Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 84 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 36

 

À medida que eu andava, a claridade aumentava, até que entendi que a caverna onde imaginei ter estado era um gigantesco anfiteatro que se erguia numa planície banhada por uma luminescência vermelho-arroxeada, de um astro muitíssimo maior que o nosso Sol, mas cujo brilho desfalecente indicava estar perto do fim. Um desses astros que, com os últimos restos de sua energia, banham planetas gélidos e abandonados, com uma luz semelhante à da chaminé na escuridão de uma grande sala em silêncio, com a lenha quase consumida, quando só restam poucas brasas quase apagadas pelas cinzas; brilho misterioso que, na calada da noite, afunda-nos em pensamentos nostálgicos e enigmáticos: virados para o mais profundo de nosso ser, refletimos sobre o passado, sobre lendas e países distantes, sobre o sentido da vida e da morte, até que, já quase dormindo, parecemos flutuar à deriva numa balsa, em águas praticamente mortas.

Região de melancolia!

Esmagado pela desolação e pelo silêncio, fiquei muito tempo imóvel.

A oeste, no crepúsculo de um céu tormentoso mas paralisado, como se uma tempestade tivesse sido cristalizada por um sinal, contra um céu de nuvens esfiapadas de algodões encharcados de sangue recortavam-se torres derrubadas pelos milênios e talvez pela própria catástrofe que devastara aquele continente fúnebre. Esqueletos de grandes faias, cujas silhuetas cinzentas contrastavam com o vermelho-arroxeado das nuvens, faziam supor que tudo teria principiado ou terminado por um incêndio planetário.

Entre as torres erguia-se uma estátua tão alta quanto elas. E no centro brilhava um farol fosforescente que pareceria piscar, se a morte reinante na região não indicasse que o pisca-pisca era pura ilusão de meus sentidos.

Tive a certeza de que ali acabaria minha longa peregrinação e de que, talvez, no reduto funesto eu encontraria afinal o sentido de minha vida.

Ao norte, a planície erma terminava numa cordilheira lunar, como a espinha dorsal de um dragão monstruoso. Ao sul, sobressaíam-se crateras extintas, provavelmente restos de vulcões que outrora calcinaram a região com suas torrentes de lava.

O Olho Fosforescente parecia me chamar, e de súbito senti que estava fadado a andar até a grande estátua.

Mas meu coração parecia ter entrado numa vida latente, como a dos répteis nos longos meses de inverno: mal batia, e tive a sensação de que teria encolhido e endurecido. Nenhum som, nenhuma voz, nenhum ruído nem estalo ouvia-se naquele império, e no fúnebre território a melancolia se levantava como uma bruma.

Voltei a contemplar as torres, perguntando-me sobre minha missão, antes do cataclismo. Poderiam ter sido o reduto de gigantes misantropos e ferozes?

Por um tempo que é impossível calcular, já que o astro permanecia fixo no firmamento, andei até elas, e quanto mais me aproximava, maiores eram sua majestade e seu mistério. Contei-as: eram vinte e uma, dispostas num polígono que devia ter um perímetro tão grande como o de uma cidade enorme. Eram feitas de pedra negra, destacando-se mais ainda no firmamento rasgado de nuvens avermelhadas e desfeitas.

No centro do polígono colossal já se distinguia nitidamente a estátua da Grande Divindade, terrível e noturna, com poder de vida e morte. As torres montavam guarda em torno dela. Era feita de pedra ocre, seu corpo era de mulher, mas tinha asas e cabeça de vampiro, de basalto brilhante. Suas mãos e seus pés terminavam em garras. Não tinha rosto. A fosforescência do Olho resultava, talvez, do reflexo de um fogo interior, sendo ora intenso, ora vacilante ou reduzido.

A grande planície que a cercava mostrava restos carbonizados, como um estático museu do horror: ídolos de olhos amarelos em mansões abandonadas, deusas de pele listrada como as zebras, imagens de uma idolatria taciturna com inscrições indecifráveis.

Era uma região em que parecia comemorar-se uma só cerimônia da morte. De repente, senti-me tão desamparado que gritei. E meu grito se perdeu no silêncio absoluto.

Prossegui meu caminho, pois o Olho me chamava inequivocamente, até chegar à muralha poligonal que escondia a Divindade. Calculei que tinha a altura de uma catedral gótica. Mas as torres eram muitíssimo mais altas.

eu sabia que devia haver uma entrada para eu passar, e talvez só para isso. Nesse momento dominava o meu espírito a certeza de que tudo aquilo (as torres, a região devastada, a muralha, o astro declinante) estava à espera de minha chegada e que só por isso ainda não fora reduzido a nada. Assim, quando eu tivesse conseguido penetrar no Olho, tudo se desvaneceria como um simulacro milenar.

Após andar vários dias exaustivos achei finalmente a porta.

Nela começava uma escadaria de pedra que certamente conduzia ao Olho. Teria de subir milhares de degraus. Receei ser vencido pela vertigem e pelo cansaço, mas o fanatismo e o desespero me possuíam e assim iniciei a subida.

Durante um tempo que sou incapaz de calcular, pois o astro permanecia no mesmo lugar, subi a escadaria, e meus pés arrebentados e meu coração sofreram com esse esforço inumano no meio do silêncio. Ninguém me ajudava com suas preces, nem sequer com seu ódio: era uma luta que só eu podia travar. Várias vezes desfaleci, perdi os sentidos, mas ao acordar recomeçava a subida. O Olho aumentava de tamanho, o que me deixava a um só tempo animado e apavorado.

E quando por fim cheguei diante Dele, caí de joelhos, e assim fiquei bastante tempo.

Até que uma Voz que saía ou parecia sair do Olho disse estas palavras: “Agora entre. Este é seu começo e seu fim”.

Levantei-me e, já ofuscado pelo brilho, entrei.

O fulgor intenso mas enganoso, característico da luz fosforescente, que dilui e faz vibrar os contornos, banhava um túnel de carne longo e muito estreito, no qual precisei subir, rastejando. Tive a impressão de que o fulgor vinha do alto, de onde seria uma gruta submarina. Fulgor talvez produzido por algas, semelhante ao que nas noites dos trópicos, navegando no mar de Sargaço, eu entrevira olhando para as profundezas oceânicas; combustão fluorescente que, no silêncio dessas fossas, ilumina regiões povoadas de monstros, que só vão à tona ocasionalmente, espalhando consternação entre os tripulantes dos navios que enfrentam a fatalidade de passar pelas redondezas, conseguindo que esses homens enlouqueçam e se joguem na água, de modo que os navios, abandonados à própria sorte, como testemunhas mudas da calamidade, naveguem à deriva durante décadas, fantasmas trazidos e levados ao acaso pelas correntes marinhas e pelos ventos, até que as chuvas, os tufões, o sol dos trópicos e o tempo apodrecem e desagregam seus cascos e mastros, e eles terminam carcomidos pelo sal e iodo, pelos fungos e peixes, desaparecendo enfim nas profundezas.

Alguma coisa aconteceu comigo à medida que subia pelo túnel de carne escorregadio e sufocante: meu corpo foi se transformando em peixe, minhas extremidades tornaram-se repugnantes nadadeiras, minha pele cobriu-se de escamas. O esplendor que vinha do alto era cada vez mais intenso. E no silêncio pensei ouvir de novo o lamento ou o chamado, algo que me lembrava, como num sonho, fatos antiquíssimos que eu não conseguia determinar.

Meu corpo-peixe mal podia deslizar pela passagem e eu já não subia por meu próprio esforço, pois era impossível mexer as nadadeiras: as contrações daquela carne me apertando é que me aspiravam, lá do alto. No último trecho de minha escalada passaram diante de mim rostos que pareciam me contemplar, cenas de infância, ratos de um celeiro em Capitán Olmos, prostíbulos escuros, loucos que gritavam palavras incompreensíveis, mulheres que me mostravam seu sexo aberto com as mãos, corvos passeando por cima de cavalos mortos no pampa, um moinho de vento na fazenda de meus pais, bêbados que vasculhavam montes de lixo, pássaros vingativos que se lançavam sobre meus olhos com seus bicos.

Até que mergulhei num líquido quente e gelatinoso e entrei na caverna.

Então perdi os sentidos.