiferente, sem recordações, sem árvores familiares, sem infância, sem fantasmas, porque a pátria era a infância e por isso talvez fosse melhor chamá-la mátria, algo que ampara e aquece nos momentos de solidão e frio. Mas ele, Martín, quando tivera mãe? E, além disso, esta pátria parecia tão inóspita, tão áspera e tão pouco protetora. Porque (como também dizia Bruno, se bem que, agora, ele não se lembrasse disso, mas sentisse fisicamente, como se estivesse na intempérie, no meio de um furioso temporal) nossa desgraça era que não tínhamos terminado de construir uma nação quando o mundo onde ela se originara começou a rachar e depois a desmoronar, de modo que aqui não tínhamos nem sequer esse simulacro de eternidade que na Europa, ou no México, ou em Cuzco, são as pedras milenares. Aqui (dizia) não somos Europa nem América, mas uma região fraturada, um lugar de fratura e dilaceração instável, trágico e transtornado. De modo que aqui tudo era mais transitório e frágil, não havia nada sólido em que se agarrar, o homem parecia mais mortal, e sua condição, mais efêmera. E ele (Martín), que desejava algo forte e absoluto em que se agarrar no meio da catástrofe e uma gruta aquecida onde se refugiar, não tinha casa nem pátria. Ou, pior, tinha um lar construído em cima de esterco e frustração, e uma pátria trêmula e enigmática. Portanto, sentia-se só, só, só: únicas palavras em que claramente pensou, mas que, sem dúvida, expressavam tudo aquilo. E, como um náufrago na noite, precipitara-se sobre Alejandra. Mas fora como buscar refúgio numa caverna de cujo fundo, de repente, haviam irrompido feras devoradoras.