Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 2
Anos depois, quando Martín voltou do sul, um dos temas de suas conversas com Bruno era a relação entre Alejandra e Molinari. Martín voltava a falar de Alejandra — pensava Bruno — como quem tenta restaurar uma alma já em decomposição, alma que ele gostaria que fosse imortal, mas agora sentia rachar-se e se desagregar aos poucos, acompanhando a putrefação do corpo, como se lhe fosse possível sobreviver muito tempo sem seu suporte e só pudesse perdurar enquanto perdura a sutil emanação que se soltou do corpo no instante da morte: espécie de ectoplasma ou de gás radioativo que depois se atenuará progressivamente, e que alguns consideram o fantasma do morto, fantasma que mantém difusamente a forma do ser que desapareceu, mas fazendo-se mais e mais inconsistente, até se dissolver no nada final; momento em que a alma talvez desapareça para sempre, se excluímos esses fragmentos ou ecos de fragmentos que perduram — mas por quanto tempo? — na alma dos outros, dos que conheceram e odiaram ou amaram o ser desaparecido.
E assim Martín tentava resgatar fragmentos, percorria ruas e lugares, falava com ele, recolhia, num gesto de insensatez, coisinhas e palavras, como esses parentes enlouquecidos que se esforçam em juntar os destroços mutilados de um corpo no lugar onde caiu o avião; mas não em seguida, e sim muito tempo depois, quando os restos estão não só mutilados como decompostos.
Bruno não conseguia explicar de outro modo a obstinação de Martín em recordar e analisar a história de Molinari. E, enquanto fazia essas reflexões sobre o corpo e a desagregação da alma, Martín, que falava um pouco para si mesmo, dizia-lhe que, a seu ver, a entrevista absurda com Molinari era, sem dúvida, um momento-chave de sua relação com Alejandra; entrevista que, na época, ele achou surpreendente, tanto por Alejandra tê-la conseguido, sabendo, o que sem dúvida sabia, que Molinari não daria emprego a ele, quanto por um homem importante e ocupado como Molinari ter dedicado tanto tempo a um rapaz insignificante como ele.
Se na época — pensava Bruno — tivesse a lucidez que tinha agora, poderia ter percebido, ou pelo menos suspeitado, que algo inquietante já estava a ponto de explodir no espírito de Alejandra, e esses indícios poderiam ter-lhe anunciado que seu amor, ou seu afeto por Martín, ou o que fosse aquilo, estava prestes a chegar ao fim: catastroficamente.
— Todos nós devemos trabalhar — acrescentou Alejandra, naquele momento. — O trabalho dignifica o homem. Eu também resolvi trabalhar.
Frase que, apesar do tom irônico, alegrou Martín, pois sempre pensara que qualquer tarefa concreta faria bem a ela. E a cara de Martín fez Alejandra comentar “vejo que a notícia o alegra”, com uma expressão que basicamente mantinha o sarcasmo de antes, mas na qual pareciam querer se manifestar certos sinais de ternura, assim como, num campo devastado pelas calamidades (pensou mais tarde), entre animais mortos, inchados e malcheirosos, entre cadáveres abertos e dilacerados pelos ximangos, ainda assim um fiapinho de capim se esforça em brotar, chupando restos de água insignificantes e invisíveis que milagrosamente subsistem em camadas mais profundas da planície erma.
— Mas não deveria se alegrar tanto — acrescentou.
E, como Martín a olhasse, explicou:
— Vou trabalhar com Wanda.
Então — disse a Bruno — sua alegria desapareceu como água cristalina num sumidouro, onde se sabe que se misturará com repugnantes dejetos. Pois Wanda pertencia àquele território do qual Alejandra parecia estar vindo quando o encontrou (embora fosse mais exato dizer “quando o procurou”), território do qual se mantivera afastada nas semanas de relativa serenidade, se bem que também fosse mais exato dizer que ele acreditava ter se mantido afastada, pois agora, vertiginosamente, lembrava que nos últimos dias Alejandra voltara a beber como antes e que seus sumiços e ausências eram não só cada vez mais freqüentes como também mais inexplicáveis. Porém, da mesma maneira que é difícil imaginar um crime num dia luminoso e límpido, era difícil imaginar que ela pudesse ter voltado àquele universo durante uma relação tão pura. Portanto, estupidamente (advérbio acrescentado muito depois) disse: “Roupas para mulheres? Desenhar vestidos? Você?”, ao que ela respondeu perguntando se ele não entendia o prazer de ganhar dinheiro com alguma coisa que se despreza. Frase que, na hora, ele considerou uma dessas tiradas típicas de Alejandra, mas que depois de sua morte teria motivos para rememorar, com ressonâncias atrozes.
— Além disso, é como um bumerangue, entende? Quanto mais eu desprezo essas bruxas espalhafatosas, mais desprezo a mim mesma. Não está vendo que tudo se encaixa?
De noite, a análise dessas frases não o deixou dormir. Até que o cansaço foi empurrando-o suave mas firmemente para aquilo que Bruno chamava de subúrbio passageiro da morte, regiões premonitórias em que vamos fazendo o aprendizado do grande sono, pequenos e desajeitados balbucios da tenebrosa aventura definitiva, confusos rascunhos do enigmático texto final, com o inferno transitório dos pesadelos. De tal forma que, no dia seguinte, somos e não somos mais os mesmos, pois já pesam sobre nós as secretas e abomináveis experiências da noite. E, por isso, temos um pouco de ressuscitados e de fantasmas (dizia Bruno). Sabe-se lá que perversa metamorfose da alma de Wanda o perseguiu naquela noite, mas de manhã sentiu por muito tempo algo pesado porém indefinível movendo-se nas zonas escuras de seu ser, até entender que aquilo que confusamente se agitava era a imagem de Wanda. E, pior ainda, compreendeu isso na hora em que já havia entrado na imponente sala de espera, quando, até por timidez, era impossível recuar, e quando chegou ao auge a sensação de absurdo de tudo aquilo: como no conto de Tchecov, ou de Avertchenko (pensava), em que um pobre-diabo chega até o gerente de um banco para enfim esclarecer que deseja abrir uma conta com vinte rublos. Aquilo tudo não era uma loucura? E estava prestes a juntar todas as suas forças e se retirar quando ouviu um contínuo espanhol anunciando: “Senhor del Castillo”. Com ironia, é claro (pensou). Pois ninguém sente tanto desprezo pelos pobres-diabos quanto os pobres-diabos de uniforme. Homens elegantíssimos, de sapatos muito bem engraxados, colete, o último botão do colete aberto, com pastas repletas de Papéis Decisivos, esperando nas grandes poltronas de couro, olhavam-no perplexos e irônicos (pensava) à medida que avançava para a grande porta, enquanto em outra camada de sua consciência repetia-se “vinte rublos”, debochando cruelmente de si mesmo, de seus sapatos esburacados e de seu terno manchado; todos muito distintos, com um relógio de ouro no pulso medindo um tempo preciso, também de ouro, cheio de Fatos Financeiros Importantes; tempo que contrastava com os grandes espaços inúteis de sua vida, em que não fazia mais nada a não ser pensar num banco do parque; migalhas de tempo maltrapilho que contrastava com aquele tempo dourado assim como seu quartinho em La Boca contrastava com o formidável prédio da impra. E no exato momento em que entrou no recinto sagrado pensou “estou com febre”, como sempre acontecia nas grandes angústias. Enquanto isso, via o homem atrás da mesa gigantesca, sentado em sua grande poltrona, corpulento, como se fosse feito especialmente para o prédio. E com uma absurda energia repetiu para si mesmo “venho depositar vinte rublos, senhor”.
— Sente-se, por favor — disse-lhe, indicando uma das poltronas, enquanto assinava Documentos que lhe eram apresentados por uma mulher oxigenada de uma sensualidade que contribuía para arrasá-lo um pouco mais, pois (imaginou) ela seria capaz de se despir na frente dele como na frente de uma máquina ou de um objeto sem consciência nem sentidos; ou como se despem as grandes favoritas na frente de seus escravos. “Wanda”, pensou então: Wanda tomando coquetéis de gim e vermute, paquerando os homens, até mesmo ele, rindo com sensualidade frívola, molhando os lábios com a língua, comendo balas igual à sua mãe; enquanto isso, via um mastro cromado em cima da grande mesa, com uma bandeira argentina em miniatura, uma pasta de couro, um enorme retrato de Perón autografado para o senhor Molinari, vários Diplomas emoldurados, uma fotografia num porta-retrato de couro virado para o senhor Molinari, uma garrafa térmica de plástico, e o poema “Se” de Rudyard Kipling, em caracteres góticos, emoldurado, numa das paredes. Inúmeros empregados e funcionários entravam e saíam com papéis, e também a secretária oxigenada, que saiu e entrou de novo para mostrar-lhe outros Papéis enquanto lhe falava em voz baixa, mas sem nenhuma intimidade, sem que ninguém — e muito menos os Empregados da Casa — pudesse desconfiar de que fosse para a cama com o senhor Molinari. E, dirigindo-se a Martín, ele disse:
— Quer dizer que o senhor é amigo de Drucha.
E, diante da cara de espanto interrogativo do rapaz, riu e comentou como se fosse engraçado: “ah, claro, claro”, enquanto, apavorado e perdido, Martín se dizia Alejandra, Alejandrucha, Drucha, e apesar disso, ou por isso mesmo, passava em revista o homem grande e corpulento, vestindo um terno de casimira escura risca de giz, gravata azul de bolinhas vermelhas, camisa de seda e abotoaduras de ouro, um alfinete de pérola na gravata e um lencinho de seda no bolso superior do paletó, com um distintivo do Rotary. Um homem bastante calvo, mas com o resto do cabelo penteado e escovado com esmero. Um homem perfumado com água-de-colônia e que parecia ter se barbeado um décimo de segundo antes de Martín entrar em seu escritório. E, aterrorizado, o ouviu dizer, jogando-se para trás em sua poltrona, dispondo-se a escutar a Importante Proposta de Martín.
— Pois não.
Um curioso desejo de mortificar-se, humilhar-se, confessar de vez sua horrenda insignificância diante do mundo e até sua estúpida ingenuidade (o outro não chamava Alejandra de Drucha?) quase o impeliu a dizer “venho depositar vinte rublos”. Conseguiu conter o curioso impulso e, a duras penas, como num pesadelo, explicou que perdera o emprego e que talvez, quem sabe, tinha pensado, tinha imaginado que na impra podia haver algum trabalho para ele. E, enquanto falava, o senhor Molinari ia franzindo o cenho, até que do primitivo sorriso profissional já nada restava quando lhe perguntou onde trabalhava.
— Na Gráfica López.
— Fazendo o quê?
— Revisor.
— Horário?
Martín lembrou-se das palavras de Alejandra e, enrubescendo, confessou que não tinha horário, que levava as provas para casa. Momento em que o senhor Molinari acentuou mais ainda o cenho, enquanto atendia ao interfone.
— E por que perdeu esse emprego?
Ao que Martín respondeu que na gráfica há épocas de mais e épocas de menos trabalho, e que nesses casos dispensam os revisores autônomos.
— Quer dizer que quando o trabalho aumentar poderão chamá-lo de novo.
Martín tornou a enrubescer, enquanto pensava que o homem era demasiado sagaz e que sua nova pergunta destinava-se a fazê-lo dizer a verdade, verdade que, naturalmente, era fatal.
— Não, senhor Molinari, não creio.
— Motivos? — perguntou, tamborilando os dedos.
— Creio que eu andava preocupado demais e...
Molinari o observava calado, com escrutadora dureza. Baixando a vista, e sem que fosse sua intenção, Martín se flagrou dizendo “preciso trabalhar, senhor, estou passando por momentos difíceis, tenho sérias dificuldades de dinheiro”, e quando ergueu os olhos pareceu notar um brilho irônico no olhar de Molinari.
— Pois sinto muito, senhor del Castillo, não poder lhe ser útil. Em primeiro lugar, porque nosso trabalho aqui é muito diferente do que o senhor fazia na gráfica. Mas além disso há outra razão de peso: o senhor é amigo de Alejandra e isso me cria um problema muito delicado na organização. Preferimos ter com nossos empregados uma relação mais impessoal. Não sei se me entende.
— Sim, senhor, entendo perfeitamente — disse Martín, levantando-se.
Talvez Molinari tivesse notado em sua atitude algo que por qualquer razão não lhe agradasse.
— Mas, quando for mais velho... Quantos anos tem? Vinte?
— Dezenove, senhor.
— Quando for mais velho vai me dar razão. E vai até me agradecer por isso. Veja bem: eu não lhe prestaria nenhum serviço dando-lhe um emprego por simples amizade, e tanto mais que, em pouco tempo, como é fácil imaginar, teríamos problemas.
Examinou um Documento que lhe trouxeram, sussurrou umas observações e prosseguiu:
— Isso traria conseqüências desagradáveis para o senhor, para nossa organização, para a própria Alejandra... Por outro lado, acho que o senhor é orgulhoso demais para aceitar um emprego por simples amizade, não é mesmo? Porque se eu lhe desse emprego unicamente em atenção a Alejandra o senhor não aceitaria, não é mesmo?
— É sim, senhor.
— Claro. E no final todos sairíamos perdendo: o senhor, a Empresa, a amizade, todos. Meu lema é não misturar os afetos com os números.
Nesse momento entrou um homem com Papéis, mas olhou para Martín sem saber o que dizer. Martín se levantou, mas Molinari, pegando os Papéis e, sem erguer os olhos, disse-lhe para esperar, que não havia terminado. E, enquanto examinava o memorando ou lá o que fosse, Martín, nervosíssimo e humilhado, perplexo, tentava entender a razão de tudo: por que o retinha, por que perdia tempo com uma pessoa insignificante como ele. Como se não bastasse, aquele Mecanismo parecia repentinamente ter enlouquecido: os quatro telefones tocando, conversas pelo interfone, entradas e saídas da secretária oxigenada, assinatura de Papéis. Quando, pelo interfone, disseram-lhe que o senhor Wilson queria saber como tinha ficado o caso do Banco Central, Martín pensou que devia estar reduzido ao tamanho de um inseto. Então, quando sua secretária lhe fez uma consulta, Molinari, com inesperada violência, quase berrou:
— Que espere!
E, na hora em que ela ia fechar a porta, acrescentou:
— E que ninguém me incomode até que eu chame! Entendido?
Fez-se um repentino silêncio: todos pareciam ter-se esfumado, os telefones pararam de tocar, e o senhor Molinari, nervoso, mal-humorado, tamborilando os dedos, ficou pensativo um instante. E, olhando-o atentamente, perguntou:
— Onde conheceu Alejandra?
— Na casa de um amigo — Martín mentiu, corando, porque nunca mentia, mas compreendendo que se cobriria de ridículo se dissesse a verdade.
Parecia escrutá-lo.
— É muito amigo dela?
— Não sei... quer dizer...
Molinari levantou a mão direita, como se mais detalhes fossem desnecessários. Em seguida, observando-o cuidadosamente, acrescentou:
— Vocês, jovens de hoje, nos acham uns reacionários. Mas, e o senhor certamente se espantará, fui socialista nos meus bons tempos.
Nesse momento, pela porta lateral, apareceu um Homem Importante.
Molinari lhe disse:
— Entre, entre.
O cavalheiro se aproximou, pôs um braço nas costas de Molinari e lhe falou ao ouvido, enquanto Molinari concordava com a cabeça.
— Bem, bem — comentou —, está bem, façam o que quiserem.
E depois, com um sorriso que Martín achou secretamente debochado, acrescentou, apontando-o com um leve gesto:
— Este aqui, o jovem, é amigo de Alejandra.
O cavalheiro desconhecido, ainda com o braço no encosto da poltrona de Molinari, deu um sorriso ambíguo, inclinando levemente a cabeça.
— Você chegou em boa hora, Héctor — disse Molinari. — Você bem sabe como me preocupa o problema da juventude argentina.
O desconhecido olhou para Martín.
— Eu estava dizendo que os jovens sempre pensam que a geração anterior não vale nada, que está enganada, que são todos reacionários etc. etc.
O desconhecido deu um sorriso condescendente, olhando-o como representante da Nova Geração (pensou Martín). E também teve a impressão de que o Conflito de Gerações era tão desproporcional que sua sensação de ridículo cresceu mais ainda, quando isso já parecia impossível: eles, atrás da mesa imponente, protegidos pela Sociedade Anônima impra, o retrato de Perón autografado, o Mastro com a Bandeira, o Rotary Clube Internacional e o prédio de doze andares; e ele, com a roupa surrada e uma fome de dois dias. Mais ou menos como os zulus se defendendo do exército imperial inglês com flechas e escudos de couro pintados, pensou.
— Como eu estava dizendo, no meu tempo também fui socialista e até anarquista — tanto ele como o recém-chegado deram um amplo sorriso, como se estivessem se lembrando de alguma coisa engraçada —, e o amigo aqui, Pérez Moretti, não me deixa mentir, pois passamos juntos por muitas coisas. Aliás, não vá pensar que nos envergonhamos. Sou dos que acham que não é ruim que a juventude tenha sua fase de ideais tão puros. Há tempo para perder as ilusões. Mais tarde a vida nos mostra que o homem não é feito para essas sociedades utópicas. Não há nem mesmo dois homens iguais no mundo: um é ambicioso, outro é preguiçoso; um é ativo, o outro é vadio; um quer progredir, como o amigo Pérez Moretti e eu, o outro não dá a menor bola se for a vida inteira um pobre barnabé. Em suma, não preciso ir mais longe. O homem é desigual por natureza e é inútil pretender fundar sociedades em que os homens sejam iguais. Além disso, observe que seria uma grande injustiça: por que um homem trabalhador tem de ganhar o mesmo que um vagabundo? E por que um gênio, um Edison, um Henry Ford deve ser tratado igual ao infeliz que nasceu para limpar o chão desta sala? Não acha que seria uma enorme injustiça? E como, em nome da justiça, precisamente em nome da justiça, vai se instaurar um regime de injustiças? Esse é um dos muitos paradoxos atuais, e sempre acreditei que se deveria escrever longamente sobre o assunto. Eu mesmo, vou lhe dizer, muitas vezes tive a tentação de escrever alguma coisa sobre essas idéias — disse olhando para Pérez Moretti, convocando-o como testemunha, e Martín, vendo que este concordava, perguntava-se mas por que este homem perde todo esse tempo comigo, e chegava à conclusão de que algo de importância vital devia ligá-lo a Alejandra, algo que, por uma estranha razão, contava muito para aquele indivíduo; e a idéia de que pudesse haver laços importantes entre Molinari e Alejandra, fossem quais fossem, o atormentava mais ainda à medida que a conversa se prolongava, pois a duração da conversa seria proporcional a esse vínculo; e então voltava a se perguntar por que motivos teria sido encaminhado a Molinari, e confusamente, sem saber por quê, concluía que Alejandra fizera isso para “provar alguma coisa”, num momento em que suas relações entravam numa fase complicada; e então tornava a examinar os episódios, pequenos ou grandes, que em sua memória cercavam a palavra “Molinari”, como um detetive busca com lupa qualquer rastro ou indício, por mais insignificante que seja à primeira vista, capaz de desvendar o enigma; mas seu cérebro se atrapalhava, pois a essa busca angustiante sobrepunha-se a voz de Molinari, que continuava desenvolvendo sua Concepção Geral do Mundo.
— Os anos, a vida que é dura e impiedosa, vão nos convencendo de que essas idéias, por mais nobres que sejam, pois sem dúvida são ideais nobilíssimos, não foram feitas para os homens tal como são. Trata-se de ideais imaginados por sonhadores, quase por poetas, eu diria. Muito bonitos, muito apropriados para se escrever livros, fazer discursos em barricadas, mas totalmente impossíveis de serem postos em prática. Bem que eu gostaria de ver um Kropotkin ou um Malatesta dirigindo uma empresa como esta e lutando dia após dia contra as normas do Banco Central (ele riu, sendo acompanhado, de bom grado, pelo senhor Pérez Moretti) e tendo de fazer mil e uma manobras para evitar que o sindicato ou Perón, ou os dois juntos, lhe dêem uma rasteira. E, em outra ordem de idéias, é muito bom que um rapaz ou uma moça tenham esses ideais de desprendimento, justiça social e sociedades utópicas. Mas depois você se casa, quer regularizar sua situação diante da sociedade, deve constituir um lar, aspiração natural de todo homem de bem, e isso leva ao abandono paulatino dessas quimeras, não sei se entende o que quero dizer. É muito fácil apoiar a doutrina anarquista quando se é jovem e mantido pelos pais. Outra coisa, muito diferente, é ter de enfrentar a vida, ser obrigado a sustentar o lar que se constituiu, sobretudo quando vêm os filhos e as outras obrigações inerentes à família: roupa para um, escola para outro, livros para um, doenças do outro. São muito bonitas as teorias sociais, mas, como se diz vulgarmente, quando se tem de encher a pança, então, meu jovem amigo, é preciso arregaçar as mangas e entender que o mundo não é feito para esses sonhadores, para esses Malatestas ou Kropotkines. E veja que estou lhe falando desses teóricos anarquistas porque eles, ao menos, não pregam a ditadura do proletariado, como os comunistas. O senhor pode imaginar o horror de um governo ditatorial? Aí está o exemplo da Rússia. Milhões de escravos que trabalham debaixo de chicote. A liberdade, meu amigo, é sagrada, é um dos grandes valores que devemos salvar, custe o que custar. Liberdade para todos: liberdade para o operário, que pode procurar trabalho onde mais lhe convier, e liberdade para o patrão, que pode dar trabalho a quem lhe parecer melhor. A lei da oferta e da demanda e o livre jogo da sociedade. Veja o seu caso: o senhor vem aqui, livremente, e me oferece sua força de trabalho; para mim, por ene motivos, não me convém e não o emprego. Mas o senhor é um homem livre e pode sair daqui e oferecer seus préstimos à empresa do outro lado da rua. Veja como tudo isso é inestimável: o senhor, um rapaz humilde, e eu, presidente de uma grande empresa, e no entanto agimos em igualdade de condições diante dessa lei da oferta e da demanda. Os dirigistas podem dizer o que quiser, mas essa é a lei suprema de uma sociedade bem organizada, e aqui, toda vez que este homem (apontou a fotografia com dedicatória de Perón), toda vez que este senhor se mete na engrenagem da livre empresa é só para nos prejudicar, e em suma para prejudicar o país. Por isso, meu lema, como bem sabe meu amigo Pérez Moretti, é: nem ditaduras nem utopias sociais. Não lhe digo nada dos outros problemas, que poderíamos chamar de problemas de natureza moral, já que nem só de pão vive o homem. Refiro-me à necessidade da sociedade em que vivemos de ter uma ordem, uma hierarquia moral, sem a qual, creia-me, vai tudo abaixo. O senhor gostaria, por exemplo, que alguém pusesse em dúvida a honestidade de sua mãe? Por favor, é uma hipótese, que me permito evocar à guisa de exemplo. O senhor mesmo acaba de franzir a testa, e esse próprio gesto, que o honra, já está revelando tudo o que de sagrado tem para o senhor, e também para mim, o conceito de mãe. Pois bem, como conciliar esse conceito com uma sociedade em que existe o amor livre, em que ninguém é responsável pelos filhos que tem por aí, em que o casamento foi jogado para o alto como uma simples instituição burguesa? Não sei se entende o que quero dizer. Se as bases do lar são minadas... mas, está sentindo alguma coisa?
Martín, muito pálido, prestes a desmaiar, passava a mão na testa, suando frio.
— Não, não — respondeu.
— Pois, como eu dizia, se são minadas as bases do lar, fundamento da sociedade em que vivemos, se o senhor destrói o conceito sacrossanto de casamento, eu me pergunto: o que resta? O caos. Que ideais, que exemplos a juventude que vai se formando pode ter diante de si? Não se pode brincar com essas coisas, meu jovem. Vou lhe dizer mais, vou lhe dizer algo que raramente digo a alguém, mas que me sinto no dever de lhe dizer. Refiro-me ao problema da prostituição.
Mas nesse instante o interfone tocou, e enquanto Molinari perguntava mal-humorado O que é? O que é?, Martín prosseguia com sua lupa, cambaleando, cada vez mais perdido naquela neblina repugnante, e dizia para si mesmo Wanda, Wanda, repetindo as palavras cínicas de Alejandra sobre a necessidade de trabalhar e a frase sobre o desprezo pelas bruxas espalhafatosas e o conseqüente desprezo por si mesma; de modo que, pensava, resumindo suas investigações, Wanda era um dos elementos do enigma e Molinari era outro — quantos mais podia haver? E então reexaminou os episódios anteriores e nada encontrou de relevante, pois só havia aquela entrevista com o sujeito chamado Bordenave, indivíduo desconhecido para Alejandra e, aliás, desagradável, a tal ponto que ela mudara de humor, ficando áspera e sombria. Enquanto isso, via o rosto duro de Molinari diante do interfone começar a se transformar naquele rosto suave que decidira oferecer a ele, Martín. E o senhor Molinari, enquanto o olhava, parecia procurar o fio condutor do que vinha dizendo, até que prosseguiu:
— Pois é, a prostituição. Veja que paradoxo. Se lhe digo que a prostituição é necessária, sei perfeitamente que o senhor vai se sentir chocado, não é mesmo? Mas estou convencido de que, após analisar a fundo o problema, terá de concordar comigo. De fato, imagine o que seria o mundo sem essa válvula de escape. Agora mesmo, e sem ir mais longe, aqui, em nosso país, uma concepção mal interpretada da moral, aviso-lhe que sou católico, levou o clero argentino a proibir a prostituição. Pois bem, proibiu-se a prostituição no ano...
Hesitou um instante e olhou para o senhor Pérez Moretti, que o escutava atentamente.
— Acho que foi em 35 — disse o senhor Pérez Moretti.
— Pois bem, e isso resultou em quê? Resultou na prostituição clandestina. Era óbvio. Mas o grave é que a prostituição clandestina é mais perigosa, pois não há controle sanitário. E tem mais: é cara, não está ao alcance do bolso de um operário ou de um funcionário. Pois não é só o que se tem de se pagar à mulher, é o que se tem de gastar no hotel. Resultado: Buenos Aires está sofrendo um processo de depravação cujas conseqüências não podemos prever.
Levantando a cabeça para um lado e dirigindo-se ao senhor Pérez Moretti, comentou:
— Justamente, na última reunião do Rotary falei do problema, uma das marcas desta cidade e talvez do país inteiro.
E dirigindo-se de novo a Martín, prosseguiu:
— É como um caldeirão cuja pressão está subindo, com as válvulas fechadas. Pois a prostituição organizada e legal é isso: uma válvula de escape. Ou há mulheres de vida fácil controladas pelo Estado, ou chegamos a isso. Ou se tem uma boa prostituição controlada ou a sociedade enfrenta, mais cedo ou mais tarde, o gravíssimo perigo de ver suas instituições básicas indo abaixo. Entendo que o dilema é atroz, e sou dos que pensam que não se trata de fazer como o avestruz diante dos perigos, escondendo a cabeça. Eu me pergunto se uma moça de família pode hoje viver tranqüila, e, sobretudo, se seus pais podem viver tranqüilos. Deixo de lado as grosserias e porcarias que a garota deve escutar pelas ruas, na boca de marmanjos ou de homens que não encontram uma saída natural para seus instintos. Deixo de lado tudo isso, por mais desagradável que seja. Mas e que me dizem do outro perigo? Do perigo de que as relações entre jovens, entre namorados ou simples amigos, cheguem a níveis mais preocupantes? Afinal de contas, um rapaz tem sangue, tem instintos, ora essa. Vocês vão me perdoar que eu fale com tanta crueza, mas não há outro jeito de encarar o problema. Esse rapaz, para completar, vive superexcitado pela ausência de uma prostituição ao alcance de suas possibilidades econômicas, por um cinema que Deus nos livre, por publicações pornográficas; em suma, o que se pode esperar? Por outro lado, a juventude não tem os freios que antigamente lhe eram impostos por um lar de princípios sólidos. Pois temos de admitir que aqui somos católicos da boca para fora. Mas católicos de verdade, o que se chama católicos de verdade, creia-me, não devem passar de uns cinco por cento, e acho até que estou exagerando. E o resto? Sem esse freio moral, e com pais que se preocupam em primeiro lugar com seus interesses pessoais, e só depois em cuidar do que deveria ser um verdadeiro santuário... Mas o que está sentindo?
O senhor Pérez Moretti e o senhor Molinari correram até onde Martín estava.
— Não é nada não, senhor. Não é nada — disse, recuperando-se. — Queiram me desculpar, mas é melhor que eu me retire...
Levantou-se para ir embora, mas parecia cambalear. Estava pálido e suado.
— Mas que nada, rapaz, espere, vou lhe mandar trazer um café — disse o senhor Molinari.
— Não, senhor Molinari. Já estou bem, obrigado. Com o ar da rua eu vou melhorar. Obrigado, boa tarde.
Mal cruzou a porta do escritório, até onde o senhor Molinari e o senhor Pérez Moretti o acompanharam segurando em seu braço, mal ficou fora de seus olhares, correu com as forças que lhe restavam. Quando chegou à rua procurou com os olhos um café, mas não viu nenhum por perto e não podia esperar. Então precipitou-se para o espaço livre entre os automóveis e vomitou.