Sobre Heróis e Tumbas

Ernesto Sabato · Capítulo 67 de 93

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Sobre Heróis e Tumbas

Capítulo 18

 

Às duas da tarde estava eu, pelo sim pelo não, instalado no café. Mas só às três o homenzinho parecido com Pierre Fresnay apareceu. Agora caminhava sem nenhuma hesitação. Quando chegou perto do prédio, levantou os olhos para conferir a numeração (porque vinha andando de cabeça baixa, como se ruminasse alguma coisa consigo mesmo) e entrou no número 57.

Com os nervos tensos, esperei sua saída: aproximava-se a parte mais arriscada de minha aventura, pois, embora por instantes eu tivesse aventado a possibilidade mais banal de que o levassem para uma associação mutualista ou beneficente, minha intuição logo me indicou que não seria assim e que fariam isso mais tarde. O primeiro passo devia ser algo muito menos inocente, levando-o para ser apresentado a um dos cegos de certa relevância, talvez um dos contatos com a alta cúpula. Em que me baseava para me inclinar por essa suposição? Imaginava que, antes de pôr um novo cego em circulação, se posso dizer assim, os altos dignitários queriam conhecer a fundo suas características, condições e tarefas, seu grau de perspicácia ou sua estupidez: um bom chefe de espionagem não dá uma missão a um de seus agentes sem um exame prévio de suas qualidades e seus defeitos. E é óbvio que não requer as mesmas condições percorrer os metrôs para coletar tributos ou vigiar um local tão importante como o Clube Naval (tal como o cego alto de chapéu, cerca de sessenta anos, que permanece eternamente calado com seus lápis na mão e tem todo o jeito de ser um gentleman inglês decadente após sofrer um terrível golpe do destino). Como eu disse, há cegos e cegos. E embora todos tenham um atributo essencial em comum, que lhes confere um mínimo de peculiaridades raciais, não devemos simplificar o problema a ponto de crer que todos são igualmente sutis e perspicazes. Há cegos que só servem para os serviços sujos; há outros que são o equivalente de estivadores ou gendarmes; e há os Kierkegaard e os Proust. Aliás, é impossível saber como ficará um humano que entrar para a seita sagrada por doença ou acidente, pois, como na guerra, ocorrem surpresas inacreditáveis; e assim como ninguém poderia prever que daquele tímido funcionariozinho de um banco em Boston sairia um herói de Guadalcanal, tampouco se pode prever a surpreendente ascensão hierárquica de um porteiro ou um tipógrafo vítimas da cegueira; dizem que um dos quatro figurões que mandam mundialmente na Seita (e moram em algum lugar dos Pirineus, numa das grutas a enorme profundidade, que um grupo de espeleólogos tentou explorar em 1950, aventura que terminou em um desastre mortal) não era cego de nascença e que — isso é o mais fantástico — em sua vida anterior tinha sido um simples jóquei do hipódromo de Milão, onde perdeu a vista numa queda de cavalo. Essa é uma informação de enésima mão, como é de imaginar, e, mesmo supondo bem pouco provável que um homem que não seja cego de nascença pertença à hierarquia, repito a história só para mostrar a que ponto uma pessoa é capaz de subir na hierarquia pela perda da visão. O sistema de promoção é tão esotérico, que acho demasiado duvidoso que alguém possa conhecer um dia a identidade dos tetrarcas. O que acontece é que no mundo dos cegos murmuram-se e propagam-se informações nem sempre verdadeiras: em parte, talvez, porque conservam essa propensão à maledicência e às fofocas, própria dos seres humanos, mas, em sua raça, elevada a proporções patológicas; em parte, e esta é uma hipótese minha, porque os hierarcas utilizam as falsas informações como um dos métodos de manter o mistério e o equívoco, duas armas poderosas em qualquer organização do gênero. Mas, seja como for, para que uma notícia tenha verossimilhança deve ser pelo menos, em princípio, possível, o que basta para provar, como no caso do suposto ex-jóquei, até que ponto a cegueira pode multiplicar a personalidade de um indivíduo comum.

Voltando ao nosso problema, imaginei que Iglesias não seria levado, logo na primeira saída, a uma dessas associações esotéricas, ali onde os cegos usam os pobres coitados videntes ou senhoras de bom coração e cérebro de barata, apelando para os piores e mais reles recursos da demagogia sentimental. Intuí, portanto, que a primeira saída de Iglesias poderia me introduzir de vez num dos redutos secretos, com todos os perigos que isso implicava, é verdade, mas ainda assim com todas as suas formidáveis possibilidades. Portanto, nessa tarde, quando me sentei no café, já tinha tomado todas as medidas que julguei inteligentes no caso de uma viagem de tal natureza. Poderão me dizer que é fácil tomar decisões sensatas para uma viagem às serras de Córdoba, mas não se percebe como alguém, a menos que esteja maluco, pode tomar medidas sensatas para a exploração do universo dos cegos. Bem, a verdade é que essas famosas medidas foram duas ou três, relativamente lógicas: uma lanterna elétrica, um alimento concentrado e duas ou três coisas do mesmo tipo. Decidi que, tal como fazem os nadadores de fundo, o melhor alimento concentrado para levar era chocolate.

Com minha lanterna de bolso, meu chocolate e uma bengala branca que, na última hora, imaginei poder ser útil (assim como o uniforme do inimigo para se fazer uma patrulha), esperei, com os nervos no último grau de tensão, a saída de Iglesias com o homenzinho. Restava, é verdade, a possibilidade de que o tipógrafo, como bom espanhol, se negasse a acompanhar o homenzinho e resolvesse permanecer orgulhosamente solitário; nesse caso, todo o edifício que eu construíra viria abaixo como um castelo de cartas, e meu equipamento de chocolate, lanterna e bengala branca seria automaticamente transformado num grotesco equipamento de loucos.

Mas Iglesias desceu!

O senhor baixinho vinha conversando com entusiasmo, e o tipógrafo o escutava com sua dignidade de fidalgo miserável que não se rebaixou nem jamais se rebaixará. Locomovia-se desajeitado e ainda manejava com timidez a bengala branca que o outro lhe trouxera, mantendo-a de repente no ar, durante vários passos, como quem carrega uma garrafa térmica.

Ainda lhe faltava muito para completar sua aprendizagem! Essa constatação renovou meu ânimo, e então saí atrás deles muito autoconfiante.

Em nenhum momento o senhor baixinho deu indícios de desconfiar de minha perseguição, e isso também aumentou minha segurança, a ponto de despertar em mim uma espécie de orgulho por as coisas estarem saindo tal como eu calculara em tantos anos de espera e estudos preliminares. Pois, não sei se disse antes, desde a frustrada tentativa com o cego do metrô em Palermo dediquei quase toda a minha vida à observação sistemática e minuciosa da atividade visível de todos os cegos que encontrava nas ruas de Buenos Aires. Nesse intervalo de três anos comprei centenas de revistas inúteis, comprei e joguei fora dúzias e dúzias de barbatanas, adquiri milhares de lápis e caderninhos de todos os tamanhos, assisti a concertos de cegos, aprendi o sistema braile e passei dias intermináveis na biblioteca. Como se pode imaginar, essa atividade oferecia perigos imensos, pois, se desconfiassem de mim, todos os meus planos iriam por água abaixo, sem falar que minha própria vida corria perigo; mas era inevitável e, até certo ponto, paradoxalmente, a única chance de salvação diante desses mesmos perigos: mais ou menos como a aprendizagem que, correndo perigo de morte, fazem os soldados treinados para detectar minas, e que no auge do treinamento devem enfrentar os mesmos perigos que, justamente, se destinam a evitar.

Mas eu não era tão desatinado para enfrentar riscos sem precauções elementares: mudava de roupa, usava bigode ou barba postiços, punha óculos escuros, disfarçava a voz.

Assim, investiguei muita coisa nesses três anos. E graças a esse árido trabalho preliminar pude penetrar no domínio secreto.

E assim terminei...

Pois, nesses dias que precedem minha morte, já não tenho dúvidas de que meu destino estava decidido, talvez desde o começo da investigação, desde aquele dia funesto em que vigiei o cego do metrô ao longo de vários trajetos entre a praça Mayo e Palermo. E às vezes penso que quanto mais esperto me julguei e quanto mais fatuamente comemorei o que imaginava ser minha suma habilidade, mais era vigiado e ia em busca de minha própria perdição. A tal ponto que cheguei a desconfiar da própria viúva Etchepareborda. Agora, como me parece tenebrosamente cômica a idéia de que toda aquela mise-en-scène com bibelôs e Bambis gigantescos, fotos trucadas de casal pequeno-burguês em férias, simpáticas tabuletinhas provençais, tudo aquilo, enfim, que em minha arrogância me levava a sorrir comigo mesmo, tenha sido apenas isso: apenas uma mise-en-scène grosseira, tenebrosamente cômica!

Contudo, estas não passam de suposições, embora suposições de ordem prática. E me propus falar de fatos. Voltemos, pois, aos acontecimentos, tal como se passaram.

Nos dias que antecederam a saída de Iglesias eu tinha estudado, como numa partida de xadrez, todas as variantes dessa saída, pois deveria estar preparado para cada uma delas. Por exemplo, era muito possível que essa gente viesse buscá-lo de táxi ou num carro particular. Como eu não ia perder a mais fantástica oportunidade de minha vida por esquecer uma jogada tão grosseiramente previsível, mantive estacionada ali perto uma caminhonete emprestada por R., um de meus sócios na falsificação de dinheiro. Mas, quando naquele dia vi chegar a pé o emissário parecido com Pierre Fresnay, compreendi que minha precaução era inútil. Restava, é claro, a variante de pegarem depois um táxi; embora hoje em dia, em Buenos Aires, seja tão difícil conseguir um táxi quanto um mamute, fiquei atento a essa possibilidade quando vi Iglesias descer. Mas não se demoraram na porta, em atitude de quem espera um táxi passar; pelo contrário, e sem nem dar uma olhada à direita e à esquerda, o homenzinho pegou o tipógrafo pelo braço e o levou para os lados da rua Bartolomé Mitre: já era evidente que, fossem para onde fossem, utilizariam os transportes coletivos.

Restava, é verdade, a variante de que o outro, o gordo da cade, os estivesse esperando de carro em algum lugar, mas pareceu-me ilógica, pois não via nenhuma razão para que não esperasse ali mesmo na rua Paso. Por outro lado, achava bastante apropriado o transporte de ônibus, pois provavelmente não queriam dar ao novo cego a sensação imediata de que eram uma seita todo-poderosa: um comportamento humilde, beirando a pobreza de recursos, é uma arma eficaz no meio de uma sociedade atroz e egoísta mas propensa ao sentimentalismo. Se bem que esse “mas” devesse ser substituído pela simples conjunção “e”.

Segui-os a uma distância prudente.

Ao chegarem à esquina dobraram à esquerda e seguiram para a rua Pueyrredón. Ali pararam, num ponto de ônibus. Havia uma fila de muitos homens e mulheres; mas, por iniciativa de um senhor de pasta e óculos, de aspecto respeitável, mas que intuí ser um implacável sem-vergonha, todos deram a vez ao “ceguinho”.

Na parada passavam três linhas, que eram para mim a chave inicial de um grande enigma: já não eram os números dos ônibus que iam para o Retiro ou a Faculdade de Direito, para o Hospital das Clínicas ou Belgrano, mas para as portas do Desconhecido.

Subiram no ônibus que vai para Belgrano, e eu atrás deles, após deixar passar na minha frente duas pessoas que me serviriam de proteção.

Quando o ônibus chegou a Cabildo, comecei a me perguntar em que lugar de Belgrano desceriam. O ônibus prosseguiu sem que o homem demonstrasse preocupação. Até que, chegando a Virrey del Pino, começou a pedir passagem, e eles se instalaram ao lado da porta de saída. Desceram na rua Sucre. Por ela seguiram até a Obligado, e daí, rumo ao norte, até a Juramento, por ela até a rua Cuba, pela Cuba, de novo para o norte; ao chegarem à Monroe voltaram à Obligado e, por essa rua, voltaram à pracinha por onde tinham passado antes, aquela pracinha que fica no cruzamento da Echeverría com a Obligado.

Era evidente: tentavam despistar. Mas a quem? A mim? A qualquer indivíduo que, como eu, os seguisse? Não podia descartar essa hipótese, pois, como é natural, não fui o primeiro que tentou penetrar no mundo secreto. É provável que, ao longo da história da humanidade, tenha havido muitos e, em todo caso, desconfio de dois: um é Strindberg, que pagou com a loucura; e o outro é Rimbaud, que começou a ser perseguido já antes da viagem à África, tal como se percebe numa carta que o poeta mandou à irmã e que Jacques Rivière interpreta erradamente.

Também era de supor que se tratasse de despistar Iglesias, tendo em vista o finíssimo senso de orientação que o homem adquire desde que perde a vista. Mas para quê?

Seja como for, após esse percurso iterativo voltaram à pracinha onde fica a igreja da Inmaculada Concepción. Por instantes achei que entrariam nela e vertiginosamente pensei em criptas e em algum pacto secreto entre as duas organizações. Mas não: dirigiram-se para esse curioso recanto de Buenos Aires, formado por uma fila de casas velhas de dois andares, pegadas à igreja circular.

Entraram por uma das portas que dá para o andar de cima e começaram a subir a sórdida e velha escada de madeira.