Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 11 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 11

 

Voltaram para o quarto. Alejandra foi até a mesinha-de-cabeceira e pegou num tubo dois comprimidos vermelhos. Depois sentou-se na beira da cama e, batendo com a palma da mão esquerda a seu lado, disse a Martín:

— Sente-se.

Enquanto ele se sentava, ela, sem água, engolia os dois comprimidos. Depois se deitou na cama, com as pernas encolhidas perto do rapaz.

— Preciso descansar um pouco — explicou, fechando os olhos.

— Bem, então vou embora — disse Martín.

— Não, não vá ainda — ela murmurou, como se estivesse prestes a dormir —; depois continuaremos a conversar... é só um pouco...

E começou a respirar fundo, já adormecida.

Deixara cair os sapatos no chão, e seus pés nus estavam perto de Martín, perplexo e ainda inebriado com o relato de Alejandra no terraço: tudo era absurdo, tudo se passava segundo uma trama disparatada, e qualquer coisa que ele fizesse ou deixasse de fazer parecia inconveniente.

Que fazia ali? Sentia-se estúpido e acanhado. Mas, por alguma razão que não conseguia compreender, ela parecia precisar dele: não tinha ido procurá-lo? Não tinha lhe contado suas experiências com Marcos Molina? A ninguém, pensou com orgulho e perplexidade, a ninguém contara antes, tinha certeza. E não queria que ele fosse embora, e dormira a seu lado, aceitara dormir a seu lado, fizera esse gesto supremo de confiança que é dormir ao lado do outro: como um guerreiro que tira sua armadura. Ali estava, indefesa, mas misteriosa e acessível. Tão perto, mas separada pela muralha do sono; inexistente, mas intransponível e tenebrosa.

Martín a olhou: estava de costas, respirando ofegante pela boca entreaberta, sua grande boca desdenhosa e sensual. O cabelo comprido e liso, preto (com os reflexos avermelhados que indicavam que esta Alejandra era a mesma garotinha ruiva da infância e, ao mesmo tempo, tão diferente, tão diferente!), esparramado sobre o travesseiro, realçava seu rosto anguloso, essas feições que tinham a mesma nitidez, a mesma dureza de seu espírito. Ele tremia e estava cheio de idéias confusas, nunca antes sentidas. A luz da mesa-de-cabeceira iluminava seu corpo abandonado, seus seios marcados sob a blusa branca, e as pernas compridas e bonitas, encolhidas, que encostavam nele. Aproximou a mão do corpo de Alejandra, mas antes de chegar a tocá-lo retirou-a assustado. Em seguida, depois de muito hesitar, a mão se reaproximou dela e afinal pousou sobre uma de suas coxas. Assim Martín ficou, com o coração sobressaltado, por um longo tempo, como se estivesse cometendo um roubo vergonhoso, como se estivesse aproveitando o sono de um guerreiro para roubar uma pequena lembrança. Mas então ela se virou e ele retirou a mão. Ela encolheu as pernas, levantando os joelhos, e curvou o corpo como se voltasse à posição fetal.

O silêncio era profundo, e ouvia-se a respiração agitada de Alejandra e um apito longínquo no cais.

Jamais a conhecerei totalmente, pensou, como numa repentina e dolorosa revelação.

Estava ali, ao alcance de sua mão e de sua boca. Em certo sentido estava sem defesa, mas tão distante! Tão inacessível! Intuía que grandes abismos a separavam (não só o abismo do sono, mas outros) e que para chegar ao centro dela teria de andar durante dias e dias terríveis, entre gretas tenebrosas, por desfiladeiros perigosíssimos, à beira de vulcões em erupção, entre labaredas e trevas. Jamais, pensou, jamais.

Mas precisa de mim, escolheu-me, também pensou. De certa maneira o havia buscado e escolhido, a ele, para algo que não conseguia entender. E contara-lhe coisas que, tinha certeza, jamais contara a ninguém, e pressentia que lhe contaria muitas outras, ainda mais terríveis e bonitas que as já confessadas. Mas também intuía que haveria outras que nunca, mas nunca lhe seria dado conhecer. E essas sombras misteriosas e inquietantes não seriam as mais verdadeiras de sua alma, as únicas de verdadeira importância? Sentira um estremecimento quando ele mencionou os cegos, por quê? Tinha se arrependido assim que pronunciara o nome Fernando, por quê?

Cegos, pensou, quase com medo. Cegos, cegos.

A noite, a infância, as trevas, as trevas, o terror e o sangue, sangue, carne e sangue, os sonhos, abismos, abismos insondáveis, solidão solidão solidão, tocamos mas estamos a distâncias incomensuráveis, tocamos mas estamos sós. Era um garoto sob uma cúpula imensa, no meio da cúpula, no meio de um silêncio aterrador, sozinho no universo gigantesco.

E de repente ouviu Alejandra se agitando, virando para cima e parecendo afastar algo com as mãos. De seus lábios saíam murmúrios ininteligíveis, mas violentos e ofegantes, até que, como se precisando fazer um esforço sobre-humano para articular, gritou “não, não!” e se levantou abruptamente.

— Alejandra! — chamou-a Martín, sacudindo seus ombros, querendo arrancá-la do pesadelo.

Mas ela, de olhos bem abertos, continuava gemendo, rechaçando o inimigo com violência.

— Alejandra! Alejandra! — Martín continuava chamando, sacudindo-a pelos ombros.

Até que ela pareceu acordar como se surgisse de um poço profundíssimo, um poço escuro e cheio de teias de aranha e morcegos.

— Ah — disse com voz sumida.

Ficou muito tempo sentada na cama, com a cabeça encostada nos joelhos e as mãos cruzadas sobre as pernas encolhidas.

Depois desceu da cama, acendeu a luz grande, um cigarro e começou a fazer café.

— Acordei-a porque percebi que você estava tendo um pesadelo — disse Martín, olhando-a ansioso.

— Sempre num pesadelo, quando durmo — ela respondeu, sem se virar, enquanto punha a cafeteira no fogareiro.

Quando o café ficou pronto, passou-lhe uma xicarazinha, e ela, sentando-se na beira da cama, tomou o seu, absorta.

Martín pensou: Fernando, cegos.

“Menos Fernando e eu”, dissera. E, conquanto já conhecesse bastante Alejandra para saber que não devia lhe perguntar nada sobre aquele nome que em seguida ela evitara, uma pressão insensata levava-o, de vez em quando, a contornar perigosamente a região proibida.

— E o seu avô — perguntou — também é unitário?

— Hein? — disse ela, distraída.

— Pergunto se seu avô também é unitário.

Alejandra virou os olhos para ele, meio intrigada.

— Meu avô? Meu avô morreu.

— Como? Achei que você tinha me dito que estava vivo.

— Não, ora essa: meu avô Patricio morreu. Quem está vivo é meu bisavô, Pancho, já não lhe expliquei?

— Bem, é, queria dizer seu avô Pancho; ele também é unitário? Acho engraçado que ainda possa haver no país unitários e federalistas.

— Você não percebe que aqui se viveu tudo isso? Mais ainda: pense que o vô Pancho continua vivendo tudo isso, nasceu pouco depois da queda de Rosas. Não lhe disse que tem noventa e cinco anos?

— Noventa e cinco?

— Nasceu em 1858. Nós podemos falar de unitários e federalistas, mas ele viveu tudo isso, entende? Quando era menino Rosas ainda vivia.

— E lembra-se de coisas daquele tempo?

— Tem uma memória de elefante. E além disso não faz outra coisa senão falar do assunto, o dia todo, quando se está por perto. É natural: é sua única realidade. Nada mais existe.

— Gostaria de escutá-lo um dia.

— Agora mesmo posso apresentá-lo.

— Hein? O que você está dizendo? São três horas da manhã!

— Não seja ingênuo. Você não entende que para o avô não existe três horas da manhã? Não dorme quase nunca. Ou talvez cochile a qualquer hora, sei lá... mas, sobretudo de noite, fica acordado e o tempo todo com a luz acesa, pensando.

— Pensando?

— Bem, vá saber... Quem pode saber o que se passa na cabeça de um velho acordado, de quase cem anos? Talvez só se recorde, sei lá... Dizem que nessa idade a gente só se recorda...

E depois acrescentou, rindo com seu riso seco:

— Vou tomar muito cuidado quando chegar a essa idade.

E saindo com naturalidade, como se se tratasse de fazer uma visita normal a pessoas normais e em horas sensatas, disse:

— Venha, vou apresentá-lo agora. Quem garante que amanhã não estará morto?

Parou.

— Acostume-se um pouco com o escuro para poder descer melhor.

Ficaram um instante encostados no parapeito, olhando a cidade adormecida.

— Olhe a luz na janela, naquela casinha — comentou Alejandra, apontando com a mão. — Eu sempre fico seduzida por essas luzes na noite: será uma mulher prestes a ter um filho? Alguém que morre? Ou talvez seja um estudante pobre lendo Marx. Como o mundo é misterioso. Só as pessoas superficiais não vêem. Você conversa com o guarda da esquina, faz com que ele se sinta em confiança e logo descobre que ele também é um mistério.

Um instante depois, disse:

— Bem, vamos.