Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 2 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 2

 

Seguiram-se muitos dias de agitação. Porque sabia que voltaria a vê-la, tinha certeza de que ela voltaria ao mesmo lugar.

Enquanto isso, não fez outra coisa senão pensar na moça desconhecida, e toda tarde sentava-se no banco, com o mesmo misto de temor e esperança.

Até que um dia, pensando que tudo tinha sido um desvario, resolveu ir a La Boca, em vez de, mais uma vez, ficar ridiculamente no banco do parque Lezama. E já estava na rua Almirante Brown quando deu meia-volta e andou para o lugar de sempre; primeiro, lentamente e como que titubeando, tímido; depois, cada vez mais apressado, até terminar correndo, como se fosse chegar tarde a um encontro marcado.

Sim, ali estava. De longe viu-a caminhando para ele.

Martín parou, enquanto sentia seu coração disparar.

A moça avançou na direção dele e quando chegou a seu lado disse:

— Estava esperando por você.

Martín sentiu as pernas bambearem.

— Por mim? — perguntou, enrubescendo.

Não se atrevia a olhá-la, mas pôde perceber que vestia um suéter preto de gola alta e uma saia preta também, ou talvez azul muito escuro (isso ele não era capaz de precisar, e na verdade não tinha a menor importância). Teve a impressão de que seus olhos eram pretos.

— Olhos pretos? — Bruno retrucou.

Não, é óbvio: teve a impressão. E, ao vê-la pela segunda vez, percebeu surpreso que seus olhos eram verde-escuros. Talvez a primeira impressão se devesse à pouca luz, ou à timidez que o impedia de olhá-la de frente, ou mais provavelmente às duas coisas juntas. Também pôde observar, no segundo encontro, que o cabelo comprido e liso que ele imaginou ser tão preto tinha, na verdade, reflexos avermelhados. Mais adiante, foi completando o retrato: os lábios eram grossos e a boca era grande, talvez grande demais, com dobras para baixo nas comissuras, dando a impressão de amargura e desdém.

“Explicar, a mim, como é Alejandra, Bruno ponderou, como é seu rosto, como são as dobras de sua boca.” E pensou que eram justamente essas dobras desdenhosas e um certo brilho tenebroso nos olhos que diferenciavam mais que tudo o rosto de Alejandra do rosto de Georgina, a quem ele amara de verdade. Pois, agora compreendia, a ela é que amara realmente, e quando imaginou estar apaixonado por Alejandra era a mãe de Alejandra que buscava, como esses monges medievais que tentavam decifrar o texto primitivo debaixo das restaurações, debaixo das palavras apagadas e substituídas. E essa insensatez fora a razão de tristes mal-entendidos com Alejandra, tendo às vezes a mesma sensação de quem, após muitíssimos anos de ausência, chega à casa da infância e, ao tentar de noite abrir uma porta, depara com uma parede. Claro que seu rosto era quase o mesmo de Georgina: o mesmo cabelo preto com reflexos avermelhados, os olhos cinza-esverdeados, a boca idêntica e grande, as mesmas faces mongólicas, a mesma pele morena e pálida. Mas o “quase” era atroz, e mais ainda por ser tão sutil e imperceptível, pois assim o equívoco era mais profundo e doloroso. Os ossos e a carne — pensava — não bastam para formar um rosto, e é por isso que ele é infinitamente menos físico do que o corpo: é determinado pelo olhar, pelo ríctus da boca, pelas rugas, por todo esse conjunto de atributos sutis com que a alma se revela por meio da carne. Razão pela qual, no momento exato em que alguém morre, seu corpo se transforma abruptamente numa coisa diferente, tão diferente a ponto de se poder dizer “não parece a mesma pessoa”, apesar de ter os mesmos ossos e a mesma matéria de um segundo antes, um segundo antes desse misterioso instante em que a alma se retira do corpo e este fica tão morto como uma casa da qual se retiram para sempre os seres que moram nela, e, sobretudo, que sofreram e se amaram nela. Pois não são as paredes, nem o telhado, nem o soalho que individualiza a casa, mas essas criaturas que lhe dão vida com suas conversas, seus risos, seus amores e ódios; criaturas que impregnam a casa de algo imaterial mas profundo, algo tão pouco material como o sorriso num rosto, embora se manifestando em objetos físicos como tapetes, livros e cores. Pois os quadros que vemos nas paredes, as cores com que foram pintadas as portas e janelas, o desenho dos tapetes, as flores nos quartos, os discos e livros, conquanto objetos materiais, são, porém (assim como os lábios e as sobrancelhas também pertencem à carne), manifestações da alma, já que a alma só pode se manifestar aos nossos olhos materiais por meio da matéria, o que constitui a sua precariedade mas também a sua curiosa sutileza.

— Hein? Hein? — Bruno perguntou.

“Vim ver você”, Martín disse que Alejandra disse.

Ela se sentou na grama. E Martín deve ter manifestado um grande espanto em sua expressão, pois a moça acrescentou:

— Será que você não acredita em telepatia? Seria uma surpresa, pois tem todo o jeito. Outro dia, quando o vi no banco, sabia que você acabaria se virando. Não foi assim? Bem, agora também tinha certeza de que se lembraria de mim.

Martín não disse nada. Quantas vezes cenas semelhantes iriam se repetir: ela adivinhando o seu pensamento e ele escutando-a calado! Tinha a nítida impressão de conhecê-la, essa sensação que temos às vezes de haver visto alguém numa vida anterior, sensação que parece a realidade assim como um sonho parece os fatos da véspera. E muito tempo iria se passar até entender por que Alejandra parecia-lhe vagamente conhecida, e então Bruno tornou a sorrir consigo mesmo.

Martín a observou, deslumbrado: seu cabelo preto retinto contra a pele morena e pálida, seu corpo alto e anguloso; nela havia algo que lembrava as modelos das revistas de moda, mas ao mesmo tempo revelava uma aspereza e uma profundidade que não se encontram nesse tipo de mulheres. Poucas vezes, quase nunca, a veria com uma expressão de doçura, uma dessas expressões que consideramos típicas das mulheres, e sobretudo das mães. Seu sorriso era duro e sarcástico, seu riso era violento, assim como seus gestos e sua personalidade em geral: “Custei muito a aprender a rir”, disse-lhe um dia, “mas jamais rio de dentro para fora”.

— Mas — Martín acrescentou olhando Bruno, com essa volúpia que os apaixonados sentem ao fazer com que os outros reconheçam os atributos do ser amado —, mas não é verdade que os homens, e mais ainda as mulheres, viravam a cabeça para olhá-la?

E enquanto Bruno concordava, sorrindo consigo mesmo dessa ingênua manifestação de orgulho, pensou que, de fato, era assim mesmo, e que sempre, e onde quer que fosse, Alejandra chamava a atenção dos homens e também das mulheres. Se bem que por motivos diferentes, pois não suportava as mulheres, detestava-as, afirmava que elas formavam uma raça desprezível e dizia que só se podia manter amizade com alguns homens; e as mulheres, por sua vez, detestavam-na com a mesma intensidade e por motivos opostos, fenômeno que só provocava em Alejandra a mais desdenhosa indiferença. Mas com toda a certeza detestavam-na sem deixar de admirar secretamente aquela figura que Martín chamava exótica e que na verdade era um modo paradoxal de ser argentina, já que esse tipo de rosto é freqüente nos países sul-americanos, onde a tez e as feições do branco se juntam com as faces e os olhos mongólicos do índio. E os olhos profundos e ansiosos, a boca larga de desdém, a mistura de sentimentos e paixões contraditórias que se pressentiam em suas feições (de ansiedade e tédio, de violência e certo distraimento, de sensualidade quase feroz e de uma espécie de nojo por algo muito geral e profundo), tudo lhe conferia uma expressão impossível de se esquecer.

Martín também disse que, mesmo se nada tivesse acontecido entre eles, mesmo se só tivesse estado ou falado com ela uma única vez, sobre uma bobagem qualquer, já não conseguiria esquecer seu rosto, pelo resto da vida. E Bruno pensava que era verdade, pois era muito mais que bonita. Ou melhor, não se podia garantir que fosse bonita. Era diferente. E acabava sendo poderosamente atraente para os homens, como se percebia caminhando ao lado dela. Tinha certo ar distraído e ao mesmo tempo concentrado, como se estivesse refletindo sobre uma questão angustiante ou olhando para dentro, e sem a menor dúvida quem cruzasse com ela se perguntaria: quem é essa mulher, o que procura, o que está pensando?

Aquele primeiro encontro foi decisivo para Martín. Até então, as mulheres eram essas virgens puras e heróicas das lendas, ou criaturas superficiais e frívolas, mexeriqueiras e sujas, egocêntricas e faladoras, pérfidas e materialistas (“como a própria mãe de Martín”, Bruno pensou que Martín pensava). E de repente ele encontrava uma mulher que não se encaixava em nenhum desses moldes, os quais, até aquele encontro, ele acreditara serem os únicos. Por muito tempo angustiou-se com a novidade, com esse gênero inesperado de mulher que, por um lado, parecia possuir certas virtudes do modelo heróico que tanto o apaixonara em suas leituras adolescentes, e, por outro, revelava essa sensualidade que ele imaginava própria da categoria execrada. E ainda agora, Alejandra já morta, e após ter mantido com ela um relacionamento tão intenso, não conseguia enxergar com clareza o grande enigma; e costumava se perguntar o que teria feito no segundo encontro se tivesse adivinhado o que ela era, o que mais tarde os acontecimentos lhe revelaram. Teria fugido?

Bruno olhou-o em silêncio: “É, o que teria feito?”.

Martín também o olhou, com atenção concentrada, e segundos depois disse:

— Sofri tanto com ela que várias vezes estive à beira do suicídio.

“E no entanto, ainda assim, mesmo sabendo de antemão tudo o que depois me aconteceu, teria corrido para junto dela.”

“Claro”, pensou Bruno. “E que outro homem, adolescente ou adulto, bobo ou sábio, não teria feito o mesmo?”

— Ela me fascinava — Martín prosseguiu — como um abismo tenebroso, e se eu ficava desesperado era justamente por gostar e precisar dela. Como se sentir desesperado por quem nos é indiferente?

Ficou pensativo bastante tempo e depois voltou à sua obsessão: obstinava-se em recordar (em tentar recordar) os momentos com ela, tal como os apaixonados relêem a velha carta de amor que guardam no bolso, quando a criatura que a escreveu já se foi para sempre; e, também como na carta, as recordações iam se desmanchando e envelhecendo, perdiam-se frases inteiras nas dobras da alma, a tinta ia se apagando e, com ela, as palavras lindas e mágicas que criavam o sortilégio. E então era preciso forçar a memória como quem força a vista e a aproxima do papel amarelado e amarrotado. Sim, sim: ela lhe perguntara onde vivia, enquanto arrancava um fiapo de capim e começava a mastigar o talo (fato que ele recordava nitidamente). E depois teria lhe perguntado com quem ele vivia. Com o pai, respondeu. E, após um instante de hesitação, acrescentou que também vivia com a mãe. “E o que faz seu pai?”, perguntou-lhe então Alejandra, ao que ele não respondeu logo, até que, por fim, disse que era pintor. Mas ao dizer a palavra “pintor” sua voz mudou ligeiramente, como se fosse frágil, e ele temeu que esse tom de voz tivesse chamado a atenção dela, assim como deve chamar a atenção das pessoas o modo de andar de alguém que atravessa um telhado de vidro. E, prova de que Alejandra notou algo estranho na palavra, era o fato de ter se inclinado para ele e o observado.

— Você está ficando vermelho — comentou.

— Eu? — Martín perguntou.

E, como sempre acontece nessas circunstâncias, enrubesceu mais ainda.

— Mas o que está acontecendo com você? — ela insistiu, com o talinho suspenso.

— Nada, o que poderia estar acontecendo comigo?

Fez-se um instante de silêncio, e depois Alejandra voltou a deitar-se de costas na grama, recomeçando a mascar o talinho. E, enquanto acompanhava no céu uma batalha de couraceiros de algodão, Martín refletia que não havia por que envergonhar-se do fracasso do pai.

Ouviu-se uma sirene de navio na Doca e Martín pensou Coral Sea, Ilhas Marquesas. Mas disse:

— Alejandra é um nome estranho.

— E sua mãe? — ela perguntou.

Martín se sentou e começou a arrancar uns tufos de capim. Achou uma pedrinha e pareceu estudar sua natureza, como um geólogo.

— Não está me ouvindo?

— Estou.

— Perguntei por sua mãe.

— Minha mãe — Martín respondeu em voz baixa — é uma cloaca.

Alejandra se levantou um pouco, apoiando-se sobre um cotovelo, e olhou-o atentamente. Martín, sem deixar de examinar a pedrinha, mantinha-se calado, com os maxilares bem apertados, pensando cloaca, mãecloaca. E depois acrescentou:

— Sempre fui um estorvo. Desde que nasci.

Sentia-se como se gases venenosos e fétidos tivessem sido injetados em sua alma, a milhares de libras de pressão. Sua alma, inchando-se a cada ano mais perigosamente, já não cabia em seu corpo e ameaçava a qualquer momento lançar jatos de imundície pelas fissuras.

— Grita o tempo todo: Por que me descuidei?!

 

Como se todo o lixo de sua mãe tivesse se acumulado na sua alma, sob pressão, pensava, enquanto Alejandra o olhava, apoiada no cotovelo, de lado. E palavras como feto, banheiro, cremes, ventre, aborto pairavam em sua mente, na mente de Martín, como resíduos pegajosos e nauseabundos em águas paradas e pútridas. E então, como se falasse consigo mesmo, acrescentou que por muito tempo acreditara que, por falta de leite, ela não o havia amamentado, até que um dia sua mãe lhe gritou que não o fizera para não se deformar e também explicou que havia feito todo o possível para abortar, menos a curetagem, pois odiava o sofrimento, tanto quanto adorava comer balas e bombons, ler revistas de rádio e escutar música popular. Embora também afirmasse gostar de música séria, as valsas vienenses e o príncipe Kalender. Que, infelizmente, já não existia mais. Portanto, podia imaginar com que alegria ela o recebeu, após lutar meses a fio, pulando corda como um boxeador e dando socos na barriga, razão pela qual (sua mãe lhe explicava aos gritos) ele saíra meio retardado, e era um milagre que não tivesse ido parar nas cloacas.

Calou-se, examinou a pedrinha mais uma vez e depois atirou-a longe.

— Deve ser por isso — acrescentou — que quando penso nela sempre me vem ao espírito a palavra “cloaca”.

Voltou a rir com aquele riso.

Alejandra olhou-o assustada pelo fato de Martín ainda ter coragem de rir. Mas ao ver suas lágrimas certamente compreendeu que o que estava ouvindo não era riso e sim (como Bruno afirmava) esse som estranho que em certos seres humanos se produz, em ocasiões muito insólitas, e que, talvez pela precariedade da língua, insistimos em classificar de riso ou choro, pois é o resultado de uma combinação monstruosa de fatos suficientemente dolorosos para produzir lágrimas (e até mesmo lágrimas desconsoladas) e de acontecimentos suficientemente grotescos para ser transformados em riso. Do que resulta, assim, uma espécie de manifestação híbrida e terrível, talvez a mais terrível que um ser humano possa ter, e talvez a mais difícil de consolar, devido à intrincada mistura que a provoca. E diante dela temos muitas vezes a mesma e contraditória sensação que experimentamos diante de certos corcundas e coxos. As dores foram se acumulando em Martín, uma a uma, sobre seus ombros de menino, como uma carga crescente e desproporcional (e também grotesca), de modo que ele sentia ser necessário mexer-se com cuidado, andando sempre como um equilibrista obrigado a cruzar um abismo sobre um fio de arame, mas com uma carga descomunal e malcheirosa, como se levasse enormes fardos de lixo e excrementos, e macacos se esganiçando, e palhacinhos irrequietos e aos berros, que, enquanto ele concentrava toda a sua atenção em cruzar o abismo sem cair, o abismo negro de sua existência, lhe gritassem coisas ofensivas, caçoassem dele e armassem lá no alto, sobre os fardos de lixo e excrementos, uma algaravia infernal de insultos e sarcasmos. Espetáculo que (a seu ver) devia despertar na platéia um misto de pena e imenso e monstruoso regozijo, de tão tragicômico era; e por isso ele não se considerava no direito de abandonar-se simplesmente ao choro, nem mesmo diante de uma criatura como Alejandra, criatura que ele parecia ter esperado por um século; e pensava que tinha o dever, dever quase profissional de um palhaço que sofreu a maior desgraça, de transformar o choro numa careta risonha. Mas, à medida que foi confessando essas poucas palavras-chave a Alejandra, sentiu uma libertação e por instantes pensou que sua careta engraçada podia, afinal, se transformar num choro imenso, suave e convulso, e ele enfim desabar sobre Alejandra como se tivesse conseguido cruzar o abismo. E assim teria feito, assim gostaria de ter feito, meu Deus, mas não fez: apenas inclinou a cabeça para o peito, virando-se para esconder as lágrimas.