Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 28
Realmente, que bando de canalhas! Para acreditarem em você, eles precisam ver que você foi queimado.
29.
Voltei, pois, ao ateliê. Agora que eu estava decidido, incitava-me uma espécie de ansiedade premente. Mal cheguei, pedi que me falasse da cega. Mas Domínguez estava bêbado e começou a me xingar, como era de praxe, toda vez que perdia o controle. Encurvado, sinistro, enorme, transformava-se com o álcool num monstro terrível.
No dia seguinte pintava placidamente, com aquele ar bovino.
Perguntei-lhe sobre a cega, disse-lhe que tinha curiosidade em observá-la, mas sem que ela soubesse. Voltava, assim, à investigação, mas muito antes do previsto, já que, mal ou bem, uma distância de quinze mil quilômetros equivale a cerca de uns dois anos. Foi isso que, bobamente, pensei na hora. Inútil esclarecer que não comentei com Domínguez essas reflexões secretas. Aleguei simples curiosidade, curiosidade mórbida.
Disse-me que eu podia me instalar lá em cima e escutar e olhar tudo o que quisesse. Imagino que vocês conheçam a estrutura dos ateliês de pintor: uma espécie de galpão, bastante alto, onde na parte de baixo o artista tem o cavalete, os armários com as tintas, um divã para o modelo, mesas e cadeiras para sentar ou comer etc.; e num lado, a dois metros de altura, um jirau com a cama de dormir. Aquele seria meu observatório: nem se construído de propósito teria sido mais adequado à minha tarefa.
Entusiasmado com a perspectiva, enquanto esperava a cega conversei com Domínguez sobre velhos amigos. Lembramo-nos de Matta, que estava em Nova York, Esteban Francés, Breton, Tristan Tzara, Péret. Que fim levara Marcelle
Ferry?* Até que as batidas na porta anunciaram a chegada da modelo. Corri para o jirau, onde ficava a cama de Domínguez, suja e desarrumada como sempre. De meu posto, calado, preparei-me para presenciar coisas singulares, pois Domínguez já me avisara que às vezes “não tinha outro jeito” senão fazer amor com ela, de tão libidinosa era a cega.
Um tremor gélido arrepiou minha pele assim que vi a mulher no vão da porta. Meu Deus, jamais consegui me habituar a ver sem tremor a aparição de um cego!
Era de estatura média, miúda, mas nos movimentos revelava uma espécie de gata no cio. Dirigiu-se para o divã, sem qualquer ajuda, e despiu-se. Seu corpo era atraente, mórbido, mas o que mais atraía eram seus gestos felinos.
Domínguez pintava e ela falava o diabo do marido, o que não considerei de especial interesse, até entender que o marido também era cego: uma das brechas que eu sempre tinha procurado! Vista de longe, uma nação inimiga oferece uma visão sólida e sem fissuras, um bloco compacto no qual imaginamos jamais poder penetrar. Mas ali dentro há ódios, há ressentimentos, há desejos de vingança, do contrário, a espionagem seria quase impossível, e o colaboracionismo nos países ocupados, quase impraticável.
Naturalmente, não penetrei alegremente naquela brecha. Antes, precisava averiguar:
a) se realmente a mulher ignorava minha existência e minha presença;
b) se realmente odiava o marido (podia ser uma isca para pescar espiões);
c) se realmente seu marido também era cego.
O tumulto produzido em minha cabeça com a revelação daquele ódio misturou-se com o que desencadeou em meus sentidos a cena ocorrida mais tarde. Perverso e sádico como era, Domínguez fazia mil safadezas com a mulher, aproveitando-se de sua cegueira, enquanto ela o buscava, tateando. Domínguez chegou até a me fazer um gesto para que eu participasse, mas, tendo de preservar essa oportunidade como se fosse um tesouro, eu não ia desperdiçá-la por mera satisfação sexual. A comédia continuou, logo degenerando numa luta sexual sombria e quase aterradora entre dois endemoninhados que gritavam, mordiam e arranhavam.
Não, eu não tinha dúvida de que ela era sincera. Elemento importante para a investigação ulterior. E, mesmo sabendo que uma mulher é capaz de mentir friamente até nos momentos mais apaixonados, sentia-me inclinado a pensar que também era sincera em suas referências ao cego. Mas precisava ter certeza.
Quando foram se acalmando, no meio do caos do ateliê (porque não só gritavam e uivavam, como Domínguez também se fazia perseguir, aos tombos, pela cega, incitando-a com insultos e obscenidades descomunais), ficaram bastante tempo em silêncio. Depois ela se vestiu e disse “Até amanhã”, como uma funcionária que sai da repartição. Domínguez, nu e modorrento no divã, nem respondeu. Eu, um tanto grotesco, continuava no meu observatório. Finalmente, resolvi descer.
Perguntei-lhe se era verdade que o marido era cego, se ele o tinha visto alguma vez. E se também era verdade que ela o odiava do jeito que parecia odiar.
Domínguez, como única resposta, me explicou que uma das torturas imaginadas pela mulher era levar seus amantes ao quarto onde vivia com o indivíduo e ser possuída na frente dele. Como eu me negasse a acreditar nessa possibilidade, ele me explicou que o negócio era possível porque o sujeito não só era cego, mas paralítico. De sua cadeira de rodas, assistia à tortura organizada por ela.
— Mas como? — interroguei. — Não se locomove com a cadeira? Não os persegue pelo quarto?
Domínguez, bocejando com sua boca de rinoceronte, fez um gesto negativo. Não: o cego era totalmente paralítico, e suas possibilidades se resumiam a mover um pouco dois dedos da mão direita e soltar gemidos. Quando a cena chegava ao ponto culminante, o cego, enlouquecido, conseguia mexer umas falanges e revirar uma língua pastosa para emitir uns gritinhos.
Por que o odiava tanto? Domínguez não sabia.
* Lembro-me perfeitamente de que no momento não lhe perguntei sobre Victor Brauner: o Destino nos cega!