Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 82 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 34

 

À medida que ia descendo ouvia o rumor singular de água correndo, e isso me levou a crer que me aproximava de um dos canais subterrâneos que, em Buenos Aires, formam uma rede de esgotos imensa e labiríntica, de milhares e milhares de quilômetros. De fato, logo desemboquei num daqueles túneis fétidos, no fundo do qual corria um riacho impetuoso de águas fedorentas. Seguindo a corrente das águas, podia-se ver uma claridade distante, indicando uma saída de esgoto — as chamadas “bocas-de-lobo” —, um bueiro dando numa rua ou talvez a abertura para um dos grandes coletores. Resolvi ir até lá. Tinha de andar com cuidado pela calçadinha que existe na beira desses túneis, pois escorregar ali pode ser não só fatal como tremendamente asqueroso.

Tudo era hediondo e pegajoso. As paredes, ou muros, do túnel eram úmidas e por elas corriam filetes de água, certamente infiltrações das camadas superiores do terreno.

Mais de uma vez eu tinha pensado na existência dessa rede subterrânea, sem dúvida por causa da minha tendência para refletir sobre porões, poços, túneis, grutas, cavernas e tudo o que, de um jeito ou de outro, está ligado a essa realidade subterrânea e enigmática: lagartos, cobras, ratos, baratas, doninhas e cegos.

Abomináveis esgotos de Buenos Aires! Mundo inferior e horrendo, pátria da imundície! Eu imaginava lá em cima, em salões brilhantes, mulheres bonitas e delicadíssimas, banqueiros corretos e ponderados, professores primários dizendo que não se deve escrever palavrões nas paredes; imaginava guarda-pós brancos e engomados, vestidos de baile de tule e gaze vaporosa, frases poéticas para a amada, discursos comovedores sobre as virtudes patrícias. Enquanto ali embaixo, em obsceno e pestilento tumulto, corriam misturados as menstruações das amadas românticas, os excrementos das jovens vaporosas vestidas de gaze, os preservativos usados por banqueiros corretos, os fetos despedaçados de milhares de abortos, os restos de jantares de milhões de casas e restaurantes, a imensa, a incomensurável Sujeira de Buenos Aires.

E tudo se encaminhava para o Nada do oceano por condutos subterrâneos e secretos, como se Aqueles de Cima preferissem esquecer, como se tentassem se fazer de desentendidos a respeito dessa parte de suas verdades. E como se, heróis pelo avesso, como eu, estivessem destinados ao trabalho infernal e maldito de dar conta dessa realidade.

Exploradores da Imundície, testemunhas da Sujeira e dos Maus Pensamentos!

Sim, de repente senti-me uma espécie de herói, herói pelo avesso, herói negro e repugnante, mas herói. Uma espécie de Siegfried das trevas, avançando no escuro e na fetidez com minha negra bandeira tremulante, agitada pelos furacões infernais. Mas avançando para onde? Isso é que eu não era capaz de distinguir, e ainda agora, nestes momentos que precedem minha morte, também não consigo compreender.

Cheguei afinal ao que tinha imaginado ser um bueiro, pois dali vinha a tênue claridade que me ajudara a andar pela galeria. Era, de fato, a desembocadura do meu canal em outro maior, que quase rugia. Lá, bem no alto, havia uma pequena abertura lateral, que calculei ter quase um metro de comprimento por vinte centímetros de largura. Era impossível pensar em sair por ali, abertura tão estreita e, sobretudo, inacessível. Desanimado, peguei então à direita, para seguir o curso do novo canal mais largo, imaginando que assim, mais cedo ou mais tarde, teria de dar na desembocadura, se é que antes o ar pesado e mefítico não me faria desmaiar e me jogaria na correnteza imunda.

Mas não tinha dado cem passos quando, com imensa alegria, vi que de minha calçada estreita subia uma escadinha de pedra ou cimento. Sem a menor dúvida, era uma das saídas ou entradas utilizadas pelos operários que de vez em quando são obrigados a penetrar nesses antros.

Animado com a perspectiva, subi pela escadinha. Depois de uns seis ou sete degraus ela dobrava à direita. Prossegui a subida por um trecho mais ou menos igual, e assim cheguei a um patamar de onde se entrava em novo corredor. Comecei a andar por ele, chegando afinal a outra escadinha parecida com as anteriores, mas, para minha grande surpresa, descendente.

Hesitei uns instantes, perplexo. Que deveria fazer? Voltar atrás, para o canal principal e continuar andando até encontrar uma escada que subisse? Achava estranho que tivesse de descer de novo, quando o lógico era subir. Imaginei, contudo, que a escadinha anterior, o corredor que eu acabava de percorrer e a nova escadinha descendente fossem como uma ponte sobre um canal transversal: tal como acontece nas estações de metrô em que há conexão para outra linha. Pensei que, seguindo na mesma direção, chegaria afinal à superfície, de um jeito ou de outro. Portanto, reiniciei a marcha: desci pela nova escada e depois prossegui pela outra passagem que havia no final.