Sobre Heróis e Tumbas
Capítulo 38
Até hoje sou incapaz de saber quanto tempo durou aquele dia. Quando acordei (se posso dizer assim), senti que abismos intransponíveis me separavam para sempre daquele universo noturno: abismos de espaço e de tempo. Cego e surdo, tal como um homem emerge das profundezas do mar, fui voltando à realidade cotidiana. Realidade que me pergunto se não é, afinal, a verdadeira. Pois quando minha consciência diurna foi recobrando força e meus olhos conseguiram ir desenhando os contornos do mundo que me cercava, percebendo assim que eu estava em meu quarto de Villa Devoto, em meu único e conhecido aposento de Villa Devoto, pensei apavorado que talvez um novo pesadelo, mais incompreensível, estivesse começando.
Um pesadelo que, sei, há de terminar com minha morte, pois me lembro do futuro de sangue e fogo que me foi dado contemplar naquela furiosa magia. Coisa singular: agora ninguém parece me perseguir. Acabou-se o pesadelo do apartamento de Belgrano. Não sei como, estou livre, em meu próprio quarto, ninguém (aparentemente) me vigia. A Seita deve estar a uma distância incomensurável.
Como voltei para casa? Como os cegos me deixaram sair daquele quarto cercado por um labirinto? Não sei. Mas sei que tudo aconteceu, ponto por ponto. Inclusive — e sobretudo! — o tenebroso dia final.
Também sei que meu tempo é limitado e que a morte me espera. E, coisa singular e para mim incompreensível, essa morte me espera, de certa forma, com a minha aprovação, pois ninguém virá aqui me buscar, e eu mesmo é que irei, que devo ir, ao lugar onde o vaticínio se cumprirá.
A astúcia, o desejo de viver, o desespero me fizeram imaginar mil fugas, mil formas de escapar à fatalidade. Mas como se pode escapar à própria fatalidade?
Aqui termino, pois, meu Relatório, que guardo num lugar onde a Seita não poderá encontrá-lo.
É meia-noite. Vou para lá.
Sei que ela estará me esperando.