Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 54 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 5

 

Vou contar agora como entrou em cena o tipógrafo Celestino Iglesias e como encontrei a grande pista. Mas antes quero dizer quem sou, o que faço etc.

Meu nome é Fernando Vidal Olmos, nasci no dia 24 de junho de 1911 em Capitán Olmos, vilarejo da província de Buenos Aires que tem o nome do meu tataravô. Meço um metro e setenta e oito, peso em torno de setenta quilos, tenho olhos cinza-esverdeados, cabelo liso e grisalho. Sinais particulares: nenhum.

Poderão me perguntar por que diabos faço essa descrição de registro civil. Nada é casual no mundo dos homens.

Há um sonho que se repetia muito na minha infância: via um garoto (e, curioso, esse garoto era eu mesmo, e me via e observava como se fosse outro) que se divertia em silêncio com uma brincadeira que eu não conseguia entender. Eu o observava com cuidado, tentando penetrar no sentido de seus gestos, de seus olhares, das palavras que murmurava. E de súbito, olhando-me gravemente, ele me dizia: “Observo no chão a sombra desta parede, e se essa sombra se mexer não sei o que poderá acontecer”. Havia em suas palavras uma expectativa sóbria mas aterradora. E então eu também começava a controlar a sombra, apavorado. Não se tratava, desnecessário dizer, do deslocamento corrente que a sombra podia ter pelo simples movimento do sol: era outra coisa. E assim eu também começava a observar aflito. Até que reparava que a sombra ia se mexendo de forma perceptível mas lenta. Acordava suando, aos gritos. O que era aquilo? Que advertência? Que símbolo? Toda noite eu me deitava com o receio de ter esse sonho. E toda manhã, ao acordar, meu peito se enchia de alívio ao verificar que, mais uma vez, eu escapara ao perigo. Mas em outras noites chegava o momento terrível: novamente via o garoto, a parede e a sombra, novamente o garoto me olhava com gravidade, novamente pronunciava suas palavras singulares e novamente, enfim, após observar com angustiante expectativa a sombra na parede, via que ela começava a se mexer e a se deformar. Então acordava suando e aos gritos.

O sonho me atormentou anos a fio, pois eu compreendia que, como quase todos os sonhos, devia ter um significado oculto e que, nesse caso, era o anúncio indubitável de algo que um dia teria de me acontecer. Pois bem: não sei se o sonho foi o anúncio do que mais tarde me aconteceu ou se foi seu começo simbólico. A primeira vez foi há muitos anos, quando eu tinha menos de vinte anos e chefiava um bando de assaltantes (depois vou ver se conto alguma coisa dessa experiência). Tive de repente a revelação de que a realidade podia começar a se deformar se eu não concentrasse toda a minha vontade para mantê-la estável. Temia que o mundo que me cercava começasse a se mexer a qualquer momento, a se deformar, primeiro lentamente, depois de modo abrupto, a se desagregar, a se transformar, a perder todo o sentido. Como o garoto do sonho, concentrei toda a minha força olhando essa espécie de sombra que é a realidade que nos cerca, sombra de uma estrutura ou parede que não nos é dado contemplar. E, de repente (estava em meu quarto de Avellaneda, felizmente sozinho, deitado na cama), vi com horror que a sombra começava a se mexer e que o velho sonho ia se cumprir na realidade. Senti uma espécie de vertigem, perdi os sentidos e mergulhei num caos, mas finalmente consegui sair flutuando, com enorme esforço, e comecei a juntar os pedaços de realidade que pareciam querer ir à deriva. Uma espécie de âncora. É isso: como se me visse obrigado a ancorar a realidade, mas como se o navio se compusesse de muitos pedaços separados e, primeiro, fosse preciso amarrar todos eles, e depois lançar uma âncora imensa para que o conjunto não saísse à deriva. Infelizmente, o episódio se repetiu, e por vezes com mais força. De súbito eu sentia que começava o deslizamento e depois a desagregação, mas como já conhecia os sintomas não me deixava levar, tal como sucedera na primeira vez, e de imediato começava a trabalhar com toda a minha energia. As pessoas não entendiam o que estava acontecendo comigo, viam-me concentrado, o olhar fixo e alheio, e acreditavam que eu estava ficando louco, sem entender que era o contrário, exatamente o contrário, já que devido ao esforço eu conseguia manter a realidade em seu lugar e em sua forma. Mas às vezes, por mais intensos que fossem meus esforços, a realidade começava a se desagregar aos poucos, a se deformar, como se fosse de borracha e que enormes pressões a solicitassem em cada extremo, em Sírio, no centro da Terra, em toda parte: uma face começava a inchar, o globo ocular se dilatava, os olhos iam se juntando, a boca ia crescendo até arrebentar, enquanto uma careta horrível ia desfigurando o rosto.

Seja como for, aqueles momentos me assustavam, e me atormentava a necessidade de manter minha mente desperta, atenta, vigilante e enérgica. De repente eu desejava que me trancassem num manicômio para descansar, já que ali ninguém tem a obrigação de manter a realidade como se pretende que ela seja. Como se ali se pudesse dizer (e certamente se diz): “agora, vocês que se arranjem”.

Mas o pior não acontecia ao meu redor, e sim dentro de mim, pois meu próprio eu começava de repente a se deformar, esticar, metamorfosear. Meu nome é Fernando Vidal Olmos, e essas três palavras são como um selo, como uma garantia de que sou “alguma coisa”, alguma coisa bem definida: não só pela cor dos olhos, pela estatura, pela idade, pela data de meu nascimento e por meus pais (quer dizer, por esses dados que aparecem na carteira de identidade), mas por algo mais profundo, de cunho espiritual: por um conjunto de recordações, sentimentos, idéias que dentro da pessoa mantêm a estrutura dessa “alguma coisa” que faz de mim Fernando Vidal Olmos, e não o carteiro ou o açougueiro. Mas o que impede que, em virtude de um cataclismo, a alma do porteiro ou o espírito de Sade possam, de repente, habitar esse corpo registrado em meu certificado de reservista? Existiria talvez uma relação inviolável entre meu corpo e minha alma? Sempre achei extraordinário que alguém possa crescer, ter ilusões, sofrer derrotas, ir à guerra, deteriorar-se espiritualmente, mudar de idéia, transformar seus sentimentos e, no entanto, continuar com o mesmo nome: Fernando Vidal Olmos. Faz algum sentido? Ou é verdade que, apesar de tudo, existe um fio, infinitamente extensível mas milagrosamente único, que por meio dessas mudanças e catástrofes mantenha a identidade do eu?

Não sei o que acontece com os outros. Só posso dizer que, em mim, essa identidade se perde subitamente, e a deformação do eu atinge imensas proporções: grandes regiões de meu espírito começam a inchar (às vezes sinto a pressão física de meu corpo, na cabeça sobretudo), avançam como silenciosos pseudópodes, cegos e secretos, para outras regiões da espécie e finalmente para obscuras e antigas regiões zoológicas; uma recordação começa a inchar, pouco a pouco vai deixando de ser o som de A dança das libélulas que uma noite ouvi num piano de minha infância, vai se transformando numa música cada vez mais estranha e exagerada, em seguida torna-se gritos e gemidos, finalmente uivos atrozes, depois badaladas que atordoam meus ouvidos e, coisa ainda mais singular, começa a se transformar em gostos ácidos ou repugnantes em minha boca, como se do ouvido passasse à minha garganta, e o estômago se contrai em ânsias de vômito, enquanto outros ruídos, outras recordações, outros sentimentos vão sofrendo metamorfoses análogas. E às vezes penso que a reencarnação talvez seja uma verdade, e que nos cantos mais recônditos de nosso eu dormem lembranças dos seres que nos precederam, assim como conservamos restos de peixe e de réptil, dominados pelo novo eu e pelo novo corpo, mas prestes a despertar e sair quando as forças, as tensões, os arames e os parafusos que mantêm o eu atual, por alguma razão que desconhecemos, afrouxam e cedem, e as feras e animais pré-históricos que nos habitam saem em liberdade. E o que acontece toda noite, enquanto dormimos, de repente torna-se incontrolável e começa a nos dominar também em pesadelos que se desenvolvem à luz do dia.

Mas, enquanto minha vontade ainda me responde, sinto certa segurança, pois sei que graças a ela posso sair do caos e reorganizar meu mundo: minha vontade é poderosa, quando funciona. O pior é quando sinto meu eu também se desagregar no que diz respeito à vontade. Ou como se a vontade ainda me pertencesse, mas partes do corpo ou do sistema que a transmite, não. Ou como se o corpo fosse meu, mas “algo” entre meu corpo e minha vontade se interpusesse. Exemplo: quero mexer o braço, mas o braço não me obedece. Concentro toda a minha atenção no braço, olho-o, faço um esforço, mas observo que não me obedece. Como se as linhas de comunicação entre meu cérebro e meu braço estivessem cortadas. Isso me aconteceu muitas vezes, como se eu fosse um território devastado por um terremoto, com grandes rachaduras e os fios telefônicos cortados. E, nesses casos, tudo pode acontecer: não há polícia, não há exército. Qualquer calamidade pode se produzir, qualquer pilhagem ou depredação. Como se meu corpo pertencesse a outro homem e eu, impotente e mudo, observasse que no território alheio começam a ocorrer movimentos suspeitos, tremores que anunciam uma nova convulsão, até que pouco a pouco, crescentemente, a catástrofe volta a tomar conta de meu corpo e, por fim, de meu espírito.

Conto tudo isso para que me entendam.

E porque, se assim não fosse, muitos dos episódios que relatarei seriam incompreensíveis e inacreditáveis. Mas, em boa parte, aconteceram graças a essa ruptura catastrófica de minha personalidade, e não apesar dela.