Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 38 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 18

 

Na segunda-feira esperou seu telefonema, em vão. Na terça, impaciente, ligou para a boutique. Teve a impressão de que a voz de Alejandra estava áspera, mas podia ser por causa do trabalho. Diante da insistência de Martín, ela disse que o esperava para tomar um café no bar da esquina das ruas Charcas e Esmeralda.

Martín correu ao bar e encontrou-a à sua espera: fumava olhando a rua. O diálogo foi curto porque ela precisava voltar para o ateliê. Martín lhe disse que queria vê-la calmamente, uma tarde inteira.

— É impossível, Martín.

Ao ver os olhos do rapaz, começou a bater com a piteira na mesa, enquanto parecia pensar e fazer contas. Seu cenho estava franzido e sua expressão era de preocupação.

— Ando muito doente — disse afinal.

— O que você tem?

— O que eu não tenho, seria melhor perguntar.

Sonhos atrozes, dores de cabeça (na nuca, que depois se espalhavam por todo o corpo), faíscas nos olhos.

— E como se tudo isso fosse pouco, esses sinos de igreja. Uma mistura de hospital e igreja, como você vê.

— Então é por isso que não pode me ver — Martín comentou com leve sarcasmo.

— Não, não disse isso. Mas tudo se soma, entende?

“Tudo se soma”, Martín repetiu para si mesmo, sabendo que nesse “tudo” estava o que mais o atormentava.

— Quer dizer que é impossível me ver?

Alejandra sustentou por instantes o olhar do rapaz, mas logo baixou os olhos e começou a bater com a piteira na mesa.

— Bem — disse, enfim —, vamos nos ver amanhã de tarde.

— Quanto tempo? — Martín perguntou ansioso.

— A tarde inteira, se você quiser — Alejandra acrescentou, sem olhá-lo e sem deixar de dar batidinhas com a piteira.

Depois, levantando os olhos e ao ver que os de Martín brilhavam, concluiu:

— Mas com uma condição, Martín.

Os olhos de Martín se apagaram.