Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 20
Com crescente tensão nervosa comecei a iluminar cada pedaço do soalho até que achei o inevitável: uma ranhura imperceptível, formando um quadrado, indicava, sem a menor dúvida, uma tampa, dessas que dão acesso ao porão. Claro, quem podia imaginar que um apartamento num primeiro andar pudesse ter uma entrada para o porão? Em certo sentido, ia se confirmando minha idéia original de que o apartamento se comunicava com o do lado, por uma porta invisível; mas quem iria imaginar que seria com o apartamento de baixo? Naquele momento, eu estava tão agitado que não refleti em uma coisa que talvez me tivesse feito fugir espavorido: o barulho de meus passos. Como os cegos, ninguém menos que cegos, que moravam no andar térreo não os teriam ouvido? Essa imprudência, esse erro, me permitiu prosseguir a busca, pois nem sempre é a verdade que nos leva a realizar uma grande descoberta. E digo isso para que também se veja um típico exemplo dos muitos equívocos e falhas que cometi na investigação, apesar de minha cabeça estar em funcionamento permanente e febril. Agora creio que nesse tipo de busca há algo mais poderoso que nos guia, uma intuição obscura mas infalível, tão inexplicável, mas tão segura, como a visão dos sonâmbulos que lhes permite andarem direto para seus objetivos. Para seus inexplicáveis objetivos.
A tampa estava tão hermeticamente fechada que era impossível puxá-la sem a ajuda de um instrumento fino e resistente; era óbvio que ela se abria por baixo e que devia ser aberta numa hora combinada com o emissário. Desesperei-me pensando que teria de fazer a operação nessa mesma noite, pois no dia seguinte alguém perceberia o cadeado arrombado e tudo seria mais difícil, senão impossível. Que fazer? Não tinha nada para me ajudar. Percorri mentalmente o que havia à mão: só na cozinha e no banheiro alguma coisa poderia servir a meus objetivos. Fui correndo à cozinha e não achei nada que prestasse. Fui depois ao banheiro e, finalmente, concluí que o braço da bóia era uma ferramenta mais ou menos eficaz. Tirei a bóia, forcei o braço até quebrar a solda e corri à sala onde eu descobrira o alçapão. Trabalhando por mais de uma hora consegui raspar suficientemente uma das beiras, aproveitando as pontas irregulares deixadas pelo resto da solda. Por ali enfiei o braço de ferro e, com cuidado, mexi-o como se fosse uma alavanca. Após algumas tentativas frustradas, consegui enfim levantar a tampa o suficiente para meter os dedos e completar a operação com a mão. Tirei a tampa no maior silêncio, coloquei-a ao lado e, com a lanterna, joguei um facho de luz no interior: o alçapão não dava, como eu havia pensado, para o apartamento de baixo, mas para uma longa escada em espiral, que comecei a descer.
Assim cheguei a um velho porão, sob o apartamento do andar térreo. Pela lógica, ele deveria pertencer a esse apartamento, mas, talvez por um acordo dos primeiros donos, tenha se ligado ao do andar de cima por uma escada anormal e imprevisível.
Era um porão típico de tantas casas de Buenos Aires, mas completamente vazio e tão abandonado como o próprio apartamento a que pertencia. Teria eu me enganado? Teria encontrado, a duras penas, uma saída que não levava a lugar nenhum? Ainda assim, era preciso examiná-lo com cuidado, o mesmo cuidado com que examinara todo o apartamento.
Mas não havia muito o que examinar: suas paredes de cimento eram lisas e não ofereciam perspectivas interessantes. Havia uma grade que, como é freqüente nesse tipo de construção, dava para a rua: por ela se vislumbrava a iluminação da pracinha. Mais longe, o porão fazia uma curva (tinha uma planta em forma de L) e, ao percorrer com a lanterna aquele canto inicialmente invisível, vi outra gradinha, maior, que dava... para onde podia dar? Para o porão da casa vizinha? Como não havia outra saída nem outra possibilidade, pensei que a gradinha talvez fosse removível e que ali estivesse, finalmente, a tal saída. Agarrei com força dois de seus barrotes laterais e vi que, de fato, cedia com facilidade; meu coração voltou a bater forte.
Deixei a gradinha no chão e iluminei com a lanterna: até onde ela alcançava, não havia porão de casa vizinha, mas uma passagem cujo fim não se enxergava. Porém, naturalmente atribuí esse fato ao alcance limitado da luz.
O corredor virava à direita após um trecho que calculei ter uns duzentos metros, e nessa curva começava a se subir por uma escada de doze degraus (contei-os com a intenção de calcular o quanto eu subia). Estava absorvido nessa operação quando, surpreso, vi que o patamar onde terminava a escada dava para uma porta, ou melhor, uma portinhola, por onde só se entrava agachado.
Fiquei não só surpreso mas contrariado ao imaginar que a porta me barrava, nessa noite, a entrada ao reduto principal, e dizer “nessa noite” talvez fosse dizer “para sempre”, uma vez que, após tudo o que eu fizera no falso apartamento, no dia seguinte os cegos tomariam medidas de segurança que impossibilitariam meu retorno. Amaldiçoei minha eterna impaciência e o fato de ter despachado F. antes da hora, pois, embora na verdade eu não pudesse fazê-lo participar de meu plano (que com toda certeza ele consideraria obra de um louco), poderia ter lhe pedido que me acompanhasse até um ponto em que as circunstâncias demonstrassem já ser possível dispensá-lo. Agora, por exemplo, com que diabo eu ia abrir a porta?
Fiquei no patamar, meditando em silêncio: seria a entrada da casa ou do apartamento, que eu imaginara quando estava na pracinha? Doze degraus, de uns vinte centímetros cada um, davam um total aproximado de três metros. Portanto, o apartamento estava no mesmo nível da rua e era quase certo que tivesse uma entrada normal por alguma rua ali perto; talvez fosse uma loja comercial qualquer. Não sei por quê, imaginei que poderia ser o ateliê de uma costureira ou modista.
Na verdade, quem desconfiaria que o ateliê de uma modista pudesse ser a entrada para o grande labirinto? Que o homenzinho parecido com Pierre Fresnay não tivesse, porém, entrado pela porta da rua era lógico: o que podiam fazer dois homens, sendo um cego, no ateliê de uma modista? Uma vez, quem sabe, essa visita não chamaria a atenção. Mas, se repetida, as pessoas começariam a imaginar algo mais significativo, e não creio que a Seita ignorasse a possibilidade de que entre “as pessoas” se encontraria um indivíduo como eu. Portanto, manter um apartamento vazio para servir de entrada era uma iniciativa sensata.
Meditei em tudo isso enquanto esperava defronte da portinhola misteriosa. Não se ouvia nenhum ruído, pois, àquela hora, a modista deveria estar entregue ao sono: eram quatro e meia da manhã.
Tudo terminava em nada. E assim como, quando um golpe de Estado fracassa, os revolucionários são ridicularizados e chamados de bandidos, assim também agora eu me via na situação mais ridícula; olhei minha bengala branca e pensei comigo mesmo: “Sou um imenso e pitoresco idiota!”. Um homem da minha idade, um homem que leu Hegel e participou de um assalto a banco, estava agora num porão de Buenos Aires, às quatro e meia da manhã, diante de uma portinha atrás da qual ele imaginava que morasse uma pseudomodista a serviço de uma seita secreta. Não era um desvario? E a bengala branca, que contemplei de novo ao focá-la com a luz da lanterna, sentindo essa espécie de prazer tortuoso que nos proporciona apertar certas regiões doloridas, dava um aspecto mais extravagante à minha situação.
“Bem”, pensei, “acabou-se.”
E ia percorrer o incômodo caminho de volta quando me ocorreu que talvez a porta não estivesse fechada à chave, idéia que despertou uma nova e esperançosa agitação, pois nesse momento não imaginei a conclusão que deveria ter tirado dessa circunstância aparentemente favorável: a conclusão, atroz, de que me esperassem.
Voltei até a portinha e, iluminando-a, fiquei meio em dúvida. “Não, não é possível”, pensei. “Esta porta só deve ser aberta quando se espera um dos cegos, junto com o emissário.”
Contudo, um trêmulo pressentimento levou minha mão à maçaneta. Rodei-a e empurrei.
A porta não estava fechada à chave!