Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 71 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 22

 

Não vi mais nada, imaginei estar despertando numa realidade que me pareceu, ou agora me parece, mais intensa que a outra, com essa força um pouco mais angustiante das alucinações provocadas pela febre.

Estava eu numa barca, e a barca deslizava por um lago imenso de águas calmas, negras e insondáveis. O silêncio era angustiante e, ao mesmo tempo, inquietante, pois eu desconfiava de que naquela penumbra (não havia luz solar, mas a luminosidade ambígua e fantasmática vinda do sol noturno) eu não estava só, mas era vigiado e contemplado por seres que não conseguia ver, e que, certamente, moravam fora do alcance de minha visão imperfeita. O que esperavam de mim e, sobretudo, o que me esperava naquela extensão desolada de águas paradas e lúgubres?

Mas eu não conseguia pensar, embora mantivesse uma espécie de consciência vaga e de memória pesada de minha infância. Pássaros cujos olhos eu arrancara naqueles anos sangrentos pareciam voar nas alturas, pairando sobre mim como se vigiassem minha viagem; sem pensar, já que estava privado de pensamento, eu remava numa direção que, pelo visto, era onde o sol noturno se poria horas ou séculos depois. Tive a impressão de ouvir as batidas pesadas de suas grandes asas, como se os pássaros de minha infância tivessem se transformado em pterodátilos enormes ou morcegos gigantescos. Acima e atrás de mim, quer dizer, onde seria o leste do imenso oceano negro, pressentia um ancião que, cheio de ressentimento, também vigiava minha viagem: tinha um só olho na testa, enorme, qual um ciclope, e suas dimensões eram tais que a cabeça estava mais ou menos no zênite enquanto o corpo descia até o horizonte. Sua presença, que eu sentia de modo quase intolerável, a ponto de poder descrever a horrenda expressão de seu rosto, não me deixava virar para trás e mantinha meu corpo e meu rosto na direção oposta.

“Tudo dependerá de eu conseguir chegar à margem antes do pôr-do-sol”, flagrei-me pensando ou dizendo. Remei até lá, mas avançava tão lentamente como nos pesadelos. Os remos afundavam nas águas negras e lamacentas e eu sentia o marulho pesado.

Grandes folhas flutuantes e flores lembrando vitórias-régias, mas lúgubres e podres, se afastavam a cada movimento do remo. Eu tentava me concentrar em minha árdua tarefa, nem querendo imaginar a forma e o horror dos monstros que, tinha certeza, povoavam aquelas águas abismais e infectas: com os olhos cravados no poente, ou no que imaginava ser o poente, limitava-me, amedrontado e tenaz, a remar, tentando chegar antes do pôr-do-sol.

A navegação era angustiantemente difícil e vagarosa. O sol descia com a mesma lentidão, a oeste, e um único pensamento guiava a fúria com que eu movia os remos pesados e lentíssimos: chegar antes do ocaso.

O astro já estava perto do horizonte quando senti minha barca tocando o fundo. Larguei os remos e me precipitei para a proa. Lancei-me fora da barca e, com a água lamacenta batendo nos joelhos, andei para a costa, que já avistava na semi-escuridão. Logo senti que estava no que se poderia chamar terra firme, mas na verdade era um pântano, onde andar era tão difícil como navegar na barca: dar um passo e avançar exigiam imenso esforço. Mas meu desespero era tamanho que fui andando, devagar e sempre. E, assim como antes minha idéia era alcançar a terra firme, agora me animava a perspectiva de chegar a uma montanha que eu mal vislumbrava a oeste. “Ali está a gruta”, lembro-me de ter pensado. Que gruta? E por que eu precisava chegar lá? Na hora, não formulei essas perguntas, e agora não conseguiria responder a nenhuma delas. Só sabia que precisava chegar e, a qualquer preço, entrar na gruta. Devo dizer que continuava a sentir a presença colossal do desconhecido atrás de mim. Com seu único olho, permanentemente aberto, resplandecendo de ódio, parecia vigiar e até dirigir, como um pérfido oficial de náutica, minha marcha para oeste. Seus braços abertos abarcavam todo o céu atrás de mim, e suas mãos pareciam apoiar-se no norte e no sul, ocupando assim toda a metade da abóbada. Não havia outro jeito senão andar rumo ao poente, o que, nessa realidade demencial, eu considerava uma conclusão lógica e sensata. A idéia era fugir de seu olhar, meter-me na gruta, onde sabia que seus olhos seriam impotentes. Assim caminhei por muito tempo, que para mim pareceu um ano. O astro continuava descendo, e, ainda que a montanha estivesse mais perto, a distância continuava aterradora. Percorri o último trecho lutando contra o cansaço, o medo e a desesperança. Atrás de mim sentia o sorriso sinistro do Homem. Acima de mim sentia o vôo pesado dos pterodátilos, que planavam e às vezes até roçavam suas asas em mim. Eu temia não só esse contato gelatinoso e frio, mas a possibilidade de, com seus bicos dentados, finalmente se atirarem em cima de mim e arrancarem meus olhos. Pelo visto, queriam que eu me esgotasse num esforço inútil, durante anos de marcha estúpida e estafante, para, quando eu imaginasse estar o fim ao alcance da mão, arrancar meus olhos e minha esperança desvairada.

Comecei a ter essa sensação no trecho final da marcha, como se tudo tivesse sido planejado para me fazer mal o mais possível. “Pois”, pensava com razoável lucidez, “se tivessem arrancado meus olhos no início eu não teria nenhuma esperança e não teria tentado essa travessia penosíssima por mares desconhecidos e pântanos imundos.”

Senti que o rosto do Ancião irradiava uma espécie de alegria feroz enquanto eu fazia essas reflexões. Compreendi que era tudo verdade e agora me esperava a pior calamidade dessa travessia. Não quis, porém, olhar para cima, e nem precisava: meus ouvidos revelavam que os pássaros, com bicos enormes e afiados, iam planando cada vez mais perto de minha cabeça; percebia suas asas batendo pesadas, asas que deviam ter dois metros, e de vez em quando sentia seu contato leve mas asqueroso, fugacíssimo, nas faces e no cabelo.

Faltava pouco, muito pouco, para chegar à gruta que eu já entrevia numa penumbra fosforescente. Meu corpo estava coberto de lodo pegajoso e eu me arrastava de quatro. Minhas mãos tocavam e afastavam uma profusão de cobras repugnantes que se agitavam no pântano infinito, mas o pavor do que me esperava era tão grande que isso era quase desprezível.

Finalmente, o cansaço venceu o desespero, e caí.

Tentei manter a cabeça fora da lama, com a fronte erguida, enquanto o resto do corpo afundava nas águas nauseabundas.

“Preciso respirar”, pensei.

Mas também pensei: “Assim mantenho meus olhos ao alcance deles”.

E pensei como se estivesse amaldiçoado e condenado à horrível operação, como se eu mesmo me prestasse ao rito atroz e, tudo indica, inelutável.

Afundado na lama, com o coração batendo agitado, em plena imundície, olhando para a frente e para cima, vi os grandes pássaros pairarem vagarosos sobre minha cabeça. Percebi que um deles descia, vindo por trás, e o vi, gigantesco e próximo, recortado contra o ocaso, depois virando-se para mim e pousando na lama com um baque surdo, bem diante da minha cabeça. O bico era afiado como um estilete, sua expressão reproduzia o olhar absorto dos cegos, pois não tinha olhos: consegui ver suas órbitas vazadas. Parecia uma antiga divindade no instante que precede o sacrifício.

Senti o bico entrando em meu olho esquerdo e por instantes percebi a resistência elástica de minha pupila, e depois o bico penetrando áspera e dolorosamente, enquanto sentia o líquido começando a escorrer por minha face. Por um mecanismo que ainda não consigo entender tendo em vista a sua falta de lógica, eu mantinha a cabeça sempre na mesma posição, como se quisesse facilitar a perversa tarefa, da mesma forma que, mesmo sofrendo, oferecemos a boca e a cabeça ao dentista.

E enquanto sentia a água de meu olho e o sangue descendo pela face esquerda, pensava: “Agora terei de suportar no outro olho”. Com calma, creio que sem ódio, o que lembro ter me assustado, o grande pássaro terminou seu trabalho no olho esquerdo e, recuando um pouco, repetiu com o bico a mesma operação no olho direito. E voltei a sentir a leve e fugaz resistência elástica de meu olho, e depois a penetração áspera e dolorosa e, mais uma vez, o líquido cristalino e o sangue deslizando por minha face: líquidos que eu diferenciava perfeitamente, por ser, um, o cristalino tênue e gelado, e outro, o sangue quente e viscoso.

Depois o grande pássaro levantou vôo e seus companheiros foram atrás, e os ouvi começando a voejar, pesados, e logo se afastando de mim. “O pior já passou”, pensei.

Agora eu não enxergava nada, mas, com a dor imensa e a curiosa repugnância que sentia por mim mesmo, não recuei na intenção de me arrastar até a gruta.

Assim fiz, penosamente.

Pouco a pouco, meu esforço foi recompensado: o pântano ia desaparecendo sob meus pés e minhas mãos, e logo essa espécie de silêncio singular, essa sensação de nevoeiro e também de segurança, revelou-me que, enfim, eu entrara na grande gruta. E desabei no sono.