Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 74 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 25

 

Essas suposições ocuparam meu dia, junto com outras lembranças de minha pesquisa sobre os cegos. De vez em quando eu voltava a pensar na Cega, em seu sumiço e no cativeiro que se seguiu. Meditando sobre o drama do elevador, a certa altura cheguei a pensar que meu castigo poderia consistir em morrer de fome naquele quarto desconhecido, mas em seguida descobri que esse castigo seria escandalosamente benigno comparado com o daqueles dois infelizes. Morrer de fome no escuro? Ora! Quase ri de minha esperança.

Num momento de meditação, em pleno silêncio, tive a impressão de ouvir vozes surdas atrás de uma das portas. Levantei-me sem barulho e, andando descalço, aproximei-me da porta que provavelmente dava para o aposento da frente. Encostei devagarinho o ouvido na fresta: nada. Depois, tateando pelas paredes, cheguei à outra porta e repeti a operação: achei que, de fato, quem estava falando parou no exato momento em que encostei o ouvido. Sem dúvida tinham percebido meus movimentos, apesar do cuidado. Ainda assim, passei um bom tempo com o ouvido à espreita, colado na porta. Mas não escutei o mais leve ruído de vozes ou movimentos. Imaginei que do outro lado o Conselho de Cegos estava reunido e paralisado, esperando que eu desistisse da tola iniciativa. Compreendendo que nada ganharia com a espionagem, a não ser irritar mais ainda aquela gente, recuei, agora com menos cuidado, pois presumi que, de um jeito ou de outro, tinham me identificado. Joguei-me na cama e resolvi fumar. Que mais podia fazer? De qualquer maneira, tinha certeza de que o conciliábulo anunciava uma futura decisão a meu respeito.

Até então, eu tinha resistido à vontade de fumar, para não consumir o oxigênio que, segundo meus cálculos, me proporcionava a leve brisa vinda pelas frestas. Mas, pensei, o que de melhor poderia me acontecer, nessa altura dos acontecimentos, além de morrer asfixiado com a fumaça do cigarro? Desde então, comecei a fumar como uma chaminé, com o resultado de que o ar ambiente foi ficando cada vez mais rarefeito.

Pensava, recordava. Sobretudo as vinganças da Seita. E voltei então a analisar o caso Castel, muito notório não só pelas pessoas envolvidas como pela crônica que, do manicômio, o assassino fez chegar a uma editora. O caso me interessou imensamente por dois motivos: eu havia conhecido María Iribarne e sabia que seu marido era cego. É fácil imaginar meu interesse em conhecer Castel, mas também é fácil presumir o temor que me impediu de fazê-lo, pois equivalia a me meter na boca do lobo. Só me restava ler e estudar minuciosamente sua crônica. “Sempre tive prevenção contra os cegos”, ele confessa. Quando li esse documento pela primeira vez, assustei-me, literalmente, pois falava da pele fria, das mãos molhadas e de outras características da raça que eu também tinha observado e me obcecavam, como a tendência a viverem em porões ou lugares escuros. Até o título da crônica me fez estremecer, de tão significativo: “O túnel”.

Minha primeira reação foi correr ao manicômio e encontrar o pintor para verificar até onde fora sua investigação. Mas logo compreendi que era uma idéia tão perigosa como explorar um barril de pólvora no escuro riscando um fósforo.

Sem a menor dúvida, o crime de Castel era o resultado inexorável de uma vingança da Seita. Mas qual foi exatamente o mecanismo utilizado? Durante anos tentei desmontá-lo e analisá-lo, e jamais consegui superar essa típica ambigüidade que domina qualquer ato planejado pelos cegos. Exponho aqui minhas conclusões, que logo se ramificam, como os corredores de um labirinto:

Castel era um homem muito conhecido no ambiente intelectual de Buenos Aires, e portanto suas opiniões sobre qualquer coisa também deviam ser notórias. É quase impossível que nunca tivesse manifestado a obsessão tão profunda pelos cegos. A Seita, por meio de Allende, marido de María Iribarne, resolve castigá-lo.

Allende ordena à própria mulher que vá à galeria onde Castel expõe seus quadros mais recentes. Ela mostra grande interesse por um deles, diante do qual se põe em atitude estática tempo suficiente para Castel percebê-la, e depois a mulher desaparece. Desaparece... é modo de dizer. Como sempre acontece com a Seita, na verdade o perseguidor é perseguido, mas de tal modo que mais cedo ou mais tarde a vítima cai em suas mãos. Afinal, Castel reencontra María, apaixona-se perdidamente por ela, “persegue-a” como louco (e como bobo) dia e noite, e inclusive vai à casa dela, onde o próprio marido lhe entrega uma carta de amor de María. Esse dado é fundamental: como explicar uma atitude dessas do marido, senão porque ele se presta ao objetivo sinistro proposto pela Seita? Lembrem-se da agonia de Castel com esse fato inexplicável. Não vale a pena repetir aqui o que aconteceu depois: basta dizer que Castel fica enlouquecido de ciúme, mata finalmente María e é trancafiado num manicômio, o lugar ideal para a Seita enterrar definitivamente o caso, que, assim, nunca mais correrá o risco de ser esclarecido. Quem vai acreditar nos argumentos de um louco?

Tudo isso é claríssimo. A ambigüidade e o labirinto começam agora, pois se abrem as seguintes combinações possíveis:

1o A morte de María estava decidida, e seria uma maneira de condenar Castel à reclusão, mas era um plano ignorado por Allende, que de fato gostava e precisava de sua mulher. Daí a palavra “insensato” e o desespero de Allende na cena final.

2o A morte de María estava decidida, e Allende conhecia a decisão. Aqui se abrem duas possibilidades:

a . Allende aceitava-a resignado, pois gostava da mulher, mas tinha de pagar por um pecado anterior à sua cegueira, pecado que ignoramos e que ele já havia pagado parcialmente, quando a Seita o cegara.

b . Allende recebia-a com satisfação, pois não gostava da mulher e, pior, a odiava, e esperava assim se vingar de suas inúmeras traições. Como conciliar essa variante com o desaparecimento final de Allende? Muito simples: tudo era pura encenação, para enganar o público, uma encenação imposta pela Seita para apagar os vestígios da tortuosa vingança.

Há mais algumas variantes das variantes, que não vale a pena descrever, pois cada um de vocês pode facilmente ensaiá-las como exercício, o que, aliás, é muito útil, já que nunca se sabe quando e como se pode cair numa das ambíguas ciladas da Seita.

No que me diz respeito, o episódio, ocorrido pouco tempo depois de minha aventura com o homem das barbatanas, acabou me assustando. Fiquei apavorado e resolvi despistar, interpondo entre mim e eles não só tempo, mas espaço: fui embora do país. Medida que, para muitos que lêem estas memórias, pode parecer exagerada. Sempre achei graça na falta de imaginação desses senhores que pensam que, para reproduzir a verdade, devemos conferir aos fatos “as devidas proporções”. Esses anões imaginam (eles também têm imaginação, é claro, mas uma imaginação anã) que a realidade não ultrapassa a estatura deles, nem é mais complexa do que seu cérebro de mosca. Esses indivíduos, que se autoqualificam de “realistas”, não são capazes de ver mais além de seus narizes, confundindo a Realidade com um Círculo-de-Dois-Metros-de-Diâmetro cujo centro é sua modesta cabeça. Provincianos que riem do que não conseguem compreender e descrêem do que está fora de seu famoso círculo. Com a esperteza típica dos camponeses, rejeitam invariavelmente os loucos que chegam com planos para descobrir a América, mas compram um terreno na Lua quando vão à cidade. E tendem a considerar lógico (outra palavrinha que adoram!) o que simplesmente é psicológico. Assim, o habitual se transforma em sensato, mecanismo pelo qual um lapão acha sensato oferecer sua mulher ao viajante de passagem, enquanto para um europeu isso parece uma loucura. Esses espertinhos rejeitaram sucessivamente a existência dos antípodas, da metralhadora, dos micróbios, das ondas hertzianas. Realistas que se singularizam por rejeitar (em geral às risadas, energicamente, até mesmo na cadeia e no manicômio) futuras realidades.

Isso para não falar do outro aforismo supremo: “as devidas proporções”. Como se na história da humanidade tivesse existido alguma coisa que não tenha sido exagerada, desde o Império Romano até Dostoievski.

Em suma, deixemos essas bobagens e retornemos ao único assunto que deveria interessar a humanidade.

Resolvi ir embora do país, e, conquanto de início tivesse pensado em fazê-lo pelo Delta, numa das lanchas de contrabandistas que F. conhecia, depois refleti que assim não poderia ir mais longe que o Uruguai. Portanto, o único jeito era conseguir um passaporte falso. Localizei o chamado Turquinho Nassif e obtive um passaporte em nome de Federico Ferrari Hardoy, passaporte que, entre muitos outros roubados pela gangue do Turquinho, esperava um destino definitivo. Escolhi-o porque outrora tive problemas com Ferrari Hardoy, e agora se apresentava a oportunidade de cometer certas maldades em nome dele.

Mesmo com o documento, achei melhor ir primeiro a Montevidéu pelo Delta, numa lancha de contrabandista. Fui até Carmelo e, dali, de ônibus, a Colonia. Em outro ônibus, cheguei enfim a Montevidéu.

Consegui um visto para meu passaporte no consulado argentino e uma passagem pela Air France para dois dias depois. Que fazer nesses dois dias de espera? Estava nervoso, aflito. Andei pela avenida 18 de Julio, entrei numa livraria, tomei vários cafés e vários conhaques para combater o frio intenso. Mas o dia se passava com irritante lentidão: não via a hora de pôr um oceano entre mim e o homem das barbatanas.

Não queria ver nenhum conhecido, é claro. Mas, por falta de sorte (não por acaso, mas por falta de sorte, por descuido, já que deveria ter passado os dois dias em algum lugar de Montevidéu onde não houvesse a menor possibilidade de encontrar gente conhecida), no café Tupi-Nambá fui reconhecido por Bayce e uma moça loura, pintora, que eu também havia encontrado em Montevidéu em outros tempos. Com eles havia um homem de blue jeans e estranhos sapatos pesados: era jovem e magro, de tipo intelectual, e eu tinha a impressão de conhecê-lo de algum lugar.

Era inevitável: Bayce se aproximou e me levou para sua mesa, onde cumprimentei Lily e comecei a conversar com o homem dos sapatos pesados. Disse-lhe que achava que o conhecia. Nunca tinha estado em Valparaíso? Não era arquiteto? Sim, era arquiteto, mas nunca tinha estado em Valparaíso.

Fiquei intrigado. Como se há de entender, este era um dado suspeito, parecia casualidade demais: não só eu tinha a impressão de conhecê-lo mas acertara sua profissão. Será que ele negava conhecer Valparaíso para evitar que eu tirasse conclusões perigosas?

Fiquei tão preocupado e aflito (lembrem-se de que o caso das barbatanas tinha acontecido poucos dias antes) que não consegui acompanhar coerentemente a conversa daquela gente. Falaram de Perón (como sempre), de arquitetura, de sei lá que teoria e de arte moderna. O arquiteto tinha um exemplar de Domus. Elogiaram uma espécie de galo de cerâmica que, apesar de minha angústia, fui obrigado a olhar: era de um italiano chamado Durelli ou Fratelli (que importa?), que, por sua vez, seguramente o havia plagiado de um alemão chamado Staudt, que por sua vez o havia plagiado de Picasso, que por sua vez o havia plagiado de algum negrinho africano, o único que não ganhara nenhum dólar com o galo.

O arquiteto continuava a me deixar intrigado. Olhava-o e confirmava-se ainda mais minha impressão de conhecê-lo. Chamava-se Capurro. Mas esse seria o seu nome verdadeiro? Bem, sim, que disparate: ele era de Montevidéu, Bayce e Lily eram seus amigos, como poderia ter me dado um nome falso? Isso não era tão importante: seu nome podia, e certamente devia, estar certo, mas seria mentira o fato de nunca ter estado em Valparaíso? Nesse caso, o que escondia? Tentei me lembrar desesperadamente se naquela turma de Valparaíso havia alguém que, direta ou indiretamente, tivesse feito alguma referência a cegos. Era significativo, por exemplo, que o homem tivesse essa fixação nos galos, uma vez que para os galos de briga a cegueira é um destino inevitável. Não, não me lembrava de nada. E de repente pensei que talvez não o tivesse visto em Valparaíso, mas em Tucumán.

— Você nunca esteve em Tucumán? — perguntei de chofre.

— Em Tucumán? Não, também não. Estive muitas vezes em Buenos Aires, claro, mas em Tucumán, nunca. Por quê?

— Nada, por nada. É que acho que o conheço e estou pensando de onde.

— Meu amigo, o mais provável é que você o tenha visto aqui em Montevidéu, em outra ocasião! — disse Bayce, rindo de minha insistência.

Fiz um gesto negativo e voltei a afundar em minhas reflexões enquanto eles continuavam a falar do galo.

Dei uma desculpa qualquer, despedi-me e fui a outro café, enquanto continuava ruminando a história do arquiteto.

Tentei restabelecer contato com o pessoal de Tucumán, de quem eu costumava me servir para despistar minhas verdadeiras atividades. É natural: eu não ia freqüentar falsários autóctones ou me exibir em companhia de assaltantes de província. Telefonei para uma moça, arquiteta, com quem eu tinha ido para a cama em outros tempos.

Fui vê-la. Tinha subido na vida, estava ensinando na faculdade e colaborando com um grupo de jovens arquitetos que construíam em Tucumán algo que depois ela me mostrou: uma fábrica ou escola, ou sanatório. Não sei, é tudo igual, como se sabe, pois nesses edifícios tanto se pode instalar, amanhã, um torno ou uma maternidade. É o que eles chamam de funcionalismo.

Como ia dizendo, minha amiga tinha prosperado. Já não vivia, como em Buenos Aires, num quartinho de estudante. Agora morava num apartamento moderno, que combinava com a sua personalidade. Quando a empregada abriu a porta, quase fui embora, pois achei que ninguém morasse ali. Só ao baixar a vista é que descobri o mobiliário: tudo no chão, como para crocodilos. Acima de cinqüenta centímetros o apartamento era totalmente vazio. Mesmo assim, quando entrei vi numa parede gigantesca um quadro, um só, de algum amigo de Gabriela: contra um fundo liso e cinza chumbo, havia, traçado à régua, uma reta azul vertical, e, a uns cinqüenta centímetros à direita, um pequeno círculo ocre.

Deitamo-nos no chão, tremendamente incômodos; Gabriela se arrastou até uma mesinha de vinte centímetros de altura e serviu um café numas xicarazinhas de cerâmica sem asas. Enquanto eu queimava meus dedos, pensei que, sem meia dúzia de uísques, não conseguiria atingir, naquela geladeira, a temperatura ideal para transar com Gabriela. Já estava resignado com minha sina quando apareceram seus amigos. Ao se aproximarem, notei que um deles era mulher, também de blue jeans. Os outros dois eram arquitetos: um, o marido da mulher de calça, e o outro, pelo visto, amigo ou amante de Gabriela. Todos com o mesmo uniforme: blue jeans e uns sapatões estranhos, tipo botinas, dessas que antigamente nossos recrutas usavam, mas que agora, com toda a certeza, devem ser feitos sob medida para abastecer a Faculdade de Arquitetura.

Conversaram um bom tempo em seu jargão, que de vez em quando se misturava com o da psicanálise, de tal modo que pareciam tão extasiados diante de uma espiral logarítmica de Max Bill quanto diante do sadismo oro-anal de um amigo que estava se analisando. Também falaram de um projeto de Clorindo Testa para construir delegacias-modelo no território das Missões. Com aparelhos para dar choque elétrico?

E então fez-se a luz. Sim, minha obsessão me levara a pensar que eu tinha visto Capurro antes, em Valparaíso ou Tucumán. Mas a verdade é que toda aquela gente se parecia, e era muito difícil enxergar as diferenças, mais ainda vendo-os de longe ou na penumbra, ou, como acontecia comigo, em momentos de emoção violenta.

Mais sossegado quanto a Capurro, passei com mais prazer o tempo que me restava: entrei num cinema, depois num bar de subúrbio e finalmente me fechei no hotel. E no dia seguinte, quando o avião da Air France decolou de Carrasco, comecei a respirar em paz.

Cheguei a Orly com um calor sufocante (estávamos em agosto). Suava, ofegava. Um dos funcionários que examinou meu passaporte, um desses franceses que gesticulam com a exuberância que atribuem aos latino-americanos, disse-me, num misto de ironia e condescendência:

— Mas vocês devem estar acostumados com um calor pior ainda, não é?

Como se sabe, os franceses são muito lógicos, e o mecanismo mental desse Descartes da Polícia de Fronteiras era imbatível: Marseille está ao sul e lá faz calor; Buenos Aires está muito mais ao sul e, portanto, lá deve fazer um calor infernal. O que prova o tipo de demência que a lógica favorece: um bom raciocínio pode abolir o pólo Sul.

Tranqüilizei-o (adulei-o) confirmando sua sabedoria. Disse-lhe que em Buenos Aires andamos o tempo todo de tanga e, quando nos vestimos, a menor elevação de temperatura nos parece insuportável. Graças a isso, o homem carimbou todo feliz meu passaporte e o devolveu com um sorriso: Allez-y! Vá se civilizar um pouco!

Não tinha planos precisos para Paris, mas achei prudente tomar duas resoluções: primeiro, entrar em contato com os amigos de F., caso meu dinheiro minguasse; segundo, despistar, como sempre, freqüentando meus amigos (?) de Montparnasse e do Quartier Latin: esse conjunto de catalães, italianos, judeus poloneses e judeus romenos que formam a Escola de Paris.

Fui viver numa maison meublée da rua du Sommerard, onde eu estivera antes da guerra. Mas madame Pinard não era mais a dona. Outra gorda se encarregaria de vigiar, da portaria, a entrada e saída de estudantes, artistas fracassados e cafetões que formam não só a população da casa, mas a matéria inextinguível do Cochicho e da Filosofia da Existência da mulher da portaria.

Aluguei um quartinho no terceiro andar. Depois fui procurar meus conhecidos.

Dirigi-me ao Dôme. Não vi ninguém. Disseram-me que as pessoas tinham emigrado para outros cafés. E também me deram informações sobre Domínguez. Fui encontrá-lo em seu ateliê, que agora ficava perto da Grande Chaumière.

Mas estava escrito que eu não podia fazer nada que, a longo prazo, não me levasse ao Domínio Proibido; mais ainda: parece que um faro infalível me conduzia inelutavelmente a ele. “Isto”, me disse Domínguez, mostrando-me um quadro, “é o retrato de uma modelo cega.” Riu. Gostava de certas perversidades.

Precisei me sentar.

— O que você tem? — perguntou. — Ficou pálido.

Trouxe-me um conhaque.

— Ando ruim do estômago — expliquei.

Saí disposto a não voltar ao ateliê. Mas no dia seguinte entendi que era o pior que podia fazer, tal como demonstra o seguinte encadeamento:

1o Domínguez se surpreenderia com meu sumiço.

2o Buscaria na memória um fato que pudesse explicá-lo. O único: meu quase desmaio ao me mostrar a tela da cega.

3o Era óbvio que ele acabaria comentando, inclusive e sobretudo, com a cega. Iniciativa muito possível. Assustadoramente possível, pois daí se derivariam as seguintes:

4o Perguntas da cega a meu respeito.

5o Controle de meu nome, sobrenome, origem etc.

6o Imediata comunicação à Seita.

O resto é óbvio: minha vida tornaria a correr perigo e eu teria de fugir de Paris, talvez para a África ou Groenlândia.

Minha decisão foi a que vocês podem imaginar, a que pode supor qualquer pessoa inteligente: não havia outro jeito de disfarçar senão voltar ao ateliê de Domínguez como se nada tivesse acontecido e arriscar-me a topar com a cega.

Após uma viagem longa e cara, eu me reencontrava com meu Destino.