Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 17 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 17

 

Durante alguns dias esperou em vão. Mas afinal Chichín o recebeu com um sinal e lhe deu um envelope. Tremendo, abriu-o e desdobrou a carta. Com sua letra enorme, desigual e nervosa dizia-lhe, simplesmente, que o esperava às seis horas.

Faltando poucos minutos para as seis ele estava no banco do parque, agitado mas feliz, pensando que agora tinha a quem contar suas desgraças. E alguém como Alejandra, o que lhe parecia tão extraordinário como, para um mendigo, encontrar o tesouro do pirata Morgan.

Correu para ela como uma criança, contou-lhe a história da gráfica.

— Você me falou de um tal Molinari — disse Martín. — Acho que disse que ele tinha uma grande empresa.

Alejandra levantou os olhos para o rapaz, com as sobrancelhas alteadas, demonstrando surpresa.

— Molinari? Eu lhe falei de Molinari?

— Falou, aqui mesmo, quando me encontrou dormindo, lembra? Disse: garanto que você não trabalha para Molinari, lembra?

— É possível.

— É seu amigo?

Alejandra olhou-o com um sorriso irônico.

— Eu lhe disse que era meu amigo?

Mas naquele instante Martín estava muito esperançoso para dar um significado oculto à sua expressão.

— E então? — insistiu. — Você acha que ele pode me dar um emprego?

Ela o observou como os médicos olham os recrutas que se apresentam para o serviço militar.

— Sei bater à máquina, posso redigir cartas, corrigir provas...

— Um dos vencedores de amanhã, hein?

Martín enrubesceu.

— Mas você tem idéia do que é trabalhar numa empresa importante? Com relógio de ponto e tudo?

Martín pegou seu canivete branco, abriu a lâmina menor e depois tornou a fechá-la, cabisbaixo.

— Não tenho nenhuma pretensão. Se não posso trabalhar no escritório, posso trabalhar nas oficinas, ou como operário.

Alejandra observava sua roupa puída e seus sapatos surrados.

Quando Martín afinal ergueu os olhos para ela, viu que estava com uma expressão muito séria, de cenho franzido.

— O que foi? É muito difícil?

Ela meneou a cabeça. E disse em seguida:

— Bem, não se preocupe; já, já encontraremos uma solução.

Levantou-se.

— Venha. Vamos andar um pouco, meu estômago está doendo terrivelmente.

— O estômago?

— É, volta e meia me dói. Deve ser uma úlcera.

Caminharam até o bar na esquina da rua Brasil com Balcarce. Alejandra pediu no balcão um copo com água, tirou da bolsa um vidrinho e pingou umas gotas.

— Que é isso?

— Láudano.

Atravessaram de novo o parque.

— Vamos um pouquinho até a Doca — disse Alejandra.

Pegaram a rua Almirante Brown, dobraram na Arzobispo Espinosa, descendo, e pela Pedro de Mendoza chegaram defronte de um navio sueco que estava carregando.

Alejandra sentou em cima de um dos grandes caixotes que vinham da Suécia, olhando para o rio, e Martín, num mais baixo, como se sentisse a vassalagem diante daquela princesa. E ambos olharam o grande rio cor de leão.

— Viu como temos muitas coisas em comum? — ela dizia.

E Martín pensava será verdade?, e, embora estivesse convencido de que ambos gostassem de olhar rio afora, também pensava que aquilo era uma migalha diante de outras realidades profundas que o separavam dela, migalha que ninguém podia levar a sério, e menos ainda a própria Alejandra; e tampouco — pensou — o tom divertido com que acabava de dizer a frase: tal como essas personalidades que, de repente, são fotografadas na rua, democraticamente, ao lado de um operário ou de uma babá, sorrindo e condescendentes. Se bem que a frase também pudesse ser uma verdadeira chave, e que o fato de ambos olharem ansiosos rio afora constituísse uma fórmula secreta de aliança para coisas muito mais transcendentais. Pois como era possível saber o que ela de fato pensava? E, aflito, olhava-a ali no alto, como quem vê um amigo equilibrista que se move em zonas perigosíssimas e sem que ninguém possa lhe dar uma ajuda. Observava-a ambígua e inquietante, enquanto a brisa balançava seu cabelo preto e liso e marcava seus seios pontiagudos e um pouco separados. Observava-a fumando, absorta. Aquele território varrido pelos ventos parecia apaziguado numa espécie de melancolia, como se os ventos tivessem serenado e uma bruma densa o cobrisse.

— Como seria maravilhoso ir para longe — comentou de repente. — Ir embora desta cidade imunda.

Martín ouviu apenado a forma impessoal: ir embora.

— Você iria? — ele perguntou com voz alquebrada.

Sem olhá-lo, quase totalmente ausente, respondeu:

— Iria, sim, com muito prazer. Para um lugar distante, um lugar onde não conhecesse ninguém. Talvez uma ilha, uma dessas ilhas que ainda devem existir por aí.

Martín baixou a cabeça e com o canivete começou a raspar o caixote enquanto lia this side up. Alejandra, virando os olhos para ele, depois de observá-lo um instante, perguntou se ele estava sentindo alguma coisa, e Martín, sempre raspando a madeira e lendo this side up, respondeu que não estava sentindo nada, mas Alejandra ficou olhando e pensando. E por muito tempo nenhum dos dois falou, enquanto anoitecia e o cais ia ficando silencioso: os guindastes tinham parado de trabalhar e os estivadores e carregadores começavam a se retirar para suas casas ou para os bares do porto.

— Vamos ao Moscova — disse então Alejandra.

— Ao Moscova?

— É, na rua Independencia.

— Mas... não é muito caro?

Alejandra riu.

— É um boteco, rapaz. Além disso, Vania é meu amigo.

A porta estava fechada.

— Não tem ninguém — Martín comentou.

— Sharáp — Alejandra limitou-se a dizer, batendo.

Logo em seguida um homem em manga de camisa abriu-lhes a porta: tinha cabelo liso e branco, um rosto bondoso, fino e tristemente risonho. Um tique sacudia sua face, perto do olho.

— Ivan Petróvitch — disse Alejandra, estendendo-lhe a mão.

O homem levou-a aos lábios, inclinando-se um pouco.

Sentaram perto de uma janela que dava para o passeio Colón. A sala só estava iluminada por um abajurzinho sórdido perto da caixa, onde uma mulher gorda e baixa, de rosto eslavo, tomava mate.

— Tem vodca polonesa — disse Vania. — Trazeram ontem, chegou navio Polônia.

Quando se afastou, Alejandra comentou:

— É um sujeito fantástico, mas a gorda — e apontou para a caixa —, a gorda é sinistra. Está tentando ver se trancafiam Vania para ficar com isto aqui.

— Vania? Você não o chamou de Ivan Petróvitch?

— Retardado: Vania é diminutivo de Ivan. Todo mundo o chama de Vania, mas eu o chamo Ivan Petróvitch, assim ele se sente na Rússia. E também porque eu gosto.

— E por que trancá-lo num manicômio?

— É morfinômano e tem crises. Então a gorda quer aproveitar o embalo.

Trouxe a vodca e enquanto servia disse-lhes:

— Agora aparelho anda muito bem. Tenho concerto violino de Brahms, quer que põe? Heifetz, nada menos.

Quando se afastou, Alejandra comentou:

— Viu? Ele é supergeneroso. Saiba que ele foi violonista do Colón, mas agora dá pena vê-lo tocar. Mas justamente ele lhe oferece um concerto de violino, e com Heifetz.

Fez um gesto apontando para as paredes: cossacos entrando a galope numa aldeia, igrejas bizantinas de cúpulas douradas, ciganos. Tudo era precário e pobre.

— Às vezes acho que ele gostaria de voltar. Um dia me disse: Você não acha que Stalin é, apesar de tudo, um grande homem? E acrescentou que, de certo modo, era um novo Pedro, o Grande, e que, no final das contas, queria a grandeza da Rússia. Mas disse tudo isso em voz baixa, olhando para a gorda a todo instante. Acho que ela sabe o que diz pelo movimento dos lábios.

De longe, não querendo incomodar os dois, Vania fazia gestos eloqüentes, apontando a bebida, como que elogiando. E Alejandra, enquanto concordava com um sorriso, dizia a Martín:

— O mundo é uma porcaria.

Martín reagiu.

— Não, Alejandra! No mundo há muitas coisas lindas!

Ela o olhou, talvez pensando em sua pobreza, em sua mãe, em sua solidão: ainda era capaz de encontrar maravilhas no mundo! Um sorriso irônico sobrepôs-se à sua primeira expressão de ternura, fazendo-a contrair-se como uma pele muito delicada em que se joga um ácido.

— Quais?

— Muitas, Alejandra! — Martín exclamou apertando a mão dela contra o peito. — Esta música... um homem como Vania... e sobretudo você, Alejandra... você...

— Realmente, vou acabar pensando que você não superou a infância, seu anormal.

Ficou um instante absorta, bebeu um pouco de vodca e prosseguiu:

— É claro, claro que você tem razão. No mundo há coisas bonitas... claro que há...

E então, virando-se para ele, com um toque amargo acrescentou:

— Mas eu, Martín, eu sou um lixo. Entende? Não se engane a meu respeito.

Martín apertou a mão de Alejandra nas suas, levou-a aos lábios e assim ficou, beijando-a com fervor.

— Não, Alejandra! Por que você diz uma coisa tão cruel? Eu sei que não é isso! Tudo o que você disse de Vania e muitas outras coisas que ouvi de você demonstram que não é assim!

Seus olhos estavam rasos de água.

— Bom, está bem, não é para tanto — disse Alejandra.

Martín encostou a cabeça no peito de Alejandra e já nada mais no mundo lhe importava. Pela janela via a noite descendo sobre Buenos Aires e isso aumentava sua sensação de refúgio naquele recanto escondido da cidade implacável. Uma pergunta que nunca fizera a ninguém (a quem poderia ter feito?) surgiu dentro dele, com os contornos nítidos e brilhantes de uma moeda que não foi manuseada, que milhões de mãos anônimas e sujas ainda não gastaram, deterioraram e envileceram:

— Você gosta de mim?

Ela pareceu hesitar um instante, mas depois respondeu:

— Gosto, sim. Gosto muito de você.

Martín se sentia magicamente isolado da dura realidade externa, como acontece no teatro (pensaria anos mais tarde), quando estamos vivendo o mundo do palco, enquanto lá fora esperam-nos os dolorosos espinhos do universo cotidiano, as coisas que inevitavelmente nos golpearão assim que se apaguem as gambiarras e o feitiço se quebre. E, assim como no teatro a certa altura o mundo exterior consegue entrar, embora atenuado e na forma de ruídos distantes (uma buzinada, o grito de um vendedor de jornais, o apito de um guarda de trânsito), assim também chegavam à sua consciência, como inquietantes sussurros, pequenos fatos, certas frases que perturbavam e ameaçavam a magia: as palavras que ela dissera no porto e das quais ele estava terrivelmente excluído (“eu iria embora com prazer desta cidade imunda”) e a frase que agora acabava de dizer (“sou um lixo, não se engane a meu respeito”), palavras que latejavam em sua mente como uma dor leve e surda e que, enquanto mantinha a cabeça reclinada sobre o peito de Alejandra, entregue à maravilhosa felicidade do momento, pululavam numa zona mais profunda e insidiosa de sua alma, aos cochichos com outras palavras enigmáticas: cegos, Fernando, Molinari. Mas não me importo — repetia-se, obstinado —, não me importo, apertando a cabeça contra seus seios quentes e acariciando suas mãos, como se assim garantisse a permanência do sortilégio.

— Mas quanto você gosta de mim? — perguntou, pueril.

— Muito, já lhe disse.

No entanto a voz dela pareceu ausente, e ao levantar a cabeça ele a observou e pôde ver que estava absorta, que sua atenção agora se concentrava em algo que não estava ali, com ele, mas em outro lugar, longe e desconhecido.

— Em que está pensando?

Ela não respondeu, parecia não ouvir.

Então Martín reiterou a pergunta, apertando o braço dela, como para trazê-la de volta à realidade.

E ela disse que não estava pensando em nada: nada em especial.

Muitas vezes Martín sentiria aquele distanciamento: de olhos abertos e até fazendo coisas, mas alheia, como manipulada por uma força remota.

De repente, olhando para Vania, Alejandra disse:

— Gosto de gente fracassada. Você não?

Ele ficou meditando na afirmação singular.

— O sucesso — prosseguiu — é sempre vulgar e horrível.

Ficou um instante calada e finalmente continuou:

— O que seria deste país se todo mundo vencesse! Não quero nem pensar. Salva-nos um pouco o fracasso de tanta gente. Não está com fome?

— Estou.

Levantou-se e foi falar com Vania. Quando voltou, Martín, enrubescendo, disse-lhe que não tinha dinheiro. Alejandra começou a rir. Abriu sua bolsa e tirou duzentos pesos.

— Tome. Quando precisar de mais, me diga.

Martín tentou recusá-los, envergonhado, e então Alejandra o olhou espantada.

— Está maluco? Ou você é um desses burguesesinhos que acham que não se deve aceitar dinheiro de mulher?

Quando acabaram de comer, foram andando para Barracas. Depois de cruzarem calados o parque Lezama, pegaram a rua Hernandarias.

— Conhece a história da Cidade Encantada da Patagônia? — Alejandra perguntou.

— Mais ou menos.

— Um dia vou lhe mostrar uns papéis que ainda restam naquela maleta do comandante. Papéis sobre esse aí.

— Sobre esse? Quem?

Alejandra apontou a placa.

— Hernandarias.

— Na sua casa? Mas como?

— Papéis, nomes de ruas. É a única coisa que vai nos restando. Hernandarias é um antepassado dos Acevedo. Em 1550 fez a expedição em busca da Cidade Encantada.

Andaram um pouco, calados, e depois Alejandra recitou:

Aí está Buenos Aires. O tempo que para os homens

traz o amor ou o ouro, para mim apenas me deixa

esta rosa apagada, esta inútil meada

de ruas que repetem os nomes pretéritos

de meu sangue: Laprida, Cabrera, Soler, Suárez...

Nomes em que retumbam já secretos os toques de alvorada,

as repúblicas, os cavalos e as manhãs,

as felizes vitórias, as mortes militares...

Calou-se, enquanto andavam vários quarteirões. E de repente perguntou:

— Você ouviu as badaladas?

Martín apurou o ouvido e respondeu que não.

— Que badaladas? — perguntou intrigado.

— Nada, às vezes ouço sinos que existem e outras vezes sinos que não existem.

Riu e acrescentou:

— Falando de igrejas, esta noite tive um sonho curioso. Estava numa catedral, quase no escuro, e tinha de andar com cuidado para não esbarrar nas pessoas que estavam na minha frente. Minha impressão (porque não se enxergava nada) era que a nave estava repleta. A duras penas consegui afinal me aproximar do padre que falava no púlpito. Não era possível entender o que dizia, embora eu estivesse bem perto, e o pior é que eu tinha a certeza de que se dirigia a mim. Ouvia um murmúrio confuso, como se ele falasse num telefone ruim, e isso me angustiava cada vez mais. Arregalei os olhos para poder ver, pelo menos, sua expressão. Horrorizada, vi então que ele não tinha cara, o rosto era liso e a cabeça não tinha cabelo. Nesse momento os sinos começaram a tocar, primeiro lentamente e depois, aos poucos, com mais intensidade, e no final com tamanha violência que eu acordei. O curioso é que, no mesmo sonho, eu tapava os ouvidos e dizia, como se fosse uma coisa horrorosa: são os sinos da Santa Lucía, a igreja que eu freqüentava em criança!

Ficou pensativa.

— Pergunto-me o que pode significar — disse depois. — Você não acredita no significado dos sonhos?

— Você quer dizer essa coisa de psicanálise?

— Não, não. Bem, isso também, por que não? Mas os sonhos são misteriosos, e há milhares de anos a humanidade vem lhes dando significados.

Riu, com o mesmo riso estranho de um instante antes; não era um riso saudável nem tranqüilo: era inquieto, angustiado.

— Eu sempre sonho. Com fogo, pássaros, pântanos em que afundo ou panteras que me dilaceram, com cobras. Mas sobretudo com o fogo. No final, sempre tem fogo. Você não acha que o fogo tem algo enigmático e sagrado?

Estavam chegando. De longe Martín olhou o casarão com seu Mirante lá no alto, resto fantasmagórico de um mundo que já não existia.

Entraram, atravessaram o jardim e contornaram a casa: ouvia-se o fraseado sem sentido mas calmo do louco com o clarinete.

— Ele toca sempre? — Martín perguntou.

— Quase. Mas no final você nem repara.

— Sabe que na outra noite, quando saía, eu o vi? Estava escutando atrás da porta.

— É, tem esse costume.

Subiram pela escada de caracol e novamente Martín sentiu o feitiço daquele terraço na noite de verão. Tudo podia acontecer nessa atmosfera aparentemente fora do tempo e do espaço.

Entraram no Mirante, e Alejandra disse:

— Sente-se na cama. Você já sabe que aqui as cadeiras são perigosas.

Enquanto Martín se sentava, ela jogou a bolsa num canto e pôs água para ferver. Depois colocou um disco: os sons dramáticos do bandônion começaram a configurar uma sombria melodia.

— Ouça que letra.

Quero morrer contigo,

sem confissão e sem Deus,

crucificado em minha pena,

como abraçado a um rancor.

Depois de tomarem café, saíram para o terraço e ficaram acotovelados no parapeito. Ouvia-se o clarinete lá embaixo. A noite era profunda e cálida.

— Bruno sempre diz que, infelizmente, vivemos a vida como se fosse um rascunho. Um escritor pode refazer algo imperfeito ou jogar no lixo. A vida, não: o que se viveu não há jeito de consertar, nem de limpar, nem de jogar fora. Percebe como é terrível?

— Quem é Bruno?

— Um amigo.

— O que ele faz?

— Nada, é um contemplativo, embora afirme ser simplesmente um abúlico. Em suma, acho que escreve. Mas nunca mostrou o que faz a ninguém e nem creio que um dia vá publicar alguma coisa.

— E de que vive?

— O pai tem moinhos de trigo, em Capitán Olmos. É de lá que o conhecemos, era muito amigo de minha mãe. Acho — acrescentou rindo — que estava apaixonado por ela.

— Como era sua mãe?

— Dizem que era igual a mim, quer dizer, fisicamente. Eu mal me lembro dela: imagine que eu tinha cinco anos quando ela morreu. Chamava-se Georgina.

— Por que você disse que se pareciam fisicamente?

— Porque espiritualmente sou muito diferente. Ela, pelo que Bruno me conta, era suave, feminina, delicada, calada.

— E você se parece com quem? Com seu pai?

Alejandra ficou quieta. Depois, afastando-se de Martín, disse com uma voz que não era a mesma de antes, uma voz abatida e áspera.

— Eu? Não sei... Talvez seja a encarnação de um desses demônios menores que são servidores de Satanás.

Desabotoou os dois primeiros botões da blusa e com as duas mãos sacudiu as pequenas lapelas, como se quisesse tomar ar. Respirando com certa ansiedade, foi à janela e ali aspirou o ar várias vezes, até que pareceu se acalmar.

— Estou brincando — comentou enquanto se sentava como de costume na beira da cama, deixando um lugar para Martín, a seu lado.

— Apague a luz. Às vezes me incomoda terrivelmente, meus olhos ardem.

— Quer que eu saia, quer dormir? — Martín perguntou.

— Não, eu não conseguiria dormir. Fique, se não se importar de permanecer assim, sem conversar. Deito-me um pouquinho e você pode ficar aí.

— Acho melhor ir embora, deixá-la descansar.

Num tom meio irritado, Alejandra respondeu:

— Não percebe que eu quero que você fique? Apague também a luz da mesa-de-cabeceira.

Martín apagou e voltou a se sentar ao lado de Alejandra, com o espírito transtornado, cheio de perplexidade e timidez: por que Alejandra precisava dele? Ele, ao contrário, imaginava ser uma criatura supérflua e rude, que não fazia outra coisa senão escutá-la e admirá-la. Ela era a forte, a poderosa. Que tipo de ajuda podia lhe dar?

— O que você está aí resmungando? — Alejandra perguntou deitada e sacudindo um braço dele, como para chamá-lo à realidade.

— Resmungando? Nada.

— Bem, pensando. Em alguma coisa você está pensando, idiota.

Martín resistia em dizer no que pensava, mas imaginou que, como sempre, e de qualquer maneira, ela adivinharia.

— Pensava... que... por que você poderia precisar de mim?

— Por que não?

— Eu sou um rapaz insignificante... Você, em compensação, é forte, tem idéias definidas, é valente... Poderia se defender sozinha numa tribo de canibais.

Ouviu seu riso. Depois Alejandra disse:

— Eu mesma não sei. Mas procurei-o porque preciso de você, porque você... Bem, para que quebrarmos a cabeça?

— Contudo — Martín respondeu com um toque de amargura —, hoje mesmo, no porto, você disse que com prazer iria embora para uma ilha distante, não disse?

— E daí?

— Disse que iria embora, não que iríamos embora.

Alejandra riu de novo.

Martín pegou sua mão e, aflito, perguntou:

— Iria comigo?

Alejandra parecia refletir. Martín não conseguia distinguir suas feições.

— Iria... acho que sim... Mas não vejo como essa perspectiva pode alegrá-lo.

— Por que não? — perguntou Martín, dolorosamente.

Com voz séria, ela retrucou:

— Porque não suporto ninguém ao meu lado e porque eu lhe faria muito, mas muitíssimo mal.

— É que você não gosta de mim?

— Ai, Martín... não vamos começar com essas perguntas...

— Então é porque não gosta de mim.

— Gosto sim, bobo. É justamente por gostar de você que eu lhe faria mal, será que você não entende? A gente não faz mal a quem nos é indiferente. Mas a palavra gostar, Martín, é tão vasta... A gente gosta de um amante, de um cachorro, de um amigo...

— E eu? — perguntou Martín, tremendo —, o que sou para você? Um amante, um cachorro, um amigo...?

— Já lhe disse que preciso de você, não basta?

Martín se calou: os fantasmas que estavam rondando, de longe, aproximaram-se sarcasticamente: a palavra Fernando, a frase lembre-se sempre de que sou um lixo, sua ausência naquela primeira noite. E pensou, com melancólica amargura: “Nunca, nunca”. Seus olhos encheram-se de lágrimas e sua cabeça se inclinou para a frente, como se os pensamentos, com seu peso, o dobrassem.

Alejandra levou a mão ao rosto de Martín e com a ponta dos dedos apalpou os olhos dele.

— Já imaginava. Venha para cá.

Manteve-o apertado contra si, com um dos braços.

— Vamos ver se você se comporta bem — disse, como quem fala com uma criança. — Já lhe disse que preciso de você e que gosto muito de você, o que mais quer?

Aproximou os lábios e beijou-o na face. Martín sentiu todo seu corpo estremecer.

Abraçando Alejandra com força, sentindo o corpo quente junto ao seu, como se um poder invencível o dominasse, começou então a beijar seu rosto, seus olhos, as faces, o cabelo, até achar a boca imensa e carnosa que sentia perto de si. Por um instante fugacíssimo percebeu que Alejandra fugia de seu beijo: todo seu corpo pareceu endurecer e seus braços tiveram um gesto de rejeição. Depois amoleceu e pareceu tomada por um frenesi. E então produziu-se algo que deixou Martín aterrado: as mãos dela, como se fossem garras, arranharam seus braços e dilaceraram sua carne, ao mesmo tempo que ela o afastava de si e se levantava.

— Não! — gritou, enquanto ficava em pé e corria para a janela.

Assustado, Martín, não se atrevendo a se aproximar, viu-a com o cabelo despenteado, aspirando o ar da noite a grandes golfadas, como se este lhe faltasse, o peito agitado e as mãos agarradas no batente, os braços esticados. Num gesto violento abriu a blusa com as duas mãos, arrancando os botões, e caiu no chão, rígida. Seu rosto foi ficando arroxeado, até que de repente seu corpo começou a se sacudir.

Aterrado, não sabia que atitude tomar. Quando viu que ela estava caindo, correu, pegou-a nos braços e tentou acalmá-la. Mas Alejandra não ouvia nem via nada: retorcia-se e gemia, com os olhos abertos e alucinados. Martín percebeu que não podia fazer mais nada a não ser levá-la para a cama. Assim fez, e aos poucos viu, aliviado, que Alejandra se acalmava e seus gemidos iam paulatinamente se apagando.

Sentado na beira da cama, muito confuso e amedrontado, Martín via os seios dela nus pela blusa entreaberta. Por um instante pensou que, de certa forma, ele, Martín, estava realmente sendo necessário àquela criatura atormentada e sofredora. Então fechou a blusa de Alejandra e esperou. Aos poucos a respiração dela voltou a ser mais compassada e regular, seus olhos se fecharam e ela pareceu dormir. Assim passou-se mais de uma hora. Até que, abrindo os olhos e mirando-o, pediu um pouco de água. Ele segurou Alejandra com o braço e a fez beber.

— Apague essa luz — disse ela.

Martín apagou e voltou a sentar-se ao seu lado.

— Martín — disse Alejandra com voz sumida —, estou muito, muito cansada, gostaria de dormir, mas não vá embora. Pode dormir aqui, ao meu lado.

Ele tirou os sapatos e deitou-se ao lado de Alejandra.

— Você é um santo — disse ela, enroscando-se perto dele.

Martín percebeu que ela dormiu logo, enquanto ele tentava ordenar o caos de sua mente. Mas era uma vertigem tão incoerente, os raciocínios acabavam sempre sendo tão contraditórios que, pouco a pouco, foi invadido por uma sonolência invencível e pela sensação tão doce (apesar de tudo) de estar ao lado da mulher amada.

Algo, porém, o impediu de dormir, e ele foi se sentindo angustiado.

Como se — pensava —, após percorrer vastas e solitárias regiões, o príncipe chegasse enfim diante da gruta onde ela dorme, vigiada pelo dragão. E como se, para completar, ele percebesse que o dragão ameaçador não estava ao lado dela, conforme o imaginamos nos contos de fadas, mas, o que era mais angustiante, nela mesma: ela seria assim como uma princesa-dragão, um monstro indiscernível, casto e flamejante ao mesmo tempo, meigo e repelente ao mesmo tempo; ela seria assim como uma menina puríssima vestida para a primeira comunhão tendo pesadelos com répteis ou morcegos.

E os ventos misteriosos que pareciam soprar da gruta escura do dragão-princesa agitavam sua alma e a dilaceravam, todas as suas idéias estavam despedaçadas e misturadas, e seu corpo era estremecido por sensações complexas. Sua mãe (pensava), sua mãe carne e sujeira, banho quente e úmido, massa escura de cabelos e cheiros, repugnante esterco de pele e lábios quentes. Mas ele (tentava ordenar seu caos), mas ele separara o amor em carne suja e em puríssimo sentimento; em puríssimo sentimento e em sexo asqueroso e sórdido, que ele devia rejeitar, embora (ou porque) tantas vezes seus instintos se rebelassem, horrorizando-o, e o horror que sentia por essa rebelião era o mesmo que sentia ao descobrir no próprio rosto, de repente, os traços de sua mãecama. Como se sua mãecama, pérfida e rasteira, conseguisse transpor os fossos profundos que, desesperado, ele cavava todo dia para defender sua torre, e, víbora implacável, reaparecesse toda noite, como um fantasma fétido, na torre onde ele se defendia com sua espada afiada e limpa. E o que acontecia, meu Deus, com Alejandra? Que ambíguo sentimento agora confundia todas as suas defesas? De súbito, a carne aparecia-lhe como espírito, e seu amor por ela se transformava em carne, em desejo quente de sua pele e de sua úmida e escura gruta de dragão-princesa. Mas, meu Deus, meu Deus, por que ela parecia defender essa gruta com sopros flamejantes e gritos furiosos de dragão ferido? “Não devo pensar”, disse, apertando as têmporas, e tentou ficar como que prendendo a respiração de sua cabeça. Tentativa de deter o tumulto. Por um segundo fugaz, sentiu-se tenso e vazio. E depois, já liberado, ao menos por um instante, pensou com dolorosa lucidez mas com marcos molina, lá na praia, foi diferente, pois ela o quis e o desejou e o beijou furiosamente, de modo que era ele, Martín, o rejeitado por ela. Sua tensão cedeu e novamente aqueles ventos voltaram a varrer seu espírito, como numa tormenta furiosa, enquanto sentia que ela, a seu lado, se agitava, gemia, murmurava palavras ininteligíveis. “Sempre tenho pesadelos quando durmo”, dissera.

Martín sentou-se na beira da cama e a contemplou: à luz da lua podia escrutar seu rosto agitado pela outra tempestade, a dela, a que ele jamais (mas jamais) conheceria. Como se no meio de excrementos e lama, entre trevas, houvesse uma rosa branca e delicada. E o mais estranho de tudo era que ele gostava desse monstro equívoco: dragãoprincesa, rosalama, meninamorcego. Dessa mesma criatura casta, quente e talvez corrompida que estremecia ao lado dele, perto de sua pele, agitada sabe-se lá por quais horrendos pesadelos. E o mais angustiante de tudo era que, tendo-a aceitado assim, era ela que parecia não querer aceitá-lo: como se a menina de branco (no meio da lama, cercada por bandos de morcegos noturnos, viscosos e imundos morcegos) gemesse implorando sua ajuda e ao mesmo tempo repelisse sua presença com gestos violentos, afastando-o daquele lugar tenebroso. Sim: a princesa se agitava e gemia. De regiões desoladas no meio das trevas chamava por ele, Martín. Mas ele, um pobre rapaz desconcertado, era incapaz de chegar aonde ela estava, separado por abismos intransponíveis.

Assim, não podia fazer nada senão olhá-la, do lado de cá, angustiadamente, e esperar.

— Não, não! — Alejandra exclamava pondo as mãos diante de si, como para repelir alguma coisa. Até que acordou e de novo se repetiu a cena que Martín já tinha presenciado na primeira noite: acalmando-a, chamando-a pelo nome; e ela, ausente e surgindo aos poucos de um abismo profundo de morcegos e teias de aranha.

Sentada na cama, curvada sobre as pernas, a cabeça encostada nos joelhos, Alejandra aos poucos voltava a si. Um tempo depois olhou, finalmente, para Martín e disse:

— Espero que você já tenha se acostumado.

Como resposta, Martín tentou acariciar seu rosto.

— Não me toque! — ela exclamou, recuando.

Levantou e disse:

— Vou tomar banho e já volto.

— Por que demorou tanto? — perguntou quando enfim a viu reaparecer.

— Eu estava muito suja.

Deitou a seu lado, depois de acender um cigarro.

Martín a olhou: nunca sabia quando ela estava brincando.

— Não estou brincando, bobo, estou falando sério.

Martín ficou calado: suas dúvidas, a confusão de suas idéias e sentimentos o mantinham paralisado. De cenho franzido, olhava o teto e tentava ordenar a mente.

— Em que está pensando?

Demorou um pouco a responder.

— Em muita coisa e em nada, Alejandra... A verdade é que...

— Você não sabe em quê?

— Não sei nada... Desde que a conheço vivo numa confusão total de idéias, de sentimentos... já não sei como agir em nenhum momento... Agora mesmo, quando você acordou, quando eu quis acariciá-la... E antes de você dormir... Quando...

Calou-se e Alejandra nada disse. Permaneceram os dois em silêncio por um bom tempo.

Só se ouviam as profundas e ansiosas tragadas que Alejandra dava no cigarro.

— Você não fala nada — Martín comentou, amargo.

— Já respondi que gosto de você, que gosto muito de você.

— O que você sonhou agora? — Martín perguntou, sombrio.

— Para que quer saber? Não vale a pena.

— Está vendo? Você tem um mundo desconhecido para mim. Como pode dizer que gosta de mim?

— Gosto de você, Martín.

— Ah... gosta de mim como de uma criança.

Ela não disse nada.

— Está vendo? — Martín comentou, amargo —, está vendo?

— Não, bobo, não... Estou pensando... eu mesma não vejo as coisas claramente... mas gosto de você, preciso de você, disso tenho certeza...

— Você não deixou que eu a beijasse. Não me deixou nem sequer tocá-la ainda há pouco.

— Meu Deus! Não está vendo que eu sou doente, que sofro de coisas atrozes? Você não tem idéia do pesadelo que acabo de ter...

— Por isso tomou banho? — Martín perguntou, irônico.

— É, tomei banho por causa do pesadelo.

— Os pesadelos são limpos com água?

— São, Martín, com água e um pouco de detergente.

— Não acho que o que eu estou dizendo seja motivo para riso.

— Não rio, garotinho. Rio talvez de mim mesma, de minha idéia absurda de limpar a alma com água e sabão. Se você visse como me esfrego furiosamente!

— É uma idéia sem pé nem cabeça.

— Claro que é.

Alejandra se levantou, apagou a guimba do cigarro no cinzeiro que havia na mesinha-de-cabeceira e voltou a se deitar.

— Sou um rapaz sem experiência, Alejandra. É até provável que você me ache meio anormal. Mas mesmo assim me pergunto: por que, se não gosta que eu toque em você e a beije na boca, me pediu para deitar aqui, ao seu lado? Acho uma crueldade. Ou é mais uma experiência igual à de Marcos Molina?

— Não, Martín, não é nenhuma experiência. Eu não gostava de Marcos Molina, agora vejo claramente. Com você é diferente. E, engraçado, eu mesma não me explico: de repente preciso ter você perto, junto de mim, sentir o calor do seu corpo ao meu lado, o contato da sua mão.

— Mas sem que eu possa beijá-la de verdade.

Alejandra demorou um pouco a responder.

— Olhe, Martín, há muitas coisas em mim, em... Olhe, não sei... talvez porque tenha muito carinho por você. Entende?

— Não.

— É, claro... eu mesma não me explico muito bem.

— Nunca poderei beijá-la, nunca poderei tocar seu corpo? — Martín perguntou com amargura quase cômica e infantil.

Viu que ela punha as mãos no rosto e o apertava como se suas têmporas doessem. Depois acendeu um cigarro e, sem falar, foi à janela, onde permaneceu até terminá-lo. Finalmente voltou para a cama, sentou-se, olhou Martín longa e seriamente e começou a se despir.

Martín, meio apavorado, como quem assiste a um ato longamente desejado, mas que, ao vê-lo realizar-se, compreende também o que ele tem de obscuramente terrível, viu seu corpo emergindo aos poucos da escuridão; já de pé, à luz do luar, contemplava sua cintura fina, que um só braço podia enlaçar, seus quadris largos, seus seios altos e triangulares, abertos para os lados, trêmulos a cada gesto de Alejandra, seu cabelo liso e comprido caindo agora sobre os ombros. Seu rosto estava sério, quase trágico, e parecia tomado por um desespero seco, por um tenso e quase elétrico desespero.

Coisa singular: os olhos de Martín tinham se enchido de lágrimas e sua pele tremia, como que febril. Via-a como uma ânfora antiga, alta, bela e trêmula ânfora de carne; uma carne que sutilmente, para Martín, era entremeada por uma ânsia de comunhão, pois, como dizia Bruno, uma das trágicas precariedades do espírito, mas também uma de suas sutilezas mais profundas, era não poder existir senão pela carne.

O mundo exterior deixara de existir para Martín e agora o círculo mágico o isolava vertiginosamente daquela cidade terrível, de suas misérias e feiúras, dos milhões de homens e mulheres e crianças que falavam, sofriam, brigavam, odiavam, comiam. Pelos fantásticos poderes do amor, tudo ficava abolido, menos o corpo de Alejandra que esperava a seu lado, um corpo que um dia morreria e se corromperia, mas agora era imortal e incorruptível, como se o espírito que o habitasse transmitisse à carne os atributos de sua eternidade. As batidas de seu coração demonstravam que ele, Martín, estava subindo a uma altura nunca antes alcançada, um cume onde o ar era puríssimo mas tenso, uma alta montanha talvez cercada de atmosfera eletrizada, alturas incomensuráveis sobre os pântanos escuros e pestilentos em que antes ele ouvira chapinharem bestas disformes e sujas.

E Bruno (não Martín, é claro), Bruno pensou que nesse momento Alejandra proferia uma súplica silenciosa mas dramática, talvez trágica.

E ele, Bruno, também pensaria depois que a prece não foi ouvida.