Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 18
Quando Martín acordou, já entrava no quarto a luminosidade nascente do amanhecer.
Alejandra não estava a seu lado. Levantou-se inquieto e então percebeu que ela estava apoiada no batente da janela, olhando para fora, pensativa.
— Alejandra — disse, amoroso.
Ela se virou, com uma expressão que parecia revelar uma preocupação melancólica.
Aproximou-se da cama e sentou-se.
— Faz muito tempo que você está de pé?
— Bastante. Mas me levanto muitas vezes.
— Nesta noite também se levantou? — Martín perguntou, espantado.
— Claro.
— E como eu não ouvi?
Alejandra inclinou a cabeça, desviou os olhos e, franzindo a testa, como se acentuasse sua preocupação, ia dizer alguma coisa mas por fim não disse nada.
Martín a observou com tristeza e, mesmo não compreendendo perfeitamente a causa da melancolia, tinha a impressão de perceber seu rumor distante, seu vago e obscuro rumor.
— Alejandra — disse, olhando-a com fervor —, você...
Ela virou para Martín um rosto ambíguo.
— Eu, quê?
E, sem esperar a inútil resposta, aproximou-se da mesinha-de-cabeceira, pegou os cigarros e voltou para a janela.
Martín seguia-a ansioso, temendo que, como nas histórias infantis, o palácio construído magicamente durante a noite desaparecesse em silêncio com a luz da aurora. Algo impreciso o avisava de que estava prestes a ressurgir aquela criatura áspera que ele tanto temia. E, quando um pouco depois Alejandra se virou para ele, soube que o palácio encantado voltara a ser a região do nada.
— Eu lhe disse, Martín, que sou um lixo. Não se esqueça de que o avisei.
Depois olhou de novo lá fora e continuou fumando calada.
Martín se sentia ridículo. Cobrira-se com o lençol ao perceber sua expressão endurecida e então achou que devia se vestir antes que ela o olhasse de novo. Tentando não fazer barulho, sentou-se na beira da cama e começou a pôr a roupa, sem tirar os olhos da janela e temendo o instante em que Alejandra se virasse. E, já vestido, esperou.
— Terminou? — ela perguntou, como se o tempo todo estivesse sabendo o que Martín fazia.
— Terminei.
— Bem, então me deixe sozinha.