Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 78 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 30

 

Mas voltemos à modelo. Ainda agora eu estremeço ao me lembrar da relação fugaz com a cega, pois nunca estivera mais perto do abismo do que naquele momento. Quantas reservas de imprevidência e estupidez ainda havia em meu espírito! Pensar que eu me considerava uma raposa, um calculista poderoso e quase infalível, e acreditava não dar um passo sem examinar previamente o terreno! Pobre de mim.

Não foi difícil entrar em contato com a cega. (Digo isso como quem dissesse, pobre idiota, “não foi difícil cair no embuste que me armaram”.) Encontrei-a no ateliê de Domínguez, saímos juntos, conversamos sobre o tempo, a Argentina, Domínguez. Ela ignorava, é claro, que eu os espiara na véspera, lá do meu observatório. Disse-me:

— É um grande cara. Gosto dele como de um irmão.

O que me comprovou duas coisas: primeiro, não sabia de minha presença no observatório; segundo, era uma mentirosa. Conclusão que me alertava sobre suas futuras confissões: tudo deveria ser examinado e tirado a limpo. Teria de se passar algum tempo, de curta duração mas considerável quanto à qualidade, para eu entender ou desconfiar que minha primeira conclusão era arriscada. Teria sido uma intuição dela? Esse sexto sentido que permite aos cegos adivinhar a presença de alguém? Cumplicidade com Domínguez? Voltaremos a isso. Deixem-me continuar a contar os fatos.

Sou tão inclemente comigo mesmo quanto com o resto da humanidade. Ainda hoje me pergunto se foi só a obsessão com a Seita que me levou à aventura com Louise. Pergunto-me, por exemplo, se teria chegado a ir para a cama com uma cega horrorosa. Isso, sim, seria o autêntico espírito científico! Como esses astrônomos que, tiritando de frio debaixo das cúpulas, passam longas noites de inverno tomando notas das posições estelares, deitados em caminhas de madeira, pois dormiriam se elas fossem confortáveis, e o objetivo que perseguem não é o sono, mas a verdade. Ao passo que eu, imperfeito e lúbrico, deixei-me arrastar para situações em que o perigo me espreitava a todo instante, descuidando dos grandes e transcendentes objetivos que durante anos eu havia fixado para mim.

Contudo, é impossível distinguir o que houve, então, de genuíno espírito de investigação e de condescendência mórbida. Pois também me digo que a condescendência era igualmente útil para mergulhar no mistério da Seita, já que, se ela domina o mundo pelas forças das trevas, o que há de melhor senão mergulhar nas atrocidades da carne e do espírito para estudar os limites, os contornos, o alcance dessas forças? Não tenho, agora, absoluta certeza do que estou dizendo, mas é uma reflexão pessoal, para tentar saber, sem condescendência com minhas fraquezas, até que ponto cedi, naqueles dias, a essas fraquezas, e até que ponto tive a intrepidez e a coragem de me aproximar, e inclusive mergulhar, no fosso da verdade.

Não vale a pena dar detalhes da asquerosa ligação que tive com a cega, pois nada de importante acrescentarão ao Relatório que quero deixar para os futuros investigadores. Desejo que o Relatório tenha com esse tipo de descrição a mesma relação de uma geografia sociológica da África Central com um ato de canibalismo. Só direi que, ainda se vivesse cinco mil anos, seria impossível esquecer, até minha morte, as sestas de verão com aquela fêmea anônima, múltipla como um polvo, lenta e minuciosa como uma lesma, flexível e perversa como uma grande víbora, elétrica e delirante como uma gata noturna. Enquanto o outro, em sua cadeira de paralítico, impotente e patético, abanava os dois dedos da mão direita, língua-de-trapos balbuciando vá saber que blasfêmias, que torpes (e inúteis) ameaças, até que o vampiro, após chupar todo o meu sangue, me abandonava transformado em molusco asqueroso e amorfo.

Deixemos, pois, esse aspecto da questão e examinemos os fatos que interessam ao Relatório, os indícios que consegui reunir sobre o universo proibido.

Evidentemente, minha primeira tarefa era averiguar a natureza e a profundidade da raiva da cega pelo marido, já que essa brecha, como disse, era uma das possibilidades que eu sempre havia procurado. Desnecessário esclarecer que não fiz perguntas diretas a Louise, pois o interrogatório levantaria suspeitas; a pesquisa resultou de longas conversas sobre a vida em geral e da análise posterior, no silêncio de meu quarto, de suas respostas, seus comentários, silêncios ou reticências. Assim inferi, partindo de bases que julguei sólidas, que o indivíduo era de fato seu marido, e o rancor era tão profundo como realmente demonstrava a idéia perversa de fazer amor na presença dele.

E disse “como realmente demonstrava” porque, é óbvio, a primeira suspeita que me invadiu foi a de uma encenação para me enganar, segundo o esquema:

a) ódio pelo marido;

b) ódio pelos cegos em geral,

c) conquista de meu coração!

Minha experiência me prevenia contra uma cilada tão engenhosa, e a única forma de me assegurar era investigar a autenticidade da raiva. O elemento que considerei mais convincente foi seu tipo de cegueira: o homem perdera a visão já adulto, ao passo que Louise era cega de nascença; e já expliquei que os cegos execram implacavelmente os recém-chegados.

A história tinha sido a seguinte: conheceram-se na Biblioteca para Cegos, apaixonaram-se e foram viver juntos; mais tarde, começaram as discussões por causa do ciúme dele, culminando em insultos e brigas.

Segundo Louise, o ciúme era infundado, pois ela estava apaixonada por Gastón: homem muito bonito e capaz. Mas o ciúme chegou a ser tão absurdo que, um dia, ele resolveu se vingar, amarrando a cega à cama, trazendo uma mulher e fazendo amor em sua presença. Louise, em pleno tormento, jurou se vingar, e dias depois, quando saíam juntos do quarto (viviam no quarto andar e, como se sabe, nesses hoteizinhos de Paris só se pode usar o elevador para subir), ao enfrentarem a escada, ela o empurrou. Gastón rolou aos trambolhões até o andar de baixo, e em conseqüência da queda ficou paralítico. Quando se recuperou, só conservava intacto seu extraordinário sentido de audição.

Incapaz de se comunicar com o mundo exterior, não podendo falar nem escrever, nunca ninguém pôde saber a verdade, e todos acreditaram na versão de Louise — a queda, perfeitamente possível para um cego. Devorado pela impotência de transmitir a verdade e pela tortura das cenas executadas por Louise como vingança, Gastón parecia emparedado dentro de uma carapaça rígida, enquanto um exército de formigas carnívoras devorava suas carnes vivas toda vez que a cega berrava na cama com os amantes.

Confirmada a autenticidade do ódio, quis investigar mais a figura de Gastón, pois uma noite, enquanto meditava sobre os fatos do dia, invadiu-me de repente uma desconfiança: e se o homem, antes de ficar cego, tivesse sido um dos indivíduos que há milhares de anos, anônimos e audazes, lúcidos e implacáveis, tentam penetrar no mundo proibido? Não seria possível que a Seita, após cegá-lo — primeiro passo do castigo —, o houvesse entregue à vingança atroz e perpétua da cega, que o teria seduzido também por ordem da Seita?

Por instantes imaginei-me emparedado vivo naquela carapaça, minha inteligência intacta, meus desejos talvez exacerbados, meus ouvidos sensibilíssimos, ouvindo a mulher que outrora me enlouqueceu gemer e uivar com seus sucessivos amantes. Só essa gente podia inventar uma tortura dessas.

Levantei-me, agitado. De noite não consegui dormir e durante horas fiquei dando voltas pelo quarto, fumando e pensando. Precisava, de alguma forma, investigar essa possibilidade. Mas a investigação era a mais perigosa que eu empreenderia sobre a Seita. Tratava-se de saber até que ponto aquele mártir era a representação de meu próprio destino!

Quando amanheceu, minha cabeça rodava. Tomei banho, tentando enxergar com maior nitidez minhas suposições. Pensei, mais tranqüilo: se o indivíduo estava sendo castigado pela Seita, por que a cega teria me dado uma informação capaz de despertar em mim, justamente, esse tipo de suspeita? Por que teria me explicado que ela o castigava? Se quisesse que eu caísse numa cilada, poderia e deveria ter escondido o fato. Eu, de meu lado, nunca poderia averiguá-lo sem sua ajuda, pois só graças às suas informações sabia que seu marido ouvia e sofria. Mais ainda: se a intenção da Seita era me pegar, por meio dessa armadilha da cega, que necessidade havia de me mostrar o cego naquela situação ambígua e, pelo menos para mim, suspeita? Aliás, pensei, Domínguez também fazia amor com a mulher, nas mesmas condições, e isso não tinha nada a ver com minha investigação. Sosseguei, mas resolvi redobrar a cautela.

No mesmo dia apelei para um recurso em que já havia pensado, mas, até então, não tinha utilizado: escutar atrás da porta. Se a raiva era autêntica, provavelmente em momentos de solidão ela também o cobriria de insultos.

Subi de elevador ao quinto andar e depois desci devagarinho até o andar de baixo, esperando cinco minutos em cada degrau. Assim consegui me aproximar do quarto e encostar o ouvido na porta. Ouvi as vozes de Louise e um homem, conversando. Achei estranho, pois ela me esperava, se bem que fosse uma hora mais tarde. Seria capaz de estar com outro homem até quase a hora de minha chegada? O jeito era esperar.

Andei de mansinho pelo corredor e esperei, num canto, pensando: se alguém chegar ou passar por aqui, descerei mais uns degraus e ninguém poderá desconfiar de nada. Por sorte, naquela hora não havia movimento, e pude, assim, esperar até a hora combinada com Louise, mas percebi que o tal indivíduo não saiu do quarto. Pensei então que outro amigo ou conhecido podia estar conversando com a cega, à espera de minha chegada. Seja como for, era a hora marcada. Portanto, me aproximei e bati. Ela abriu e entrei no quarto.

Quase desmaiei!

No quarto não havia ninguém. A não ser, é claro, a cega e o paralítico em sua cadeira.

Num piscar de olhos imaginei a encenação sinistra: um cego supostamente paralítico e mudo, colocado pela Seita como marido da outra canalha, para que eu caísse na armadilha do tal ódio, da tal brecha e da inevitável confissão.

Saí correndo, pois minha mente, lúcida e precisa como poucas vezes, recordava-me que, astuciosamente, eu não tinha dado meu endereço a ninguém, nem a Domínguez; e que, paralítico ou não, a cegueira daquele bufão tenebroso o impossibilitaria de me perseguir escada abaixo.

Atravessei como um meteoro o bulevar e entrei no jardim de Luxembourg, e sempre correndo saí pelo outro lado. Lá entrei num táxi e, sem perder tempo, pensei em ir até meu hotel para pegar a mala e fugir de Paris. Mas, enquanto pensava às pressas, ocorreu-me durante o trajeto que, mesmo sem ter comunicado meu endereço a ninguém, era muito provável (que estou dizendo: era certo) que a Seita tivesse me seguido até ali, prevendo justamente uma fuga precipitada. Azar o de minha mala! Passaporte e dinheiro, eu levava sempre comigo. Mais ainda, sem saber o que podia me acontecer exatamente, minha longa experiência adquirida na investigação me fizera tomar uma providência que agora eu achava genial: ter o passaporte com vistos para dois ou três países diferentes. Pois era óbvio que, mal soubesse do episódio da rua Gay-Lussac, a Seita, no ato, montaria guarda no consulado argentino, para seguir minha pista. Mais uma vez invadiu-me, em plena agitação, a fantástica sensação de força, fruto de minha previdência e de meu talento.

Fui para os Grands Boulevards e pedi ao motorista que me levasse a uma agência de viagens. Comprei passagem para o primeiro vôo. Também pensei que o aeroporto poderia estar vigiado, mas achei que a Seita perderia meu rastro ao me esperar, primeiro, no consulado.

Assim, fui para Roma.