Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 3
Há uma diferença fundamental entre os homens que perderam a visão por doença ou acidente e os cegos de nascença. A essa diferença devo a possibilidade de ter penetrado enfim em seus redutos, ainda que não tenha ido até os antros mais secretos, onde os grandes e desconhecidos hierarcas governam a Seita, e portanto o Mundo. Mal e mal consegui, a partir dessa espécie de periferia, ter informações, sempre reticentes e ambíguas, sobre aqueles monstros e sobre os meios que usam para dominar o universo inteiro. Soube assim que a hegemonia é obtida e mantida (sem falar do aproveitamento banal do sentimentalismo popular) por meio de cartas anônimas, intrigas, propagação de pestes, controle dos sonhos e pesadelos, sonambulismo e difusão de drogas. Basta lembrar a operação envolvendo maconha e cocaína que se descobriu nos colégios de ensino secundário dos Estados Unidos, onde se corrompiam meninos e meninas de onze e doze anos para tê-los sob controle incondicional e absoluto. A investigação, claro, terminou onde devia começar a verdade: numa fronteira inviolável. Quanto ao domínio por meio de sonhos, pesadelos e magia negra, nem vale a pena demonstrar que a Seita tem para isso, a seu serviço, todo o exército de videntes e bruxas de bairro, curandeiros, mãos santas, cartomantes e espíritas: muitos deles, a maioria, são meros vigaristas, mas outros têm poderes autênticos e, o que é curioso, costumam dissimular esses poderes sob a aparência de certo charlatanismo, para melhor dominarem o mundo que os cerca.
Se, como dizem, Deus tem o poder sobre o céu, a Seita tem o domínio sobre a terra e sobre a carne. Ignoro se, em última instância, a organização deve, mais cedo ou mais tarde, prestar contas ao que se poderia chamar Potência Luminosa; mas, enquanto isso, é óbvio que o universo está sob seu poder absoluto, poder de vida e morte, exercido por meio da peste ou da revolução, da doença ou da tortura, do engano ou da falsa compaixão, da mistificação ou do anonimato, das professorinhas ou dos inquisidores.
Não sou teólogo e não me sinto em condições de afirmar que esses poderes infernais possam ter explicação numa tortuosa teodicéia. Em todo caso, isso não passaria de uma teoria ou de uma esperança. O resto, o que vi e sofri, são fatos.
Mas voltemos às diferenças.
Se bem que não: ainda há muito a dizer sobre os poderes infernais, pois talvez algum ingênuo pense que se trate de uma simples metáfora, não de uma crua realidade. Sempre me preocupou o problema do mal, quando desde criança eu ficava ao lado de um formigueiro, armado de um martelinho, e começava a matar bichos a torto e a direito. O pânico tomava conta das sobreviventes, que corriam para todos os lados. Depois eu jogava água com a mangueira: inundação. Já imaginava as cenas lá dentro, as obras de emergência, as corridas, as ordens e contra-ordens para salvar os depósitos de alimentos, os ovos, a segurança das rainhas etc. Finalmente, com uma pá eu removia tudo, abria grandes buracos, procurava as tocas e destruía freneticamente: catástrofe geral. Depois ficava refletindo sobre o sentido geral da existência e pensando em nossas próprias inundações e terremotos. Assim, fui elaborando uma série de teorias, pois a idéia de que fôssemos governados por um Deus onipotente, onisciente e bondoso me parecia tão contraditória que eu nem sequer achava possível levá-la a sério. Quando cheguei à época do bando de assaltantes, já tinha elaborado as seguintes possibilidades:
1o Deus não existe.
2o Deus existe e é um canalha.
3o Deus existe, mas às vezes dorme: seus pesadelos são nossa existência.
4o Deus existe, mas tem ataques de loucura: esses ataques são nossa existência.
5o Deus não é onipresente, não pode estar em todas as partes. Às vezes está ausente: em outros mundos? Em outras coisas?
6o Deus é um pobre-diabo, com um problema complicado demais para suas forças. Luta com a matéria assim como um artista luta com sua obra. De vez em quando, a certa altura consegue ser Goya, mas em geral é um desastre.
7o Deus foi derrotado antes da história pelo Príncipe das Trevas. E derrotado, transformado num suposto diabo, é duplamente desprestigiado, já que lhe atribuem este universo calamitoso.
Não inventei todas essas possibilidades, como pensava na época; mais tarde, verifiquei que algumas tinham sido convicções tenazes dos homens, sobretudo a hipótese do Demônio triunfante. Durante mais de mil anos homens intrépidos e lúcidos tiveram de enfrentar a morte e a tortura por terem descoberto o segredo. Foram aniquilados e dispersos, já que, é de imaginar, as forças que dominam o mundo não vão se deter nessas ninharias quando são capazes de fazer o que fazem em geral. E assim, pobres-diabos ou gênios, foram igualmente atormentados, queimados pela Inquisição, enforcados, esfolados vivos; povos inteiros foram dizimados e dispersos. Da China à Espanha, as religiões de Estado (cristãs ou masdeístas) limparam o mundo de qualquer tentativa de revelação. E pode-se dizer que, de certo modo, tiveram êxito, pois, mesmo que não tenham podido ser aniquiladas, algumas seitas transformaram-se, por sua vez, em nova fonte de mentira, tal como aconteceu com os muçulmanos. Vejamos o mecanismo: segundo os gnósticos, o mundo sensível foi criado por um demônio chamado Jeová. Por um longo tempo a Divindade Suprema deixa que ele opere livremente no mundo, mas no final envia seu filho para que habite temporariamente no corpo de Jesus, a fim de que, assim, livre o mundo dos ensinamentos falsos de Moisés. Pois bem: Maomé pensava, como alguns desses gnósticos, que Jesus era um simples ser humano, que o Filho de Deus descera nele no momento do batismo e o abandonara na Paixão, pois, do contrário, seria inexplicável o famoso grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. E, quando os romanos e os judeus escarnecem de Jesus, estão escarnecendo de uma espécie de fantasma. Mas o grave é que assim (e de forma mais ou menos similar acontece com as outras seitas rebeldes) não se revelou, mas se fortaleceu, a mistificação. Pois para as seitas cristãs que afirmavam que Jeová era o Demônio e que com Jesus se inicia a nova era, tal como para os muçulmanos, se o Príncipe das Trevas reinou até Jesus (ou até Maomé), agora, derrotado, voltou a seus infernos. Como se vê, esta é uma dupla mistificação: quando a grande mentira se enfraquece, esses pobres-diabos a consolidam.
Minha conclusão é óbvia: o Príncipe das Trevas continua governando. E seu governo se faz mediante a Seita Sagrada dos Cegos. Tudo é tão claro que eu quase começaria a rir se não estivesse possuído pelo pavor.