Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 89 de 93 · parte 1/3

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

A morte de Fernando (disse-me Bruno) me fez repensar não só na vida dele, mas na minha, o que revela como e em que medida minha própria existência, como a de Georgina, como a de muitos homens e mulheres, foi tumultuada pela de Fernando.

Perguntam-me, perseguem-me: “O senhor, que o conheceu de perto”. Mas as palavras “conheceu” e “perto”, tratando-se de Vidal, são praticamente irrisórias. É verdade que vivi perto dele em três ou quatro momentos decisivos e conheci um lado de sua personalidade: esse lado que, como o da lua, estava virado para nós. Também é verdade que tenho algumas hipóteses sobre sua morte, mas não me sinto propenso a manifestá-las, de tal modo é possível que eu me equivoque a respeito dele. Estive (materialmente) perto de Fernando em alguns momentos de sua vida, como já disse: durante nossa infância em Capitán Olmos, até 1923; dois anos mais tarde, na casa de Barracas, quando sua mãe já tinha morrido e seu avô o levara para lá; em seguida, em 1930, quando éramos rapazinhos, no movimento anarquista, e finalmente em encontros fugazes nos últimos anos. Mas ultimamente ele já era um indivíduo totalmente alheio à minha vida, e em certo sentido alheio à existência de todos (não de Alejandra, é claro). Já era o que realmente se chama ou se pode chamar um alienado, um ser alheio ao que consideramos, talvez ingenuamente, “o mundo”. E ainda me lembro do dia, não faz muito, em que o vi caminhando como um sonâmbulo pela rua Reconquista e em que, tudo indica, não me viu, ou fingiu não me ver, pois as duas possibilidades são igualmente plausíveis tratando-se dele, já que fazia mais de vinte anos que não nos encontrávamos e que para um espírito normal haveria muitos motivos de parar e conversar. E se me viu, como é possível, por que fingiu não me ver? A essa pergunta não se pode dar uma resposta unívoca, tratando-se de Vidal. Uma resposta possível é que estivesse passando por uma de suas fases de delírio de perseguição, quando poderia fugir de minha presença, não apesar de ser um velho conhecido, mas justamente por isso.

Porém, amplos períodos de sua vida me são absolutamente desconhecidos. Sei, é claro, que andou por muitos países, embora, referindo-se a Fernando, fosse mais apropriado dizer que “fugiu” por vários países. Há vestígios dessas viagens, dessas expedições. Há rastros fragmentários de sua passagem, graças a pessoas que o viram ou ouviram falar dele: Lea Lublín o encontrou certa vez no Dôme; Castagnino o viu comendo numa cantina perto da Piazza di Spagna, se bem que, ao ser reconhecido, tenha se escondido atrás de um jornal, como um míope lendo com extrema atenção; Bayce confirmou um parágrafo de seu Relatório: encontrou-o no café Tupi-Nambá de Montevidéu. E assim por diante. Pois nada sabemos a fundo e de forma coerente a respeito de suas viagens, e muito menos das expedições às ilhas do Pacífico ou ao Tibete. Gonzalo Rojas me contou que uma vez lhe falaram de um argentino “assim e assado” que andou se informando em Valparaíso a fim de embarcar numa goleta que periodicamente faz viagens à ilha Juan Fernández; com seus dados e minhas explicações, chegamos à conclusão de que era Fernando Vidal. Que foi fazer naquela ilha? Sabemos que estava ligado a espíritas e praticantes de magia negra, mas o testemunho desse tipo de gente deve ser visto com cuidado. De todos esses episódios obscuros, talvez o único que se possa considerar confiável foi seu encontro com Gurdjieff em Paris, e isso por causa da briga que tiveram e das conseqüências policiais. Talvez você faça referência às memórias dele, o famoso Relatório. Creio que não podemos considerá-las um documento fiel aos fatos originais, se bem que devam ser vistas como autênticas num sentido mais profundo. Parecem revelar seus momentos de alucinação e delírio, momentos que, a rigor, abarcaram quase toda a última etapa de sua vida, quando ele vivia recluso ou desaparecia. Diante dessas páginas, tenho a repentina impressão de que Vidal, ao se afundar nos abismos do inferno, abanava um lenço de despedida, como quem pronuncia palavras de adeus irônicas e delirantes, ou talvez gritos desesperados de socorro, esmaecidos e disfarçados por sua jactância e seu orgulho.

Estou tentando lhe contar tudo desde o início, mas vejo-me forçado, aqui e acolá, a dizer banalidades. E para mim é impossível pensar em algo importante de minha própria vida que, de certa maneira, não tenha a ver com a vida tumultuada de Fernando. Seu espírito continua dominando o meu, mesmo depois da morte. Não faz mal: não tenho a intenção de me defender de suas idéias, dessas idéias que fizeram e desfizeram minha vida, e não a dele, como esses peritos em explosivos capazes de armar e desarmar, sem riscos, uma bomba. Portanto, não terei mais esse tipo de escrúpulo nem farei essas inúteis reflexões paralelas. Aliás, considero-me justo o suficiente para admitir que ele era superior a mim. Meu respeito por ele era natural, a ponto de eu sentir uma serenidade e certa volúpia em reconhecê-lo. E, no entanto, jamais gostei dele, mesmo o admirando muitas vezes. Ao detestá-lo, ele nunca me foi indiferente. Não era esse tipo de pessoa que pode passar ao nosso lado causando indiferença: no mesmo instante ele nos atraía ou repugnava, e, via de regra, fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Tinha uma força magnética, de atração ou rejeição, e, quando pessoas contemplativas ou hesitantes como eu entravam em sua zona de influência, eram sacudidas, como as pequenas bússolas que entram em regiões conturbadas por tempestades magnéticas. Para completar, era um indivíduo instável, que passava dos maiores entusiasmos às mais profundas depressões. Essa era uma de suas centenas de contradições. De repente raciocinava com uma lógica implacável, e de repente tornava-se um delirante que, mesmo mantendo toda a aparência do rigor, chegava aos disparates mais inverossímeis, os quais, entretanto, lhe pareciam conclusões normais e verdadeiras. De repente gostava de conversas brilhantes, e a certa altura transformava-se num solitário a quem ninguém se atrevia a dirigir a palavra. Mencionei, creio, a palavra “luxúria” entre as que podiam caracterizar sua vida, e no entanto, em certos momentos ele se entregou a um ascetismo repentino e duríssimo. Às vezes era um contemplativo, outras entregava-se a uma atividade frenética. Em Capitán Olmos, eu o vi, criança, cometer atos de terrível crueldade com os bichos indefesos, e depois em atitudes de ternura totalmente incompatíveis. Simulava? Era uma representação que fazia na minha frente, movido pela ironia e pelo cinismo? Não sei. Havia momentos em que parecia se maravilhar com um narcisismo que repugnava, e no instante seguinte repetia as opiniões mais depreciativas sobre si mesmo. Defendia a América e depois ria dos indigenistas. Quando, arrastado por seus epigramas ou sarcasmos a respeito de nossos próceres, alguém acrescentava um minúsculo detalhe, era logo liqüidado por uma ironia em sentido contrário. Em suma, era o extremo oposto do que se considera uma pessoa equilibrada, ou simplesmente do que se considera uma pessoa, se o que diferencia uma pessoa de um indivíduo é certa dureza, certa persistência e coerência nas idéias e nos sentimentos, já que não tinha a menor coerência, salvo a de suas obsessões, rigorosas e permanentes. Era o extremo oposto de um filósofo, de um desses homens que pensam e desenvolvem um sistema como um edifício harmonioso; era algo assim como um terrorista das idéias, uma espécie de antifilósofo. Tampouco seu rosto permanecia idêntico a si mesmo. A verdade é que sempre pensei que habitavam nele pessoas diferentes. E mesmo sendo, sem a menor dúvida, um canalha, eu me atreveria a afirmar que, ainda assim, havia nele certa pureza, uma pureza infernal. Era uma espécie de santo do inferno. Uma vez o ouvi dizer, justamente, que no inferno, como no céu, há muitas hierarquias, desde os pobres e medíocres pecadores (os pequeno-burgueses do inferno, dizia) até os grandes perversos e desesperados, os monstros negros que tinham direito a se sentar à direita de Satanás; e é possível que, sem dizer explicitamente, estivesse confessando um julgamento sobre sua própria condição.

Os loucos, como os gênios, se insurgem, quase sempre de modo catastrófico, contra as limitações de sua pátria ou de seu tempo, entrando nessa terra de ninguém, disparatada e mágica, delirante e tumultuada, que os bons cidadãos contemplam com sentimentos distintos: do medo ao ódio, do aparente desprezo a uma espécie de admiração aterradora. E, contudo, esses indivíduos excepcionais, esses homens fora-da-lei e da pátria conservam, a meu ver, muitos atributos da terra-pátria onde nasceram e dos homens que até a véspera foram seus semelhantes, embora deformados por um monstruoso sistema de projeção feito com lentes distorcedoras e amplificadores desmedidos. Que espécie de louco podia ser o Quixote, senão um louco espanhol? E conquanto seu porte descomunal e sua demência o universalizem, e de certo modo o tornem compreensível e admirado por todos os homens do mundo, há nele traços que só podiam se reunir nesse país brutalmente realista e magicamente alucinado que é a Espanha. Apesar de tudo, havia muito de argentino em Fernando Vidal. Boa parte de suas contradições era, claro, conseqüência de sua natureza individual, de sua herança enferma, e podiam ter se produzido em qualquer lugar do mundo. Mas outras, creio, eram produto de sua condição de argentino, de certo tipo de argentino. E embora fosse, pelo lado da mãe, de uma velha família, não era porém, como podia se imaginar, a expressão unilateral e simples dessa que agora se chama “oligarquia nacional” ou, pelo menos, não tinha essas peculiaridades que a gente do povo espera de tais pessoas, assim como, e com a mesma superficialidade, invariavelmente imagina os ingleses como fleumáticos, e sente-se comicamente atrapalhada quando se menciona um indivíduo como Churchill. A verdade é que as variantes que o afastavam da norma podiam decorrer, por um lado, da herança paterna, e, por outro, de a família Olmos ser um tanto excêntrica e discreta (embora isso também seja genuinamente nacional em muitas velhas famílias). Essa família decadente dava a impressão de ser formada por fantasmas ou sonâmbulos distraídos no meio de uma realidade brutal que não sentiam, nem ouviam, nem compreendiam, o que de repente lhes dava, curiosamente, a vantagem irônica e paradoxal de atravessarem o duríssimo muro da realidade como se ele não existissse. Mas Fernando tinha muito pouco dessa família, pois possuía, embora por momentos, em furiosos acessos, uma energia colossal, conquanto sempre empregada para a negação ou a destruição, traço que sem dúvida herdou do pai, um espírito inferior, mas dotado de força violenta e tenebrosa, força que passou ao filho, mesmo se este o odiava e se negava a reconhecê-lo, sendo até possível que o odiassse e se negasse a reconhecê-lo por descobrir em si mesmo os atributos do homem que tanto detestava e que, em criança, tentou envenenar. Essa injeção de sangue de Vidal na velha família causou em Fernando, e mais tarde em Alejandra, uma violenta reação, como acontece, creio, em certas plantas doentias ou fracas quando estímulos externos malignos desenvolvem cânceres que terminam invadindo e finalmente destruindo tudo com sua monstruosa vitalidade. Assim aconteceu com aquela velha estirpe, tão generosa e comovedoramente risível em sua absoluta falta de realismo, a ponto de — e é inacreditável — ter continuado a viver na velha casa, naqueles restos de Barracas, onde os antepassados tiveram uma quinta e onde agora, encurralados em seus últimos e miseráveis fragmentos, eles sobreviviam cercados de fábricas e cortiços, e onde o bisavô cochilava saudoso das antigas virtudes, liquidadas pelos duros dias de hoje, tal como um estrondo caótico liquida uma ingênua e suave balada de antigamente.

Eu também, a meu jeito, fui apaixonado por Alejandra, até entender que era sua mãe, Georgina, que eu tinha amado; ao me rejeitar, ela me jogou para sua filha. O tempo me fez entender o erro, e então voltei à primeira (e inútil) paixão, que, imagino, durará até Georgina morrer, enquanto existir a mínima esperança de tê-la a meu lado. Pois, embora o senhor se espante, ela ainda vive, ela não está morta, como Alejandra pensava... ou aparentava pensar. Alejandra tinha muitos motivos para odiar a mãe, devido a seu temperamento e sua concepção do mundo, e muitos motivos para dá-la como morta. Mas me apresso em esclarecer que, ao contrário do que o senhor poderia imaginar depois disso, Georgina é uma mulher profundamente boa e incapaz de fazer mal a alguém, muito menos à filha. Por que, então, Alejandra a odiava tanto e matou-a mentalmente na infância? E por que Georgina vivia longe dela e, em geral, afastada de todos os Olmos? Não sei se sou capaz de esclarecer esses problemas e outros que ainda se apresentarão a respeito dessa família que tanto pesou em minha vida e agora pesa na desse rapaz. Confesso que minha intenção era não lhe falar sobre meu amor por Georgina, porque... bem... digamos... porque não sou dado a falar de minhas tribulações pessoais. Mas agora percebo que seria impossível iluminar certos ângulos da personalidade de Fernando sem lhe contar, ao menos sumariamente, a história de Georgina. Já lhe disse que era prima de Fernando? Era filha de Patricio Olmos e irmã de Bebe, o louco do clarinete. E Ana María, mãe de Fernando, era irmã de Patricio Olmos, entende? De modo que Fernando e Georgina eram primos carnais e, além disso — e este dado é importantíssimo —, Georgina era assustadoramente parecida com Ana María, não só nos traços físicos, como Alejandra, mas sobretudo no espírito: era uma espécie de quintessência da família Olmos, sem a contaminação do sangue violento e maligno de Vidal; era refinada e bondosa, tímida e meio fantasmática, com uma sensualidade delicada e profundamente feminina. Quanto a suas relações com Fernando...

Imaginemos num palco uma mulher bonita que nos atrai por sua expressão grave, por sua seriedade e beleza discreta, mas que está servindo de médium ou de cobaia para uma experiência de hipnotismo ou transmissão de pensamento realizada por um indivíduo poderoso e funesto. Todos nós assistimos um dia a esse espetáculo e observamos que a mulher segue automaticamente as ordens e os simples olhares do hipnotizador. Todos nós reparamos nesse olhar vazio, meio de cego, que têm as vítimas da experiência. Imaginemos que a mulher nos atraia irresistivelmente e que, em seus intervalos de lucidez ou de plena consciência, tenha inclusive uma certa queda por nós. Que podemos fazer, se está sob o domínio do hipnotizador? Só nos desesperarmos e entristecermos.

Era isso que acontecia comigo com relação a Georgina. E apenas em alguns momentos excepcionais aquela força maléfica parecia ceder, e então (oh, maravilhosos, frágeis e fugazes momentos!) ela reclinava a cabeça em meu peito, chorando. Mas como eram precários esses instantes de felicidade! Logo recaía sob a influência do feitiço, e então tudo era inútil: eu mexia as mãos diante de seus olhos, falava com ela, pegava-a pelo braço, mas ela não me via, nem me ouvia, nem me sentia.

Quanto a Fernando, gostava dela? E de que maneira? Eu seria incapaz de lhe dar uma idéia exata. Em primeiro lugar, acho que jamais gostou de alguém. Depois, a consciência de superioridade era tão grande que nem ciúme sentia; no máximo, quando via alguém em torno dela, apenas fazia um gesto imperceptível de ironia ou desprezo. Aliás, sabia que bastava um levíssimo movimento seu para liquidar qualquer tênue sentimento que estivesse nascendo, assim como basta uma pancadinha com o dedo para derrubar o castelo de cartas que se construiu trabalhosamente, prendendo a respiração. E ela parecia esperar ansiosa esse gesto de Fernando, como se fosse sua maior expressão de amor.

Ela era invulnerável. Lembro-me, por exemplo, de quando Fernando se casou. Ah, sim, claro, o senhor não sabe, naturalmente. E terá outro motivo de surpresa. Não só porque se casou, mas porque não foi com a prima. Na verdade, pensando bem, seria quase inconcebível que tivesse sido; isto, sim, é que seria de fato surpreendente. Não: com Georgina teve relações clandestinas, pois na época ela estava proibida de entrar na casa dos Olmos, e não duvido de que don Patricio a tivesse matado, apesar de toda a bondade. E quando Georgina teve a filha... bem, seria muito longo explicar tudo isso, e, além do mais, não haveria por quê, mas talvez baste dizer que ela foi embora de casa, antes de mais nada por timidez e vergonha, já que nem don Patricio nem sua mulher María Elena eram capazes de se comportar com ela de forma vulgar e grosseira, mas mesmo assim ela foi embora, desapareceu um pouco antes de ter Alejandra, e eu quase poderia lhe dizer, como se diz correntemente, que a terra a engoliu. Por que Georgina se separou de Alejandra quando a menina tinha dez anos, por que a menina foi viver com os avós na casa de Barracas, por que nunca mais Georgina voltou para lá, tudo isso me levaria longe demais, mas talvez o senhor possa entender em parte caso se lembre do que já lhe disse sobre o ódio, ódio mortal e crescente, que Alejandra foi alimentando pela mãe à medida que ia crescendo. Volto, pois, ao que estava contando: o casamento de Fernando. Qualquer um se surpreenderia que aquele niilista, aquele terrorista moral que debochava de todo tipo de sentimentos e idéias burguesas, pudesse se casar. Mas se surpreenderia muito mais se soubesse como se casou. E com quem... Era uma garota de dezesseis anos, linda e com grande fortuna. Fernando adorava mulheres bonitas e sensuais, tanto quanto as desprezava, mas essa inclinação era maior ainda quando elas eram bem mocinhas. Ignoro os detalhes, pois na época eu não o via, e, mesmo se estivéssemos próximos, também não saberia de muitos detalhes, já que era um homem que podia viver tranqüilamente em dois ou mais planos diferentes. Mas ouvi comentários por aí, frases que deviam ter algo de verdade, ainda que de uma verdade tão duvidosa como tudo o que se referia às ações e idéias de Fernando. Disseram-me, evidentemente, que estava de olho na fortuna da moça, a qual seria uma menininha deslumbrada com aquele ator; acrescentaram que Fernando tinha mantido relações (alguns afirmavam que antes, outros que durante e depois do casamento) com a mãe da moça, uma judia polonesa de uns quarenta anos, de pretensões intelectuais, que vivia mal com o marido, um senhor Szenfeld, dono de fábricas de tecido. Cochichava-se que, enquanto Fernando mantinha relações com a mãe, a filha engravidara e por isso ele “não teve outro jeito senão se casar”, frase que, quando ouvi, muito me fez rir, de tão alucinante se aplicada a Fernando. Certos informantes, que se consideram mais autorizados que outros por jogarem canastra na casa de San Isidro, garantiram que houve cenas tumultuosas entre os atores dessa comédia grotesca, cenas violentas de ciúme e ameaças, e que — e isso também me parecia muito engraçado — Fernando então afirmara que não podia se casar com a senhora Szenfeld, nem que ela se divorciasse, porque ele pertencia a uma velha família católica, sendo seu dever casar-se com a garota com quem tivera relações.

Como o senhor imagina, quem conhecesse Fernando como eu só podia achar uma dolorosa graça nesses cochichos, mas é claro que tinham uma parte de verdade, como sempre acontece com as lendas mais fantáticas. Há os fatos concretos: Fernando se casou com uma moça judia de dezesseis anos, usufruiu por dois anos de uma linda mansão na rua Martínez, que o senhor Szenfeld comprou e lhes deu de presente, dilapidou o dinheiro que certamente recebeu para o casamento e, afinal, o dinheiro da própria mansão, abandonando então a moça.

Esses são os fatos.

Quanto às interpretações e aos cochichos, haveria muito que analisar. Talvez não seja inútil eu lhe dizer o que penso, pois esses acontecimentos projetam certa luz na personalidade de Fernando, embora seja uma luz não muito maior do que aquela que pode projetar na essência do diabo o conhecimento de algumas de suas tragicômicas safadezas. Curioso: é a primeira vez que relaciono a palavra “tragicômica” com a personalidade de Fernando, mas acho que ela também corresponde à verdade. Fernando foi uma pessoa fundamentalmente trágica, mas há momentos de sua vida que beiram o humor, embora se trate de um humor macabro. É certo, por exemplo, que durante os confusos episódios de seu casamento ele deve ter dado vazão a seu humor negro, produzindo então um desses espetáculos diabolicamente cômicos que tanto o deliciavam. Por exemplo, o comentário das senhoras da roda de canastra sobre o catolicismo de sua família e a impossibilidade de se casar com uma divorciada. Frase duplamente extravagante, pois, além de zombar do catolicismo da família e do catolicismo em geral, e de todo e qualquer princípio ou fundamento da sociedade, Fernando disse tal frase à mãe da moça com quem também mantinha relações íntimas. Esse modo de misturar o “respeitável” com o indecente era uma das especialidades de Fernando. Como as palavras que, dizem, pronunciou para ficar com a linda casa da rua Martínez: “Ela abandonou o lar”, quando no fundo a moça deve ter fugido espantada ou, mais provavelmente, deve ter sido expulsa de casa por uma malandragem diabólica qualquer. Um dos passatempos favoritos de Fernando era levar para casa mulheres que visivelmente eram suas amantes, convencendo a garota (seu poder de convicção era quase ilimitado) de recebê-las com cortesia, mas, sem dúvida, graduando a experiência, para que aos poucos ela fosse se cansando, até finalmente fugir de casa, que era o que Fernando queria. Como a propriedade acabou em suas mãos, não sei, mas imagino que soube ajeitar as coisas com a mãe (que continuava apaixonada por ele e, conseqüentemente, enciumada da filha) e com o senhor Szenfeld. Como esse homem chegou a ser amigo de alguém que, segundo os boatos, era amante de sua mulher, como essa amizade ou fraqueza levou uma raposa em matéria de negócios a dar de presente uma casa suntuosa ao sujeito que não só era amante de sua mulher como fazia sua filha infeliz, tudo isso será para sempre um dos mistérios da obscura personalidade de Vidal. Mas estou convencido de que para tanto ele terá realizado uma operação sutilíssima, como fazem esses governantes maquiavélicos com os partidos de oposição, que, de seu lado, são inimigos entre si. Minha hipótese é a seguinte: Szenfeld odiava a esposa, que o enganou não só com Fernando como também, antes, com um sócio chamado Shapiro. Teve imensa satisfação ao saber que finalmente alguém humilhava e fazia sofrer aquela pedante que volta e meia o desprezava, e dessa imensa satisfação à admiração, e mesmo ao afeto, pode ter sido um passo, dado com a ajuda do talento de Fernando para seduzir quem quisesse, talento aliás favorecido por sua absoluta falta de sinceridade e de honestidade. As pessoas honestas e sinceras, ao misturarem as amizades com as inevitáveis manifestações de desagrado pelas mil e uma circunstâncias que sempre surgem entre os seres humanos, mesmo entre os melhores, jamais conseguem produzir essas proezas de encantamento absoluto que os cínicos e mentirosos realizam; e, por esse mesmo mecanismo, a mentira é sempre mais agradável que a verdade, já que esta é enfeada pelas imperfeições que têm até mesmo as criaturas mais próximas da perfeição e as quais mais gostaríamos de agradar e satisfazer. Além disso, a satisfação do senhor Szenfeld aumentaria ao perceber que os sofrimentos da esposa vinham do fato de estar com o orgulho ferido, por questões supostamente de idade, já que Fernando a enganava com uma moça jovem e bonita. E, por último (ingrediente que talvez também tenha intervindo), em toda essa operação quem saía perdendo não era ele, Szenfeld, pois sua condição de marido enganado era anterior, e sim o senhor Shapiro, que, sendo o enganador, teria provavelmente um orgulho muito mais forte, mas também mais vulnerável, do que o senhor Szenfeld. E a derrota de Shapiro nesse terreno, o único em que se sentia superior ao sócio (pois Szenfeld, fossem quais fossem seus defeitos como marido, era uma reconhecida raposa nos negócios), rebaixava Shapiro a uma situação tão humilhante que, por contraste, renovou as forças de Szenfeld. E tanto deve ter sido assim que não só as empresas de tecidos receberam o impulso de novas e audaciosas operações, como, a partir do casamento de Fernando, foi notória a simpatia quase protetora com que tratou seu sócio na frente de terceiros.

Quanto a Georgina, vou lhe contar um fato característico. O casamento foi em 1951. Por essa época encontrei-a na rua Maipú, perto da avenida 9 de Julio, coisa raríssima, já que ela nunca ia ao centro. Fazia uns dez anos que não a via. Aos quarenta anos, estava acabada e envelhecida, triste, mais calada do que nunca, e, embora sempre tenha sido reservada e de pouquíssimas palavras, naquele dia seu silêncio era quase intolerável. Carregava um embrulho. Como sempre, senti uma grande emoção. Onde tinha se escondido durante aqueles anos? Em que lugares absurdos vivia em segredo seu drama? O que tinha feito todo esse tempo, o que tinha pensado e sofrido? Gostaria de lhe perguntar tudo, mas sabia ser inútil, pois, se era difícil extrair dela umas poucas palavras, era de todo impossível conseguir resposta para perguntas sobre sua intimidade. Georgina sempre me deu a impressão de ser uma dessas casas dos bairros afastados, quase permanentemente fechadas e silenciosas, habitadas por pessoas velhas e enigmáticas, talvez dois irmãos solteirões, um homem solitário que sofreu uma tragédia, um artista frustrado ou desconhecido e misantropo com um canário e um gato; casas das quais nada sabemos e que só se abrem a certas horas para receber, discretamente, os mantimentos; não os vendedores ou entregadores, mas só as coisas que trazem e que, de uma porta entreaberta, são recolhidas por um braço do morador solitário. Casas em que à noite em geral só se acende uma luz, que talvez corresponda a uma espécie de cozinha onde o homem solitário também come e passa o tempo, indo depois a luz para outro aposento, onde provavelmente ele dorme ou lê ou faz algum trabalho absurdo, como introduzir um barco dentro de uma garrafa. Luz solitária que invariavelmente me leva a indagar, sendo eu uma pessoa curiosa e que vive de conjeturas, quem será esse homem, ou essa mulher, ou essas duas solteironas? E de que viverá? Terá uma renda, uma herança? Por que nunca sai? E por que a luz fica acesa até altas horas da noite? Estará lendo? Ou escrevendo? Ou será uma dessas criaturas solitárias e ao mesmo tempo medrosas, que só resistem à solidão com a ajuda desse grande inimigo dos fantasmas, reais ou imaginários, que é a luz?

Precisei pegá-la pelo braço, quase sacudi-la, para que me reconhecesse. Parecia caminhar meio adormecida. E era sempre inacreditável vê-la viva no trânsito caótico de Buenos Aires.

Um sorriso insinuou-se em seu rosto cansado, como a claridade suave de uma vela que se acende numa sala escura, silenciosa e triste.

— Venha — disse-lhe, levando-a ao London.

Sentamos e pus minha mão sobre a dela. Como estava acabada! Não sabia, porém, o que lhe dizer nem perguntar, pois as coisas que realmente me interessavam eu não podia perguntar, e as outras, para quê? Limitava-me a contemplá-la, como quem percorre em silêncio velhas paisagens de outrora, olhando com ternura e melancolia o trabalho dos anos em seu rosto: árvores caídas, casas derrubadas, molduras oxidadas, plantas desconhecidas no velho jardim, mato e poeira nos restos de móveis.

Mas sem conseguir me conter, numa abominável combinação de ironia e tristeza, comentei:

— Quer dizer que Fernando se casou?

Foi, de minha parte, um gesto indigno, embora inconsciente, do qual logo me arrependi.

Dos olhos de Georgina começaram a correr duas lágrimas lentíssimas e apenas perceptíveis, como se de um homem prestes a morrer, de fome ou de tortura, ainda se extraísse uma última e ínfima confissão, apenas murmurada, mediante um derradeiro golpe brutal.

É singular, e me deixa muito mal, o fato de nesse momento, em vez de atenuar de algum modo meu infeliz comentário anterior, eu ter dito, com raiva:

— E você ainda chora!

Por um segundo vi em seus olhos um brilho que lembrava o antigo, assim como uma recordação lembra a realidade.

— Eu o proíbo de julgar Fernando! — respondeu.

Retirei minha mão.

Ficamos calados. Terminamos de tomar o café, em silêncio. Depois ela disse:

— Preciso ir embora.

A antiga dor se apoderou de mim, essa dor que ficara adormecida durante tantos anos de renúncia. Só Deus sabe quando voltaria a vê-la.

Despedimo-nos em silêncio. Mas, quando ela se afastara uns passos, parou um instante, virou-se um pouco, quase tímida, e em seu olhar tive a impressão de ver dor, ternura e desespero. Pensei em correr até ela e beijar seu rosto maltratado, seus olhos chorosos, sua boca amarga, e em pedir-lhe, suplicar-lhe que nos víssemos, que me permitisse ficar perto dela. Mas me contive. Bem sabia que era utópico e nossos destinos teriam de prosseguir sem se encontrar, até a morte.

Pouco depois desse encontro casual ocorreu a separação entre Fernando e sua mulher. Também soube que a casa da rua Martínez, o famoso presente do senhor Szenfeld, fora leiloada e Fernando tinha ido viver numa casinha de Villa Devoto.

É provável que nesse meio tempo muitas coisas tenham acontecido e essa operação haja sido a conseqüência das tumultuosas vicissitudes da vida de Fernando, pois sei que na época jogava roleta em Mar del Plata, perdendo quantias enormes. Também me disseram que participou de um negócio ou negociata de terras, perto do aeródromo de Ezeiza, embora seja possível que se trate de uma informação apócrifa lançada por algum amigo da família Szenfeld. Mas a verdade é que no final ele foi parar na casinha modestíssima de Villa Devoto, onde, aliás, foi encontrado, escondido, o Relatório sobre os cegos.

Já lhe disse que Szenfeld o ajudou. Agora creio que seria melhor dizer que “o premiou” por ocasião de seu inacreditável casamento. Como muitos outros, caiu na rede de Fernando, a tal ponto que depois o ajudou em suas especulações e o tirou de dificuldades durante a fase do jogo. Contudo, por motivos que desconheço, a amizade paradoxal com o senhor Szenfeld acabou ou deve ter acabado, pois do contrário não se explica esse final miserável.

A última vez que o encontrei na rua (não me refiro ao encontro perto de Constitución, quando fingiu não me conhecer, ou talvez não tivesse me visto, absorto como andava, já na última fase de sua loucura com os cegos), ele estava acompanhado de um indivíduo muito alto, louro e de rosto duríssimo e impiedoso. Como praticamente esbarrei em Fernando, ele não pôde fugir de mim e trocamos umas palavras, enquanto o sujeito se afastava e olhava para a rua, depois de ter me sido apresentado com um nome alemão, que agora não recordo. Poucos meses depois topei com sua foto na página policial de La Razón; era impossível esquecer seu rosto impiedoso, de lábios finos e apertados. Figurava ao lado de outros indivíduos procurados pela polícia, como supostos assaltantes da sucursal Flores do Banco de Galicia. Assalto perfeito e que, segundo a polícia, tinha sido executado por comandos da época da guerra. O sujeito era polonês e tinha servido num comando do exército de Anders. Seu sobrenome não era o mesmo que Fernando me dissera.

Essa falsidade confirmou minha hipótese de que a polícia não estava errada. Na época do encontro casual, o indivíduo preparava alguma ação de peso. Fernando estaria envolvido? É muito provável. Quando jovem, chefiara uma gangue de assaltantes em Avellaneda, e aliás, com sua situação econômica difícil, era mais que provável que tivesse voltado à velha paixão: assalto a banco, método considerado ideal para conseguir de uma tacada grandes quantias de dinheiro, ao mesmo tempo que se revestia, para ele, de um valor simbólico.

— O Banco — disse-me mais de uma vez, quando éramos garotos —, assim, com maiúscula, é o templo do espírito burguês.

Seja como for, seu nome não figurava no inquérito policial.

Não o vi mais nesses últimos dois anos, durante os quais, a julgar pelos estranhos documentos, ele parece ter mergulhado na desvairada exploração do mundo subterrâneo.

Desde que me lembro ele viveu obcecado pelos cegos e pela cegueira.

Um pouco antes da morte de sua mãe, quando ainda morávamos em Capitán Olmos, lembro-me de um episódio típico. Ele pegou um pardal, levou-o para o quarto do primeiro andar, a que chamava de seu fortim, e com uma agulha furou os olhos do bicho. Depois o soltou, e o passarinho, enlouquecido de dor e medo, se lançava freneticamente contra as paredes, sem conseguir sair pela janela. Eu, que tentei interromper a mutilação, me senti enjoado. Pensei que iria desmaiar ao descer a escada e tive de ficar bastante tempo agarrado no corrimão até me refazer, enquanto ouvia Fernando, lá em cima, rindo de mim.

E embora muitas vezes tivesse me dito que arrancava os olhos de pássaros e outros bichos, era a primeira vez que eu via. E também a última. Jamais conseguirei esquecer a sensação horrorosa daquela manhã.

Após esse episódio não voltei à casa dele nem à fazenda, privando-me do que para mim era o mais importante: ver e ouvir sua mãe. Mas, agora penso, era justamente por isso, por não poder suportar a idéia de que ela fosse mãe de um garoto como Fernando. E mulher de um homem como Juan Carlos Vidal, personagem de quem até hoje me lembro com repugnância.

Fernando odiava o pai. Naquela época tinha doze anos, era moreno e duro como ele. E, mesmo o odiando, puxara muito ao pai, não só na aparência física, mas no temperamento. Seu rosto tinha algumas feições típicas dos Olmos: olhos verdes, maçãs salientes. Todo o resto era do pai. Com os anos foi repudiando cada vez mais a semelhança, a qual, a meu ver, era um dos principais motivos da raiva que de repente manifestava contra si mesmo. Até sua violência, sua sensualidade cruel, tudo vinha do lado paterno.

Ele me amedrontava. Estava calado e de repente tinha explosões de cólera cega. Seu riso era duro. Talvez como reação ao pai, mulherengo e bêbado, por muitos anos de sua juventude não tomou álcool, e várias vezes o vi entregar-se a um surpreendente ascetismo, como se quisesse se mortificar. Períodos que quebrava entregando-se a uma luxúria sádica, em que usava as mulheres para uma espécie de satisfação diabólica, ao mesmo tempo que as desprezava e as rejeitava depois com irônica violência, talvez como culpadas de sua imperfeição. Apesar das imposturas e palhaçadas, era solitário e estóico, não tinha amigos nem queria ou podia ter. Acho que só gostou da mãe, embora me seja difícil imaginar que aquele garoto pudesse gostar de alguém, se por essa palavra tentamos expressar uma forma de afeto, carinho ou amor. Talvez só sentisse pela mãe uma paixão doentia e histérica. Lembro-me de um episódio: eu tinha pintado uma aquarela de um alazão chamado Fritz, que Ana María costumava montar e do qual gostava muito; ela se entusiasmou com o retrato e me beijou com paixão; então Fernando veio para cima de mim e me agrediu. Como ela nos apartasse e repreendesse o filho, Fernando desapareceu e, quando o encontrei, ao lado do riacho onde costumava tomar banho, tentei fazer as pazes com ele. Escutou-me calado, roendo as unhas, como era comum quando estava atormentado, e de repente pulou em cima de mim com um canivete aberto. Lutei desesperadamente, sem entender sua fúria, consegui arrancar o canivete e jogá-lo longe, ele se afastou de mim, apanhou a arma e, para minha grande surpresa, já que imaginei que voltaria a me atacar, cravou-o na própria mão. Muitos anos se passariam antes que eu entendesse o orgulho que explicava esse episódio.

Pouco tempo depois houve o caso do pardal, e nunca mais o revi, nem voltei à sua casa ou à estância. Tínhamos doze anos, e no inverno, poucos meses depois, Ana María morreu, segundo uns, de desgosto, segundo outros, tomando pílulas para dormir. O sentimento de tristeza daquele dia funesto ressurge em mim junto com a derrota de Firpo contra Dempsey (não se falava de outra coisa) e com a música do shimmy, “La danza de las libélulas”, que José Bohr tocava com serrote, num disco do fonógrafo dos Iturrioz, ao lado de minha casa.

Passaram-se três anos até reencontrá-lo. Só, com meus desajeitados quinze anos, na pensão de Buenos Aires, durante os longos domingos meu pensamento voltava insistentemente a Capitán Olmos. Creio já ter dito que quase não conheci minha mãe, morta quando eu tinha dois anos. Como se surpreender que para mim Capitán Olmos fosse em boa medida a recordação de Ana María? Eu a via nos fins de tarde da fazenda, no verão, recitando versos em francês que eu não entendia, mas que me provocavam, na voz grave de Ana María, uma volúpia sutil. “Estão ali”, pensava, “estão ali.” E, numa tentativa ingênua de enganar a mim mesmo, eu a incluía nesse plural de verbo, com toda minha alma e minha vontade: como se na velha casa de Barracas, que eu conhecia quase como se a tivesse visitado (de tal forma Ana María me falara dela), sua alma sobrevivesse de alguma maneira, como se em seu filho, em seu repugnante filho, em Georgina, no pai e nas irmãs, pudesse se reencontrar, prefigurada ou desfigurada, a lembrança de Ana María. E eu rondava o casarão, sem me animar a tocar a campainha. Até que um dia vi Fernando voltando para casa, e não quis ou não pude fugir.

— Você? — perguntou-me com um sorriso de desdém.

Na frente dele, tive de novo a incompreensível sensação de culpa de sempre.

O que eu andava fazendo por ali? Seus olhos penetrantes e malvados me impediam de mentir. Aliás, era inútil: ele adivinhava que eu andava vigiando o casarão. E senti-me como um delinqüente novato e torpe, tão incapaz de comunicar-lhe meus sentimentos, minha nostalgia, como de escrever um poema de amor romântico entre os cadáveres de uma sala de dissecção. E, vergonhosamente calado, admiti seguir Fernando, como se ele fosse me dar uma esmola, pois assim eu acabaria conhecendo aquela casa. E, enquanto atravessávamos o parque no entardecer, veio o intenso perfume de jasmim do país, que para mim seria sempre “do páis”, com acento no a, e que significaria para sempre longe, mãe, ternura, nunca mais. No Mirante, tive a impressão de ver o rosto de uma velha, uma espécie de fantasma na penumbra, que se retirou discretamente. Uma galeria coberta ligava o corpo principal da casa à torre do Mirante, que formava assim uma espécie de península. A torre tinha duas peças, certamente ocupadas outrora por parte da criadagem, e, no térreo do Mirante, havia uma outra peça (que, como vi depois, na prova a que Fernando me submeteu, era um depósito ligado ao andar de cima por uma escada de madeira) e uma escada metálica em caracol, subindo pela fachada externa até o terraço que dava para o Mirante. Esse terraço cobria os dois grandes aposentos a que me refiro, e ao redor, como era costume em muitas construções daquele tempo, havia um parapeito, na época já semidestruído. Sem dizer uma palavra, Fernando andou pelo corredor e entrou num dos aposentos. Acendeu a luz e entendi que devia ser seu quarto: havia uma cama, uma velha mesa de sala de jantar que lhe servia de escrivaninha, uma cômoda e diversos móveis velhos e, pelo visto, inúteis, mas que estariam guardados ali por não se ter onde colocá-los, já que a casa fora aos poucos se reduzindo. Acabávamos de chegar e, na porta que dava para o segundo quarto, apareceu um garoto que me causou instintiva repulsa. Sem cumprimentar ninguém, sem explicações, perguntou: “Trouxe?”, e Fernando, secamente, disse: “Não”. Olhei-o espantado: tinha uns catorze anos, uma enorme cabeça alongada como uma bola de rúgbi, a pele como marfim, cabelos lisos e finos, um maxilar prognático, nariz fino e olhos febris que me causaram uma aversão automática: a aversão que talvez sentíssemos por um ser de outro planeta, quase idêntico a nós, mas com diferenças obscuramente terríveis.

Fernando não respondeu, enquanto o outro, fitando-o com seus olhos febris, levava aos lábios uma flauta ou clarinete e começava a tocar um esboço de frase. Fernando remexia uma pilha empoeirada de Tit-bits que estava no chão, num canto, parecendo procurar algo específico, tão alheio à minha presença como se eu fosse um dos moradores habituais da casa. Finalmente separou um exemplar cuja capa era o herói de Justiça alada. Quando vi que se preparava para sair e, tudo indica, sem dar a menor bola para mim, fiquei muito zangado: eu não podia sair com ele, como se fosse seu amigo, pois ele não havia pedido que eu entrasse e agora também não me convidava a acompanhá-lo; tampouco podia ficar no quarto, e muito menos com o estranho garoto do clarinete. Por um instante senti-me a criatura mais infeliz e ridícula do mundo. Agora compreendo que naquele momento Fernando fazia tudo isso deliberadamente, por pura maldade.

Assim, quando a garota ruiva apareceu e me sorriu, senti um imenso alívio. Sem se despedir, sorrindo ironicamente, Fernando foi embora com sua revista, e fiquei olhando Georgina: tinha mudado bastante, já não era a magricela que eu conhecera em Capitán Olmos na época da morte de Ana María; agora tinha catorze ou quinze anos e começava a se aproximar de seu retrato definitivo, tal como o esboço grosseiro e rápido de um pintor se aproxima da obra final. Talvez por ver seus seios começando a aparecer debaixo do suéter, fiquei corado e olhei para o chão.

— Ele não trouxe — disse-lhe o Bebe, com o clarinete na mão.

— Bem, vai trazer depois — ela respondeu, no tom da mãe que engana o filho.

— Quando? — o Bebe insistiu.

— Logo.

— Mas quando?

— Logo, estou lhe dizendo, você vai ver. Agora sente aí e toque clarinete, hein?

Levou-o suavemente pelo braço até a outra peça, ao mesmo tempo que me dizia: “Venha, Bruno”. Segui-os e entrei: era provavelmente o quarto onde dormiam os dois irmãos, completamente diferente do quarto de Fernando, apesar dos móveis tão velhos e imprestáveis como os outros; mas havia alguma coisa, um toque delicado e feminino.

Continuar: parte 2 de 3